Memórias De Uma Alma Condenada
6 Contos da Vila da lua parte 6
A saudade é um fantasma que corrói o interior das fracas criaturas que são os humanos, Arthur Deepheart nunca fora uma exceção nesse assunto. Desde que Jon se foi, tinha conhecido essa nostalgia, a família nunca aceitou a morte do irmão mais velho. Nada pode ser feito à respeito, a não ser continuar a lamentável vida, sem derramar lágrimas ou chorar quando chega o desespero, pois isso não trarão mortos à vida. Nunca tinha conhecido a mãe, ainda assim sentia saudade do contato que nunca chegaram a ter, mas tinham uma ligação de sangue que pode ser muito mais forte que qualquer contato. O garoto nunca foi daqueles que lamentam toda a vida seus fracassos e tristezas, era sempre otimista e confiante, ''Não vale a pena chorar por algo que nunca mais voltará, lembre-se disso Arthur.'' As frases do velho Greeg Deepheart pairavam sobre sua mente todo o tempo, o pai era um velho sonhador que não tinha aonde cair morto, ainda assim tentavam ser felizes.
Sempre pescava à noite sozinho, mas depois que conheceu Rose era raro quando a garota não aparecia do nada no porto. Até a ensinou a pescar, embora ela fosse um completo desastre, mas conversavam até a lua dar lugar ao sol. Cada segundo juntos, Arthur ficava mais curioso à respeito da misteriosa Rose e seus olhos radiantes mortos, a garota só aparecia no porto quando o porto estava escuro, vazio e sob o luar. Arthur tentou procurá-la um dia, foi quando notou que mal conhecia a misteriosa garota. Em uma das noites com Rose o assunto foi sobre suas mães.
-Minha mãe não é das melhores...na verdade ela é horrível.- Arthur deu um sorriso discreto, pareceu desconfortável, mas logo recuperou-se.
-Não sabe a sorte que tem de conhecer a sua...eu nem sequer vi a minha, ela morreu durante meu parto.-
Rose tentou olhar em seus olhos que agora estavam escorrendo, Arthur já tinha chorado por Jon mas naquela noite algo da mãe pareceu atingi-lo em cheio. A garota pegou a mão de Arthur, era fria como uma brisa de inverno.
-Não deve ficar triste por isso Arthur, ela deu a vida por você...devia ter orgulho dela.- O pescador soltou-se de Rose e correu pelo cais até chegar na rua que cruzava com o porto, a garota fria estava logo ao seu lado, passou por casas e postes com luzes fracas até chegar na porta do cemitério. Olhou para o portão velho enferrujado e escuro, a noite fria deixava uma névoa fantasmagórica sob as covas.
-O que veio fazer aqui Arthur?-Tinha corrido até seus pulmões quase estourarem, ainda assim Rose estava logo do seu lado novamente-Vamos embora!, esse lugar parece bem azarado...está escuro e cemitérios me dão medo.
-Não precisa entrar se não quiser...preciso fazer uma coisa, é melhor ir embora, eu quero ir sozinho!.-Rose sumiu na penumbra da rua, era estranho e curioso como a garota simplesmente sumia na escuridão, o silêncio foi interrompido por uivos de lobos. Arthur passou por uma falha no portão e seguiu pela névoa entre os túmulos, até que viraram apenas cruzes e buracos vazios, chegou na sepultura da mãe e deitou na grama apagada que lá crescia.
As lágrimas logo saíram, junto com seus desejos de querer sua mãe de volta. Fora criado pelo pai e por Jon, mas sentia um vazio, a ausência materna lhe fazia falta. Engoliu o choro e olhou a lua, como estava bela e pura naquela noite de outono, foi em uma dessas noites que o pai o levou ao túmulo da mãe. Foi um momento marcante em sua vida, tinha 8 anos quando foi levado a sepultura da mãe, nunca iria esquecer deste lugar.
-Vai ficar a noite toda chorando garoto?-Arthur olhou para esquerda e viu um rapaz alto, branco como marfim com cabelos negros e curtos.-Vamos logo com isso, preciso enterrar mais corpos.
-Quem é você?.. eu não estava chorando.-isso não pareceu convencer o rapaz.
-Claro que não estava...mentir sobre isso não vai ajudá-lo em nada, acredite é melhor encarar as coisas com maturidade-Ele pegou uma pá e enterrou onde Arthur tinha se deitado.-Agora saia daí...tenho que fazer isso logo.-Arthur pegou a pá e atirou o mais longe que conseguiu, o rosto do rapaz pareceu imóvel diante disso.
-Você não deveria estar aqui...minha mãe descansa aqui, agora volte para sua casa maldito!
-Já estou em casa, lar doce lar, quer que eu lhe convide para um chá de ervas silvestres? pena que a única merda que cresce nesse solo maldito é crisântemo.-O rapaz pegou a pá e voltou a enterrá-la na grama onde Arthur estava nervoso e confuso, não podia deixar mexerem onde sua mãe agora descansava, tinha que fazer algo.-Se tentar outra gracinha posso não ser tão piedoso como da última vez.
-Deixe-nos em paz!-O grito ecoou por todo o cemitério fazendo corvos voarem. Arthur agarrou o rapaz e os dois caíram em uma cova vazia. A queda foi grande, mas Arthur não sentiu dor, já que o corpo do rapaz amorteceu sua queda, Arthur levantou e foi agarrado pelo pescoço.
-Eu devia te matar seu moleque! o que acha dessa cova de presente?, cortesia de um Blackwater-Arthur compreendeu que o rapaz era sem dúvida um coveiro, a família dos Blackwater cuidava dos mortos, enterraram todos durante séculos, sempre faziam o que ninguém queria mais fazer. Alguns até acreditavam que eles teriam sido amaldiçoados em um passado distante, foram condenados a enterrar todos da Vila da lua enquanto o nome da família existisse.
-Você é um coveiro? pra que estava cavando na sepultura de minha mãe?-O coveiro soltou Arthur e subiu a cova até a superfície.
-Estas sepulturas estão aqui pelo menos uns 10 anos.-Ajudou Arthur a sair da cova e novamente pegou a pá-As pessoas estão morrendo muito ultimamente...desculpe perguntar mas, já não deveria ter superado isso?
-Ela morreu pra me dar uma vida, eu nem cheguei a conhece-la.
-Sinto muito por isso...mas não adianta mais chorar e achar que uma sepultura é o lugar de ''descanso'' dos mortos, quando morremos viramos estrelas, segundo o maluco do meu avô.-Arthur riu e limpou as lágrimas, o jovem Blackwater parecia ser uma boa pessoa.-Prefiro acreditar nisso do que pensar que ao morrermos somos presos em caixões e jogados em buracos para ''descansar''...
-Acho que tem razão, desculpe se atrapalhei seu trabalho...é..
-Ian Blackwater, agora se me dá licença...preciso cavar uma cova e enterrar mais ''dorminhocos''.-Arthur não foi embora, sentou perto de uma cruz de sepultura e ficou observando o coveiro realizar seu ofício, cavou e cavou até que retirou os restos mortais de sua mãe da cova. Não sobrou muita coisa, apenas ossos corroídos pelo tempo, não dava para acreditar que tanto tempo tinha se passado.
-Vai querer levar a mamãe?...espere, o que é aquilo?-Algo brilhava no meio dos ossos, parecia um medalhão, algo profano e antigo. Ian pegou e limpou, logo depois de examinar jogou o medalhão no chão. -O que é isso?- Arthur pegou o estranho objeto, era feito de prata com um rubi ao meio, possuía algumas ilustrações detalhando o metal, algo como uma grande boca de demônio ou algo do gênero.
-Acho que você não sabia tudo sobre sua mãe, não é?. Isso é um artefato profano, que era usado nos tempos escuros aqui na vila, usado por cultistas em rituais...-Ian Blackwater ficou com uma voz baixa e sombria, parecia ter visto um fantasma, Arthur não gostou nem um pouco disso.
-Rituais?...que tipo de rituais?
-Demoníacos.-Arthur largou o medalhão e continuou a olhar fixamente para o rapaz Blackwater.
-Isso é mentira, como pode saber dos tempos escuros... aconteceram centenas de anos atrás, até onde eu sei.-Ian fincou a pá com força na grama, a noite estava tenebrosa e nada era visível além das silhuetas iluminadas pelo intenso luar, corujas e morcegos pairavam e dançavam no céu.
-Se tem uma coisa que os Blackwater passam em suas gerações para seus descendentes são histórias...esta, ocasionalmente é a principal delas por um simples fator...levou o nome de minha família a ruína.
-Achei que os Blackwater sempre foram coveiros e bem malucos...sem ofensa-Ian olhou friamente para o pescador, tirando todas as suas esperanças de otimismo que ele devia aguardar para o passado obscuro de sua família.
-Vai querer ouvir, ou prefere caçoar da minha família de malucos?-Arthur silenciou e sentou para ouvir a história dos tempos escuros.
''Há muitos anos antes do surgimento da Vila da lua, quatro famílias poderosas dominavam o território: Blackwater, Darkwine, Yellowpine e Whitecotton. Resolveram fundir os domínios das 4 e formar um só reino, forte e independente. Cada família tinha um rei que representava a fonte do poder e administração de suas cortes, mas depois da fusão dos reinos os reis concordaram em dar o poder supremo a um deles, por um período de estação para cada rei. Durante a primavera o poder era dos Whitecotton, plantavam algodões e flores diversas, fabricavam geralmente tecidos e produtos artesanais para todo o reino. Durante o verão o poder era passado à família Darkwine, tinham vinhedos colossais e eram responsáveis pelas festas e eventos comemorativos do reino, os vinhos de verão eram caros e sempre vendiam bem devido ao sabor exótico. Durante o outono os Yellowpine assumiam o poder, com uma produção madeireira elevada, produziam e vendiam boa parte dos produtos feitos da mesma, além de serem os que participavam das construções civis no reino. Durante o inverno o poder era dos Blackwater, responsáveis pelos exércitos e toda produção bélica que fortalecia o reino. Tudo ficou em perfeita harmonia até a chegada dos tempos escuros...''
-Está querendo me dizer que sua família tinha um nome real nesses tempos?
-Infelizmente...esse nome maldito que me suja e envergonha todos os dias...
''Esse tipo de governo durou por eras até a chegada das trevas, aconteceu na chegada de um inverno frio e rigoroso, a produção daquele ano tinha sido bem escassa para atender a demanda dos habitantes. A neve invadiu o reino, junto com a fome, a sociedade foi terrivelmente massacrada e morreram milhares, alguns de frio outros de fome. Doenças e pragas se espalharam junto com o caos no reino e isso levou as famílias a variados conflitos, sem comida e esperança todos cederam ao desespero, a morte aguardava aos que saiam nas ruas e levava os que morriam de fome em suas casas. Em tempos como estes todos precisam de um apoio e esse foi o papel da religiosidade, a crença dos povos era dualista mas ultimamente não vinha dando aos devotos nada além da ruína. O povo revoltado com a situação do reino, passou a cultuar apenas o ''Deus do mal'', era conhecido como Malevolém e acreditava-se que era mais poderoso que o Deus do bem. Com isso surgiu o culto de Malevolém, que realizava sacrifícios carnais e sádicos ao seu ''Deus'', os rituais variavam entre sacrifício de virgens, genocídios e até oferenda de almas inocentes(crianças). O culto conseguiu converter quase todos, com exceção das famílias reais que achavam o culto uma maluquice sem tamanho. As revoltas populares do culto ganharam força quando a nobreza apoiou o movimento, queriam tirar o poder das 4 famílias, aquilo pareceu cair como uma luva. Os cultistas resolveram realizar um ritual lendário, iriam oferecer 4 crianças virgens de uma só vez à Malevolém, as 4 seriam uma de cada família, isso colocaria um fim na linhagem dos reis e daria um ano de farturas. Invadiram os domínios dos Whitecotton e pediram para que oferecesse de bom grado sua filha mais nova. o Rei negou, sua família foi amaldiçoada até o fim dos tempos a carregar a herança maldita, os campos de algodão nunca mais cresceriam brancos, seria apenas o vermelho sangue que brotaria das flores para manchar o símbolo da família com o sangue da jovem Emily Whitecotton. A garota foi levada pelo culto e o rei foi decapitado, desde então até o nome mudou de Whitecotton para Bloodcotton para lembrar do massacre que ocorreu nos campos de algodão. O culto seguiu em frente com o sádico ritual, renderam as outras famílias com exceção dos Blackwater por motivos táticos, eles tinham exército. O ritual consistia em levar as virgens inocentes para a praça e iniciar o ritual, durante a lua cheia elas deveriam ser violadas por cultistas escolhidos e por fim queimadas para que Malevolém pudesse se alimentar de suas almas. Realizaram com 3 garotas o ato de crueldade e depois partiram para a guerra contra os Blackwater, cientes de que venceriam pois seu ''Deus'' estava junto deles até o fim, mas a guerra deixou o reino em ruínas e matou a todos que estavam na guerra, com o genocídio o sacrifício estava finalmente completo, no fim o número de mortos era incontável. Assim os Blackwater enterraram a todos e diante das ruínas tornaram-se os coveiros, ou como eram conhecidos: ajudantes dos ceifeiros.''
A história acabou e o silêncio da noite deixava aquele momento mais tenebroso do que qualquer coisa já vista. Arthur estava tremendo de frio e medo, não sabia se era intenção de Ian Blackwater assustá-lo, afinal... histórias são só histórias.
Fale com o autor