Memories

14 So keep breathing


Notas iniciais
Gente, muito obrigada pela força que me deram no cap anterior! Bem, sobre esse capítulo, é o último mostrando sobre Aomine, Kagami e Kise! O próximo já é o último T^T Espero que gostem! Boa leitura ;3


I wanted you to stay (Eu queria que você ficasse)
I need to hear you say (Eu preciso ouvir você dizer)
That I love you (Que eu te amo)
I have loved you all along (Eu te amei o tempo todo)
So keep breathing (Então continue respirando)
Cause I'm not leaving you anymore (Porque eu não vou mais te deixar)
Believe and hold on to me and never let me go (Acredite e se segure-se em mim e nunca me deixe ir)
Far Away — Nickelback


Aomine estava deitado ao lado de Kagami na quadra, haviam acabado de jogar um mano-a-mano onde o resultado foi um perfeito empate, respiravam ofegantes. O maior olhou para o ruivo, estava com os olhos fechados e um leve sorriso de satisfação.

– Taiga... — Este o encarou, é, depois daquele dia com Kise começaram a criar uma amizade entre si, e chamar um ao outro pelo nome tornara-se algo tão comum quanto respirar.

– Já faz três semanas e cinco dias que fomos ver o Kise pela primeira vez...

– Três semanas e cinco dias de casados. — Kagami riu levemente, mas seu sorriso sumiu gradativamente. — Estou preocupado...

– É... eu também... — Kagami deitou-se de barriga para baixo e suspirou longamente, encarando o maior, sua expressão estava um tanto vazia. — Daiki, sabe que ficar assim é perda de tempo...

– Eu sei, mas... — O de cabelos azuis deitou de lado, encarando os olhos vermelhos de Kagami, haviam reconstituído a antiga aparência por Kise, que pedira para pararem de ficar relaxados, pois ele não queria maridos feios, também reclamava muito da sensação de suas barbas. — Sei lá... é estranho, apesar de...

– Eu te entendo, de verdade, mas não vale a pena sofrermos por antecipação, Ryouta não gostaria disso. — Aomine assentiu e encostou a cabeça nas costas do ruivo, apoiando-a lá.

– Eu estava pensando... podíamos morar juntos, né?

– Morar juntos? — Aomine olhou para o lado e sentou-se quando o ruivo começou a fazer o mesmo.

– Sim, juntos. — Afirmou o ruivo ao sentar-se cruzando as pernas como índio, olhando para o maior. — Ficar naquele flat enorme e sozinho não é bom... ainda mais com apenas as memórias de Kise, acho que não vai ser bom para mim e... bem, agora você é a pessoa mais próxima de mim... e temos o mesmo marido. — Riu baixo com Aomine, deixando a risada terminar num suspiro. — Não quero ficar sozinho. — Admitiu, seus olhos enchendo-se de lágrimas, Aomine observou aquilo sentindo a mesma dor e então sorriu fraco enquanto segurava o rosto de Kagami pelo queixo, para então limpar suas lágrimas.

– Eu entendo, Taiga. — Puxou o ruivo para um abraço, deixando-o encolhido entre suas pernas, enquanto o envolvia quase que completamente com seu corpo, beijou o topo da cabeça do ruivo e fechou os olhos. — Mas não quero morar no flat, lá não tem minha estande de tiro, vamos morar na minha casa, ok? Lá é simples, mas é confortável.

– Sim, por mim pode ser... — Murmurou o ruivo com a cabeça apoiada no peito do maior, as lágrimas rolando lentas por seu rosto. — Vai ser tão estranho viver sem ele...

– Muito... — Aomine suspirou e passou a alisar o cabelo do ruivo. — Mas vamos ter que aprender, podemos aprender juntos.

– Sim... — Kagami sorriu levemente. — Obrigado, Daiki, por estar ao meu lado mesmo depois de tudo isso envolvendo o Kise e tal... acho que foi bom melhorar meus conceitos sobre você... — O maior apenas sorriu e continuou a alisar seu cabelo. — Sei que hoje é seu dia de ver o Kise, mas posso ir com você?

– Tudo bem, mas ainda falta uma hora para podermos ir. — Avisou o maior, o ruivo o encarou e sorriu levemente, assentindo. — V-você já parou para pensar... e se outro alguém aparecer na sua vida? Eu não quero me apaixonar de novo, seria como sujar a memória de Kise...

– Eu já pensei... — Kagami voltou a encostar a cabeça no peitoral do de cabelos azuis. — Eu não vou me apaixonar de novo, Kise é o amor da minha vida. E também, se eu vou estar com você, não vou ter em quem pensar além de Kise... — Suspirou. — Você vai ser minha memória mais forte do quanto ele é importante para mim...

– Sei como é... — Aomine murmurou apertando mais o ruivo em seu abraço. — Você não acha estranho?

– O quê? — O ruivo o encarou.

– Nós nos darmos bem, digo... não é qualquer um que agiria como agimos um com um outro numa situação dessas. — O maior riu baixo sendo acompanhado pelo amigo. — Mas gosto disso...

– Sim, eu também gosto. Mas... você é um cara legal, Ahomine. — Brincou o menor, cutucando a barriga do policial, que apenas sorriu. — Que tal voltarmos? Preciso de um banho...

– Sim, sim, me ajuda aqui. — Kagami se levantou e estendeu as mãos para ajudar o maior, que logo estava em pé ao seu lado caminhando para saírem daquela quadra. Adavam lado a lado, trocando palavras vagas e piadas bobas. Momentos como aquele tornavam-se únicos e um motivo para não cair, haviam se tornado o chão um do outro.

Ao chegarem ao flat do ruivo, Aomine correu para a cozinha enquanto Kagami ia para o quarto tomar um banho, era dia o maior cozinhar, mesmo que sua comida não ficasse tão boa quanto a de Kagami. Suspirou e começou a preparar algo para comerem e algo para levarem para Kise, que reclamava bastante da falta de coisas gostosas no hospital. Vivia repetindo que, como ia morrer, queria comer de tudo que houvesse de bom no mundo, não comida com gosto de borracha. Mas... a última vez que ele conseguira falar algo, fora há uma semana e meia, desde então estava mudo e surdo. A comida também seria bem difícil de ser aceita hoje, fazia algum tempo que ele parara de se alimentar da forma comum e estava sendo alimentado apenas por vitaminas e coisas do tipo, ou a comida tinha de ser amassada para que conseguisse ingerir.

Como Midorima havia falado, Kise estava entrando em estado vegetativo. Haviam feito muitos testes e nada, nenhuma melhora. Todos estavam péssimos com toda aquela situação, a irmã mais nova do garoto chorava todos os dias agarrada ao seu corpo mórbido. Sempre lhe contando novidades do contrato que conseguira como modelo, porém não estava participando de nenhum ensaio no momento para poder ficar ao lado do loiro.

Aomine fechou os olhos lembrando da menina, sempre fora amigo dela também, passaram bastante tempo conversando quando se reencontraram, ela chorou muito dizendo que sentiu muita saudade, sentia-se muito mal pela família, sabia o quanto todos eram muito unidos a Kise, principalmente depois da morte de seu pai, quando o garoto se tornou o único homem da casa. Todas ficaram extremamente próximas a Kise e perdê-lo agora estava sendo um grande choque. Aomine prometeu a si mesmo que cuidaria delas, que as ajudaria e estaria lá sempre.

– Daiki. — Olhou para o lado e sorriu para Kagami, que usava apenas uma calça preta e sapatos, o cabelo ainda estava um tanto molhado, mas não pingava. — Como vai a comida?

– Acho que bem. — Ele riu. — Quer terminar enquanto eu tomo banho? — Perguntou esperançoso e Kagami revirou os olhos se aproximando e dando um leve empurrão.

– Sai, vai. — Sorriu o ruivo pegando a colher com a qual ele mexia a comida. — Separei sua roupa em cima da cama, já que você só usa coisas nada a ver.

– Nada menos que sua obrigação, mas obrigado mesmo assim. — Aomine sorriu e piscou para o menor e correu para cima, sendo seguido pelo olhar de Kagami, que sorria levemente, perguntando-se como Kise havia aguentado aquele virginiano, apesar de que não sabia como também estava aguentando. Mas não podia negar que Aomine era um homem incrível.

Olhou bem para a comida e fungou irritado.

– AHOMINE, NÃO SABE FAZER COMIDA, NÃO?! — Gritou bravo tentando arrumar a bagunça que o maior havia feito, a única resposta que teve foi uma risada alta e divertida e então ouviu-se o chuveiro.


Hey, who's commin' with me to kick a hole in the sky?
I love the whiskey, let's drink that shit till it's dry

Kagami olhou para seu celular sobre a mesa e suspirou, pegou o objeto e viu a foto de Momoi, atendeu no mesmo instante e esperou, escutou um choro e ficou assustado, parando de cozinhar no mesmo momento.

– Momoi?

– K-Ka-chan...

– O que aconteceu? — Perguntou preocupado começando a subir as escadas rapidamente, afinal Aomine era o melhor amigo dela e podia ser alguma notícia de Kise. Entrou no quarto e foi para o banheiro, entrou e Aomine exclamou assustado, escondendo seu membro da visão de Kagami. — Momoi?

– Satsuki? — Perguntou Aomine já estendendo a mão para pegar sua toalha preta, enrolou-a na cintura e foi atéo ruivo, que colocou o telefone no viva-voz e saíram juntos para o quarto.

Ka-chan... o Ki-chan es-está... em coma.– Aomine deixou seu corpo cair na cama, ficou estático, sem ter o que expressar, falar ou fazer. Kagami sentou ao seu lado com o celular ainda em mãos, onde podiam escutar apenas o choro de Momoi, porém a ligação logo foi finalizada por Kagami.

Aomine levantou-se e tirou a toalha da cintura, começando a secar seu corpo, Kagami não reagiu, continuou ali, olhando para a parede enquanto o maior começava a colocar a roupa que havia separado para que fossem visitar Kise. Fechou os olhos e tentou controlar as lágrimas, mas antes que pudesse evitar a dor realmente, escutou os soluços de Aomine e, ao abrir os olhos, viu o maior de joelhos no chão, usando apenas jeans preta enquanto o rosto estava enterrado na cama.

– Ei, ei... — Kagami se ajoelhou ao seu lado e tirou seu rosto da cama, observando as lágrimas grossas que saíam dos olhos do maior, suas barreiras desmoronando juntamente com as de Aomine, afinal ele era o tipo de pessoa que jamais chorava, que se mantinha forte, mas ali estava Aomine Daiki, chorando como uma criança que precisa de colo, uma criança perdida. Suspirou tentando segurar um pouco mais suas lágrimas, puxou Aomine, porém acabaram desequilibrando-se e caíram, isso não impediu Kagami de abraçá-lo com força. Ficaram ali, deitados de lado no chão frio, com Kagami apertando um Aomine encolhido em seus braços. — Calma, Daiki, calma...

– Co-como? — Chorou ainda mais, apertando Kagami contra si, precisava de algo para não cair, precisava de Kagami mais do que nunca. Todo seu mundo estava caindo ao seu redor e a única coisa que o mantinha em pé era aquele ruivo. Não podia perdê-lo também. Não ele. — Taiga, não me deixe... — Apertou o ruivo ainda mais, erguendo o rosto para poder ver seus olhos, encontrando os rubis totalmente úmidos. — Por favor, não me deixe.

– Não, claro que não deixarei. — Kagami alisou seu rosto e o apertou em seus braços, beijando a testa do maior. — Não posso ficar sem você também, Daiki. Por favor, vamos aguentar isso juntos. — Kagami enterrou o rosto no pescoço de Aomine e choraram juntos.

– Vamos ver o Ryouta... — Murmurou Aomine após algum tempo, levantando-se e estendendo as mãos para ajudar o menor, que logo aceitou a ajuda e levantou-se. Suspiraram e começaram a se trocar, ambos mudos e com olhares vagos, não sabiam o que falar ou pensar, seus olhos estavam opacos, seus peitos vazios.

Ao terminar, caminharam juntos até o estacionamento, entraram no carro e Kagami deu partida, Aomine olhava para fora, pensando em tudo que havia acontecido, sobre a loucura que havia cometido com Kagami e Kise, mas sabia que era melhor assim do que pedir a Kise para escolher entre um e outro, e também ele não tinha culpa de ter se apaixonado novamente, não é? Ficara longe por quatro anos, não se pode esperar tanto tempo assim. Entretanto não estava insatisfeito, nem irritado, Kagami era uma boa pessoa e cuidou de Kise, era grato a ele por isso.

– Estive pensando... — Começou Kagami, sem tirar os olhos do trânsito. — Takao-san está realmente estranho com o Midorima...

– Mas eles não estão brigados faz tempo? — Aomine olhou para o ruivo, observando sua expressão preocupada.

– Sim, mas desde aquele dia que o Midorima-san nos contou sobre o Ryouta, Takao-san está mais frio que o normal, não só com ele, mas com todos.

– Bem... Midorima disse que ia conversar com ele. — Aomine suspirou e passou as mãos pelo rosto. — É uma situação muito delicada para todos...

– Sim... — Kagami suspirou. — Quando vai voltar ao trabalho?

– Daqui duas semanas vou voltar para uma bateria de testes e aulas novamente, depois volto ao trabalho, precisamos ver se aguento a pressão... — Aomine voltou a olhar para as ruas, para as pessoas, o céu. — Mas estou pensando em trocar de trabalho... sempre quis fazer uma pós-graduação em Direito mesmo... e para mim duraria apenas um ano por causa de tudo que estudei na polícia.

– E onde trabalharia?

– Não sei... pensei em abrir um escritório, ou talvez trabalhar para alguma empresa... tantas opções. Apesar de que eu realmente amo ser policial. — Aomine sorriu fraco quando lembranças com Kise sobre sua carreira vieram até sua mente.

– E aí? — Kise perguntou ao garoto de cabelos azuis um tanto ansioso. Estavam na casa do loiro e sua mãe preparava sanduíches para ambos. — Passou?

– N-não... — Aomine suspirou triste e abaixou a cabeça. Estavam vendo o resultado da prova de Aomine para a Academia da Polícia Militar, onde ele estudaria por três anos para então sair como Tenente e com um ótimo salário.

– Ah, Aominecchi... — Kise pareceu triste e puxou o maior para um abraço. — Tente na próxima também, te ajudo a estudar. Treino com você e você pode começar a frequentar um psicólogo, caso tenha sido barrado pelo teste ps-

– Eu fiquei em primeiro. — Sussurrou Aomine e Kise arregalou os olhos, para então soltar o amigo e olhar para a tela do notebook.

– Aominecchi, sem graça! — Exclamou o loiro atacando seu travesseiro no rosto do amigo e o maior riu. E então começaram uma guerra de travesseiros que terminou em doces beijos e sorrisos felizes. Ah, se aquele tempo pudesse voltar...

– Entendo... — Kagami sorriu. — Bem, não importa qual escolher, estou torcendo por você. — Aomine assentiu. — Se escolher ser advogado, poderia ser meu advogado, hein? E da minha empresa.

– Verdade, seria bom. — Aomine devolveu o sorriso, mas este logo se foi quando notou que haviam chegado ao hospital. Kagami estacionou e saíram, Aomine deu as informações na recepção e então caminharam após a autorização para o quarto de Kise. A porta estava um pouco aberta, então a empurraram devagar, sem fazer barulho.

– Shin-chan... — Escutaram alguém sussurrar e seus olhos foram para o sofá. Midorima estava deitado dormindo, seu cabelo havia crescido e estava sem corte, sua barba havia crescido, sua pele ressecado e estava com enormes olheiras abaixo dos olhos. Takao estava ajoelhado ao seu lado, acariciando sua face com algumas lágrimas escorrendo por seus olhos.

Aomine pensou que estava farto de ver lágrimas, mas antes que pudesse falar qualquer coisa, Kagami o puxou para fora do quarto, deviam respeitar a intimidade de Takao.

– Vamos esperar um pouco lá na frente, depois voltamos... — Falou o ruivo com um pequeno sorriso e começou a se afastar sendo seguido pelo maior. Ao chegarem lá encostaram no carro que Kagami havia estacionado ali, Aomine pegou um maço de cigarros dentro do bolso e suspirou.

– Me empresta seu isqueiro? — Pediu o maior e Kagami acendeu o objeto, oferecendo para Aomine, que tragou o cigarro com a ponta no fogo, acendendo-o. — Obrigado. — Falou deixando que a fumaça escapasse por seus lábios enquanto olhava para outro lado.

– Mine-chin! Ka-chin! — Olharam na direção da voz e viram Murasakibara caminhando até ambos com Akashi e Kuroko. — O que estão fazendo aqui fora?

– Takao está no quarto resolvendo umas coisas. — Respondeu Kagami, enquanto Aomine se afastava um pouco por causa do cigarro.

– E Shintarou? — Perguntou Akashi olhando ao redor.

– Está no quarto dormindo.

– Entendo... — Akashi encostou-se no carro e olhou para Aomine. — Pensei que havia parado de fumar, Daiki.

– Ah, tinha parado? — Aomine perguntou segurando o cigarro e soltando a fumaça pelo nariz. — Não sabia. — Mas colocou a droga novamente nos lábios e tragou fechando os olhos e deixando a cabeça cair sobre o carro, a fumaça saindo lenta por seus lábios. — Depois paro de novo...

– Vocês já sabem sobre o Kise? — Perguntou Kuroko ficando ao lado de Kagami, que acenou suspirando lento. — Não fique assim, Kagami... ele não ia gostar.

– Eu sei... — O ruivo sorriu fraco. — Mas é um pouco difícil, não, Tetsu?

– É sim... — O menor sorriu também. — Estive conversando com o Takao-san...

– Ele disse algo sobre a situação? — Perguntou Aomine.

– Bem... — Murasakibara suspirou e se afastou um pouco, não queria escutar mais sobre aquilo. Kuroko acabou perdendo a voz e abaixou a cabeça, então Akashi decidiu responder em seu lugar. — Ele falou... falou que essa pode ser a última semana, talvez até menos, do Ryouta.

Ficaram em silêncio, o olhar de Kagami encontrou o de Aomine, mas o maior desviou logo em seguida e sentou-se na calçada, pegando mais um cigarro, as lágrimas não vieram. Para nenhum deles. Não haviam mais lágrimas, a dor era tanta que nem chorar amenizava mais. Aomine estendeu a mão e Kagami lhe jogou o isqueiro, não havia mais o que se falar nem fazer, só podiam esperar agora. E seguir a vida, por Kise.

Logo Momoi chegou acompanhada das irmãs de Kise. Aomine suspirou e jogou o cigarro fora, caminhando até a mulher, ela pareceu assustada, mas antes que pudessem tirar qualquer conclusão, Aomine estava abraçando-a com força.

– D-Dai-chan... — Ela sussurrou sem entender e muito surpresa, mas retribuiu ao abraço, não eram necessárias palavras, não quando se conheciam tão bem. — Gomen...

– Shh... só vamos entrar logo. — Aomine sorriu fraco e a abraçou pela cintura, caminhando com a garota para dentro do hospital, ambos sendo seguidos pelos outros. Ao chegarem ao quarto, Takao já não estava lá e Midorima continuava dormindo.

– Mido-chin está acabado... devia ir para casa descansar um pouco. — Comentou Murasakibara com um suspiro pesaroso.

– Ei, Shintarou. — Akashi se ajoelhou ao lado do amigo de infância e sacudiu seu corpo com cuidado. — Acorde.

– N-ngh... ah... — Midorima abriu os olhos lentamente. — Akashi...

– Shintarou... vá para casa descansar um pouco, nós vamos fazer companhia ao Ryouta... — Falou o ruivo. — Quer que eu te leve?

– E-eu... — O olhar de Midorima passeou pelo quarto, todos os amigos de Kise estavam ali, suspirou. — Ok...

– Gente, vou levá-lo para casa, depois volto. — Avisou Akashi e os outros apenas assentiram. — Vamos...

– Hai...

Todos voltaram a atenção para Kise, estava ligado a vários aparelhos e em sua veia do braço direito estava conectada uma agulha, por onde entrava algum remédio, uma máquina ao seu lado media seus pulsos, estavam lentos demais, respirava com a ajuda de outras máquinas.

Sentaram-se ao redor da cama e suspiraram.

Agora só lhes restava esperar...

~x~

Aomine e Kagami dormiam com a cabeça apoiada na cama de Kise, cada um segurava uma mão do loiro. Era o quinto dia que passavam ao lado do loiro, haviam trocado de lugar com Midorima, que agora vinha visitar o loiro sempre, mas, naquele momento, haviam apenas os três no quarto, estava escuro e frio, do lado de fora chovia.

Apenas o barulho da máquina com os batimentos de Kise se fazia presente, mas ninguém via, ninguém realmente escutava que eles estavam diminuindo gradativamente.

Lentos. Muito lentos. Aos poucos eles diminuíam seu ritmo como uma música melancólica de um piano abandonado, uma música que retirava a vida. E assim, como uma melodia vazia e bela de um piano, deixando apenas aquele último fio gélido e amedrontador de som, a vida abandonou o corpo do loiro, no meio da noite, sem que houvessem palavras de despedida, lágrimas, ou qualquer outra coisa. Ele se foi segurando a mão de quem o amava. De quem ele amava. Mas nem mesmo ele saberia, ninguém saberia. A morte lhe veio sorrateira, calma e silenciosa, levou-o nos braços para que, enfim, pudesse descansar.

Kise Ryouta faleceu às duas e trinta e sete da madrugada do dia vinte e cinco de julho de dois mil e quatorze. Faleceu silenciosamente, calmo, sem que ninguém soubesse, deixando que todos tivessem uma noite calma e agradável, outros nem tão agradável assim, estava frio, extremamente frio e cortante, melancólico, porém, para muitos aquilo poderia significar estar nos braços de quem se ama, sorrindo e trocando juras eternas, abraços quentes e beijos molhados. Quem iria pensar que neste exato momento estaria alguém morrendo? Quem iria se importar? Mesmo sabendo que a cada segundo que se passa morrem milhares de pessoas, seguimos sorrindo e vivendo como se a morte jamais fosse nos bater à porta, nos apegando ao fato de que a cada segundo, uma nova vida substitui outra. Porém, nenhuma vida é substituível. Kise havia partido feliz, sabendo que todo o peso que carregara estava resolvido, que não havia perdido ninguém, sua família saberia se recuperar. Havia tido uma morte tranquila e, se pudesse, até mesmo estaria sorrindo.

Ao acordar Aomine sentiu a mão muito fria e também o barulho da máquina havia mudado, não era mais mudanças variáveis de acordo com os batimentos de seu amado, era um único som contínuo. Constante. Olhou para Kise, sua pele estava pálida demais, quase azul, estava inchado e não respirava mais, os pulsos não chegavam até sua mão.

– Taiga... — Aomine estendeu a outra mão até o ruivo, sacudindo seu ombro, suas lágrimas começando a rolar silenciosas por sua face, não haviam soluços, sua voz estava trêmula, sim, porém suas lágrimas eram sinceras e mais dolorosas do que jamais haviam sido antes. Elas não vinham de seus olhos, vinham de seu coração. — Taiga... — Kagami acordou devagar, olhando para Aomine, observou as lágrimas que rolavam lentas pela bela face do maior, talvez sem nem ao menos sua própria consciência de que estava chorando, e então se deu conta do barulho do quarto. Olhou para o lado e viu também. — Ele se foi...

– Ryouta. — O nome saiu diferente. Era um nome que agora traria uma saudade incomparável. Kagami se levantou, uma única lágrima escorreu por sua face enquanto segurava o rosto do loiro. — Ah, Ryouta... — Kagami escondeu o rosto no pescoço frio e chorou baixo, Aomine ficou observando os ombros largos se moverem conforme Kagami chorava. Tudo agora parecia vazio demais. Frio demais. Distante demais. Incerto demais. Errado demais. Estranho demais...

– Vou chamar o Takao-san. — Murmurou levantando-se e limpando as lágrimas que ainda não tivera consciência de que soltara. — Não se esqueça que Ryouta não nos quer chorando... ele não vai gostar de ver isso.

– S-sim... — Kagami ergueu o rosto e limpou a face, observando como Kise estava com a expressão calma, mas a cor saudável de sua face se fora. Um pouquinho mais e juraria que ele estava dormindo e sorrindo. Que estava tendo um sonho feliz.

Aomine caminhou para fora e foi para a sala de Midorima, onde Takao ficava também. Bateu na porta e escutou um leve "entre", ao entrar viu Takao escrevendo em algum documento, parecia não estar dormindo bem. Suspirou e seu olhar encontrou o dele, estavam interrogativos, abaixou a cabeça em seguida, não queria ver a expressão que Takao faria ao descobrir.

– Ele se foi. — Anunciou.

– Mas... mas o alarme não soou. — Takao pareceu alarmado, levantando-se num instante.

– Quando a máquina para, soa um alarme...

– Acho que não funcionou... e nós sabíamos que não tinha volta, Takao. — Aomine sorriu levemente, assustando o médico, que se perguntava como ele podia ser tão forte. — Bem... vou deixar o resto com vocês e... enfim, falar para os outros...

– S-sim... eu vou terminar por aqui... — Takao suspirou e pegou o telefone. — E-eu... eu lamento, Aomine...

– Eu sei... — Aomine sorriu fraco. — Sabe... ele pediu para o Midorima falar com você... e o Midorima disse que iria, acho que ele só está se sentindo mal para resolver as coisas agora, não pegue tão pesado com o quatro-olhos, ok? — Aomine sorriu fraco. — Vou deixar para você o trabalho de dar a notícia a ele.

– Pode ser... mas eu ainda quero algo espontâneo, não forçado, Aomine-san... — Takao suspirou e digitou um número no telefone, Aomine saiu de sua sala, até argumentaria algo, mas aquele assunto não era da sua conta, então apenas caminhou para o quarto do falecido Kise, Kagami estava alisando o cabelo do loiro, observou a cena por um tempo, lembrando-se de como eles pareciam se dar bem. Perguntou-se se devia mesmo ter falado que lembrava-se de tudo, se não teria sido melhor deixar Kise partir, se ele não teria seguido uma vida feliz com o ruivo. Kagami podia ser melhor para Kise do que ele. Sentia-se verdadeiramente grato ao ruivo por ter cuidado de Kise e tê-lo tirado da depressão, devia muito a ele.

– Taiga... — O ruivo olhou para trás, encontrando seus olhos, sorriu fraco e caminhou até ele, abraçando-o pela cintura enquanto deixava o queixo apoiado em seu ombro. — Eu sinto muito... — Ofegou baixo, controlando-se para não chorar. — Eu não queria que tivesse acabado assim, eu... me desculpe, por favor.

– Você não tem culpa, Daiki. — O ruivo abraçou o pescoço do maior, fechando os olhos enquanto escondia o rosto em seu pescoço. — Ninguém tem culpa... aconteceu, só isso. Ryouta não iria gostar disso, pare de pensar assim, por favor. — Kagami começou a alisar o cabelo do maior e suspirou. — E, se você não tivesse voltado, Ryouta jamais teria sorrido verdadeiramente de novo, ele jamais teria se libertado da grade que havia se prendido, então... obrigado por voltar.

– BaKagami... — Aomine riu choroso. — Você é um idiota.

– Você também. — Kagami sorriu e desfizeram o abraço, o ruivo deu um leve soco no ombro do maior e olharam para Kise. — Vou sentir saudades.

– Eu também... — Aomine fechou os olhos e suspirou, era tão difícil assumir para si mesmo que perdera Kise, que perdera sua luz, seu sol. — Vamos avisar aos outros.

– Ok...

Ah, aquela era uma missão difícil. Mas a fizeram. Contaram primeiro para a família do loiro, as três mulheres correram no mesmo instante para o hospital, e depois para os amigos. Acabaram não voltando para o hospital, iriam respeitar a intimidade da família, foram juntos para a casa de Aomine.

– Vou pegar algo para bebermos. — Aomine murmurou num suspiro, o menor apenas acenou, seu olhar era vago e distante. Logo o maior chegou com duas garrafas de vinho. — Não sei você, mas quero beber até cair.

– Não vou cair só com uma garrafa de vinho. — Kagami reclamou num suspiro.

– Tem mais bebida na geladeira. — Aomine suspirou e sentou-se no outro sofá, começando a beber do gargalo.

Ficaram em silêncio. Era uma sensação tão estranha. Aomine já havia visto muitas pessoas morrerem, já havia perdido pessoas importantes, mas aquela era a primeira vez que sua vida parecia ter perdido todo o sentido. E Kagami sentia a mesma coisa. A sensação de perda era horrível.

~x~

Todos estavam em silêncio, apenas o choro era escutado, todas as pessoas ali presentes usavam vestes negras, ao fundo estava o caixão com um belo modelo, onde as três mulheres que compunham sua família choravam ao seu redor. Os outros estavam sentados em cadeiras chorando em silêncio.

Faltavam apenas dois homens, que chegaram juntos. Todos olharam para Kagami e Aomine quanto entraram e caminharam lentamente até o caixão, cada um segurando uma rosa amarela. Não choravam como todos os outros, mas nenhuma expressão era mais vazia que a de ambos. Ao chegarem até o caixão, as três loiras se afastaram, cada um se pôs a um lado do falecido.

– Ryouta... — Murmuraram juntos, observando a face do loiro. Colocaram as rosas abaixo de suas mãos.

– Ele parece um anjo assim. — Falou Kagami, comentando sobre a roupa completamente branca do loiro e todas as rosas brancas que rodeavam seu corpo. — Mas a falta do amarelo não favorece muito.

– Verdade... — Aomine concordou sorrindo fraco enquanto alisava o cabelo macio. — Oe, Ryouta, nos espere, ok? Quando chegarmos você vai levar uma baita bronca por ter nos deixado...

– Com certeza. — Kagami concordou acariciando a face do loiro. — Estaremos sempre pensando em você, ok? Não nos deixe sozinhos, então.

– Duvido que ele vá fazer isso... grudento do jeito que é. — Riram baixo e juntos. A conversa entre eles só fazia com que os outros chorassem ainda mais, pensando em como eram fortes. Muitos estavam com as mãos sobre os lábios, impedindo que o choro saísse alto demais, uma dessas pessoas era Momoi, que tinha o rosto enterrado no peitoral de Midorima e apertava sua roupa, tentando por tudo não chorar alto demais, tentando expressar o tamanho de sua dor.

– Kagamicchi... Aominecchi... — Os dois sentiram uma dor enorme ao escutarem aquela forma de falar. Ao olharem para trás, encontraram os olhos dourados da irmã mais nova do loiro. — E-eu... eu quero agradecer... por terem cuidado e amado meu irmão todo esse tempo. Obriga-da... por tudo que fizeram e... e por terem feito-o sorrir. — A menina colocou as mãos no rosto e chorou. — Eu sou grata a vocês... — Os homens estavam sem reação, então ela os puxou e os abraçou, sendo retribuída. — Ele os ama muito.

– Obrigado... — Sussurraram, sem conseguir falar qualquer outra coisa. Ao desfazer o abraço, a menina sorriu levemente. Kagami voltou-se para o loiro e suspirou, selando seus lábios. — Sentirei sua falta... — E então ele se virou para cumprimentar a mãe e a irmã mais velha de seu amado. Aomine se aproximou do loiro também e sorriu fraco.

– Ryouta, quando nos conhecermos de novo, espero ter coragem de me declarar logo e não perder tanto tempo. — Aomine encostou sua testa à do loiro e fechou os olhos. — Obrigado por tudo que tivemos juntos... — E então selou os lábios suavemente, para então se afastar num suspiro doloroso. — Droga... — Não conseguiu aguentar a dor que subia por seu peito e colocou as mãos na face, as lágrimas vieram silenciosas, mas em abundância, fazendo-o soluçar baixo, sentiu braços ao seu redor e em seguida o cheiro de Kagami e então deixou a cabeça cair em seu ombro.

Agora tinham apenas um ao outro.

Agora, eu, Daiko, dedico este capítulo especialmente à minha falecida amiga de infância e ex-cunhada, Viviane... Sei que jamais lerá o que estou escrevendo, mas ainda assim me conforta escrever sobre ela, mantém em mim a chama do que ela um dia foi e é meu único meio de elogiá-la.

Vivi, jamais esquecerei do brilho dourado do seu cabelo, do seus olhos azuis e brilhantes, nem do seu sorriso quente e acolhedor, muito menos de que um dia me disse "você tem que fazer o que você gosta, porque ninguém vai fazer por você... e nem vai ter graça, né?".

Descanse em paz...

PS.: Sei que, algumas cenas, pareceram frias e falsas demais... só que, quando se perde alguém, não tem mais volta. De que adianta gritar, berrar, chorar e brigar? Não trará a pessoa de volta... a única coisa que resta é simplesmente aceitar.

Alguns conseguem fazer isso mais fácil que outras... talvez seja a fé de um reencontro, não sei. Mas assim é a vida... e eu só tento aproximar minhas estórias do realismo... (:

Talvez por isso, muitas vezes, eu pareça fria e ruim. Haha, mas não... eu só vivo do ditado:

"A vida não é um mar de rosas...".

Notas finais
"Ai, é muito nojento ele beijar o corpo de um morto". Não, não é. Eu já vi isso acontecer e, sinceramente, nunca vi tanto amor e saudade num homem. Bem, esse foi o último capítulo com eles, o próximo e oficialmente último é TakaMido. ^^