Memories
11 Cause I'm dying inside alone
Notas iniciais

I keep listening to my chest (Eu fico ouvindo o meu peito)
For a beat, but there's nothing left (Esperando uma batida, mas nada sobrou)
It's been a week since I've seen you (Faz uma semana desde que te vi)
And I still can't believe it (E eu ainda não acredito)
Cause I'm dying inside alone (Pois estou morrendo por dentro sozinho)
Holding on to Heaven — Nickelback
Eu era o tipo de criança que se divertia com qualquer coisa, mas amava demais o basquete, era minha vida, minha respiração e meus dias. Eu adorava aquilo, mas fazia as coisas de uma criança normal, sempre com Satsuki ao meu lado, ela é a melhor garota que já conheci na vida e nada poderia mudar isso.
Mas tudo mudou para mim quando tentei salvar a Daiko e acabei matando a mãe de Satsuki e meu próprio pai, foi um choque horrível, eu não quis realmente acreditar no que havia feito, mas eu fiz. Quando vi os olhos arregalados e cheios de lágrimas da minha irmã, foi como se a Terra houvesse aberto abaixo de meus pés e puxado apenas meu coração, me deixando preso ao céu por cordas que cortavam meus pulsos.
Ela me odiava.
Desde aquele momento toda minha adolescência mudou, mas eu ainda tinha Satsuki, apesar de me sentir muito mal algumas vezes, ela não me deixou e me deu suporte para continuar são. Minha irmã havia me excluído totalmente de sua vida e eu me deixei excluí-la também... e então eu me tornei um adolescente que não liga para absolutamente nada nem ninguém, eu não precisava disso.
O único que importava era eu. Eu comecei a viver para mim.
Eu andava a passos lentos, nunca tive tanta pressa ao andar, afinal as coisas sempre estarão paradas no mesmo lugar, não é? E muitas vezes isso valia até mesmo para algumas pessoas, eu nunca entendi muito bem, mas algumas pessoas sempre estariam esperando por nós, mesmo que pensássemos que não éramos merecedores. A pessoa sempre estaria ali, mesmo que grite que não merece isso, mesmo que esperneie, que fique irritado. É uma coisa... incompreensível.
Kise era uma dessas pessoas que sempre estavam esperando por mim. Eu me sentia inquieto com isso muitas vezes, sempre me perguntava por que ele estaria sempre me esperando, por que sempre que eu era um arrogante, ele quebrava isso com um sorriso?
Eu montei muitas barreiras a minha volta com o passar dos anos, muitas barreiras para me proteger do mundo, de mim e dos sentimentos.
Talvez eu tivesse crescido como um garoto normal se todas as coisas sobre minha família não me afetassem tanto, mas depois de tantas coisas, eu notei que estamos sozinhos na vida, trilhando-a por nós mesmos, desde sempre, nós começamos sozinhos e vamos morrer sozinhos. E por mais que estejamos no fundo do poço, nem sempre alguém vai ter uma corda para jogar, então você tem que escalar por si só, mesmo que seus dedos fiquem em carne viva, mesmo que pareça impossível passar pela parede úmida e cheia de musgo, sozinhos deveríamos chegar ao topo, porque a vitória é unicamente sua e apenas sua. Eu me acostumei com a ideia de estar só, de fazer tudo por mim e mais ninguém.
Até o dia que o conheci. Jamais vi Kise sério, ou irritado, triste era impossível. Talvez ele tivesse se sentido assim muitas vezes nesses anos que nos conhecemos, mas ele sempre foi ótimo em esconder tudo com um sorriso. Eu queria ajudá-lo, mas sabia que não podia, então apenas ficava ao seu lado quando ele precisava de alguém. Mesmo que ele não falasse que precisava de alguém.
Conheci Kise aos 15 anos, fui a um jogo com alguns amigos, apenas para nos divertimos em algum clube qualquer, ao chegar lá havia um grupo de amigos jogando, notei Kise assim que entrei, era como se seus olhos atraíssem todo meu corpo, como se houvesse algum tipo de imã que me prendeu a ele naquele exato momento.
E então nos tornamos amigos, muito amigos. Eu não esperava deixar alguém entrar tão fácil pela minha barreira, mas Kise simplesmente a atravessou, entrou sem pedir permissão e sem nem ao menos se desculpar. Chegou derrubando tudo com aquele sorriso alegre e jeito que apenas ele tinha, mas eu não me senti assustado, não quis jogá-lo longe por cima da minha barreira.
Eu quis prendê-lo nela para que nunca mais fosse embora da minha vida, mas ele estava me puxando para fora dela.
Jamais me apaixonei. Não sou esse tipo de homem que pensa em sentimentos, era o tipo de garoto que um sexo resolve tudo, não era carente e, como homem, sabia que jamais seria também. Mas Kise me fez tão dependende de sua voz, de seu sorriso, de seu cheiro, de sua risada, de tudo nele que me vi o tipo de homem que precisa de alguém para viver.
E eu precisava dele. Mas eu não queria forçá-lo a me aguentar, a aguentar minhas dores e meus problemas, meus medos. Não queria que ele se sentisse mal, então eu sempre lhe dei liberdade para ir quando quisesse, mesmo que ao mesmo tempo sempre estivesse gritando para que jamais me deixasse.
Sempre fui um tanto arrogante, idiota, egocêntrico, egoísta, cínico, frio, possessivo. Esse era Aomine Daiki, eu sempre soube disso, mas nunca quis mudar, apesar de parecer ruim, eu me defendia do mundo assim, nada me afetava... até notar que Kise se tornara muito mais que um simples amigo. Eu o queria comigo todos os dias, todas as noites, todas as horas, todos os segundos.
E o que se faz quando se está apaixonado pelo melhor amigo? Eu realmene não sabia, então apenas fiquei ao lado dele, dando apoio... E ele estava sempre comigo. E talvez tenha sido isso... é, acho que foi.
– Oe, Kise! — Eu corri até ele com a bola, as mangas da minha camisa estavam dobradas e meu corpo suava como louco, mas estava tão animado que não pararia. Basquete era minha paixão e Kise meu amor, nada poderia ser melhor do que momentos como aqueles.
Parei a frente dele, que deixou o sorriso sumir e ficou sério observando meus braços, ele sempre foi um ótimo copiador, mas eu sempre dificultei demais para ele. Movi a bola para vários lados, passando por baixo das minhas pernas de forma tão rápida que nem podia-se acreditar que realmente havia passado por lá e, no meio da distração, eu simplesmente passei por ele.
– Aaaah, Aominecchi! — Escutei a exclamação dele e senti-o correndo atrás de mim para roubar a bola, mas ambos sabíamos como aquilo ia terminar. Corri ainda mais rápido e ia saltar para enterrar, Kise nunca me seguia no ato, mas hoje ele estava insistente e pulou também para roubar a bola, mas acabei enterrando.
Entretanto, na hora de voltar ao chão, acabamos nos esbarrando por estarmos tão próximos e caímos juntos. Ele sobre mim, de início apenas soltamos um leve grunhido de dor, mas depois eu fiquei em silêncio observando-o, ele ainda estava com os olhos fechados.
Estava tão perto.
– Kise, você está bem? — Perguntei preocupado.
– Na verdade, minha canela bateu no seu tênis. — Suspirou e do nada seu rosto ficou vermelho. – Ah, desculpa, Aominecchi. — Ele ia sair de cima de mim, mas por reflexo eu segurei sua cintura e acabei corando quando ele me olhou confuso. — O que foi? Machucou?
– N-não... não é isso... — Murmurei olhando em seus olhos e então suspirei triste, devia deixá-lo ir, não? Mas por que estava sendo tão difícil simplesmente deixá-lo ir?
– O que houve? — Kise me encarava daquela forma preocupada e eu não sabia o que fazer além de pensar no quanto desejava seus lábios, no quanto queria apertá-lo e jamais deixá-lo ir. Então o apertei ainda mais no abraço e virei devagar com ele no chão da quadra. Ele estava com os olhos levemente arregalados e eu apenas suspirei colocando a mão em seu rosto, acariciando levemente o local.
– Ryouta... — Sussurrei e fechei os ohos.
– Aominecchi?
– Eu amo você. — E então eu o beijei.
Ele ficou tenso em meus braços, sem saber como reagir, mas logo senti o beijo ser aceito e ficamos ali, deitados e suados pelo jogo recente trocando aquele beijo molhado, íntimo e indeciso, cheio de sentimentos ainda não totalmente revelados. Alisei seu cabelo e desfiz o beijo, olhando em seus olhos. Seus olhos estavam sorrindo, por mais que seus lábios estivessem levemente abertos e ainda surpresos, seus olhos brilhavam como eu jamais havia visto antes.
– Me desculpe. — Eu falei e então vi lágrimas começarem a escorrer por seus olhos. — Kise, e-
– Shh... — Ele me silenciou com outro beijo.
E então as coisas ficaram muito mais claras entre nós, eu soube que era ele quem eu queria. Mas Kise era um modelo famoso e eu apenas um recém formado policial. Eu podia amá-lo o quanto fosse, mas nós não éramos compatíveis em muitas coisas e essa era uma delas que sempre me preocupou. Que tipo de futuro poderíamos ter?
Eu sempre fui inseguro, mas o amava mais que a mim. Queria acordar todos os dias ao seu lado e fazê-lo feliz. Apesar de tudo, nossa amizade não foi afetada, nós continuávamos brigando como sempre, muitas vezes eu o magoei, mas sempre acabávamos nos reconciliando, mas não quer dizer que resolvíamos tudo com sexo, isso também, mas não era sempre.
Seguimos naquele relacionamento sem um futuro certo, jamais havíamos falado sobre algum futuro e ele não parecia se preocupar com isso, talvez Kise sempre fosse o tipo de pessoa que prefere aproveitar o momento. Sim, esse era ele. Cada momento para ele era eterno ao seu modo, quando para mim cada segundo era finito de uma forma absurda, então eu quis evoluir tudo aquilo, quis torná-lo meu.
E começamos a namorar. E foi incrível, foi a melhor época da minha vida. Eu avancei mais e mais no colégio de cadetes e no basquete, estava estudando para conseguir entrar para a Polícia Federal de vez, ter notas altas, assim meu salário seria muito bom e não precisaria me preocupar com meu relacionamento com Kise, eu queria estar a sua altura, queria ser tão bom quanto ele era. Ele estava avançando em sua carreira e nós estávamos bem, estávamos felizes.
"Eu te amo mais que tudo...", Escutei-o sussurrar após mais uma noite de amor intensa, alisei seu cabelo e apenas o encarei observando seus olhos dourados sumirem lentamente, sem conseguir falar algo para ele, eu o amava tanto. Sorri fraco, Kise era lindo a qualquer momento.
Fiquei ali parado apenas observando-o respirar lentamente com a cabeça em meu peito, suas mãos passando pela minha cintura enquanto eu o acolhia em um abraço com apenas um braço, já que lhe fazia carinho com a outra mão. Em pouco tempo eu faria os testes para a Polícia e então poderia pedi-lo em casamento. Ainda éramos jovens para pensar em casamento, tínhamos apenas 22 anos, quase 23, mas eu não ligava para a nossa idade, era com ele que eu queria ficar para o resto da minha vida.
Fiquei dias, noites me perguntando se ele aceitaria e ainda quando penso sinto borboletas na barriga. Nós praticamente já morávamos juntos, na verdade, ou passávamos um tempo na minha casa ou na casa dele, nunca tínhamos um lugar fixo, mas estávamos sempre juntos. Seus pais haviam aceitado tranquilamente nosso relacionamento, que era escondido da mídia, seus produtores achavam que ainda não era tempo de revelar que Kise Ryouta já era comprometido, não por ser um homem seu namorado, mas por suas fãs. Era uma propaganda mais valiosa quando o dito cujo era solteiro e eu entendi bem isso, não me importava.
Nada realmente me importava desde que eu tivesse o loiro em meus braços todas as noites e manhãs. E eu o tinha, nós fazíamos amor e jurávamos que seria eterno, nossos momentos eram únicos, nada era realmente muito romântico, mas nada tão selvagem. Era perfeito, na medida certa das coisas, não que tudo sempre fosse assim. Eu gostava de como estávamos, não era monótono, não era sempre radical, era um relacionamento maravilhoso, apesar das brigas.
Talvez até fossem as brigas que fortalecessem tudo isso ainda mais. Eu sentia muito ciúme de Kise, afinal ele é meu, ele tem minha inicial em seu corpo, ele me tem em si, então ele é meu e nada nem ninguém, em circunstância alguma, mudaria isso.
Sorri quando ele se mexeu um pouco e resmungou algo. Beijei sua testa e decidi dormir também, decidido que o pediria em casamento, depois de tanto tempo juntos, já podíamos pensar em casar, morar juntos de verdade, fazer planos, ter filhos, quem sabe? Talvez eu estivesse sonhando demais para um cara de 22 anos.
Eu estava eufórico. Passei nas provas da Polícia poucos dias após meu aniversário de 23 anos e agora estava exercendo o cargo de soldado, tinha de trabalhar disfarçado, era perigoso, mas eu gostava do meu emprego, porém estava estudando ainda mais para conseguir subir de cargo logo, as chances de que eu conseguisse subir eram grandes, afinal eu havia estudado, treinado e me preparado a vida toda apenas para aquilo, agora as coisas estavam se realizando. Tudo estava indo para o caminho que eu havia planejado e, em minha mente, eu só conseguia pensar no sorriso de Kise.
Eu fui em muitas lojas. Eu fui em muitos lugares para achar a aliança perfeita. A de noivado, claro, queria fazer tudo certo, primeiro noivar, depois casar. Achei um par de alianças realmente lindo, havia uma pedra amarela que me lembrava os olhos do meu modelo, tinha de ser aquela. Eu sorri e falei para a atendente que as queria.
Estava pronto, bem, quase pronto, agora só precisava pensar no resto do plano. Eu o pediria em noivado o mais rápido que pudesse.
Entretanto, na volta para casa eu estava sem moto, na verdade, estava apenas com o cartão de crédito e minha arma, como policial, era sempre recomendável andar com ela onde quer que eu fosse, e só conseguia pensar em como e quando o pediria Kise em noivado, mas algo chamou minha atenção, em um beco homens agrediam uma mulher para roubar sua bolsa, como policial e cidadão eu não pude deixar aquilo de lado, eu era um homem da lei, era meu dever proteger as pessoas. E eram homens batendo em uma mulher indefesa e inocente.
Qualquer um iria tentar impedir, não?
Eu fui até os dois homens para impedi-los, já tirando minha arma da cintura, mas eu não vi que haviam outros companheiros, não lembro bem como tudo ocorreu exatamente, mas ao me aproximar erguendo minha arma, recebi um forte golpe na cabeça por trás e cai, quase inconsciente, sentindo algo quente escorrer pelo meu pescoço, lembro de ver a mulher correndo e receber muitos chutes e socos até perder a consciência naquele beco.
E... e então... e então eu acordei num lugar qualquer jogado e passando frio, talvez sendo considerado um drogado ou bêbado qualquer... estava sem meu cartão, sem minha arma, sem minha aliança de namoro, sem nada além de roupas. E eu não sabia absolutamente nada sobre mim. Mas havia uma caixinha com uma aliança linda em um bolso falso de meu casaco. Com uma pedra amarelada. E em meu ombro havia uma tatuagem com a letra K.
Kise... Kise... Kis... K...
Aomine gritou ao acordar, um grito alto e rouco, assustado. Seu coração estava disparado e seu corpo inteiro tremia, estava suado e a cama completamente bagunçada, sua cabeça estava doendo como se tivesse recebido todos os socos e chutes novamente. Colocou as mãos na cabeça e fechou os olhos com força.
– Eu lembrei... lembrei de tudo. — Murmurou tremendo encolhido em sua cama.
Estava há dias sem sair de casa, depois de ter visto Kise naquele dia, não voltara a falar com ele, nem mesmo com Momoi, mas agora ali estava ele tremendo como uma criança perdida em sua cama, a mesma cama onde havia feito amor inúmeras vezes com Kise, que jurara amá-lo eternamente, deitou-se novamente e ficou encarando o teto.
– Ele... ele me disse que éramos amigos. — Murmurou pasmo. — Ele vai casar com outro... Kise... — Sentia-se morto. Achou que seu peito jamais doeria mais do que no dia que descobriu sobre o casamento, mas agora que seu antigo "eu" voltara, agora que se lembrava de tudo e todos. Mal conseguia acreditar realmente que Kise estava fazendo aquilo.
E o amor que jurara sentir durante todos aqueles anos?
E o "eterno" que sempre falara?
E todas as vezes que prometera ser sempre seu?
E quantas vezes não dissera que jamais o esqueceria e que sempre seria o amor de sua vida?
Tudo aquilo realmente havia se tornado apenas um passado?
Então por que ele fez amor consigo antes de se casar?
Aomine se sentia perdido com tantas perguntas sem respostas. Olhou para o lado e viu as alianças, seus olhos se encheram de lágrimas e então olhou para o calendário, a data atual estava com vários círculos, franziu a testa tentando lembrar-se o que aconteceria hoje e suspirou. Não conseguia mesmo lembrar. Olhou para a hora e arregalou os olhos.
– O casamento...
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