Depois de vários minutos de caminhada, Michelle, finalmente chegou em casa. Ainda estava pensativa com aquilo que tinha acabado de ver, mas tentava esquecer. Ela rapidamente adentrou a casa e subiu as escadas. Andou vagarosamente pelo corredor e parou em frente ao quarto de seu pai que estava com a porta entreaberta. Ela espiou para vê-lo, ele por sua vez se encontrava estirado na cama, dormindo. Depois ela caminhou até o fundo do corredor, e entrou no quarto alegre:

- Oi, Lilly, como vai?

Lá estava sua irmã. Sentada sobre uma cadeira de rodas, quase sem poder se movimentar e com uma cara abobada olhando pra irmã. Seus cabelos eram grisalhos e negros e seu rosto é cheio de cicatrizes.

- Oi... estou bem e você... Mich? – Falou ela com muita dificuldade com uma voz tremula e fraca. Mich era um apelido que apenas ela chamava Michelle.

- Também estou coisa linda – A garota abriu sua mochila, tirou vários desenhos de lá e foi se sentar ao lado da irmã – Olha Lilly, esses foram o que eu fiz hoje, o que você achou?

Michelle tinha o hábito de sempre no final do dia mostrar seus desenhos para Lilly. Aquele era sempre o melhor momento do dia, para ambas. A garota apertou os olhos e contemplou os desenhos.

- Estão lindos! – Disse Lilly animada – Fiquei... esperando você... chegar... só pra ver eles...

Michelle mostrou o lindo desenho que fizera de um castelo enorme e enfeitado e depois o de um demônio vermelho e feioso sendo derrotado por um cavaleiro com uma espada. Lilly se divertia e ria, sempre elogiando as obras da irmã, e isso durou a noite inteira. Até as duas adormecerem.

Na manhã seguinte, Michelle acordou assustada com o despertador, estava deitada no chão sob seus desenhos, nem fora para a cama, igualmente sua irmã, que passara a noite sentada na cadeira de rodas. Michelle levou sua irmã cuidadosamente para a cama e a cobriu com carinho, depois pegou suas coisas e saiu do quarto. Passou pelo quarto de seu pai, que se encontrava na mesma posição da noite passada, e saiu de casa.

Estava um dia lindo. Havia muitas nuvens no céu e o sol brilhava majestoso entre elas. O ar estava fresco e aquele parecia que seria um grande dia. Ela passou alegre por um parque lotado por andorinhas que sobrevoavam seus cabelos loiros e depois pegou uma grande avenida até chegar a escola, não queria saber de ruas desertas hoje.

Depois de meia hora caminhando, enfim chegou. A escola Holtann era uma das melhores da cidade, era enorme e moderna. Com quatro prédios de última geração e mais um enorme pátio para os intervalos, apesar de tudo, Michelle gostava dali. Ela subiu as escadas do prédio norte até seu décimo andar e entrou em sua sala de aula.

Aquele dia parecia transcorrer como qualquer outro. A classe desabando em barulho e zoação, enquanto Michelle permanecia em seu mundinho fazendo desenhos de castelos. Sua carteira era bem na ponta da classe, perto da janela, às vezes, alguns pássaros distraíam sua atenção pousando no vidro e bicando.

- Michelle, leia a página cinquenta – Disse uma professora já com certa idade e cheia de rugas na cara. Seu cabelo era armado e ondulado com um tom vinho e sua expressão era maligna.

A garota não ouviu. Estava viajando completamente no seu desenho. Até que uma mão puxou todos os papéis que haviam sobre sua mesa. Michelle deu um pulo.

- Que você tá desenhando aqui garota? – Disse Ryan, um menino magricela com um boné na cabeça – Olha que coisa ridícula.

- Me devolve isso – Disse a garota timidamente.

Todos começaram a rir dela sem parar.

- Você quer isso? – Ryan rasgou o papel em mil pedacinhos enquanto ria sem parar.

- Não faz isso – Disse a garota se levantando

Imediatamente, outro garoto puxou sua mochila e começou a vasculhá-la.

- Quantos desenhos ridículos tem aqui – Disse o garoto chamado Paul tirando todos os papéis e jogando para os amigos.

- Larga isso – Disse Michelle com uma voz fraca e fina.

Todos na classe gargalhavam agora, até mesmo a professora, que nem ao menos se preocupava em esconder o riso.

- Que menina estúpida – Gritou uma garota ruiva chamada Mary ao meio da balbúrdia.

Todos os garotos agora possuíam uma folha de Michelle em mãos, com desenhos que ela demorou dias para fazer, e alguns que ela nem mostrara para Lilly ainda. Eles então, fizeram uma contagem e ao mesmo tempo rasgaram todos sem piedade. Michelle sentiu vontade chorar.

- Professora Megan... por favor... – Implorou.

- Se vire menina – Bradou a professora aos risos – Isso é pra você aprender a prestar atenção nas aulas.

As risadas se multiplicaram.

- O que é isso aqui? – Disse Ryan tirando uma foto de Lilly da mochila – Ah, é aquela sua irmã doente, ela ainda tá viva?

Michelle desferiu um murro na cara de Ryan imediatamente. Não sabia de onde tinha tirado coragem para fazer isso, mas fizera. Podiam zombar ela do jeito que quisessem, mas não podiam falar de sua irmã. Ryan caiu no chão desnorteado. Todos se calaram.

- Vamos para a diretoria. AGORA! – Gritou rigidamente a professora Megan.

Puxando Michelle pelo braço agressivamente, ela a arrastou pelas escadarias da escola sem piedade. Sua expressão era de muita raiva e de poucos amigos. Seus olhos pareciam que iam saltar das órbitas e seu tom de pele estava avermelhado. Ela não falou nenhuma palavra. Depois de percorrerem alguns corredores, elas pararam em frente a uma porta enorme escrita “Direção”. A professora Megan bateu na porta e depois de uma voz grossa e segura autorizar, elas adentraram a sala.

Lá dentro havia uma mesa de madeira enorme, cheia de papelada em cima e uma tela de computador. Sentado atrás dela havia um homem gordo com um terno. Ele possuía um enorme bigode negro cobrindo quase todo seu rosto carnudo e um cabelo igualmente negro extremamente calvo. Ele era o diretor da escola, seu nome era Gordon.

- O que aconteceu dessa vez professora Megan? – Perguntou o diretor calmamente.

- Essa garota deu um tapa na cara de um aluno – Disse a professora empurrando Michelle em direção a mesa do diretor. – E essa não é a primeira vez que ela apronta na minha aula.

Michelle nunca fizera nada na aula da professora Megan, mas teve coragem de falar, tinha um medo absurdo dela.

- Que garota abusada... tão bela, mas tão sem educação – Disse o diretor se levantando e andando na direção delas.

- É pior que isso senhor diretor, ela sofre de alguma doença, seria mais prudente transferi-la para uma escola de deficientes – Respondeu a professora Megan com um tom de desprezo.

Gordon fitou-a da cabeça aos pés com muita atenção e então tornou a falar com uma voz séria:

- Qual doença você sofre garota?

- Eu não sofro de nenhuma doença – Respondeu Michelle prontamente.

O diretor permaneceu olhando para ela por alguns segundos e depois se aproximou ainda mais dela e disse:

- Tem razão, você só precisa aprender boas maneiras – Gordon respirou fundo – E vai ser do meu jeito.

Ele voltou para a sua mesa, pegou um papel e começou a escrever. Depois de alguns minutos entregou a ela e disse:

- Você ficará o resto do ano fazendo trabalhos comunitários durante os intervalos e finais de semana.

- Mas eu... – Michelle ia se defender, mas quando viu o olhar maligno da professora em direção a ela, preferiu ficar calada.

- Pode leva-la de volta para a sala professora Megan. Vamos ver se assim ela aprende.

Megan obedeceu e puxou a garota para fora dali. Elas fizeram o mesmo trajeto da vinda sem falar nenhuma palavra, a única diferença, é que agora a expressão da professora era de incrível satisfação. Michelle sabia que estava sendo injustiçada, e aquela não era a primeira vez. Sabia também que a professora Megan e o diretor Gordon tinham algo contra ela, e sempre arrumavam um jeito de ferrá-la. Mas Michelle não podia fazer nada, quem ia ajudá-la? Seu pai bêbado que não estava nem aí para ela, ou sua irmã com síndrome de down que mal consegue andar e falar?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.