Memórias De Uma Alma Condenada

3 Contos da Vila da lua parte 3


Chuva, escuridão e mais um corpo. Coveiros estão acostumados a lidar com a morte constantemente, isso acaba os tornando pessoas frias e pessimistas. Ian já tinha 17 anos e era um homem feito, pronto pra seguir o ofício impiedoso de sua família de coveiros. O cemitério de Vila da lua andava ultimamente curioso, havia tendo muitas mortes, particularmente assassinatos de crianças. Era o quarto corpo encontrado em apenas 6 dias, crianças inocentes e indefesas mortas por conta da insanidade de alguém.

-Como pode ser? quatro crianças... Isso nunca aconteceu por aqui desde que pratico este maldito ofício- o velho Hugo Blackwater era avô de Ian, e também sua única família, todos haviam partido e todos foram enterrados pelo velho coveiro. Porém a vida continuava sendo um mistério, uns vão outros ficam e cabe a esses aceitarem o eminente fato de que a única certeza da vida, é a morte.

Ian cavava mais uma cova para a próxima criança morta. O velho Hugo estava fraco demais para erguer uma pá, ficava apenas iluminando o buraco para o garoto com um lampião. A chuva caía como uma torrente de facas de gelo, o frio era cortante e gelava as vísceras.

-Lembra-se da primeira vô?

-Ahhh ! Sim, a garota Bloodcotton, pobre menina... A senhora dos algodões pediu para levar e sepultar o corpo na cripta da família, triste fim teve a garota herdeira dos campos brancos... Foi encontrada dilacerada e sem seu coração.

As marcas foram deixadas por algo ou alguém, seja quem for é sádico e maluco.

- Quem seria capaz de matar crianças dessa forma?

- Não sei, mas uma coisa é certa Ian, esse maníaco está a solta, e só mata crianças, deve tomar cuidado !

Ian não via motivo algum para se preocupar, era um ninguém e morreria como tal. O garoto coveiro, sua morte não mudaria nada a qualquer pessoa.

- Sou quase um homem feito vô, e um coveiro não é alguém importante ou imponente na vila. As crianças mortas tinham nomes imponentes. Nós Blackwater não passamos de coveiros.

- De que lhes valem seus nomes imponentes agora Ian? Estão todos mortos, e nós os enterramos.- Um vento carregado de água golpeou os coveiros de surpresa apagou o fogo do lampião de Hugo obrigando-os a regressar ao galpão para se abrigar da tempestade, o cemitério era grande e silencioso demais, mas isso não preocupava Ian Blackwater. Coveiros tinham de fazer cemitérios seus lares, um homem não deve temer seu lar.

Sam Blackwater era o pai de Ian, eram ligados como corpo e alma. No dia de sua morte o garoto nunca mais fora o mesmo, parou de sorrir e ele mesmo enterrou o corpo de Sam, essa foi a única herança que recebeu, aprendeu como a realizar seu ofício.

-A morte chega para todos garoto, não há como fugir- essa frase ficou martelando inquietamente a cabeça do jovem coveiro. O galpão era escuro e cheirava a crisântemo, dormia em uma cama velha e mofada com m colchão feito de palha seca. A chuva estava tão forte que parecia que iria levar o galpão a qualquer momento, Ian deitou-se e observou por um tempo o livro pessoal de seu pai. Sam Blackwater era um tipo peculiar de homem, gostava de colecionar flores, o livro tinha um caráter grotesco e era grosso como uma bíblia, ao longo das páginas se encontravam flores, folhas e desenhos. Havia uma página marcada com um desenho de um algodão vermelho, a flor chamava "o algodão sangrento".

Todos em Vila da lua sabiam que essa flor só podia ser encontrada nas plantações dos Bloodcotton, os quais adotaram este sobrenome desde os tempos antigos por conta do famoso algodão sangrento. Além disso a página tinha um recado com uma letra que não era de Sam, o recado dizia "Jamais me esquecerei dos nossos momentos juntos, você é eterno em minha memória, me perdoe por nunca ter aceitado o nosso erro."

O livro escondia segredos que o pai nunca revelara a ninguém, todos os pensamentos de Ian Blackwater eram divergentes, mas uma coisa era certa: Sammuel Blackwater havia deixado perguntas sem respostas e lembranças tão peculiares quanto o seu fanatismo por flores exóticas.

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