Memories Of Nobody

1 Stranger in the dark


Já não era a primeira vez que Michelle estava voltando para casa sozinha depois de um longo dia na escola. Estudava em período integral no colégio Holtann, na cidade de Liverpool. Ela sempre foi uma garota solitária e triste, nunca teve um amigo sequer na escola. Todos apenas gostavam de caçoar dela todos os dias. Mas ela não parecia se importar muito com isso. Ficava o dia inteiro fazendo desenhos de castelos, e príncipes sobre cavalos matando demônios horripilantes com chifres enormes. Ela se divertia com isso. Sua vida era quase mais feliz que a de todos ali, exceto por uma coisa, quando voltava pra casa.

O seu verdadeiro problema era familiar, sua mãe abandonou sua família quando ela tinha apenas cinco anos, Michelle não sabe praticamente nada sobre ela, exceto seu nome; Sheila. Seu pai, desde essa época, se tornou um bêbado agressivo e incompreensível, seu nome é Terry. Além de sua irmã, dois anos mais velha, mas com uma síndrome de down tão avançada, que ela é abobada, não compreende as coisas e tem muita dificuldade para andar, porém Michelle cuida dela como se fosse seu único tesouro, a única coisa pela qual vale a pena lutar. Lilly era o nome dela.

Apesar de todos esses problemas, a beleza de Michelle era estonteante. Possuía cabelos longos e lisos. Eram tão loiros que brilhavam enchendo os olhos de todos a sua volta, parecia algo de outro mundo, ninguém que ela conhecia tinha o cabelo tão bonito assim. Apesar que ela já ouviu pessoas dizerem que o único cabelo igual ao dela, era o de sua mãe. Seu corpo era meio magro, mas belo igualmente, sempre vestia roupas bonitas, mas quase sempre pretas. Seu rosto possuía uma beleza sem igual, com olhos claros, nariz pequeno e delicado e uma boca perfeita. Sua voz era fina e parecia uma melodia. Com certeza, vários meninos da escola a achavam bonita, mas seu jeito era motivo de riso por todos, sua timidez era motivo de raiva, e seus desenhos, motivo de zoação.

Aquela era uma noite mais fria que o comum e Michelle estava com um casaco rosa e uma calça jeans, andava depressa. Estava muito tarde, depois da escola, ela ainda ficara um bom tempo no banco da pracinha terminando um desenho de um enorme castelo. Passava por uma rua deserta quase invisível pela escuridão e pela neblina:

- Odeio lugares assim, quem sabe o que pode aparecer aqui.

Michelle avistou a frente um homem parado. Estava vestindo roupas sociais e levava em mãos uma maleta. A garota parou. Não havia mais nada na rua além dela e do homem misterioso.

- O que será que esse cara está fazendo aqui no meio do nada? Acho melhor eu voltar – Michelle se virou, mas desistiu de voltar no mesmo momento. A rua estava completamente escura e voltar talvez fosse ainda mais perigoso. Então ela se virou novamente para o homem.

Ele estava parado bem ao lado de um poste com uma luz extremamente fraca. Estava bem na beira da calçada como se estivesse esperando alguém passar pela rua. A garota estava com medo, não podia avançar nem recuar, era como se estivesse cercada. Se ela arriscasse passar por ele, quem sabe o que poderia acontecer. Ela permaneceu parada. O homem não se mexia, parecia congelado.

- Qual é a desse cara?

Nesse momento, uma luz de farol foi avistada ao meio da forte neblina na rua. O estomago da garota deu três voltas. Um enorme ônibus surgiu andando na estreita rua, estava devagar. Ele parou bem em frente ao homem e segundos depois uma porta abriu. Michelle arregalou os olhos. Não parecia ser um ônibus daquela cidade, era diferente, tinha um tom verde escuro por fora e alguns detalhes em preto que pareciam caveiras. Sem delongas, o homem adentrou o ônibus, que por sua vez fechou as portas e partiu pela rua deserta sem deixar rastros. A garota apenas ficou observando, estupefata, aquela cena.

- O que foi isso? – Ela consultou o relógio, eram 2:01 da madrugada. – Será que é tão normal assim pessoas pegarem ônibus em ruas desertas em plena madrugada?

Ela se recompôs, então começou a andar rapidamente, quase correndo, estava com medo daquele lugar. Ela provavelmente nem imaginava, mas aquela cena mudaria sua vida para sempre.