Memórias De Uma Alma Condenada

4 Contos da Vila da lua parte 4


O silêncio era sufocante, a luz era forte, a sanidade era mínima, ainda assim Amy Bloodcotton acordou de um longo sono. A garota rija e alta para seus 14 anos, cabelos lisos e de um loiro morto e apagado, olhos azuis claros e perturbados. O quarto em que se encontrava era branco e penetrante, de algum modo perturbador aos olhos de Amy. Sentiu uma enorme dor na parte de traz de sua cabeça, levou a mão até o local da dor e percebeu estar enfaixada, queria gritar mas era inútil, não tinha voz ou força para isso.

A porta se abriu e no quarto entrou uma enfermeira e um médico, Amy rapidamente fechou seus olhos.

-Qual é o estado da paciente Muriel?- O médico parecia velho e perturbado com algo.

-Ela acordará em breve Doutor...a cirurgia foi um sucesso.

-Foi, mas infelizmente ela terá perda de memória recente, ao decorrer do tratamento é possível que se lembre de fatos marcantes de sua vida até agora.-O médico andou pela sala e colocou os em algo através da janela do quarto.-Mas não posso dizer se lembrará do que aconteceu pouco antes de seu trauma.

Amy abriu os olhos lentamente, a enfermeira logo viu e chamou o médico distraído na janela.

-Mande chamar a senhora Ruby, diga que sua filha acordou.-A enfermeira Muriel saiu correndo do quarto, corria de um jeito estranho e desprezível aos olhos de Amy. O médico voltou os olhos para garota, sorriu com dentes amarelos e sarcásticos.

-Devo dizer que você tem muita sorte filha...seu risco de sobrevivência era quase nulo.

-Onde estou?- tentou levantar-se, mas percebeu que estava presa a cama pela cintura.-O que houve?- O médico chegou mais perto e segurou em seu punho, tinha as mãos enrugadas e frias.

-Acalme-se, precisa descansar e não levantará sem minha permissão entendeu?

Ruby Bloodcotton entrou no quarto junto com Muriel, estava em prantos e Amy estava completamente perdida. A paciente estudou a mulher que acompanhava a enfermeira estranha, olhos cinzas e letais ao simples contato direto, corpo belo e esbelto, cabelos negros e lisos. Aparentava estar muito cansada e triste, mas o simples olhar de Amy pareceu anima-la.

-Filha!, você vive, eu sabia que acordaria!- O simples olhar confuso de Amy logo tirou o sorriso de Ruby, que logo caiu em prantos.- Ela não se lembra de nada?, nem de mim?

-Por enquanto não senhora, mas com o tratamento adequado e tempo, é possível que se recorde aos poucos de suas lembranças mais fortes. É bem provável que se lembre de você

-É provável?... eu deveria saber que isso aconteceria, se soubesse a deixaria morrer, de que me vale uma filha que não se lembra de mim?- Amy sentiu como se uma faca tivesse rasgado seu peito, tentou se lembrar do que havia ocorrido, nada.

-Ela lembrará senhora, mas deve continuar o tratamento no sanatório Lamento de Maria, é o mais próximo de Vila da lua, fica em uma das ilhas vizinhas, é isolado e bem tranquilo.

-Sei muito bem onde é, e sei que tipo de gente levam pra lá... está me dizendo que minha Amy pode voltar se for levada a esse ninho de lunáticos?

-Há uma chance,o tratamento é crucial e deve ser feito imediatamente, antes que... a garota comece a confundir memórias reais com surreais.

-O que são memórias surreais Doutor?- Ruby parecia aflita e desamparada de modo que não conseguia ao menos encarar Amy, isso a tornava mais estranha aos olhos da enferma.

-Podem ser sonhos marcantes, criação de idéias que não aconteceram, idealização de uma mente perturbada.- o Doutor olhou fixamente nos olhos de Ruby e proferiu- Ela não se lembrará tão cedo do que houve com a irmã, por mais que tenha visto a cena e consequentemente o assassino, pode ser que ela nunca se lembre exatamente do ocorrido. Por isso ela deve ir... antes que as memórias surreais se misturem com a realidade.

Amy olhou para Ruby, mas não recebeu o olhar de volta. A mulher parecia transtornada e arrasada com algo que seus olhos enigmáticos escondiam bem.

-Pois bem... faça o que deve ser feito Doutor, mande-a ao ninho dos lunáticos, espero que ela se recupere logo.

-Muriel, prepare a seringa, ela irá dormir, cuidarei da ficha médica de Amy.- O Doutor segurou nas mãos de Ruby e disse suavemente- Não se preocupe senhora, a garota está em boas mãos, não há nada a temer..- Ruby soltou as mãos do médico com um puxão.

-Sempre há o que temer Doutor, temo que o assassino volte para terminar o que começou, me deixar na ruína e talvez me mate depois se eu estiver com um pouco de sorte nesta vida miserável.- A enfermeira Muriel se aproximou com uma seringa e injetou em Amy. Tudo rodou e diminuiu até que sua visão se foi, o tempo foi curto mas suficiente para ouvir a última frase: ''bons sonhos querida''.

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