Memories
22 Memory Twenty One
Notas iniciais
Memory Twenty One
Seus olhos ainda estavam marejados e Mai mantinha-os abaixados, deixando-se ser guiada por Celty até sua moto. Com delicadeza, a Dullahan a ajudou a montar e depois fez o mesmo, digitando um último “segure firme”, antes de dar a partida e seguir cidade afora.
Mai apertou a cintura fina da motoqueira e afundou o rosto em suas costas. Por um momento, a sensação de velocidade e do vento batendo em seu corpo fez com que o mundo a sua volta não mais existisse. Foi um agradável alívio, que logo teve fim, no instante em que chegaram ao apartamento e Celty estacionou sua moto.
Ao botar os pés no chão, a jovem sentiu toda a mágoa pesar em seu coração. Não queria chorar, por isso respirou fundo e tentou conter suas lágrimas. Ela o fez várias vezes durante o trajeto entre a garagem e o apartamento da motoqueira. Entretanto, ao pisar na sala e ver seu reflexo abatido na porta de vidro da varanda, não conseguiu mais se segurar. As lágrimas voltaram a marcar seu rosto e Mai começou a soluçar.
“Mai-chan!” — Celty exclamou ao perceber seu estado.
— Eu tentei tanto... — começou. Precisava liberar isso de algum modo. — Achei que se desse o meu melhor pelo Izaya, fizesse tudo direitinho, as coisas acabariam bem... Mas acho que no final das contas, eu era o grande problema. Quem um dia conseguiu chegar ao coração dele já não existe mais, e é alguém que para ele foi insubstituível — ela soluçou. — Eu sou apenas um transtorno que só serviu para abrir ainda mais uma antiga ferida. Nunca serei amada pelo Izaya, nunca serei o motivo de sua felicidade, por mais que eu o ame com todo o meu coração e tente...
“Mai-chan, pare com isso!” — Celty balançou-a, fazendo a garota encará-la. “A culpa não é sua, você não fez nada de errado. Pare de achar que é só você que tem que se esforçar. Isso não está certo. Você o ama, mas não significa que tem que sofrer e se deixar ser torturada a esse ponto” — a motoqueira largou seus ombros. “A culpa é do Izaya, Mai-chan. Ele é quem não soube cuidar de você e que não percebeu o grande tesouro que tinha ao seu lado. Quem tem que se arrepender e chorar é ele por ter te afastado”
A Dullahan fez um movimento semelhante à de quem respira fundo.
“É verdade, você fez tudo o que podia, por isso, agora é a vez do Izaya agir” — continuou. “Ele não tem ninguém igual a você ao seu lado, tenho certeza que isso pesará em sua consciência e ele se arrependerá do que fez. Por isso, espere. Izaya precisa aprender a cuidar de que lhe é importante”
Mai não estava completamente convencida e seu coração ainda permanecia aflito, porém não tinha forças para continuar a discussão. Ao invés de dar uma resposta, apenas deixou que as lágrimas molhassem livremente o seu rosto, enquanto Celty a amparava com um abraço.
Quando finalmente parou de chorar, afastou-se da mulher. Seus olhos ardiam e a respiração estava trêmula, mas ao menos tentou dar um sorriso a motoqueira.
— Obrigada — falou com sinceridade, secando um dos olhos com as costas da mão. — Prometo não chorar mais tanto assim.
“Tudo bem” — digitou. “Chorar fez bem”
Pouco tempo depois, suficiente para a anfitriã acomodar sua convidada no sofá e lhe oferecer uma xícara de café, a porta do apartamento se abriu. Shinra, com Mairu e Kururi penduradas em seu jaleco, adentraram no recinto.
Inicialmente houve um momento de silêncio embaraçoso entre os recém-chegados e Mai, até que a gêmea caçula xingou Izaya de algo não muito digno, pondo fim ao clima desconfortável. Enquanto Mairu xingava o irmão de todos os nomes sujos que conhecia, Kururi sentou-se ao seu lado e a encarou de forma solidária. Fora isso, ninguém mais falou algo sobre o incidente.
— O Iza-nii é mesmo um filho... Ai! — a de óculos exclamou, ao sentir sua irmão mais velha beliscá-la, em um ato de repreensão. — Mas é verdade!
Kururi apenas revirou os olhos. E, apesar de ser uma situação boba, Mai acabou soltando uma risada baixa. Entretanto, refreou-se ao sentir a mão de Shinra em seu ombro. Ela olhou para cima, vendo-o em pé atrás do sofá.
— Por ora, não pense em mais nada — falou. — Descanse, até você precisa disso de vez em quando — Shinra parou um segundo e depois acrescentou com um sorriso compreensivo: — Se quiser, mais tarde, podemos conversar.
Mai assentiu, um pouco insegura, depois voltou para as gêmeas, que ainda discutiam sobre quais nomes eram ou não impróprios para se referir a alguém.
*****
Izaya nunca havia corrido tanto em sua vida. Tentou de tudo para despistar Shizuo, porém, por mais que pegasse atalhos ou jogasse facas, ele não desistia.
Só finalmente conseguiu livrar-se dele quando um taxi o atropelou ao atravessarem uma rua com sinal verdade, o veículo jogou o loiro alguns metros adiante. Obviamente, apenas isso não seria suficiente para pará-lo, mas ao menos serviu para lhe dar tempo de colocar uma boa distância entre ele e seu perseguidor.
Mesmo não mais ouvindo os urros de Shizuo, por segurança o informante continuou a correr, cruzando várias ruas, até finalmente enfiar-se em um beco. Ele jogou as costas contra a parede, exausto e com os pulmões em chamas. Estava suado, sua cabeça latejava ainda mais e a dor em seu ombro persistia. No entanto, não foi isso ou a raiva que sentia de Shizuo que tomou conta de seus pensamentos quando finalmente tomou consciência do que havia acontecido.
Agora que não estava mais completamente focado em tentar fugir do loiro, tudo que havia ocorrido antes da perseguição voltou a assombrá-lo. E, junto com as lembranças da garota, aquele maldito e sufocante sentimento voltou a atacá-lo com todas as suas forças.
Culpa, arrependimento e lamento.
Não, Orihara Izaya não era um homem que sentia esse tipo de coisa. Não era!
Mas então, por que a visão de Mai se desmanchando em lágrimas não saía da sua cabeça? Por que aquilo lhe doía tanto?
Controle-se!, exigiu de si mesmo.
Izaya apertou os punhos, sentindo-se ofegar ainda mais. Sentia-se cercado, completamente sem escapatória, a mercê de sentimentos que tentava ao máximo conter.
Respirando fundo, cambaleou para fora do beco e iniciou sua dolorosa caminhada de volta ao apartamento. Ao parar na porta do escritório, em um momento de fraqueza, chegou a desejar que mais estivesse lá, esperando por ele. Mas ela não estaria e o rapaz repreendeu-se por se deixar ser tão ingênuo.
Izaya abriu a porta, agradecendo internamente por Namie não estar ali. Não estava com humor para aturar quem quer que fosse.
Cansado, caminhou até o sofá e se jogou nele, pendendo a cabeça para trás. Precisava se acalmar, estava a ponto de explodir.
— Está atrasado — ouviu.
De súbito, sentou-se ereto. Seus olhos correram por todo o cômodo, até pousarem naquele odioso cientista parado no meio das escadas.
— Sua coragem me surpreende — o rapaz falou com sarcasmo, tentando recuperar sua pose altiva. — Invadir meu apartamento pela segunda vez, impressionante. Desse jeito vou ter que mandar a Yakuza “sumir” com você. Tenho certeza que o Shinra não irá sentir sua falta.
Todavia, mesmo com a ameaça, Kishitani Shingen apenas soltou uma risada abafada.
— Faça-o se quiser — deu de ombros, descendo as escadas — Mas ao menos tenha o bom senso de ouvir o que tenho a dizer. Caso contrário, nunca ficará sabendo sobre o meu experimento.
— Experimento, é? — riu com desdém. — E suponho que a cobaia seja Mai, não? Acha que não sei que se encontrou com ela?
— Oh, longe de eu subestimar sua capacidade dedutiva — afirmou, com as mãos unidas atrás das costas, parando perto da mesa de trabalho do rapaz. Na verdade, fazia parte do plano você descobrir que eu havia dito verdades cruéis para ela.
— O que quer dizer com isso? — o moreno perguntou de forma ameaçadora.
— Hm, por onde começo? — Shingen coçou o queixo. — Acho que você já notou, Orihara-kun, que Ikebukuro parece ser um lugar bem atrativo para seres sobrenaturais; Dullahans, lobos, espadas amaldiçoadas... Simplesmente um paraíso para um cientista como eu que almeja descobrir as verdades do mundo. Entretanto, nenhum desses citados chama mais minha atenção do que a garotinha chamada Mai, você bem sabe disso. Porque, ao contrário dos outros, os quais tenho certa quantidade de informação acumulado, eu não sei nada sobre ela! Por mais que eu estude seu comportamento e monte teorias, como fiz no passado, nada foi suficiente para chegar a alguma conclusão. Oh, você não tem ideia de como isso atiçou minha curiosidade, ainda mais depois de descobrir que ela havia sumido por quase um ano e voltado sem memória alguma.
— E, obviamente, para saciar suas dúvidas, decidiu que fazer fofoca era a melhor opção — Izaya zombou.
— Quase isso — concordou. — Porém, antes de tomar essa decisão e dar início ao meu experimento, precisei chegar à outra conclusão. Ao observá-la e compará-la aos outros seres sobrenaturais da cidade, descobri algo muito interessante. Sabe, tanto ela quando Celty e, até mesmo, Saika têm algo em comum, que me serviu como ponto de partida.
— Que seria...? — O informante havia se colocado de pé, olhando para o cientista do mesmo patamar.
— O amor! — ele ergueu os braços, com falsa empolgação. — Curiosamente, o amor parece ser algo de grande influência na vida dessas criaturas. Principalmente no caso da Mai-kun. Então, cheguei à conclusão de que se eu desse um jeito de corrompê-lo conseguiria ver alguma mudança relevante na essência da garota, suficiente para revelar algo sobre sua verdadeira natureza. E como ela havia se apaixonado pela pior pessoa possível, um homem frio e desagradável, fazer isso foi muito fácil.
Shingen saiu de perto da mesa e caminhou até a bancada perto da estante, ficando de frente para o informante. Izaya seguiu cada passo seu com os olhos, sentindo a raiva circular por suas veias.
— E, bem, Orihara-kun, eu até gostaria de dizer que esse magnífico resultado foi devido ao meu plano e inteligência, mas confesso que se não tivesse sido você e sua personalidade, nada teria conseguido abalá-la — deu de ombros. — Eu apenas acendi a fagulha, mas foi você quem ateou fogo. Pobre garota, mesmo sem memorias, acreditou em cada palavra sua e deixou-se apaixonar novamente por você — Shingen riu. — Sabe, no início até achei que você a corresponderia, mas desde que ela te deixou, você se ressente dela, não é?
Não havendo resposta, continuou:
— Você sempre a odiou por isso... Mas no início não tinha coragem de demonstrar, até o dia em que descobriu sobre a insegurança que ela sentia devido as minhas palavras. Você viu ali a chance perfeita para dar vazão ao seu ódio. E assim foi feito!
O homem de máscara deu alguns passos para frente. Apenas o sofá separava-o de Izaya.
— Torturou-a de todas as formas possíveis e descontou seu sofrimento nela. Já a Mai-kun... Suportou tudo isso, graças ao que chamamos de amor incondicional. Sim, ela o amava independente do que você realmente fosse ou fazia. E, devido a isso, o colocou em primeiro lugar priorizou o seu bem-estar — ele abaixou seu tom, de forma que soasse piedoso. — A Mai-kun se sacrificou completamente. E, como agradecimento, você desprezou seus sentimentos e a humilhou na frente de todos. Um belo espetáculo aquele. Mas até eu cheguei a ficar com pena dela. Acho que você exagerou um pouco...
— Saia...
— Às vezes me pego pensando... Ela estaria bem melhor com outro homem. O que acha do Heiwajima Shizuo? Ele pode até ser um monstro, mas ao menos saberia valorizar os sentimentos da garota. Ele a faria feliz, eu acho. Bem, agora que ela não está mais com você, estará livre para se envolver com quem quiser.
— Saia daqui — ordenou. — Agora.
Shingen fitou Izaya, surpreso. Não havia raiva em suas feições. Na verdade, refletido em seus olhos havia uma gélida indiferença.
— Certo, certo. Já acabei mesmo — deu de ombros. — Eu vou embora.
Colocando as mãos no bolso do jaleco, ele caminhou até a porta.
— A experiência ainda não acabou e, caso se interesse, até posso compartilhar os resultados com você — falou por fim, indo embora.
Ao ouvir a porta se fechar, Izaya voltou a se sentar no sofá. Por alguns segundos, ficou nessa posição, encarando seu reflexo na tela da televisão. Até que um espasmo percorreu a sua espinha e ele curvou-se para frente. Uma risada baixa escapou pelos seus lábios. E então mais outra. E assim por diante, formando uma gargalhada alta e perturbadora. Quando finalmente parou, havia um sorriso em seus lábios, mas esse era amargo e pesaroso.
— Ah, quem diria! — o moreno abaixou a cabeça, segurando-a com as mãos. — No final das contas, sou só mais um humano fraco e patético.
Izaya sempre teve consciência do quão horrível com as pessoas ele era, mas nunca achou que isso se voltaria contra ele tão diretamente. Pela primeira vez, repudiou-se por ser assim. E odiou-se por perder o controle sobre suas emoções e despejar sobre alguém sem qualquer culpa toda a sua raiva e desespero acumulados.
A imagem de Mai, parada a sua frente, com lágrimas nos olhos e coração despedaçado não saía da sua mente. Fazendo, pela primeira vez, Orihara Izaya sentir culpa.
Sim, culpa. Esse recém-descoberto sentimento o estava consumindo, junto com um inegável arrependimento. E, enquanto era açoitado por esses sentimentos, como uma forma de autopunição, sua mente o obrigou a reviver tudo que havia passado ao lado de Mai. Seus sorrisos, o carinho que lhe dava, sua gentileza e seu amor incondicional.
Por mais que Izaya quisesse enganar a si mesmo fingindo o contrário, já havia ficado bem claro o quanto ele era completamente dependente desse amor, dependente dela.
Porque, despois de conhecê-la, a solidão e vazio sufocante que antes tomavam conta de sua via, haviam desaparecido completamente, pois Mai havia preenchido cada espaço oco com ternura e afeição. Ter todo aquele afeto, sentir seu toque amoroso e ser especial para ela era algo único, que pouco a pouco começou a despertar nele sentimentos semelhantes.
E foi justamente por causa dessa dependência que, quando Mai partiu e retornou completamente sem memórias, o informante sentiu tanto ódio. Pois foi como se tudo aquilo que o preenchia tivesse sido arrancado de si sem piedade. Obvio, havia ainda algo por trás disso, mas agora tudo isso parecia ínfimo diante do que havia acabado de acontecer...
Seu ressentimento e desprezo haviam conseguido da pior e mais cruel forma despedaçar o inocente coração de Mai. Aquela que havia feito tudo por ele, o amava com todo o seu coração e se sacrificado por sua felicidade.
Izaya afastou de sua vida a única pessoa que, de fato, se importava.
O remorso era tão forte e difícil de se controlar, que o informante sentia-se como se estivesse se afogando em um oceano negro de tormenta e aflição.
— Droga, droga, droga... Estou perdendo o controle de tudo.
*****
Deitada em um futon ao lado de Celty em seu quarto, Mai tentava dormir. Infelizmente isso parecia impossível, já que sua mente e coração estavam atordoados demais para lhe proporcionarem algum tipo de descanso.
Era verdade que havia passado uma tarde agradável ao lado da motoqueira e das gêmeas Orihara, momentos que ajudaram a afrouxar o nó apertando em seu peito. No entanto, quando anoiteceu e todos foram dormir, o nó voltou a se tencionar.
Depois de rolar inquieta debaixo do edredom e com medo de acordar Celty, desistiu de dormir, erguendo-se e saindo do cômodo. Silenciosamente cruzou o corredor, encontrando, para sua surpresa, Shinra sentado no sofá da sala. Ele percebeu sua aproximação pelo reflexo da porta de vidro e virou-se para cumprimentá-la.
— Não consegue dormir? — comentou.
— Não... — confessou. — E você, insônia?
— Algo semelhante. Às vezes meu trabalho me obriga a trocar o dia pela noite — deu de ombros. — Quer beber algo? Chá sempre ajuda a relaxar — apontou para sua xícara em cima da mesinha de centro. — Ou será que conversar terá um melhor feito?
— A segunda opção, por favor.
Mai acomodou-se na poltrona, mas não o encarou. Ficou alguns minutos em silêncio, enquanto o médico bebericava seu chá.
— A Celty disse... — ela começou. — Que era para eu esperar. Que, em algum momento, o Izaya se arrependeria e viria me pedir desculpas. Mas eu não tenho certeza disso... Ele parecia enfurecido demais para voltar atrás.
Houve um segundo momento de silêncio, até Shinra se pronunciar.
— Eu nunca soube até onde exatamente ia a relação de vocês e nem o que se passou com o Orihara-kun depois que você partiu — ele comentou pensativo. — Mas, pelo que aconteceu hoje, ficou evidente que há algo forte ligando vocês dois, caso contrário, ele nunca perderia o controle assim. O grande problema é que o Orihara-kun não é bom em lidar com esse tipo de sentimento quando partem dele. Então, somando com a separação abrupta que tiveram e sua perda de memória... Imagino que tenha sido um golpe e tanto, até para ele.
— Então a culpa é realmente minha... — Mai suspirou tristemente.
— Nã-não! É claro que não — o rapaz assegurou. — Ninguém tem culpa. Bem, o Orihara-kun tem um pouco. Afinal, nada justifica o que ele fez com você. E é obrigação dele se desculpar — acrescentou. — Mas esse não é o ponto. O que eu quero dizer é que tudo que envolve o Orihara-kun, você e sentimentos românticos é complicado para ele.
— Mas o Izaya sempre pareceu tão confiante em tudo... E, antes, tivemos bons momentos juntos.
— Às vezes as pessoas fingem confiança para esconder suas fraquezas, Mai-chan — afirmou. — E, pelo tempo que o conheço, nunca o vi passar por algo assim. Talvez ele demore um pouco para se situar e tomar uma decisão — Shinra parou um momento, dando um sorriso triste. — E você vai ter que estar preparada, pois é o Orihara-kun. Ele pode tomar tanto a melhor decisão, quanto a pior.
— Então esperar é mesmo a única opção que me resta — murmurou.
• • •
Três dias haviam se passado desde aquela discussão entre Mai e Izaya.
Dias que, para o rapaz, se resumiram a uma árdua luta contra sua consciência e coração. E dessa vez não era por causa do arrependimento, ainda que ele o estivesse consumindo, essa dor havia ficado em segundo plano.
Sua luta naquele momento era com a bifurcação que havia encontrado em seu caminho.
Izaya sabia que precisava fazer algo a respeito do que havia acontecido. Por isso, ele pensou. Gastou aquelas três dias tentando achar uma saída e a encontrou. Duas, completamente opostas e conflitantes, com consequências que ele não tinha certeza se poderia suportar.
Sem falar que havia a segunda parte do problema: Mai.
Quando Izaya pensou nela e tentou encaixá-la em sua equação, as coisas ficaram ainda mais complicadas. Porque ele não era capaz de seguir o caminho onde ela não sofreria, e Mai já estava tão machucada...
Ou talvez podia, mas não conseguia aceitar.
Sentado em sua mesa, ele trincou os dentes e apertou os punhos. Odiava não ter o controle sobre a situação e ficar em dúvida. Sentia nojo de si mesmo por isso.
Queria poder pensar friamente e tomar a decisão mais racional, mas nem isso conseguia. Estava perturbado demais com o possível final que tudo aquilo teria.
Por fim, desistindo momentaneamente de chegar a alguma conclusão, virou-se para o seu computador. Precisava esfriar a cabeça e conversar no chat sempre o entretida. Ao conectar-se, viu apenas Aoi e Saika online. E, pelo que parecia, Anri já estava se despedindo.
Por causa dos problemas que estava enfrentando, havia se esquecido completamente daquele colegial patético e seus lamentos.
Perfeito, usaria os draminhas do garoto para melhorar seu humor. Se usasse as palavras certas, tenha certeza que acabaria com a vida miserável do garoto em apenas uma conversa. Talvez conseguisse até achegar ao ponto de repetir o que fez com Rio. E agora não teria Celty para atrapalhá-lo.
Sentindo uma pontada de satisfação, esperou Saika sair, ficando apenas ele e Aoi. Para sua surpresa, o garoto não o chamou. O que não impediu que Izaya o fizesse.
[Private Mode] (Kanra-san): Olá, Aoi-san
[Private Mode] (Kanra-san): Andei meio ocupada e não pude entrar no chat, mas não deixei em momento algum de ficar preocupada com você.
[Private Mode] (Kanra-san): Como estão as coisas?
Mai olhou para as mensagens de Kanra, tomada pelo desanimo. Ela havia passado aqueles três dias cultivando sua melancolia e ansiedade. Sempre começava o dia carregada de expectativas e um pouco de medo, a espera de que Izaya tomasse alguma decisão. Mas toda vez que escurecia, a melancolia a tomava e às vezes chegava a pensar que o rapaz a havia descartado simplesmente. E naquela noite não era diferente. Não queria pensar no assunto, muito menos falar sobre ele. Sabia que, caso o fizesse, podia acabar deixando escapar o que estava contido em seu coração.
[Private Mode] (Aoi-san): Estou bem...
[Private Mode] (Aoi-san): E você, por que sumiu?
[Private Mode] (Kanra-san): Ora, vamos, conte-me se algo mudou entre você e aquela garota.
[Private Mode] (Kanra-san): Eu te ajudei e me importo com você, lembra-se?
[Private Mode] (Kanra-san): Quero saber se está realmente tudo bem com meu amigo!
[Private Mode] (Aoi-san): Kanra-san...
[Private Mode] (Aoi-san): Eu não sei se quero falar sobre isso.
[Private Mode] (Kanra-san): As coisas pioraram tanto assim?
[Private Mode] (Aoi-san): Um pouco.
[Private Mode] (Aoi-san): Talvez muito...
[Private Mode] (Kanra-san): Você seguiu meus conselhos?
[Private Mode] (Aoi-san): Segui, cada um deles.
[Private Mode] (Aoi-san): Fiz tudo que podia.
[Private Mode] (Aoi-san): E mesmo assim, deu tudo errado.
[Private Mode] (Kanra-san): Hmmmmmm....
[Private Mode] (Kanra-san): Bem, Aoi-san, então sinto em lhe dizer, mas você não é bom o suficiente para essa garota.
[Private Mode] (Kanra-san): Acho que no fundo você não deve realmente amá-la, caso contrário, teria conseguido.
[Private Mode] (Aoi-san): O que...?
[Private Mode] (Kanra-san): Pense bem, um amor que fosse de fato verdadeiro e puro, teria conseguido superar todas as barreiras.
[Private Mode] (Kanra-san): E você conseguiu? Acho que não.
[Private Mode] (Kanra-san): O que significa que esse seu amorzinho não passa de um delírio, uma espécie de desordem mental provocada pela carência.
[Private Mode] (Kanra-san): Uma pena... Cheguei mesmo a acreditar em você, Aoi-san.
[Private Mode] (Aoi-san): Você está enganada, Kanra-san!
[Private Mode] (Aoi-san): Retire tudo que disse, agora.
[Private Mode] (Kanra-san): Ah, é, estou?
[Private Mode] (Aoi-san): Meu amor é verdadeiro, sim!
[Private Mode] (Kanra-san): Prove.
[Private Mode] (Aoi-san): O simples fato de eu ter feito tudo por ela prova isso!
[Private Mode] (Aoi-san): Eu me sacrifiquei completamente e deixei que ela me torturasse, só para que se sentisse satisfeito e extravasasse a raiva que sentia.
[Private Mode] (Aoi-san): Me entreguei de corpo e coração, só para que ele soubesse que eu estava lá, que eu queria sua felicidade e que cuidaria dele.
[Private Mode] (Aoi-san): Tentei mostrar que não as coisas poderiam dar certo.
[Private Mode] (Aoi-san): Eu o amei.
[Private Mode] (Aoi-san): Eu amei o Izaya e tentei ser tudo para ele.
[Private Mode] (Aoi-san): Só que não foi o suficiente, mas isso não significa que meus sentimentos não são verdadeiros.
[Private Mode] (Aoi-san): Há coisas em mim que não posso controlar e foi exatamente isso que causou tanta dor nele.
[Private Mode] (Aoi-san): Mas o que eu posso fazer?!
[Private Mode] (Aoi-san): Está além do meu alcance!
[Private Mode] (Aoi-san): Sem falar que eu também não sou de ferro!
[Private Mode] (Aoi-san): Meu coração também está despedaçado e eu já estou sem forças!
Mai estava pronta para digitar outra mensagem, quando congelou.
Não, não, não...
Assustada, ela passou os olhos pelas mensagens que havia enviado desenfreadamente. Só que com aquele comentário, Kanra havia conseguido fazê-la explodir e liberar aquilo que a sufocava. Mas Mai não só havia feito isso, como revelado sua verdadeira identidade e citado o nome de Izaya. E tudo isso sem perceber.
[Private Mode] (Aoi-san): Kanra-san...
[Private Mode] (Aoi-san): O que eu falei agora...
[Private Mode] (Kanra-san): Mai?
Os ombros da garota caíram e, sem reação, ela encarou a mensagem. Segundos se passaram sem que fizesse algo, até ela sentir o celular em sua mão vibrar. Mai deixou-o cair e não fez menção de atendê-lo. Via quem era, mas não conseguia fazer algo.
O celular continuou a vibrar durante alguns segundos e depois parou. Até chamar novamente. Não aguentando, Mai o pegou e atendeu.
— A-alô?
— Aoi-san, suponho — era para ser um comentário sarcástico, mas a voz de Izaya saiu distante e lúgubre.
— Izaya... — ela queria dizer tanto, mas nada parecia sair.
— Tudo o que você disse agora a pouco é verdade, não é? — ele perguntou, surpreendendo-a. — Você fez tudo aquilo por mim. Você me ama.
— Sim, eu te amo — concordou com a voz trêmula. — Mas...
— Você também quer ser amada — completou.
— Eu estou sem forças... — confessou. — E magoada. Meu coração dói tanto...
— Eu sei. E foi tudo por minha causa. Você sempre se machuca por mim — ele falou com a voz séria. — Infelizmente eu não sou capaz de curar suas feridas e retribuir seu amor. Para fazer isso, eu teria que me tonar vulnerável e ficar cara-a-cara com meus medos. E eu não posso fazer isso.
Houve uma pausa.
— Sabe, eu poderia trazê-la de volta — continuou. — Poderia colocá-la ao meu lado, mas você sofreria da mesma forma que antes. Não haveria carinho ou alegria, você seria para mim um mero objeto.
— O que... Izaya? — Mai estava confusa. Izaya estava estranho; distante, serio demais, quase melancólico.
— Por mais que eu queria você de volta, e essa opção me pareça tentadora, não posso fazer isso com você de novo — interrompeu-a. — Pensei muito sobre isso e acho que você merece uma vida melhor... Longe de mim.
Mai então começou a perceber o caminho que a conversa estava a tomando. E não conseguia acreditar.
— Pode parecer que estou de descartando, mas não é isso. Estou tomando essa decisão, indo contra tudo que sou, justamente por ter percebido que você a única pessoa que preso. Por mais que não pareça, é uma forma demonstrar carinho e gratidão: deixar você livre de mim.
A colegial continuou em silêncio. Pensou em mil argumentos. Queria ficar com Izaya, mas viver daquele jeito novamente... Seria ruim para os dois, pois pelas palavras dele, soava como se para o rapaz também doesse tratá-la daquele jeito e não conseguir demonstrar seus sentimentos. Era difícil para os dois, por mais que quisessem ficar juntos, ambos sofreriam com isso.
Amar dói, pensou.
— E você vai ficar bem, Izaya? — perguntou, mesmo que doesse, a aceitação correu pelo seu peito. — Mesmo que eu não esteja ao seu lado, quero que seja feliz. Por isso, não sofra mais pelo que aconteceu entre nós dois. Esqueça tudo isso. Me esqueça. Mesmo que em caminhos diferentes, vamos tentar ser felizes.
— Você está fazendo de novo. — observou. — Tente pensar um pouco em si mesma de vez em quando.
— Desculpe.
Silêncio novamente.
— Vou sentir sua falta, Izaya — disse a garota com pesar. Ela respirou fundo, sentindo-se fraquejar. — Nada do que eu disser vai te convencer do contrário? — suplicou.
— Sua vontade de estar ao meu lado me comove — ele riu sem humor. — Não, essa decisão, ainda que dolorosa, é a melhor. E eu também vou sentir sua falta.
— Você escolheu um péssimo comento para ser bonzinho comigo...
— Não seja cruel logo agora que estou sendo gentil — ele parou e Mai pôde ouvi-lo respirar fundo do outro lado da linha. — Bem, acho que é hora de dizer adeus.
— E-espera!
— O que foi?
— Continue a conversar comigo — pediu. — Só mais um tempinho.
— Tudo bem.
Um pouco sem jeito, os dois começaram a conversar. Nada com relação ao assunto anterior, apenas conversas banais. Comentários aleatórios, o que fariam nos próximos dias e até pequenos conselhos.
Falaram por horas, mas nem perceberam. Mas a cada palavra dita, Mai sentia-se afundar em um poço sombrio e sufocante, seu coração doía e seus olhos começaram a marejar.
Por fim, quando já não podia mais suportar isso, disse:
— Boa noite, Izaya.
— Boa noite, Mai.
E ambos desligaram.
Memory Twenty One Finalized
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