Memories
9 And this kind of pain only time takes away
Notas iniciais

And this kind of pain, only time takes away (E esse tipo de dor, apenas o tempo leva embora)
That's why it's harder to let you go (É por isso que é tão difícil te deixar ir)
And nothing I can do, without thinking of you (E eu não posso fazer nada sem pensar em você)
That's why it's harder to let you go (É por isso que é difícil te deixar ir)
'Cause trying not to love you (Porque tentar não te amar)
Only makes me love you more (Apenas me faz te amar mais)
Trying Not To Love You — Nickelback
Aomine olhou-se no espelho. Usava uma jeans clara não muito larga, mas também nada colada, uma camiseta branca com escritas azuis, um casaco azul claro e fino, por cima deste usava um casaco de couro e sapatos pretos. Suspirou notando que Kagami realmente sabia sobre roupas e sorriu levemente, estava realmente bonito, Kise havia cortado seu cabelo como costumava usar e achou que aquele corte realmente combinava com ele, aqueles fios em seus olhos o incomodavam.
Suspirou, estava no quarto do casal, pois Kagami e Kise haviam separado tudo para que se arrumasse para a festa ali. Olhou ao redor, era um quarto grande e a parede que dava para a cidade era de vidro, só havia uma coisa o incomodando no quarto: o cheiro de sexo. Apesar de que as fotos do casal não o agradavam em nada, suspirou achando aquilo totalmente errado de sua parte, não tinha o direito de gostar ou desgostar do relacionamento dos seus amigos.
Passou um perfume que Kise lhe dera de presente, dizendo que era o que costumava usar. Tinha um cheiro amadeirado muito gostoso, mas também esportivo, era a essência perfeita para sua personalidade, pelo menos a julgou assim. Olhou para a embalagem azul escura e suspirou, Kise sabia até mesmo qual o perfume que usava. Aquilo não era muito normal, era? Mesmo para melhores amigos, seria o tipo de coisa que Satsuki saberia... mesmo ele sendo gay, as coisas não mudavam muito.
Passou as mãos pelo rosto, ficar tentando desvendar seus sentimentos sem nem ao menos se conhecer direito não o ajudaria em nada. Então apenas ajeitou sua roupa e virou-se e saiu do quarto, encontrando Kagami e Kise já prontos para a festa que dariam na sala, teve de admitir que estavam lindos, mas ninguém poderia superar Kise, usava uma calça social cinza clara que estava dobrada até metade de suas canelas, uma camisa preta não muito larga e por cima um casaco de lã bege que ia até um pouco abaixo de sua bunda, que combinava com o chapéu marrom, em seu pescoço havia um colar com um crucifixo e sapatos beges também. Sorriu.
– Fiz a escolha certa. — Sorriu Kagami olhando para o maior enquanto entrelaçava seus dedos aos de Kise, Aomine sorriu e assentiu, descendo as escadas. — Bem, vamos descer, alguns já estão lá embaixo.
– Ah, sim... — Aomine assentiu e começou a seguir ao casal para fora do flat.
Ao descerem Aomine teve de admitir que aqueles dois sabiam montar uma festa e que o espaço ali era ótimo. Haviam sofás de aparência confortável, os petiscos sobre as mesas estavam bem colocados, as bebidas bem distribuídas e acessíveis a todos, a música era baixa e deixava o local com um clima legal e agradável, ao fundo havia um pequeno palco, onde apenas tocavam algumas músicas programadas por Kise para tocarem noite afora, as portas para a piscina estavam abertas e a iluminação deixava tudo muito belo, a água refletida na piscina se espalhava pelo local.
– Wow, ficou muito legal. — Elogiou o maior com um sorriso admirado.
– Obrigado. — Agradeceram Kise e Kagami com ar superior e o maior riu.
Aomine olhou novamente ao redor e viu uma mulher de cabelos cor-de-rosa caminhar até eles, usava um lindo vestido negro com detalhes vermelhos, Momoi estava linda. Aomine sorriu e a abraçou com carinho.
– Está linda. — Comentou para a menor, que sorriu.
– Você também. — Ela sorriu e o ofereceu um copo descartável com alguma bebida leve, que ele logo aceitou. — Como se sente, Dai-chan?
– Estou bem... — O homem sorriu e então ao olhar para seu copo notou que havia um garoto parado a sua frente, possuía olhos e cabelos azuis claros. Arregalou os olhos, não o havia visto chegar. — A-Ah, desculpa, não te vi.
– Nunca vê... — O menor sorriu fraco. — Olá, Momoi-chan, olá Aomine-san... sou Kuroko, acho que não lembra de quando fui ao hospital, não cheguei a me apresentar.
– Ah, prazer. — Apertaram as mãos e Aomine franziu a testa. — Eu te conhecia antes de perder a memória?
– Sim, éramos amigos e fazíamos uma dupla perfeita no basquete. — O menor riu fraco da expressão espantada do maior. — Apesar de não parecer, sou bom também. Sentimos sua falta, Aomine-san.
– Ah, mas estou quase de volta agora. — O maior riu baixo e olhou para os outros.
Aos poucos foi conhecendo mais de cada um. Midorima, o homem de cabelos verdes, era neurologista e neurocirurgião, tendo como assistente Takao Kazunari, um homem menor que ele de cabelos negros, que descobriu ser também um excelente cantor, mas havia se recusado a cantar naquele momento. Murasakibara Atsuhi era chefe de cozinha num dos maiores restaurantes de Tokyo, seu namorado, Himuro Tatsuya era o dono do local. Akashi Seijurou era um importante empresário que Aomine descobriu ter salvo a vida certa vez, quando fazia uma ronda próximo ao prédio do ruivo. Kuroko Tetsuya era ator, por mais incrível que pareça. Imayoshi Shouichi era legista, parecia amar fazer autópsias e parecia o tipo de pessoa que se sentia bem entre os mortos, mas era bem simpático até, seu namorado, Wakamatsu, era General da Polícia Federal na mesma área que servia, portanto era chefe do loiro. Haviam vários outros ali com profissões importantes, sorriu fraco, parecia ter muitos contatos importantes, mas ainda assim ficou perdido por anos e anos.
A festa rolava solta entre todos os presentes, que bebiam e conversavam animados, Aomine se sentindo melhor em conhecê-los a cada segundo que passava, eram boas pessoas, apesar de cada um ter seu jeito e seu modo de ver as coisas. Tentava a todo custo ignorar a forma como Kagami e Kise às vezes trocavam carinhos amorosos ou quando seus lábios se tocavam tão íntimos e apaixonados. Queria imensamente que parassem com aquilo.
Foi quando começou a notar que sentia muito ciúmes de Kise, muito mesmo. Não ciúme de amigo, mas ciúme de namorado, não gostava nada de quando Kagami o tocava porque sentia inveja. Suspirou pesado e passou as mãos pelo rosto, colocando a mão sobre o ombro, onde havia a tatuagem com a letra "K", não se surpreenderia se fosse de Kise, depois de tudo que vinha descobrindo. Aquilo era tão errado, alimentar sentimentos daquele tipo por seu melhor amigo, era quase uma traição.
Mas será que sempre sentira aquilo por Kise? Ou será que realmente era apaixonado pela irmã do loiro? Mas por que ele não contara? Ou talvez jamais tivesse falado sobre a tal paixão? Mas também ainda não havia visto o resto da família de Kise... E as alianças? O que queria dizer tudo aquilo realmente? Tudo que tinha como pista era as alianças, a tatuagem e seus sentimentos. Será que amara aquele loiro desde sempre? E se amara, ia se declarar antes de perder a memória? Então aquilo havia sido o destino, certo? Dizendo que não poderiam ficar juntos...
O que lhe pareceu bem compreensível, quando um modelo mundialmente famoso ficaria com um simples policial japonês?
Revirou os olhos e passou a mão pelo rosto, estava se achando desprezível por ter tais pensamentos e realmente cogitar a possibilidade de amar seu melhor amigo. Olhou novamente para o loiro, suas pernas estavam sobre as coxas de Kagami, este estava com a mão pousada sobre a coxa roliça do menor e conversavam entre si, com os rostos próximos, às vezes roçando os lábios, cochichando algo na orelha um do outro, rindo de piadas internas, às vezes mordiam os lábios para conter risadas e trocavam beijos molhados. Aquilo irritava tanto Aomine que se não estivesse se controlando já teria feito de Kagami seu alvo perfeito.
– Droga... — resmungou colocando a testa na mesa, alguns olharam para ele.
– Está bem, Dai-chan? — perguntou Momoi um tanto preocupada.
– Ah, estou sim, só estou pensando... — Sorriu fraco para a mulher, que assentiu e voltou a sua conversa animada com Takao.
Droga, droga, resmungava em sua mente. Como podia se achar apaixonado por Kise? Mal o conhecia! Mas... por que tinha a estranha sensação de que tudo entre eles era muito mais do que parecia? Kise conhecia absolutamente cada linha da sua vida, era impossível que não soubesse nada sobre seus relacionamentos, mas achava melhor não pressioná-lo, até porque devia ser algo que ele devia lembrar por si só.
Lembrou da imagem da mulher que sempre vira em mente, era a versão feminina de Kise, tinha certeza, lembrou-se do cheiro, o cheiro de Kise que tanto o acalmava, lembrou-se de tudo que tinha ligação com o loiro...
– Merda, mente, apenas lembre! — Resmungou pegando novamente seu copo para beber, mas antes que pudesse continuar matando-se com mais pensamentos sobre o loiro, escutou a voz do mesmo nos auto-falantes e todos olharam para o palco, que agora estava levemente iluminado.
– Oi, gente. — Falou Kise sorrindo ao ser respondido pelos amigos. Todos viram Kagami abraçá-lo pela cintura antes que continuasse. — Bem, primeiro quero agradecer a presença de todos vocês, sei o quanto é difícil arranjar um tempo contando o emprego de todos aqui... Fico feliz por todos lembrarem do quanto o Aominecchi é importante em nossas vidas e espero que todos estejam felizes tanto quanto eu pela volta dele. — Os olhos do loiro foram para o maior, que corou levemente sentindo o coração acelerar como louco. — Aominecchi, sentimos sua falta, obrigado por voltar... E, bem, acho que temos que agradecer ao Kagamicchi por tê-lo atropelado, de certa forma. — O loiro fez uma careta de dúvida e então todos riram, até mesmo o ruivo ao seu lado e Aomine. — Por falar nisso... aquele dia foi um dos piores para eu e o Kagamicchi... — Kise agora tinha a voz levemente falha. — Como sabem, depois que o Aominecchi desapareceu eu entrei numa depressão profunda e quase morri por várias doenças e quase perdi meu emprego...
– Kise...
– Aominecchi, você não tem culpa, relaxa. — O loiro riu levemente limpando uma lágrima silenciosa. — Foram os piores sete meses da minha vida, mas então eu conheci um homem que me fez rir novamente, que me fez ver que nem tudo estava perdido e que, onde quer que estivesse, Aominecchi estaria pensando em mim. Bem, não é bem verdade, ele estava longe de lembrar de mim. — E então voltaram a rir, Aomine um tanto afetado. Não queria escutar aquela parte do discurso de Kise, não queria ver o amor entre eles, em seus sorrisos, em seus olhos, palavras ou beijos. — E então o tempo foi passando e ele se tornou alguém muito especial na minha vida. — Kise sorriu e olhou para o namorado que estava um tanto corado, o loiro limpou mais lágrimas e algumas pessoas soltaram um coro de "awn", que foi aceito com risos por parte do loiro. — Um dia antes do Kagamicchi atropelar o Aominecchi nós tivemos nossa primeira briga, de verdade, ele até dormiu fora de casa... no dia seguinte encontramos o Aominecchi e... — mas Kise já não conseguia falar, estava movido pela emoção, então o ruivo beijou sua testa e, com um sorriso, pegou o microfone, apertando o menor em um abraço.
– Vou continuar porque o pequeno aqui é um bebê chorão. — Os outros riram, conheciam bem Kise. — No dia da briga eu... bem, eu fiz uma proposta ao Kise, mas digamos que eu não tive muita paciência, sabem como eu sou. — O ruivo riu com os amigos, Aomine tentou disfarçar o quanto estava irritado. — Kise passou uma semana fora depois que encontramos Aomine e nos reencontramos, foi um tanto tenso, diga-se de passagem, mas quando ele voltou... — O sorriso de Kagami não podia ser mais sincero. — Bem... daqui algum tempo podemos dizer que Kise Ryouta se chamará Kagami Ryouta.
Todos no salão ficaram em silêncio e com olhos arregalados, muitos boquiabertos. Kagami só conseguia sorrir e alisar o cabelo do menor, que não chorava mais, mas sorria apaixonado para todos os amigos ali presentes, ninguém conseguia acreditar que Kise havia realmente escolhido Kagami, sempre acharam que a escolha seria totalmente oposta. Aomine estava alarmado, sentia o chão abrir abaixo de seus pés e ainda mais abaixo de seu coração, sentia sua cabeça dar voltas. Ofegou baixo sem chamar atenção e colocou a mão na cabeça.
Flashback on — Aomine's POV
– Ei, Aominecchi! — chamou o loiro e eu me virei sorrindo, sem conseguir deixar de suspirar com a visão. Kise estava realmente lindo naquele dia, usava um terno branco, ressaltando extremamente sua beleza, até parecia um anjo. O anjo pelo qual me apaixonei.
– Kise, tudo bem? — O maior se aproximou e começaram a caminhar juntos pela calçada da casa do loiro.
– Só mais uma conferência chata do trabalho aqui em casa, uma festa na qual tenho que sorrir como se todos fossem meus amigos mais íntimos, nem mamãe está suportando mais. — Kise revirou os olhos e eu sorri. — Como está?
– Ah, estou bem cansado, ontem fiz a prova para a polícia, foi um tanto difícil, mas talvez eu tenha chances. — Eu sorri afundando mais minhas mãos nos bolsos do casaco, estava realmente frio. — Só tenho medo de não passar pelo psicológico.
– Por quê? — O loiro parou encostando-se à parede, não podia ficar muito longe daquela festa irritante.
– Bem, eu matei quando era uma criança ainda, não é? Talvez pensem que eu não seja confiável o suficiente, que eu tenha traumas para ser um policial... — Suspirei baixo passando a mão pelo cabelo, para em seguida colocá-la de volta dentro do bolso, senti as mãos com luvas brancas de Kise tocarem meu rosto e então o encarei.
– Você nunca matou alguém, Aominecchi. — As mãos do loiro acariciaram minhas bochechas enquanto segurava meu rosto. Eu não podia deixar de admirar a forma como Kise me olhava, com tanto cuidado e carinho, como um irmão faria. — Você não é ruim, pare de se culpar, ok? Você, apesar de meio esquentado, age com razão. Sei que conseguirá, é seu sonho, não é? Então apenas lute por ele.
– Sim... é meu sonho... — eu sussurrei e olhei para o céu, as estrelas brilhavam de forma intensa. — Se eu conseguir, vamos sair juntos.
– Mas sempre saímos juntos. — Kise riu levemente, mas seu rosto havia ficado vermelho.
– Mas dessa vez vamos para um lugar que nunca te levei... meu lugar favorito no mundo todo. — Kise franziu a testa e eu apenas dei de ombros. — Só depois que eu passar.
– Você é um chato, Aominecchi. — mas ele sorria, entretanto o sorriso virou um suspiro triste quando olhou para o lado e viu seu agente. — Preciso ir...
– Ah, tudo bem... me desculpe vir sem avisar. Boa festa. — Me desculpei e sorri fraco, sentia uma imensa vontade de tocá-lo, então afaguei levemente seu cabelo e suspirei, começando a me afastar, mas ao olhar para trás, o loiro estava caminhando lento com as mãos nos bolsos.
Suspirei um tanto triste, queria ter ficado mais tempo com ele. Seu cheiro ainda estava em minhas narinas, era tão agradável, era floral, mas masculino ao mesmo tempo, só Kise para ter um cheiro daqueles. Sorri fraco, realmente gostava daquele loiro, amava-o, mas não podia falar, sem contar que tínhamos realidades muito diferentes.
Jamais daríamos certo. E, com aquele pensamento triste, eu caminhei sozinho pelas ruas frias de Tokyo evitando as lágrimas com um sorriso triste.
Flashback off — Narradora's POV
Aomine arregalou os olhos e tirou a mão da cabeça, ninguém havia notado sua leve perda de consciência, talvez dessa vez não tenha desmaiado como da última, o que achou muito vantajoso, visto que suas lembranças apenas haviam revelado o que mais temia. Realmente amara Kise em silêncio, aquilo era o pior!
Olhou novamente para o palco, Kagami e Kise sorriam mostrando alianças. Kise parecia realmente feliz e aquilo partiu Aomine como jamais imaginara possível. Suspirou triste e fechou os olhos, aquilo tudo não era nada bom... nada mesmo. E se conversasse com Satsuki? Ela o entenderia? Talvez até mesmo ela soubesse, talvez todos soubessem, afinal não sabia se havia ou não se declarado ao loiro.
Kise e Kagami desceram para receberem felicitações calorosas e alguns olhares interrogativos, mas Kise sempre respondendo que era a Kagami quem escolhia, que era a ele a quem devia dedicar-se, que passado era passado, por mais que ele estivesse no presente.
A festa continuou normal a partir daí, Kise e Kagami voltaram a conversar em um canto, agora com o loiro admirando a aliança em seu dedo, era apenas a de noivado, afinal ainda não sabiam quando casariam e as alianças de casamento seriam apenas no dia do casamento. Perguntavam-se o que a mídia diria, mas acabaram não se prendendo muito a isso e voltaram aos carinhos de antes, arrancando grunhidos de desaprovação por parte de Aomine.
– Dai-chan, quer conversar? — O homem olhou para Satsuki e suspirou.
– Depois da festa ou outro dia, aqui não é hora nem lugar... — Sorriu fraco e apoiou o cotovelo na mesa, vendo algumas pessoas batendo palmas e incentivando Takao a subir no palco e cantar algo. Foi quando Kise e Kagami entraram na brincadeira que tudo ganhou força total e Takao se viu obrigado a ir até o palco.
– O que querem que eu cante? — Perguntou um tanto receoso olhando os instrumentos que haviam ali, sabia tocar todos.
– Uma música que mostre seus sentimentos no momento, vai. — Incentivou o modelo loiro batendo palminhas, sempre que pedia isso Takao cantava algo maravilhoso e agradável, o moreno parecia estar sempre feliz e em paz.
– Ahn... não sei se é boa ideia. — Takao coçou a cabeça e suspirou diante daqueles olhares, seu olhar encontrou o de Midorima, que desviou o olhar um tanto frio, olhando para qualquer ponto que não fosse o moreno a sua frente. O sorriso de Takao era quase depressivo.
Aquela não seria uma apresentação feliz como geralmente fazia com tanto fervor ao homem de cabelos verdes, pois sim, sempre que cantava era para ele, cantava com sua alma e coração, era tudo para ele, mas parecia que Midorima jamais conseguira enxergar aquilo com clareza e era justamente por isso que nem ao menos se olhavam nos olhos há semanas.
Então Takao caminhou até o piano e foram escutados suspiros, amavam quando ele tocava o instrumento. As mulheres sorriram, amavam Takao por seu romantismo intenso e devoto, parecia um homem realmente apaixonado. Aomine encarou o homem notando que não parecia feliz, não parecia que ia tocar algo calmo e alegre, seus olhos estavam opacos, seus ombros pareciam pesar demais para mantê-los normais.
Aomine sentiu o peito apertar e suspirou, esperando intensamente que a música não atingisse seus próprios sentimentos. E então Takao começou uma melodia suave, mas um tanto triste no piano, levanto as pessoas a ficarem assustadas com sua escolha, mas paralisadas com a forma como as notas simplesmente fluíam. Aomine sentiu o coração apertar e então olhou para Kise, que estava sendo abraçado por Kagami, que também parecia não estar gostando da escolha da música, na verdade, parecia sentir a dor dela.
All along it was a fever (Foi uma febre o tempo todo)
A cold sweet hot-headed believer (Um suor frio, uma pessoa impulsiva que acredita)
I threw my hands in the air (Joguei minhas mãos para o alto)
I said "show me something" (Eu disse "Mostre-me algo")
He said "If you dare come a little closer" (Ele disse "Se você se atreve, chegue mais perto")
Round and around and around and around we go (Por aí, por aí, por aí nós vamos)
Oooh, now tell me now, tell me now you know ( Ooh, diga-me agora, diga-me agora, diga-me agora, você sabe)
Aomine virou-se para a mesa para ninguém notar que sua mão apertava seu peito, a dor era tão grande que não podia acreditar. Realmente amava Kise tanto assim? Amava-o a ponto de uma música daquela fazer com que sua respiração falhasse e seu peito explodisse em dor?
Não podia acreditar naquilo, estava um tanto assutado até. Mas quantos significados podiam conter nas palavras daquela música? O que realmente fazia seu coração apertar tanto? A voz melodiosa, arrastada e triste de Takao ou seus sentimentos ainda tão confusos?
Takao fechou os olhos ao começar a música, queria passar exatamente como se sentia por aquelas palavras, queria que ele sentisse. Sempre acreditara que dariam certo, realmente acreditou, havia se entregado a ele, e ele o mostrou o quanto a vida podia ser ainda mais bela. E foram juntos... até ali. Queria que sentisse o quanto toda a situação entre ambos o machucava, mas que estaria ali de qualquer forma. Mostraria por aquela música, em especial, aquela música o quanto ambos estavam partidos, o quanto ninguém saíra bem. Desde o começo ao fim. "Mostre-me algo, Shin-chan!", "Algo?", "Uhum!", "Então, se você tiver coragem, posso te mostrar amor".Seu peito doeu ao lembrar-se daquilo. Todo o seu ser reclamou da dor, mas a suportou, a prendeu em seu peito.
Not really sure how to feel about it (Não tenho muita certeza de como me sentir quanto a isso)
Something in the way you move (Algo no seu jeito de se mexer)
Makes me feel like I can't live without you (Faz com que eu acredite não ser possível viver sem você)
It takes me all the way (Isso me leva do começo ao fim)
I want you to stay (Quero que você fique)
Abriu os olhos levemente e olhou para Midorima, olhos frios, os lábios num fio. Ele conseguia sentir a dor em sua voz? Conseguia escutar os gritos de sua mente? Conseguia sentir o aperto em seu coração? Sorriu fraco, aquela música era tão linda, triste e intensa, mostrava tanto todos os seus sentimentos. Aomine notara, notara a dor em seus olhos, a dor em suas notas e sua voz, talvez todos tenham notado, mas nenhum notou como Aomine, pois ele sentia aquele mesmo desespero. Aquela mesma dor. Aquele amor intenso e incontrolável, ah, doía tanto! Mas era algo tão verdadeiro, tão verdadeiro que parecia surreal. Era medonho.
It's not much about life you're livin' (Não é muito sobre a vida que está vivendo)
It's not just something you take, it's givin' (Não é algo que você toma, é dado)
Round and around and around and around we go (Por aí, por aí, por aí nós vamos)
Ooooh, now, tell me now, tell me now, you know (Oooh, agora, diga-me agora, diga-me agora, você sabe)
A vida que estavam vivendo? Aquilo, diabos, era vida?! Takao quis rir da ironia ridícula daquela frase. Sempre estivera com Midorima e a vida de ambos sempre foi a mesma coisa, a mesma maldita monotonia, mas agora não, agora não tinha vida. Vivia por viver, caminhando, respirando, comendo, trabalhando por nada nem ninguém. Nem mesmo para si. Queria tomar o coração de Midorima, queria arrancá-lo, queria fazê-lo seu, porém sabia muito bem que jamais conseguiria, jamais seria capaz de fazer Midorima dá-lo seu coração.
Era assim que Aomine se sentia. Vazio. Não sabia que vida tinha vivido, muito menos a que estava vivendo, estava tão perdido. Perdido em si. Perdido em Kise. Queria fugir da voz de Takao, do piano, das palavras, da melodia, de tudo. Olhou para Kise, olhava preocupado e triste para Takao, até mesmo assim era belo. Aomine perguntou-se pela milésima vez "por que você?", mas sabia que sempre seria Kise, sempre seria a ele quem amaria.
I want you to stay (Eu quero que você fique)
Uuhhh
The reason I hold on (O motivo pelo qual me mantenho firme)
Uuuh
'Cause I need this hole gone (Porque eu precioso fazer esse buraco desaparecer)
Funny, you're the broken one (Engraçado, você é quem está em ruínas)
But I'm the only one who needed savin' (Mas eu era o único que precisava ser salvo)
'Cause when you never see the lights (Porque quando você nunca vê as luzes)
It's hard to know which one of us is cavin' (É difícil saber quem de nós está desabando)
Takao acabou soltando uma risada chorosa em meio à música, algumas lágrimas escorriam por sua face, porém sua voz continuava firme, melodiosa, bela, cortante, fria. Seus olhos agora encaravam o verde dos olhos de Midorima, sempre pensara sobre esperança ao olhar para seu amado, verde. Verde de Esperança. Verde de Midorima. Ele era sua esperança de viver, de ser feliz, de não sofrer. Midorima era tudo que tinha, era tudo que queria. Era a última e mais preciosa coisa em sua Caixa de Pandora.
Perguntava-se se doía nele também, se ele chorava nas noites chuvosas, onde eles costumavam ficar abraçados no chão de madeira aquecido eletronicamente, envoltos em um cobertor macio, com o cheiro de ambos misturado e uma mancha de café, feita pelo próprio Takao. Se Midorima reclamava da falta de algo em sua cama quando ia dormir, se estava cansado de tomar café da manhã sozinho, se sentia falta do doce feito por Takao apenas para ele. Será que ele está pensando em mim?, perguntava-se todos os dias. Seu coração afundava cada vez mais e, quando achava já ser o limite para sua dor, mais uma faca o apunhalava.
O moreno respirou fundo, deixando um leve soluço escapar, Midorima desviou o olhar.
Not really sure how to feel about it (Não tenho muita certeza de como me sentir sobre isso)
Something in the way you move (Algo no seu jeito de se mexer)
Makes me feel like I can't live without you (Faz com que eu acredite não ser possível viver sem você)
It takes me all the way (Isso me leva do começo ao fim)
I want you to stay... Stay (Eu quero que você fique... Fique)
I want you to stay (Eu quero que você fique)
Uuuhh...
Aomine perguntou-se onde estaria seu começo. Onde estaria seu fim. Onde estava sua vida? Pensou em tudo que se lembrara. No amor intenso que estava sentindo por Kise, queria ficar ao seu lado, queria tê-lo e amá-lo. Porém ele estava nos braços de Kagami, sendo aninhado com tanto amor que era visível que eram um casal perfeito. Quis chorar. Não queria deixar Kise de novo, queria lembrar-se de tudo, mas ao mesmo tempo queria esquecer o que lembrara. Estava mais confuso do que nunca. Estava com mais medo do que nunca.
E queria ficar com Kise mais do que nunca.
E então a voz chorosa de Takao chamou a atenção de todos. Midorima olhava para o chão, estava com os braços cruzados e sua expressão era fria e dura, ninguém conseguia entender bem o que se passava ali. Ninguém sabia, mas aquela era a música de despedida do moreno para o canceriano de cabelos verdes, porém também era um pedido. Um pedido claro para que ficasse, para que o amasse de verdade dessa vez.
– M-me desc-culpem por... por estragar o cli-clima da festa. — O moreno riu seco e limpou as lágrimas apenas para novas aparecerem em seu lugar. — A-acho... acho que já vou. — E então o moreno simplesmente desceu do palco e correu para fora já sem conseguir conter as lágrimas que escapavam por seus olhos, odiando-se por deixar-se ver daquela forma pelo maior, mas não podia mais controlar seus sentimentos. Era hora de ir. Agora havia deixado Midorima de vez. Agora o esqueceria. Amaria outro.
Todos permaneceram em silêncio olhando as costas de Midorima, que não moveu sequer um músculo. E então Murasakibara levantou-se num suspiro e caminhou até a mesa onde estavam os doces, começando a comê-los, as pessoas quase arregalaram os olhos pela sua naturalidade mediante aos fatos; depois andou até o computador de onde as músicas iam para as caixas de som e suspirou voltando à lista de reprodução que estava. Os outros começaram a voltar a conversar, tentando deixar aquele clima tenso de lado, mas antes de voltar a falar com os outros, Murasakibara pegou Midorima pelo pulso e o puxou para fora do salão. Akashi até fez menção de ir atrás do melhor amigo, mas sabia que era melhor deixar que Murasakibara falasse o que devia ser falado, Murasakibara tinha a sinceridade de uma criança e era exatamente daquela verdade imatura e pura que Midorima precisava. A verdade mais sincera possível sairia dos lábios do maior, não dos seus.
Aomine suspirou, não queria se meter em mais relacionamentos de ninguém, então apenas pegou mais uma bebida e ficou ali bebendo tentando não pensar em Kise, mas quanto mais tentava não pensar, mais pensava, afinal tentar não pensar em alguém já era pensar.
Olhou uma última vez para Kise e Kagami vendo um beijo apaixonado e suspirou, levantou-se e caminhou para fora com as mãos nos bolsos, precisava ficar longe de tudo aquilo.
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