Memories
23 Memory Twenty Two
Notas iniciais
Memories
Memory Twenty Two
• • •
Seu coração estava pesado e melancólico, sentia-se vazia e solitária. Seus olhos estavam doloridos e inchados devido às lágrimas derramadas. Porém, mesmo assim, Mai obrigou-se a se levantar da cama. Não sentia a menor vontade de fazê-lo, obviamente, mas continuar remoendo seu sofrimento só a estava fazendo se sentir pior.
Pegando suas próprias roupas e uma toalha emprestada por Celty, caminhou até a porta do quarto. Ao se aproximar, ouviu uma confusão e vozes do lado de fora, que ficaram mais nítidas ao abri-la. Conseguiu distinguir Mairu discutindo algo, enquanto Celty tentava contê-la e Shinra apenas ria.
Mai cruzou o corredor e chegou ate a sala, vendo as gêmeas vestidas com seu uniforme de karatê — uma arte de luta que consistia em pular e atacar, de acordo com Mairu.
Ao vê-la, a irmã mais nova parou de falar e encarou-a de forma confiante.
— Você não precisa mais sofrer, Mai-nee! Bolei o plano perfeito para dar um jeito nessa situação desagradável — exclamou ela com convicção. — Eu e a Kuru-nee vamos invadir o apartamento do Iza-nii e, usando nosso karatê, iremos arrastá-lo até você e colocá-lo de joelhos para que te peça perdão.
“I-Isso está errado!”, interveio Celty. “Claro que o ele tem que se desculpar, mas obrigá-lo a fazer isso não vai levar a nada”
— Ah, mas eu gostaria de vê-las tentar — Shinra riu.
“Não incentive!”
Vendo a situação se desenrolar a sua frente, Mai com todas as suas forças fingiu um sorriso e preparou-se para o que ia dizer.
— Não precisam mais se preocupar com isso! As coisas entre mim e o Izaya estão resolvidas — sua voz saiu penosamente infantil e suas palavras fizeram todos encararem-na com surpresa. — Sabe, ontem o Izaya me ligou e conversamos bastante sobre o que aconteceu. Ele não me pediu desculpas, mas senti que se arrependia do que fez. E, no final, percebemos que, por mais que a gente queria ficar juntos, um sempre vai machucar o outro de alguma forma. Então, o melhor era nos separarmos. Izaya disse que não era pra me preocupar, pois nunca mais vai me perturbar. E que está fazendo isso porque gosta de mim e não quer me fazer sofrer. Por isso... Tudo resolvido!
Terminando, sentiu os olhares chocados sobre si.
— Bem — ela fingiu ficar sem graça. —, isso também significa que não tenho onde morar. Teria problema se eu ficasse por um tempo aqui?
— Pode, mas... — tentou Shinra, confuso.
— Obrigada. E agradeço a vocês duas também — Mai olhou para as gêmeas. — Mas peço que não o incomodem com esse assunto. Agora eu vou tomar banho ~
Dando as costas para quatro pessoas atônitas, Mai seguiu para o banheiro e fechou a porta, recostando-se nela.
Consegui dizer..., pensou, respirando fundo e com as mãos trêmulas.
Parada ali, ela ainda conseguiu ouvir Shinra gritando o nome de Mairu e uma porta batendo.
Suspirando, Mai tirou seu pijama e tomou banho. Quando acabou, saiu do chuveiro e adentrou na banheira repleta de água quente. O calor que seu corpo absorvia ajudou a relaxar seus músculos tensos, mas ainda sim não se sentia melhor.
Uma parte de si ainda não acreditava no que havia acontecido, enquanto a outra não aceitava a separação repentina. Desejava, do fundo de seu coração, que tudo aquilo fosse apenas um pesadelo, do qual logo acordaria. Mas não era, e ela precisava que aceitar isso. Já era hora de aceitar que havia perdido seu precioso Izaya, que nunca mais se relacionariam e que a única coisa que havia lhe sobrado eram apenas algumas memórias de gosto agridoce. A promessa de carinho, afeto e momentos felizes... Tudo isso teria que ficar para trás.
— Quero você de volta... — sussurrou com a voz embargada, sentindo os olhos marejarem.
Queria sentir os braços do rapaz em volta de seu corpo, seu cheiro e calor característicos, e então ouvir a voz rouca dele lhe dizendo que estava tudo bem.
Eu te amo, Mai. Enfrentaria tudo para estar ao seu lado.
Nunca ouviria isso, por mais que quisesse e precisava encarar a realidade: Izaya e Mai não existiriam mais juntos. Por isso, necessitava seguir em frente por si mesma e pelo informante. Não choraria mais e guardaria toda sua tristeza para si mesma. Seria, ou ao pareceria, forte.
Aos olhos dos outros ficaria bem e até se obrigaria a acreditar nisso. Ainda que, no fundo, soubesse que nunca conseguiria deixar esses sentimentos para trás. Era apegada demais a eles e ao Izaya, não tinha coragem de deixar de amá-lo tão simplesmente. Não conseguia romper completamente as ligações que tinha com ele.
Talvez eu goste de sentir dor. Ou então apenas aprendi a conviver com ela.
Mas, no final, o importante não era o que sentia ou deixava de sentir e, sim, não ceder à melancolia e se manter de pé.
Apenas sorria e seja uma boa garota.
Só precisava seguir em frente e tentar segurar os cacos de seu coração despedaçado, apenas isso. Sabia que continuaria amando-o e que o buraco em seu peito nunca se fecharia, mas aprenderia a lidar com isso.
Mai ainda continuou na banheira por um bom tempo, deixando suas lágrimas escorrerem livremente. Havia se dado ao luxo de chorar uma última vez, pois quando saísse dali, iria segurá-la com todas as suas forças.
A água já havia esfriado quando finalmente saiu. Ela se secou e depois vestiu suas roupas. Ao sair do banheiro, ainda com uma pequena toalha sobre os ombros, voltou para a sala. As irmãs Orihara já não estavam mais lá, mas Shinra e Celty encontravam-se sentados no sofá e, quando se aproximou, eles se viraram para ela.
— Mai-chan... — o médico começou.
— Está tudo bem — interveio, suplicando silenciosamente através de seu olhar para que não insistisse no assunto.
Shinra compreendeu sua mensagem e colocou a mão no ombro de Celty, que já se preparava para digitar algo.
— Fico feliz que tudo tenha se resolvido — falou apenas.
— Obrigada — ela sorriu agradecida. — Eu pedi para ficar aqui... Mas sei que isso pode acabar sendo incomodo para vocês. Por isso...
“Claro que não!”, exclamou a motoqueira. “Vou adorar ter a sua companhia. Às vezes sinto falta de conversar com alguém que não seja o Shinra”
— Que triste, sendo desprezado tão cruelmente por minha própria esposa — o médico falou dramaticamente. — Mai-chan, venha consolar o papai! ~ — ele abriu os braços.
“Seu pervertido!”, Celty o socou no estômago.
Mai deu uma pequena risada, mas logo se calou ao se lembrar das gêmeas.
— O que houve com a Mairu e a Kururi? — quis saber. — Acho que elas ficaram um pouco irritadas com o que eu disse...
— Bem, talvez a Mairu-chan. Mas acho que era mais raiva do Izaya — Shinra explicou. — Depois que você entrou no banheiro, ela saiu daqui um tanto furiosa e a Kururi-chan a seguiu.
“Tenho a impressão que elas pretendem tirar satisfação com o Izaya”
— Eu também... — Mai concordou com pesar. — Espero que não briguem muito.
Lamento, Mairu, mas nem todo amor, por mais forte e sincero que seja, acaba com um final feliz. Infelizmente, acabei descobrindo isso da pior maneira possível, Suspirou Mai com tristeza.
• • •
Havia sido uma longa e desconfortável noite. Por mais que Izaya tivesse tentado dormir, sua consciência simplesmente não o deixou descansar. A conversa que tivera com Mai na noite anterior, sua voz embargada do outro lado da linha e a promessa de nunca mais se relacionarem, tudo isso estava sufocando seu coração. Era agonizante pensar nisso e lhe doía terrivelmente.
Era a primeira, e última, boa ação que Izaya havia feito visando o bem de alguém e ele já estava arrependido.
Quando acordou naquele dia e sua mão involuntariamente procurou por Mai do outro lado da cama, um vazio o tomou e ele desejou profundamente tê-la de volta. Olhou para o celular sobre o criado e, por um momento, quase cedeu a tentação de ligar para ela. Mas não, ele não podia voltar atrás. Seria crueldade demais lhe dar essa vã esperando e voltar a tratá-la mal. Ele havia decidido isso e não iria mudar sua opinião.
Se não tinha coragem de enfrentar seus medos de frente, ele não tinha o direito de tê-la.
Hm, um babaca altruísta, que tocante..., zombou de si mesmo. A cada dia que passa, me torno ainda mais patético.
Praguejando, o moreno se levantou da cama. Sua cabeça já não latejava mais, porém a dor em seu ombro continuava e sentia-se ainda mais cansado.
Sem a menor vontade, arrastou-se para o banheiro e tomou um longo banho. Quando acabou, vestiu suas roupas casuais e desceu. O escritório estava vazio, com exceção de Kuro, que dormia no sofá.
Izaya pensou em trabalhar, conversa no chat ou recolher informações para seus planos, mas no fundo não sentia a menor vontade de fazer qualquer uma dessas coisas. Por fim, caminhou até o sofá e se jogou nele.
Além de se sentir mal, também estava odiando a si mesmo por estar se deixando controlar por sentimentos que um dia havia abdicado de sua vida. Considerando quem era e o tipo de filosofia que sempre seguiu, isso era pior do que patético.
Sem que percebesse, havia virado prisioneiro de seu próprio coração.
Izaya soltou um longo suspiro, no mesmo instante em que ouviu a campainha tocar. Ele ergueu-se do sofá, a contragosto, e foi até a porta, abrindo-a.
— Vocês... — falou com desgosto, encarando suas irmãs vestidas com o ridículo uniforme de karatê delas. — Lamento, a Mai não mora mais aqui, por isso, abstenham-se de me visitar, nunca fiz questão da companhia de vocês.
Ele empurrou a porta para fechá-la, mas Mairu a segurou.
— Eu vou acabar perdendo a paciência — ameaçou, finalmente então percebendo a expressão da jovem.
— Irmão idiota! — xingou.
Sem esperar ele responder, a de óculos se espremeu no vão da porta e entrou no escritório. Izaya não fez força ou gritou com ela, seria ridículo brigar com sua irmã de quinze anos.
— Certo... — ele bufou, massageando suas têmporas. — Diga logo o que quer.
— Eu é que pergunto o que você quer com tudo isso! — rebateu. — Trata ela mal e a humilha, para depois dizer que não é mais para se encontrarem, sem nem ao menos pedir desculpas! Qual é o seu problema?!
O informante apertou os punhos, sentindo a raiva correr por suas veias. Entretanto, ele manteve sua costumeira postura indiferente.
— Não sei, Mairu, mas tenho certeza que não é da sua conta. Na verdade, nada disso é — ele a encarou. — É um assunto encerrado, então não me perturbe com isso. Se alguém ficou insatisfeito com o resultado, a única que tem direito de tirar satisfação comigo é a Mai, não você.
— É, era o que ela deveria fazer — falou. — Mas ela muito inocentemente acha que essa sua maldita “decisão” é a melhor para os dois e que você fez isso pensando nela.
— E eu fiz.
— Não fez, não! — ela elevou o tom de voz. — Decidiu deixá-la porque é um covarde estúpido. Um frouxo que está sempre fugindo por puro medo dos próprios sentimentos. Porque tem medo das pessoas que o rodeiam!
Izaya riu com desdém.
— Isso mesmo, você tem razão — deu de ombros. — Eu, muito desprezivelmente, abandonei a pobre Mai-chan porque sou um covarde que não tem coragem de enfrentar os próprios sentimentos e medos. Pronto, satisfeita? Agora vai embora.
Suas palavras deixaram Mairu incrédula.
— É isso? Vai deixar as coisas assim e pronto? — instigou com os olhos arregalados. — Mentindo para si mesmo só para se proteger e deixar a Mai-nee? Não sente falta dela? Não se preocupa se ela está se sentindo sozinha? Depois de tudo que ela fez por você, não tem coragem de retribuir seus sentimentos?
— Ahn? Não me lembro de ter mencionado que compartilhava os mesmos sentimentos que ela — Izaya revirou os olhos, dando as costas para a irmã e seguindo para sua mesa.
— Covarde mentiroso — vociferou. — Você realmente merece morrer sozinho.
O rapaz riu.
— Se eu acreditasse em coisas do tipo, até diria que nasci destinado a viver sozinho. Infelizmente, a Mai-chan demorou a perceber isso — falou com indiferença. — Confesso, foi até divertido estar com ela, mas a pobrezinha não merecia me suportar. Por isso, muito bondosamente a deixei ir.
Houve um longo silêncio, até que a de óculos o quebrou.
— Você realmente pode fugir se está com medo dela e de si mesmo, mas por mais que tente, nunca irá conseguir se esquecer da Mai-nee e o que sentiu quando esteve ao lado dela — falou baixo. — Por mais que tente. E vai se arrepender amargamente do que fez.
Sem dizer mais nada, ela deixou o escritório. Ao ouvir a porta batendo, Izaya soltou outro longo suspiro.
Eu já estou.
Ao voltar-se novamente para o sofá, retraiu-se de leve ao notar que Kururi havia ficado.
— Sua outra metade foi embora. Não devia segui-la? — perguntou, passando por ela e sentando no sofá. — Ou será que está aqui para a segunda parte do sermão?
A jovem não mudou sua expressão apática, apenas o encarou.
— Não acha... — sua voz era um sussurro. — Que dói muito mais ficar sem ela?
Não houve resposta.
— Não tem medo de vê-la feliz longe de você? De que tudo o que viveram se torne tão distante, que não passará de memórias tristes? — perguntou mansamente. — Viver fugindo desse jeito vai acabar matando você. Todos precisam de um coração e de alguém que cuide dele, Iza-nii.
Cansado demais para fingir qualquer sentimento, ele virou-se para a irmã com um olhar exausto.
— O que você queria que eu fizesse? — perguntou. — “Não vá, eu te amo e quero você ao meu lado”, é isso? Por favor, você realmente acredita que eu diria algo assim e ainda por cima abandonaria minha zona de conforto? Eu nunca conseguiria... Não sou capaz de cuidar dela, tenho medo demais de acabar ferido de novo.
— Ninguém disse que amar e ser amado é fácil — respondeu e, pela primeira vez, o informante viu uma fagulha de tristeza em seus olhos.
• • •
Mai não queria contar, mas era automático. Passara-se uma semana desde que havia se afastado de Izaya. Nos primeiros dias, passou-os um tanto silenciosa e retraída, quase que agindo no automático. Suas conversas com Shinra e Celty eram curtas e quase não saía do apartamento, com medo de se encontrar com o informante. Também não recebeu mais visitas das gêmeas, o que a deixou preocupada.
Entretanto, no dia em que a motoqueira apareceu no apartamento com uma sacola contendo seu uniforme, materiais escolares, roupas casuais e alguns mangás, ela percebeu que precisava voltar para suas atividades.
Sabia que aquelas coisas vinham de Izaya e sentiu vontade de perguntar a motoqueira sobre ele ou se o próprio havia questionado algo sobre ela, mas refreou-se. Era melhor não.
Depois disso, voltou a frequentar as aulas. E, claro, a briga entre os dois chegou aos ouvidos de seus colegas e teve quem soltasse comentários maldosos. Mas ela não se importou. Diante da saudade e vazio que sentia, aquilo parecia pequeno demais. Ignorou tudo e assistiu às aulas como se fosse a única em classe.
E, naquele dia, como nos outros, Mai entrou na escola e saiu sem pronunciar qualquer palavra. Ao passar pelos portões, lembrou-se das vezes em que Izaya veio buscá-la e dos passeios que davam pela cidade. Triste, ela continua sua solitária caminhada.
Andar por Ikebukuro não lhe parecia tão bom agora, mas mesmo assim ela não conseguia ficar longe daquele distrito. Óbvio, evitava olhar demais para os lados, pois a possibilidade de encontrar-se com Izaya a assustava, já que não sabia que impacto isso teria em si mesma.
Esgueirando-se pela praça principal, resolveu sentar-se na fonte. O frio outonal penetrava por suas roupas, fazendo-a arrepiar-se e friccionar uma mão na outra em busca de um pouco de calor.
Sentiu algo tocar-lhe o ombro, mas não deu atenção. A sensação se repetiu e então ela virou-se para ver o que era. Kururi e Mairu estavam paradas ao seu lado, a mais velha na frente, segurando a caçula pelo braço, que olhava para o chão.
— O-Olá, quanto tempo! — Mai cumprimentou, tentando dar um sorriso.
— Mairu... — Kururi advertiu em tom baixo, ao não ouvir uma resposta.
— Ah, certo...! — ela deu um passo para frente, encarando a de olhos azuis. — Desculpe por ter sumido durante uma semana, justo quando mais precisava de alguém por perto. E também me desculpe por ter intrometido em assuntos que não me diziam respeito... — terminou a contragosto.
— Assunto...? Ah — Mai olhou para o chão. — Você foi até o Izaya naquele dia...
Ela contraiu os lábios em uma linha fina e rígida, numa tentativa de conter sua curiosidade.
— É, eu fui até lá e o chamei de covarde frouxo. Mas o Iza-nii é um idiota imperturbável. Simplesmente concordou com tudo e me mandou embora, dizendo que aquilo não era problema meu — a de óculos bufou, também se sentando na fonte. — Eu até pensei em montar um plano para fazê-los voltarem a ficar juntos, mas percebi que ele não te merece.
Kururi também se acomodou ao seu lado.
— Sabe... — ela continuou.— Nós duas e o Iza-nii nunca fomos muito próximos. Nossos pais, desde que me lembro, trabalham no exterior e quase nunca vem ao Japão para ficar com a gente. Vivíamos sempre sozinhos... E o Iza-nii também nunca foi um irmão presente. Claro, ele cuidava da gente, mas nunca pareceu nutrir qualquer afeto por nós. No início, isso nos deixava triste, pois ele era a única família que tínhamos ao nosso lado. Mas depois, na medida em que nós três íamos crescendo e ele começou a se mostrar uma pessoa desprezível, eu e a Kuru-nee deixamos morrer o afeto que tínhamos por ele. O Iza-nii continua sendo o nosso irmão, mas ao mesmo tempo, se ele morresse ou se mudasse para muito longe, simplesmente não faria diferença para nós.
— Até o dia que vimos você com ele — emendou Kururi.
— Isso — concordou a irmã. — Quando vimos vocês juntos, até chegamos a achar que era só mais uma garota que ele estava manipulando. Porém, o tempo passou e vocês continuaram juntos e, até, felizes. Por causa disso, começos a achar que talvez o Iza-nii pudesse ter mudado, que você havia mudado ele, ao menos um pouquinho... E que, se tudo desse certo entre vocês, teríamos a chance de voltar a nos aproximar dele. E, quem sabe, ganhar uma irmã também.
— Ah, Mairu... — Mai falou ao seu lado, tocada por suas palavras.
— Então, tentamos nos aproximar de vocês dois e ajudá-los... Mas agora o Iza-nii estragou tudo e eu não quero mais ser irmã dele! Poxa, está mais do que claro o quanto ele gosta de você! Por que não te agarra logo?! Ai!
Mairu olhou para a irmã mais velha, que havia lhe dado um beliscão. Mai apenas riu.
— Obrigada, vocês duas — ela sorriu com carinho.
— De nada ~ — respondeu satisfeita consigo mesma.
Houve um momento inicial de silêncio, mas pouco tempo depois a conversa voltou a fluir entre elas. Nada realmente sério, apenas assuntos do cotidiano.
— Ei, Mai-nee, de que colégio é esse uniforme? — a de óculos perguntou.
— Do Colégio Kodama — respondeu, olhando para si mesma.
— Argh — torceu o nariz. — Todas as meninas chatas e frescas da nossa escola se mudaram para lá quando passamos para o colegial. Lá só tem gente insuportável, com exceção de você, é claro.
— E vocês, onde estudam? — quis saber.
— Academia Raira — Kururi respondeu.
— Sério? Achava que o uniforme de lá era outro — Mai olhou as duas. Mairu usava um uniforme estilo marinheira, enquanto Kururi trajava roupas de ginástica.
— Ah, aquele uniforme é muito feio — a mais nova de ombros, com indiferença. — Roupas de marinheira e ginástica são muito melhores, sem falar que são o ápice do fetiche masculino ~ — ela piscou para Mai.
— E você tem muitos amigos lá? — Kururi questionou, ignorando a outra.
— Na verdade, não... — confessou. — Digamos que tenho alguns problemas para interagir com meus colegas.
— Hm... — Mairu lhe deu um olhar penetrante e desconfiado. — Sabe o que isso me soa? Bullying.
— B-Bem...
— Vamos! — ela se pôs de pé, com os braços cruzados. — Me diga os nomes, vou dar um jeito nas barangas.
— O que?!
— Vou te contar uma coisa, no meu primeiro dia no Raira umas meninas chatas resolveram implicar comigo. E o que eu fiz? Quase obriguei uma delas a engolir uma caixa de tachinhas. Elas ficaram com tanto medo, que pararam com isso. Mas então decidiram direcionar o ódio delas para a Kuru-nee. Em resposta, dei um chega-pra-lá nelas e roubei seus sutiãs. E, para finalizar, colocamos explosivos na mochila de uma delas — ela deu um sorriso macabramente satisfeito. — Pronto, nunca mais chegaram perto de nós!
— É verdade — confirmou Kururi.
— Ahn... A-Acho melhor não... Eu mesma resolvo isso — mentiu.
— Tem certeza? Bem, se precisar de ajuda, sabe onde encontrar — disse. — Mudando de assunto, o que acha de ir com a gente até uma loja de mangás? A Kuru-nee quer comprar alguns volumes de Soul Eater e eu alguns doujinshis hentais.
— Claro!
Ignorando a palavra hentai, Mai acompanhou as duas para fora da praça. Até que, ao seu lado, Mairu travou.
— Vamos por outro caminho, não gosto desse!
A gêmea mais nova tentou puxá-la, mas já era tarde demais. Seus olhos azuis, antes brilhantes devido ao momento de descontração, adquiriram um tom escuro ao verem do outro lado da rua o motivo de seu sofrimento.
Izaya estava recostado a um muro, conversando com um homem. Porém, a troca de palavras devia estar no fim, pois ele entregou algo ao desconhecido, que acenou com a cabeça e foi embora.
O informante ainda continuou alguns segundos parado ali, apenas observando o homem. Para então, com um sorriso confiante, seguir o caminho oposto. Ao fazer isso, ele também a notou. Por um curto período, seus olhos se encontraram, tempo que foi suficiente para Mai notar sombras marcando o rubro de sua íris. Izaya se desviou dela e seguiu seu caminho. O sorriso confiante não mais marcava seus lábios.
— Ei, Mai-nee — Mairu chamou em tom baixo. — Você realmente vai aceitar tudo isso? Quer dizer, no fundo, é muito injusto.
Ela colocou a mão sobre o peito, sentindo seu coração bater dolorosamente acelerado.
— Não é uma questão de escolha — respondeu. — Isso não passa de uma consequência daquilo que aconteceu entre nós. E consequências são imutáveis. A única coisa que se pode mudar são os fatores que a antecedem, mas o Izaya não está disposto a fazer algo diferente e eu não posso obrigá-lo a me aceitar. Por isso, só me resta esquecê-lo — ela respirou fundo. — Vamos, também quero comprar alguns mangás.
Elas caminharam juntas e pararam perto do meio-fio, a espera do sinal. Mai sentiu Kururi puxar sua blusa e ela a encarou.
— Mas você não parece disposta a esquecer do Iza-nii — falou.
A jovem de olhos azuis lhe deu um sorriso sem graça e triste.
— O que posso fazer? — Deu de ombros, sem ânimo. — Sem querer, deixei ele roubar meu coração e, agora, não consigo pegá-lo de volta.
• • •
Na medida em que os dias se passavam, entre ir à escola e ajudar com alguns afazeres no apartamento, Mai começou a perceber que possuía muito tempo livre. E, para ela, momentos assim eram como veneno. Porque, sem nada para distraí-la, sua mente e coração a traíam, a obrigando a reviver os momentos que passou com Izaya e a tristeza provocada pela sua falta.
A solidão havia virado sua companheira, junto com a melancolia. Havia se acostumado a conviver com esses dois sentimentos sem deixá-los escapar de seu interior na forma de lágrimas. Mas, às vezes, seus ataques eram fortes demais, exaurindo suas forças e a vontade de seguir em frente. Esses eram os piores momentos, pois sentia como se nunca mais fosse capaz de colocar-se de pé.
Então, para fugir de tudo isso, Mai passou a gastar todo o seu tempo livre com distrações.
Gostava de ler e Shinra era cheio de livros. A maioria era sobre coisas relacionadas à medicina, porém Mai não se importava, lia todos. Alguns não conseguia entender, mas outros ela achava fascinante. E, vendo seu interesse, o médico até a ensinou os primeiros socorros e como cuidar de ferimentos um pouco mais graves.
Mai também conversava bastante com Celty e, em um desses diálogos, acabou descobrindo que ela era Setton no chat. A garota também contou que frequentava o site através do usuário Aoi, o que deixou a motoqueira bem surpresa. Porém, Mai logo disse que já não tinha mais interesse em usá-lo, já que isso significava “se encontrar” com Kanra, que era Izaya.
Sair com Kururi e Mairu era outra forma que havia achado para se distrair. As irmãs constantemente a arrastavam pela cidade, para fazer todo tipo de coisa. No início Mai relutou, mas acabou cedendo à insistência das duas. Às vezes, é claro, se encontrava com Izaya na rua e se sentia mal, mas ela tentava ao máximo se conter.
E, por último, havia descoberto uma quarta forma de manter sua mente ocupada e que, na opinião dela, era a melhor.
Certo dia alguém havia tocado campainha no apartamento e Mai foi atender. Na porta, estava uma garota de cabelo castanho e olhos claros. Seu nome era Harima Mika e ela se apresentou como professora de culinária de Celty.
Pelo que lhe foi explicado, Mika vinha uma vez por semana à casa da motoqueira para ajudá-la a melhorar suas habilidades na cozinha. Mas que, por causa das provas escolares, havia ficado um tempo afastada.
Mika era uma garota cheia de energia, que falava muito e às vezes rápido demais. Seu assunto preferido era Yagiri Seiji, seu amado namorado. Mai até não ligava para o excesso de palavras, mas algumas vezes sentia uma pontada de inveja.
O lado bom era que a jovem cozinhava maravilhosamente bem e era uma ótima professora. Mai aprendia bastante e se divertia, ainda que houvesse momentos em que sem querer acabava se perguntando o que Izaya acharia dos novos pratos que estava aprendendo.
• • •
— Aquele idiota... Vou matá-lo!
— Se acalme, Shizuo-kun, caso contrário, não vou conseguir fazer os curativos.
Sentada na poltrona da sala de estar, Mai encarava Shizuo estirado sobre o sofá, com Shinra cuidando de um dos vários ferimentos espalhados pelo seu corpo.
— Pulga estúpida — xingou. — Da próxima vez que eu o encontrar com o babaca do Izaya, vou trucidá-lo.
Era a quinta ameaça feita ao informante e Mai sentia-se retrair por dentro em cada uma delas. Sabia que Shizuo e Izaya odiavam-se até a morte, mas de uns dias para cá, essa rixa parecia ainda mais acirrada. Isso sempre a preocupou. O loiro aparecia com cada vez mais frequência no apartamento e com ferimentos graves. Isso a fazia se perguntar em qual estado devia estar o informante.
— Você devia parar de persegui-lo, Shizuo-kun — aconselhou Shinra — Se continuar desse jeito, seus ferimentos nunca irão cicatrizar.
— Essa é boa... — ele riu, azedo. — Eu não estou brigando com ele porque quero e sim porque Izaya não me dá escolha! Ele sempre me provocou e me trouxe problemas, mas ao longo desses dias ele está pior do que nunca. Acha mesmo que vou ficar parado enquanto ele manda uma gangue mafiosa atrás de mim ou me incrimina por algo?! — o loiro trincou os dentes. — Eu também estou cansado e isso está atrapalhando meu trabalho com o Tom-san, mas enquanto ele estiver brindando de bancar o insano para cima de mim, tenho que fazer algo para me defender. A única coisa boa nisso tudo é que a capacidade dele de fugir de mim nunca esteve pior. Tenho certeza que também fiz belos estragos.
Mai sentiu um calafrio percorrer sua espinha e Shinra a olhou com ar de desculpas.
— Bem, eu já vou indo — ergueu-se da poltrona. — Espero que fique bem, Shizuo. E boa noite.
A jovem dirigiu-se para o quarto que dividia com Celty. Lá, esticou seu futon e deitou-se sobre as cobertas.
Havia virado um hábito deitar-se cedo, mas não por exaustão física. Ia cedo para a cama porque ficava cansada demais de fingir sorrisos na frente dos outros e parecer bem.
Dizem que o tempo e as pessoas com quem o compartilhamos o ajuda a curar as feridas do coração, mas não era isso que estava acontecendo com Mai. Muito pelo contrário.
Estar se adaptando àquele lugar e as pessoas com que passou a compartilhar seu tempo a estava matando por dentro. Tudo aquilo deveria estar servindo como bandagens para o seu coração ferido, desejava muito que assim fosse, mas na verdade a estavam sufocando. Isso acontecia porque ele próprio as estava rejeitando. No fundo, não queria aceitar que aquela era sua nova condição.
A vida que queria era ao lado de Izaya. Desejava que o escritório em Shinjuku fosse a sua casa e que aquele rapaz de personalidade questionável fosse sua maior companhia.
Estar longe dele a dilacerava por dentro. Sentia seu coração mutilado, com cortes tão profundos, que jorravam sangue, afogando-na por dentro.
Queria chorar, mas principalmente grita com o rapaz por tê-la deixado, quando tudo o que queria era ficar com ele.
Memory Twenty Two Finalized
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