Memories

30 Memory Twenty Nine


Notas iniciais
Quanto tempo, ein, gente? Nossa, acho que quase dois meses e-e Novamente, lamento pelo atraso. Como sempre, tive uma crise de criatividade, porém acho que o principal motivo foi que minhas aulas na faculdade começaram. Infelizmente esse semestre estou estudando de tarde (não foi minha escolha), um horário que está cagando com a minha vida. Por causa dele, meus horários estão bagunçados e eu não estou tendo tempo de escrever muito durante a semana. É um saco, sem falar de outros dilemas que tem me deixado de mal humor e sem animo para escrever. Bem, basicamente é isso. Agora vamos a fanfic. Preciso dizer que sinto a necessidade de dedicar esse capítulo à várias pessoas gentis que me ajudaram durante esses dias. Entretanto, para ser especial, vai ser uma pessoa por capítulo. Então, esse aqui é dedicado a Yuki Datenshi! Muitíssimo obrigada por ter me ajudando com esse capítulo, dando sua opinião e pacientemente lendo meus pequenos trechos. Onee-sama agradece de coração Por último, eu mudei a sinopse. Agora ela está bem melhor, mais condizente com a ideia da fanfic e cheia de spoilers, deem uma olhada. Bom, agora podem ler. Espero que gostem ~

Memories

Memory Twenty Nine

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“Tem certeza de que não quer uma carona?”, Celty perguntou. “Posso levá-la para casa assim que deixar a Mika-chan na dela, enquanto isso você espera com o Shinra”

— Está tudo bem, Celty — Mai sorriu. — Izaya não está no escritório agora e eu estou à toa, quero dar uma volta por ai para matar o tempo.

“Bem, se é assim… Mas não fique até muito trade na rua, ouviu? É perigoso”, advertiu maternalmente. “Nos vemos depois”

— Até a próxima aula, Mai-chan! — Despediu-se animadamente Harima Mika, sentada na garupa da moto de Celty.

— Até ~ — devolveu.

A motoqueira então fez sua moto relinchar e logo em seguida acelerou, afastando-se da jovem. Mai ainda continuou parada no mesmo lugar por vários segundos, até a imagem das duas sumir de vista, para depois fazer o mesmo e deixar a entrada do prédio onde Celty e Shinra moravam.

A passos distraídos, a colegial caminhava pela cidade com a mente vagando em devaneios. Primeiro pensou sobre as divertidas aulas de culinária que tinha com Celty e Mika e na quantidade de novos pratos que estava aprendendo. Isso a fazia se sentir ansiosa, pois queria logo poder prepará-los junto de Izaya e ver a reação do mesmo ao prová-los. Era prazeroso imaginar-se em tal situação e enchia-se de alegria com a possibilidade de ser elogiada pelo rapaz pelo feito.

— Talvez essa noite possamos tentar fazer ochazuke — falou consigo mesma. — Tem salmão, chá-verde, wasabi…

Assim que virou uma rua, Mai foi lentamente se desprendendo de suas divagações ao perceber que inconscientemente havia se dirigido para a aquele mesmo parquinho cheio de brinquedos coloridos que tanto gostava. Era fim de tarde e o local estava cheio de crianças se divertindo alegremente, acompanhadas pelos pais, que os observavam dos bancos de madeira.

Apesar da maioria dos brinquedos estar cheia, a jovem não conseguia simplesmente passar direto e seguir seu caminho. Amava aquele lugar e a simples experiência de passar alguns minutos ali, contemplando a paisagem a sua volta, já lhe trazia alegria. E foi por isso que Mai abandonou seu passeio despretensioso e caminhou até a pracinha, escolhendo um banco vazia para se acomodar.

Inspirando longamente o ar frio, a jovem varreu com os olhos tudo aquilo que a rodeava. Observou as árvores que já estavam quase completamente nuas, o chão repleto de folhas alaranjadas e vermelhas, os alegres brinquedos pintados com as cores do arco-íris, os canteiros que outrora estavam repletos de flores e até o céu nublado que quase não deixava a mostra o sol que começava a se por.

Mai não sabia explicar, mas havia algo naquele lugar que a atraia e a fazia sentir uma mistura curiosa de emoções. Às vezes era uma pura e genuína felicidade, igual a que experimentava quando estava com o informante. Em outros momentos, a nostalgia tocava seu peito, que parecia implorar para que tentasse resgatar as páginas perdidas de seu passado. E, em algumas ocasiões, uma profunda tristeza a abatia, como se subitamente tudo que mais amava lhe tivesse sido arrancado, sobrando apenas solidão.

Era uma confusão de sentimentos que muitas vezes ela não conseguia compreender o que significava ou de onde vinha. Entretanto, sendo boas ou ruins a sensações que experimentava, Mai gostava e aceitava todas elas. Algo em seu coração lhe dizia que eram coisas muito importantes e que faziam pare de si, que ignorá-las era como abdicar de uma parte de si mesma.

Era por isso que amava aquele lugar. Porque ele parecia deixá-la mais próxima de coisas que um dia perdeu e a fazia sentir-se ligada com o verdadeiro significado de sua existência. Essa que, para Mai, ainda era um completo e assustador mistério, que no fundo ela temia desvendar.

— Com licença, tem alguém sentado aqui?

Um pouco sobressaltada, Mai olhou para o lado, vendo uma moça parada próxima ao banco em que estava.

— Desculpe o incomodo — ela disse sem graça, porém, ao mesmo tempo, tentando sorrir gentilmente. —, mas não há mais lugar nenhum livre.

Mai não conseguiu responder de primeira. A mulher a sua frente era realmente bonita. Tinha um rosto delicado, olhos verdes e um sedoso cabelo cacheado, que ia até os ombros. Todavia, não foi isso que chamou a atenção da jovem e a fez subitamente desviar seus olhos dela com o rosto ruborizado.

— E-eu é quem peço desculpas… — a menor gaguejou, pegando desajeitadamente sua pasta que ocupava o outro lugar no banco e colocando-a sobre o seu colo. — Fique a-a vontade.

— Obrigada — a moça devolveu amavelmente.

Com o corpo rijo, Mai acomodou-se ereta no banco, apertando a pasta contra o peito e olhando fixamente para frente. Sentindo a mulher sentar-se ao seu lado, ficou ainda mais tensa, lutando contra a vontade de lhe dirigir o olhar.

Entretanto, após poucos minutos se passarem, Mai acabou cedendo. Hesitante, ela espiou a recém-chegada pelo canto dos olhos, logo voltando-se rapidamente para frente instantes depois. Numa segunda tentativa, ela tornou a observá-la de soslaio, porém por um pouco mais de tempo, o suficiente para que pudesse analisar a barriga da moça, inchada pelos primeiros meses de gravidez. Quando terminou de estudá-la, levantou os olhos para o rosto da mulher, que agora também a encarava.

Assustada e com sentindo-se enrubescer, Mai virou-se para frente e fitou os próprios pés, embaraçada e com os ombros caídos.

Ao seu lado, ela ouviu a moça soltar uma risada baixa.

— Qual o seu nome? — Ela perguntou.

— O-Orihara Mai.

— Posso te chamar de Mai-san? — Continuou.

— Claro…

— É um prazer conhecê-la, Mai-san. Eu me chamo Kazuo Fuyuki e essa aqui… — ela estendeu o braço até a menor e pegou sua mão, colocando-a delicadamente sobre sua barriga. — É a Mana-chan.

Surpresa, a jovem voltou-se para a mulher, contemplando-a com os olhos arregalados.

— E-eu… — ela tentou dizer, embaralhando-se nas palavras.

— Não precisa ter vergonha — Fuyuki sorriu. — Gosto quando fazem perguntas ou pedem para senti-la.

Um pouco sem jeito, mas, ao mesmo tempo, com delicadeza, Mai apalpou e massageou a barriga da moça, quase não respirando durante o processo, devido ao tamanho fascínio que sentia. Presenciar algo como uma gravidez a deixava deslumbrada e fazia seu coração bater descompassadamente, quase fazendo-a ofegar.

— Quando… Quando você poderá tê-la em seus braços?

— Bem… — Fuyuki parou para pensar um pouco. — Ela está com cinco meses, por isso, se tudo der certo, no final do inverno poderei finalmente conhecer a Mana-chan.

Depois da sua resposta, Mai ficou em silêncio, olhando continuamente para a barriga dela. Após longos minutos, com Fuyuki permitindo pacientemente que a menor saciasse sua curiosidade, ela se afastou.

— Como é…

A colegial vacilou, olhando para o próprio colo com a cabeça abaixada. Ela respirou fundo várias vezes, até juntar coragem suficiente para encarar a moça.

— Como é estar grávida? — Perguntou finalmente.

O questionamento pareceu pegar Fuyuki de surpresa, que inicialmente não conseguiu lhe dar uma resposta. Mas então ela sorriu com sinceridade e levou as mãos até a própria barriga.

— É uma experiência incrível — respondeu. — Confesso, é também um pouco assustador. Às vezes eu me sinto insegura e me pergunto se serei uma boa mãe, se vou ser capaz de dar a essa criança uma vida feliz. Porém, esses medos são pequenos demais se comparados com a felicidade que sinto por estar carregando dentro de mim um bebezinho. Quando eu penso na Mana-chan, todas essas preocupações somem e dão lugar ao amor que sinto por ela. E então, ao invés de ter receio, eu fico ansiosa para conhecê-la e tê-la em meus braços.

Fuyuki parou e depois riu sem graça.

— Bem, é isso — disse por fim.

Mai não a respondeu ou teceu qualquer comentário, mantinha-se calada, fitando a mulher e o bebê que carregava no ventre completamente maravilhada.

— Então é realmente possível sentir esse tipo de coisa… — sussurrou, quase como se tivesse acabado de chegar a maior conclusão de sua vida.

— O que disse?

— Ah, nada! — A jovem respondeu rápido, com o rosto corado.

Fuyuki não pareceu acreditar, porém, antes que pudesse dizer algo, ela avistou uma pessoa do lado de fora da praça que acenava em sua direção.

— Oh, meu marido chegou — falou ao reconhecer quem era. — Preciso ir. Foi um prazer conhecê-la, Mai-san.

— Digo o mesmo — ela sorriu, ajudando-a a se levantar.

Acenando, Mai viu a moça se afastar e ir de encontro ao seu esposo. Assim que ambos lhe deram as costas e foram embora, o sorriso da jovem sumiu. Seus olhos, antes alegres e empolgados, foram aos poucos perdendo o brilho, até ficarem opacos e sem vida, refletindo nada mais do que tristeza.

Deixando um suspiro trêmulo escapar, ela involuntariamente levou suas mãos ao ventre.

Eu não devia ter perguntando e muito menos estar pensando novamente nesse assunto, ela repreendeu a si mesma, abatida. Isso é algo que não está ao nosso alcance e eu não posso ficar considerando essa possibilidade. Mesmo que…

Obrigando-se a engolir toda a sua dor e empurrando aquele assunto para um canto escuro e secreto de seu peito, Mai voltou para o banco e pegou sua pasta. Estava a caminho de deixar o parquinho, quando ouviu seu celular tocar.

Ainda sem parar de andar, ela o tirou do bolso e leu o que estava escrito no visor. Era Izaya.

— O que foi? — Ela falou ao atender, arregalando os olhos ao perceber que havia se esquecido de mascarar seu tom de voz desanimado e escolhido mal suas palavras.

Assustada e perdida, Mai não conseguiu pensar em nada para dizer. Até chegou a considerar desligar o telefone, mas acabou não o fazendo ao notar que o outro lado da linha estava igualmente silencioso.

— I-Izaya…? — Chamou receosa.

— Mai-chan! ~ ♥

— O-olá… — ela cumprimentou um pouco sem jeito, mas suspirando internamente de alívio por ele não ter notado nada.

— Diga-me, Mai-chan, você já saiu de sua aula de culinária? — Perguntou.

— Agora a pouco.

— Ótimo — ele disse. — Em vez de voltar para o escritório, venha me encontrar na rua do Teatro, estarei te esperando próximo ao cinema, ok?

— Certo — ela assentiu, um pouco curiosa. — Algum motivo especial para isso? Lembro-me de ouvir você comentar que ia trabalhar o dia todo…

— Hmmm… Falando desse jeito, parece até que não quer me ver — Izaya reclamou, forçando um tom magoado. — Talvez eu esteja simplesmente te convidando para sair porque no fundo eu estou com ciúmes do tempo que você tem passado com a Celty e o Shinra e agora quero você todinha para mim.

Mai riu, mas também sentindo-se corar levemente.

— Tudo bem — disse. — Já estou indo te encontrar.

Após desligar, ela respirou fundo e sorriu, percebendo como apenas conversar com Izaya pelo telefone havia ajudado a se sentir um pouco melhor.

• • •

O sol ainda não havia sumido na linha do horizonte, mas devido as espeças e carregadas nuvens cinzentas que haviam tomado conta do céu da cidade, o dia se encontrava mais escuro que o normal.

Andando lado a lado e de mãos dadas, Mai e Izaya caminhavam pela região comercial de Ikebukuro.

— Para onde estamos indo? — Ela perguntou.

— Quando chegarmos lá, você verá — devolveu. — Sabe, Mai-chan, depois da visita dos meus pai eu comecei a pensar em algumas coisas e a planejar outras… E hoje decidi que já era hora de começar a dar início aos meus planejamentos e colocá-los em prática.

— É mesmo? — A jovem o olhou curiosa. — E o que seriam esses tais “planos”?

— Bem, eu ia dizer novamente “você verá”, mas parece que já chegamos.

Izaya parou de andar e a jovem também. Interessada, ela olhou em volta, notando que estavam de frente para uma enorme livraria. Através da larga fachada de vidro, Mai pôde ver incontáveis estantes se erguendo dentro da loja, abarrotadas dos mais variados tipos de livros e formando corredores.

Puxando a menor, o rapaz adentrou na loja, fazendo um pequeno sino soar ao abrirem a porta.

— Será que eu posso ajudá-los? — Uma jovem vestindo um avental verde-escuro com o nome da loja perguntou ao se aproximar.

— Claro — respondeu Izaya, colocando a mão no ombro de Mai. — Essa aqui é a Mai, ela adora desenhar e é excelente no que faz. No entanto, está precisando renovar seus materiais. Por isso, quero que você encontre para ela tudo que precisa para continuar praticando seu pequeno hobby. Por favor, materiais de qualidade e bem completos, ok?

— Será um prazer ajudá-la — devolveu a atendente, que depois se virou para a menor. — A papelaria fica um pouco mais ao fundo da loja, me acompanhe, por favor.

Confusa, Mai olhou para a moça e depois para Izaya.

— Faz parte dos meus planejamentos. Você logo vai entender — ele explicou com um dar de ombros. — Não precisa se acanhar, pegue tudo que lhe parecer interessante, dinheiro não é problema. Enquanto isso, vou ficar por aqui olhando outras coisas.

Mesmo sem entendê-lo completamente, a jovem assentiu, se deixando ser guiada pela atendente.

Acenando para ela, o informante seguiu seu próprio caminho, aventurando-se no labirinto de estantes e passando os olhos pelas lombadas dos livros.

Essa era outra parte de seu plano. Izaya sabia que Mai gostava muito de ler, pois era comum vê-la toda semana com um livro diferente da biblioteca da escola ou então pegá-la folheando com curiosidade os que guardava em seu escritório, sem falar que sua matéria favorita era literatura. Infelizmente, esse era um fato que ele próprio havia descoberto por si mesmo, já que a mesma nunca comentava sobre seus gostos com ele ou lhe pedia para comprar algum livro.

E era pensando nisso tudo que estava ali, queria mostrá-la que estava interessado em conhecer seus gostos e interesses, pronto para motivá-la a praticá-los.

Lendo lentamente os títulos que encontrava no meio do caminho, considerando o gosto eclético da jovem e sua personalidade, Izaya começou a selecionar os livros que acreditava que Mai iria gostar.

Quando finalmente terminou, havia uma grande pilha ao seu lado, composta dos mais variados gêneros e estilos. Sua nem tão modesta compra ia de títulos como A Divina Comédia e Shakespeare, a 20 Mil Léguas Submarinas e Alice no País das Maravilhas e mesclando-se com coisas ao estilo de Admirável Novo Mundo, Senhos dos Anéis e Os Irmãos Karamazov.

Completamente satisfeito com o que tinha, chamou outro atendente e pediu para que levasse a pilha de livros para o balcão do caixa. Chegando lá, viu Mai e a moça que os recebera se aproximando, ambas carregavam cestas de compras cheias de materiais para desenho.

— Izaya… — Ela murmurou, um tanto sem graça. — Tem certeza de que está realente tudo bem em comprar todas essas coisas pra mim? Quer dizer… Você não precisa se incomodar, eu…

— Assim você me magoa, Mai-chan — ele interrompeu. — Vim até aqui especialmente para lhe dar esses presentes e você faz essa desfeita comigo? Até me dei ao trabalho de escolher todos esses livros para você.

— I-isso tudo também é para mim?!

— Obviamente.

O informante sorriu, percebendo que mesmo embaraçada, havia um brilho de felicidade e expectativa em seus olhos.

— Muito bem — falou, pegando o cesto das mãos da jovem. — Hora de pagar.

• • •

— Você realmente me pegou de surpresa com tudo isso, Izaya.

Andando ao lado do rapaz pela rua, seguindo em direção ao escritório, Mai abaixou os olhos para a grande sacola de compras que segurava. Lápis de desenho de todas as espessuras, coleções de canetas naquim, tintas, pincéis, estojo de giz, boneco articulado, caixas de lápis de cor, cadernos de desenho e rascunhos, canetas coloridas, aquarelas, canetas de bico de pena e muito mais faziam parte do grande presente que recebera de Izaya. Isso, sem falar nos quase trinta livros que ele também havia lhe comprado. Era tanta coisa, que a deixava sem jeito. Mas ao mesmo tempo a fazia sorrir, enchendo seu coração de uma gentil gratidão.

— Mas você gostou? — Ele quis saber.

— Muito! — Respondeu prontamente. — Mal posso esperar para ler meus livros novos e voltar a desenhar!

Izaya riu com a empolgação da jovem e passou a mão em sua cabeça, até sentir o celular em seu bolso vibrar.

— Opa — falou, pegando-o e olhando o visor. — Hm, trabalho.

Próximo a uma floricultura, o rapaz parou de andar, colocando a sacola que carregava no chão, recostada a parede externa da loja.

— Espere aqui — pediu. — Irei resolver isso num instante.

Após Mai assentir, ele se afastou dela e atravessou a rua, logo em seguida atendendo ao telefonema. Não era nada importante ou urgente, no entanto, o rapaz não queria mais interrupções atrapalhando seu dia com Mai.

Conversando durante vinte minutos com um de seus clientes, o informante terminou sua negociação e finalizou a ligação. Desligando seu celular, guardou-o novamente no bolso de seu sobretudo e olhou para a jovem parada do outro lado da rua aguardando-o pacientemente.

Parada ao lado daquele floricultura, Mai segurava delicadamente uma flor branca entre seus dedos, mantendo-a próxima de seu nariz e apreciando seu aroma. A visão dela o fez sorrir involuntariamente e seu coração bater de um jeito diferente.

Tão linda.

Entretanto, na medida em que os segundos passavam, um sentimento diferente começou a tomar conta do rapaz. Uma estranha nostalgia, somada a uma angustiante saudade alastraram-se em seu peito, fazendo-o sentir-se triste e sozinho. Era como se algo, que Izaya muito desejava, estivesse chamando por ele, mas que estava tão longe, que era impossível alcançá-lo.

Izaya não sabia dizer o porquê, mas aquela imagem de Mai lhe pareceu estranhamente familiar, mas, ao mesmo tempo, distante.

Sentindo como se a própria garota fosse se afastar dele e se perder para sempre, o informante atravessou a rua, um tanto apressado, e se aproximou dela.

— Mai.

Ele a segurou pelos ombros e a virou, para que olhassem em seus olhos.

— O que foi? — Perguntou, ligeiramente assustada.

O mais velho não a respondeu de imediato, encarando-a longamente, como se estivesse checando se ela ainda estava ali e não iria desaparecer. Todavia, ao perceber seu próprio comportamento, hesitou. Largando-a, ele deu uma passo para trás e se desviou dela.

— Desculpe — falou.

O informante balançou a cabeça, espantando aqueles pensamentos, e depois se abaixou para pegar as sacolas de livros. Ele então voltou-se para a Mai, que o olhava preocupada, e forçou um sorriso.

— Não se preocupe, está tudo bem — falou, começando a andar. — Estava apenas checando se você continua fofa. Por sinal, onde arranjou essa flor?

Um pouco confusa, a menor a acompanhou.

— … A moça da loja me deu — respondeu, notando que o rapaz a espiava pelo canto dos olhos. — Disse que havia sobrado de um arranjo e perguntou se eu queria ficar com ela.

— Hm, compreendo — comentou, parecendo pensativo. — Ah, esqueci dizer… Sabe, nossa ida a livraria não é a única surpresa do dia.

— Não?!

— Claro que não. Mas você só vai saber o que é quando chegarmos ao escritório.

— Mal posso esperar!

Rindo da expectativa quase infantil dela, Izaya continuou seu caminho, tentando ignorar com todas as forças aquela estranha e desagradável sensação que o acometera.

Junto com a imagem de uma criança parada em meio a uma praça segurando uma flor branca.

• • •

— E então, o que achou?

— I-isso é para mim? — Ela perguntou.

— Claro que é.

— Mas… Mas não vai te atrapalhar? — Insistiu.

Izaya soltou uma risada, parecendo o quanto a jovem parecia sem graça com o presente.

— Não, ter você ao meu lado não me atrapalha — assegurou com convicção. — Muito pelo contrário. Agora, vamos, experimente.

Um tanto tocada e emocionada com o gesto do rapaz, Mai circulou a escrivaninha de madeira escura, do mesmo tom que as estantes do escritório, que Izaya havia lhe comprado e colocado bem ao lado da sua própria. A superfície polida era espaçosa e comodava uma lamparina junto de um porta-lápis. Por dentro, em uma das laterais, havia uma coluna com quatro gavetas e mais outra por baixo do tampo de madeira.

Ainda um pouco hesitante, Mai arrastou a cadeira de rodinhas que a acompanhava e se sentou. Seus olhos azuis, que pareciam brilhar, observaram fascinados cada detalhe da nova mobília.

— E-eu… — ela tentou.

Izaya apenas sorriu, pegando a sacola com os materiais de desenho dela e colocando-a a sua frente.

— Hora de arrumar suas cosias. É sempre importante manter a mesa onde se trabalha arrumada — incentivou, depois acenando para as estantes que ocupavam a lateral do escritório. — Depois faremos o mesmo com seus livros.

A jovem olhou na mesma direção, notando que várias prateleiras, antes cheias de livros, estavam vazias.

— Levei os que ficavam ali para o arquivo no andar de cima — explicou-se.

— Izaya, eu…

— Ah, não, não — interrompeu-a com um gesto teatral. — Não precisa me agradecer, ok? Não pense em todas essas coisas como se fossem um favor que estou lhe fazendo. Levei-a até a livraria e comprei todas essas coisas porque queria fazê-la feliz e vê-la se divertir com as coisas que gosta de fazer.

Mai sentiu o rosto esquentar, e até chegou a querer chorar, mas segurou suas lágrimas e deu um sorriso tímido, porém sincero, ao rapaz.

— Você é o melhor, Izaya — falou com carinho.

Sentindo-se meio sem graça, e se repreendendo por isso, o rapaz desviou seus olhos dela e lhe deu as costas, caminhando até sua própria mesa.

— Mas também confesso que estava com segundas intenções — comentou, tentando fingir um tom casual. — Achei que, ao lhe dar todas essas coisas, eu poderia conhecer um pouco mais sobre as coisas que gosta. Sem falar que eu gostaria de ver seus desenhos.

— Pode deixar — ela começou, tirando o caderno de desenhos da sacola e trazendo-o para perto de si. — Irei fazer muitos desenhos e te mostrar todos eles. Também vou ler todos os livros que me deu e conversar sobre eles com você. Mas, acima de tudo, vou cuidar com muito carinho de todos esses presentes.

Sob olhar atento de Izaya, Mai então começou a organizar seus materiais pela escrivaninha, distribuindo alguns sobre o tampo e guardando o resto nas gavetas. Quando acabou, ergueu-se da cadeira e seguiu junto do mais velho até as estantes, para organizarem juntos os livros que haviam trazido para casa.

— Ufa, acabamos ~ — Mai falou satisfeita, encaixando Lolita no último espaço vago. — Agora está tudo arrumadinho.

— Ei, Mai, posso te perguntar uma coisa? — O informante pediu ao seu lado, mantendo o olhar fixo na estante.

— Pode — ela respondeu.

Todavia, Izaya não disse nada de imediato. Ao invés disso, ele se afastou e caminhou em direção ao conjunto de sofás, contornando-os e sentando no kotatsu.

Curiosa, Mai foi atrás dele, notando que também havia algo de diferente ali. Ainda era uma mesinha baixa, porém de um modelo novo. Após observar alguns segundos, percebeu que se tratava de um kotatsu de inverno, ao que parecia, também comprado por Izaya. Em vez de só as estruturas de madeira, agora havia junto um grosso e macio cobertor cinza claro espalhando-se em volta do móvel, longo o bastante para as pessoas que se sentasse pudessem se cobrir, prendendo-se entre os pezinhos baixos e o tampo.

— Sim, eu comprei junto com a sua mesa. Está frio por aqui e achei que seria uma boa ideia ter algo confortável e que nos aqueça — Izaya explicou, levantando uma das pontas da coberta, para que ela se sentasse ao seu lado. — Venha.

Acenando, a menor se acomodou próximo a ele, cobrindo-se com o edredom fofo. De fato, era muito confortável e quente.

— O que queria me perguntar?

Izaya pareceu momentaneamente pensativo.

— Você gosta do escritório, Mai? — Quis saber por fim.

— Claro!

— Mas se eu te dissesse que você pode ir morar em um lugar maior e mais agradável?

Mai inclinou a cabeça, encarando Izaya com um olhar curioso.

— O que você quer dizer com isso?

O mais velho suspirou, conçando a nuca.

— O que acha de nos mudarmos daqui?

— Sair… Do escritório?

— Isso.

Um tanto surpresa, a jovem olhou a sua volta, pensando na ideia de abandonar aquele lugar.

— Eu ainda manteria o escritório, pois é o lugar onde trabalho — ele começou a explicar, subitamente sério. — Mas nossa casa não seria mais aqui.

— E para onde iríamos? — Ela quis saber.

— Para um lugar maior e mais confortável, que se pareça de fato com um lar. Quem sabe um apartamento grande, em uma área tranquila de Ikebukuro, com grandes quartos, uma biblioteca só para você e uma grande varanda com vista. Eu poderia tentar achar um lugar próximo àquela pracinha e você teria a chance de decorá-lo como quiser. O que acha?

A menor o observou em silêncio, analisando suas palavras.

— Izaya, por acaso… Me ter vivendo no mesmo lugar em que você trabalha está te incomodando?

O informante arregalou os olhos, incrédulo.

— O que? De onde você tirou isso? Eu nunca… — ele foi parando de falar ao notar que a jovem tinha um sorriso divertido nos lábios.

— Foi só uma brincadeirinha — tranquilizou-o, rindo com delicadeza. — Eu entendi o que me propôs. Você pensando em mim e na minha felicidade, não é? É por isso que me deu todas essas coisas e agora está me oferecendo um novo lugar para morar, porque quer que eu tenha uma vida feliz e tranquila ao seu lado. Sabe, eu realmente te agradeço por isso e por estar cuidando tão bem de mim, mas eu gostaria de continuar aqui.

Surpreso, Izaya não soube o que dizer, conseguindo apenas encarar aqueles olhos azuis que o fitavam com sinceridade.

— Além de você, as únicas coias que tenho para me apegar são as memórias que criamos juntos. E esse escritório é uma peça importante que compões esses momentos que guardo comigo. Por isso, se não for um problema, eu gostaria de continuar aqui.

— Hm, que resposta inesperada, Mai-chan — falou Izaya, recuperando sua postura. — Mas se é isso que você quer, então está tudo bem. Acho que é até melhor para mim, assim teremos mais tempo para namorar ~

— Izaya…

— De qualquer forma, estamos com um cômodo vago, por isso, sinta-se livre para transformá-lo no que quiser.

— Lá poderia ser…!

Mai então parou subitamente de falar e cobriu a boca com a mão, ficando incrivelmente vermelha.

— Poderia ser…? — Izaya estimulou, olhando-a de forma desconfiada.

— N-nada… — respondeu constrangida. — Vamos subir? Eu já estou com sono.

O informante suspirou e deu de ombros, fingindo esquecer o assunto.

— Como quiser.

Após terminarem a conversa, ambos subiram para o andar de cima. Izaya foi o primeiro a tomar banho – chegando a convidar Mai para ir junto, que fingiu não ouvi-lo – e depois foi a vez da jovem. Enquanto a esperava, o informante sentou-se na beirada da cama e começou a mexer distraidamente em seu celular.

— I ~za ~ ya ~

Antes que pudesse se virar, ele sentou-se sendo abraçado por trás.

— Ora, ora, o que temos aqui? — Falou, largando o celular sobre o criado-mudo e sentindo os braços da menor em volta de seu pescoço.

Com um sorriso, Mai levou os lábios ao ouvido do rapaz.

— Sabe, Izaya, eu estava pensando… Você fez tanto por mim hoje — sussurrou de forma manhosa. — Na verdade, desde que voltamos a ficar juntos e nos casamos, você tem cuidado tão bem de mim. Pensar nisso faz meu coração acelerar e me deixa morrendo de vontade de te mostrar o quanto eu te amo e sou grata a você.

Após terminar de falar, Mai pressionou mais seu corpo contra o dele e roçou lentamente seus lábios contra o pescoço do mais velho, deixando pelo caminho alguns beijos.

— Bem — ele abriu um sorriso fino e malicioso. —, se é assim, sinta-se completamente livre para me usar para saciar seus desejos.

Rindo baixinho, a jovem o soltou, dando ao rapaz a liberdade de se mexer para que pudesse se deixar sobre o colchão. Assim que Izaya terminou de se acomodar, Mai colocou-se sobre ele.

Os olhos vermelhos do informante, já acostumados com a escuridão do quarto, analisaram longamente e com deleite o corpo que tinha cima de si. Mai, que acabara de tomar banho, havia trocado seu uniforme por uma camisola branca e um tanto transparente, que delineava suas curvas e com um decote de rendas que amolduravam belamente seus seios, cujas alças caiam pelos seus ombros brancos. Já em seu rosto, pequeno e infantil, havia um sorriso apaixonado e amoroso e seus olhos azuis brilhavam de desejo.

— Hmm, e então, o que pretende fazer? — ele provocou, ansioso.

— Tão apressado… — ela riu, pegando a mão do mais velho e levando ao seu seio esquerdo — Não se preocupe, essa noite irei lhe mostrar tudo que guardo aqui e o que mais você desejar de mim.

— Se é assim, será uma noite bem longa — disse. — Sei muito bem que tem muito amor ai. E eu o quero por completo.

— E você terá — sorriu, aproximando seus lábios do dele. — Tudo.

• • •

Foi um estrondo ensurdecedor de um trovão que o arrancou de seus sonhos.

Ainda um pouco sonolento e perdido, Izaya se remexeu entre as cobertas e se virou para o lado esquerdo da cama, na tentativa de alcançar Mai e se enroscar nela. Entretanto, ao apalpar o outro lado do colchão, nada achou.

— Mai…? — Chamou preguiçosamente, abrindo um pouco os olhos, que ainda não haviam se acostumado com a escuridão.

Após alguns segundos, tempo necessário para se sentir completamente desperto, o rapaz se sentou na cama e olhou o quarto a sua volta. Não havia ninguém ali além dele e do barulho da chuva que se revoltava do lado de fora.

Procurando suas calças de moletom em meio as cobertas e vestindo-a, o informante saiu da cama e foi até a porta. Após deixar o quarto, atravessou o corredor e parou no começo das escadas. Por cima do corrimão, ele conseguiu ver Mai, que ainda não o havia notado, sentada no kotatsu do escritório.

Soltando um suspiro, ele começou a descer, tendo seu caminho vez ou outra iluminado por um relâmpago.

— Então de fato havia algo de errado com você — falou, fazendo sua voz ecoar por todo o recinto e assustando Mai.

— Izaya?! — Exclamou, fitando-o com os olhos arregalados. — A-achei… Achei que estivesse dormindo…

— E estava, você realmente conseguiu me deixar exausto — ele riu, com uma pontada de malícia em seu tom, caminhando até a jovem. — E, sinceramente, achei que havia conseguido o mesmo feito com você, mas parece que não.

Sem jeito, ela desviou-se dele e encolheu no lugar, abraçando os próprios joelhos.

— Eu apenas perdi o sono… — mentiu.

— Será mesmo? — Ele provocou. — Porque, pela sua expressão, parece que há algo que será escondendo de mim.

Não recebendo uma resposta, Izaya soltou outro suspiro, indo até ela e sentando ao seu lado. Em vez de continuar pressionando-a, ele também se manteve em silêncio, observando-a enquanto tentava desvendar o segredo que guardava. Por vários minutos, o único som presente no escritório era o da chuva.

— Naquela hora em que te liguei, você me pareceu um pouco estranha — falou de forma mansa, porém séria. — E depois quando nos encontramos, a todo momento eu tive a impressão de que você queria me pedir algo. Por que não me diz o que é, Mai? Eu quero saber. Se for realmente algo que quer me pedir, terei o prazer em lhe dar.

— Eu não posso… — Mai sussurrou. — E nem deveria.

— Vamos, Mai, não esconda nada de mim.

— Mas…

Izaya segurou o rosto da jovem, fazendo-a encará-la.

— Me diga.

Encarando-o daquela forma, a menor sentiu seus medos e incertezas sendo combatidos por aquele olhar tão seguro e protetor do rapaz. Ainda que insegura e nervosa, Mai juntou toda a coragem que tinha e engatinhou até o informante. Quando ela parou, estava praticamente acomodada em seu colo e com o rosto tão próximo ao dele, que era possível sentir sua respiração.

Tal proximidade, deu ao rapaz a chance de analisar melhor as feições dela, antes escondidas pela escuridão, e o que ele conseguiu ver o deixou completamente surpreso.

Nos olhos azuis da jovem, havia um brilho inocente e suplicante e seu rosto pequeno estava ruborizado. Entretanto, aquele embaraço não era oriundo de sua costumeira timidez ou da perspectiva de ter Izaya fazendo algum comentário malicioso em resposta ao seu pedido. Não, era bem diferente disso. Aquele era o constrangimento de uma pessoa que estava prestes a revelar algo extremamente íntimo e pessoal.

Izaya não tinha a menor ideia do que ela iria perguntar, mas saber que havia em Mai esse tipo de desejo, e que ela queria que ele realizasse, o fez querer ouvir suas palavras mais do que qualquer coisa.

— Izaya, nós… — ela sussurrou, suplicante e receosa. — Nós podemos ter um bebê? Eu… Eu realmente quero muito ter um filho com você. Por isso, podemos tentar?

Desde que conhecera Mai, para Izaya, havia se tornado comum ser pego de surpresa pelas coisas incomuns e incríveis que ela fazia e dizia. Na verdade, ele até já havia se acostumado com a ideia de que, estando em um relacionamento como aquele com Mai, iria se deparar constantemente com cosias novas. Entretanto, aquele pedido havia definitivamente superado tudo de inusitado que ela já lhe fizera.

Com os olhos arregalados, surpreso e, pela primeira vez, completamente sem reação, Izaya não conseguiu fazer nada além de encará-la atônito no escuro.

Até que, sem que realmente tomasse conta disso, ele a segurou pelos ombros e a tirou de seu colo.

— I-Izaya? — Chamou assustada.

Sem respondê-la, o informante se colocou de pé e começou a se afastar.

— Por favor, espere — ela pediu.

Em uma vã tentativa de mantê-lo ao seu lado, Mai segurou a mão do rapaz. Todavia, assim que sentiu seu toque, ele subitamente puxou sua braço para longe dela.

— Não me toque.

Parando de andar, Izaya encarou-a por cima dos ombros, fazendo com que seus olhares se encontrassem e Mai percebesse que havia uma mescla de choque e decepção deles.

Sentindo-se completamente desamparada e com o coração dilacerado pela mágoa, Mai ofegou, sentindo as lágrimas se acumularem nos cantos de seus olhos.

— Desculpe — sussurrou trêmula, percebendo que aquele pedido havia disso um grande e terrível erro. — Eu realmente sinto muito.

Todavia, nem o desalento de Mai ou suas palavras tiveram efeito no rapaz. Sem dizer nada, ele lhe deu as costas e a abandonou ali, subindo as escadas até o andar de cima e adentrando em seu quarto.

Com a mente confusa e desorientado, Izaya sentou-se sem forças sobre a cama. Apertando os punhos, ele relembrou as palavras de Mai, sentindo um estranho medo tomar conta de si.

Respirando fundo várias vezes, ele abaixou a cabeça e segurou-a entre suas mãos, ouvindo ao fundo o barulho de uma porta batendo.

Ter uma criança? Logo ele, um homem tão cínico e desprezível, que já foi capaz de machucar a pessoa que mais amava por puro rancor e desespero… Não, não, não! Isso era algo incabível, criar uma criança estava longe de suas habilidades. Não havia nada em Izaya que pudesse torná-lo um bom pai. Ter um filho com Mai e fazê-la acreditar que ele seria bom o suficiente para, ao lado dela, erguer uma família só serviria para decepcioná-la. A úncia coisa que ele iria conseguir com tudo isso era machucá-la ainda mais. E isso era definitivamente algo que ele não queria. Já havia maltratado demais seu pequeno coração, não podia fazê-la passar por mais um sofrimento.

Fazê-la sofrer de novo.

Foi então que Izaya percebeu o que havia acabado de fazer. Lentamente, a imagem de Mai, desamparada e magoada, com os olhos repletos de lágrimas voltou a sua mente. Ele também se recordou da forma fria como se dirigiu a ela e depois a abandonou no escritório com o coração partido. Isso tudo, porque havia sido Izaya a pedir que Mai se abrisse com ele. Havia sido ele quem insistira e ainda prometera que realizaria seu desejo, fazendo-a confiar cegamente em suas palavras e abrir o coração para ele, expondo algo de seu íntimo. Ela havia acreditado completamente em Izaya e ele a traíra.

— Droga! — Praguejou.

Sentindo o desespero desdobrar-se em seu peito, ele levantou-se da cama e saiu do quarto, indo até a porta daquele que antes havia sido o de Mai. Respirando fundo, levou a mão até a maçaneta e tentou abrir a porta, logo percebendo que estava trancada.

— Abra a porta, Mai — pediu, tentando soar suave e mascarar a tensão que sentia.

Houve silêncio, até que ele ouviu os passos da jovem se aproximarem do outro lado.

— Eu sei que não devia ter tocado nesse assunto — a voz de Mai soou fraca e embargada. — Foi muito egoísmo e insensibilidade da minha parte pensar nesse tipo de coisa, e ainda te fazer um pedido daqueles… — sua voz falhou. — Eu realmente lamento por isso, Izaya… Não queria te assustar. Sei que preciso pedir desculpas diretamente, mas… Mas, por ora, por favor, me deixe sozinha.

Izaya soltou um suspiro exasperado, sentindo a culpa começar a consumi-lo.

— Por favor, abra a porta — insistiu.

— … Não.

— Tudo bem, continue ai, não tem problema. Mas ao menos me escute — pediu. — Eu não estou bravo com você e realmente sinto muito pela forma como agi, não fui justo com você. O culpando aqui sou eu. Por isso, quero que saiba que pensar em coisas desse tipo não te faz uma pessoa egoísta nem nada do tipo. Na verdade, considerando a situação em que estamos, é algo perfeitamente normal. E até… Bonito. Só que…

Izaya deixou sua voz morrer. Por um momento, sentiu-se confuso. Sabia exatamente o que iria dizer para Mai, todavia, por algum motivo, pensar naquilo o estava fazendo sentir-se estranhamente impotente e fraco. Era como se ser capaz de dar uma criança a ela e ser um bom pai tivesse repentinamente se tornado algo importante.

Perdido em meio aos próprios pensamentos e sensações, o informante suspirou pesadamente e se aproximou da parede ao lado da porta, apoiando as costas contra ela e se deixando escorregar para o chão.

— … Só que eu não sou capaz de lhe trazer esse tipo de felicidade, não do jeito que você espera — confessou. — Mai, eu não… Eu não sirvo para ser pai.

O informante ficou em silêncio, sentindo um nó desagradável se formar em seu estômago. Por que estava se sentindo tão decepcionado consigo mesmo?

— Eu preciso que você entenda isso — pediu, assustando-se ao perceber que havia um tom de pesar em sua voz. — Não importa o quanto você me ame e consiga ver coisas boas em mim, a verdade é que eu sou desprezível e cruel. Um homem egoísta, caprichoso e frio, que só sabe causar dor e sofrimento as pessoas a sua volta e que ainda consegue se divertir com isso. Esse sou eu, Mai, e os únicos arrependimentos que tenho por ser assim são das vezes em que te machuquei. E, por pensar dessa forma, também sempre soube que não te merecia, mas por egoísmo, eu a mantenho ao meu lado, mesmo tendo consciência de que irei fazê-la sofrer. O mesmo vale para esse filho que você tanto quer. Ele também não merece ter um pai como eu.

Izaya parou um instante e suspirou.

— Não vou saber criá-lo ou dar a ele o amor e carinho que merece. Eu não conseguiria ser um pai amoroso e afetuoso. E, assim que essa criança crescesse o suficiente para ter maturidade para compreender quem eu sou, passaria a me odiar. Não iria ter motivos para me amar de volta e muito menos se orgulhar do pai que tem. E eu sei que ela terá toda razão em pensar assim. Porém, pior do que tudo isso, seria saber que falhei com você e a decepcionei — ele respirou fundo. — E, sinceramente, Mai, eu prefiro não lhe dar uma família, do que realizar seu desejo e depois destruí-lo.

Ao terminar de falar, o rapaz ficou sem silêncio. Dizer tudo aquilo havia sido doloroso, o que não fazia sentido, já que ter uma criança era algo que nunca havia feito parte de seus planos e desejos. Ou seja, era de se supor que fosse algo fácil de se negar. No entanto, o que estava acontecendo era bem o contrário. Sentia-se quase como se estivesse arrependido de ter dito aquelas coisas.

O que está acontecendo comigo?, perguntou-se confuso.

— Eu acho que você daria um bom pai.

O informante sobressaltou-se, surpreso com a voz de Mai tão clara e próxima de si. Olhando para o lado, ele percebeu que a jovem havia aberto a porta, mas apenas uma pequena fresta, o suficiente para que ela, ajoelhada a sua altura, pudesse fitá-lo.

— Mai… — ele deixou escapar, sentindo-se um pouco aliviado por poder vê-la novamente.

— Por favor, pare de menosprezar a si mesmo, isso me deixa triste — a jovem pediu, em um tom que demonstrava que ainda estava sensível. — Ao menos quando se trata do que sente por mim e do quanto se esforça para me fazer feliz, você é bem melhor do que pensa.

A primeira reação de Izaya teria sido rir com escárnio daquelas palavras, porém, vê-la falando bem dele com tanta inocência o deixava desarmado. Chegou até a tentar formular algum comentário, no entanto nada saiu de seus lábios. Por fim, após vários instantes, a única coisa que disse foi:

— Me deixe entrar.

O pedido fez a menor hesitar, lembrando-a do que havia se passado entre os dois momentos antes. Pouco a pouco foi sentindo seu coração doer e as lágrimas voltarem a se acumular nos cantos dos olhos.

— É melhor não…

— Por favor — insistiu. — Eu preciso ter ver.

Um pouco vacilante e perdida, Mai demorou para reagir. Até que ela soltou um suspiro trêmulo e se colocou de pé. Izaya também fez o mesmo, sem nunca tirar os olhos da porta, que lentamente se abria para ele.

Quando a passagem ficou livre, ele finalmente pôde vê-la por completo. Parada a sua frente, ainda usando aquela fina camisola branca, a jovem fitava o chão, sem coragem de olhá-lo nos olhos. Seu rosto estava corado e molhado pelas lágrimas, que continuavam a descer, seus ombros também tremiam e ela apertava nervosamente a barra rendada de seu pijama.

Naquele momento, Mai lhe pareceu terrivelmente frágil e desamparada. E Izaya sabia que era por causa dele.

Sem conseguir se conter, o informante adentrou no quarto, caminhando em direção a jovem. Ela, por outro lado, ao notar que ele se aproximava, involuntariedade tentou se afastar. Entretanto, ela acabou sendo impedida pelo rapaz, que a segurou pelo pulso e a puxou para si, envolvendo-a em um carinhoso e protetor abraço.

— I-Izaya…? — Sussurrou.

— Lamento tê-la magoado, Mai. Me perdoe — falou, apertando-a mais. — Por isso, não chore mais e nem se sinta envergonhada. Não há nada de errado em querer ter um filho comigo.

— M-mas você…

— Esqueça o que aconteceu no escritório — interrompeu-a. — Eu agi sem pensar porque havia ficado assustado. Ouvir você me pedindo isso me fez perceber que sua confiança em mim era realmente forte, mas, principalmente, que seu amor por mim havia amadurecido. O problema é que, na hora de lhe dar uma resposta, eu hesitei, me senti amedrontado e perdido. E isso me mostrou que havia em mim um lado fraco e incapaz. Saber disso me apavorou ainda mais, pois era justo nesse lado que você estava depositando sua confiança e eu tinha certeza que acabaria te desapontando.

Mesmo após Izaya terminar, Mai continuou calada, sem nem mesmo se mexer. Até que ele a sentiu retribuir seu abraço e afundar o rosto contra o seu peito.

— Não se preocupe, Izaya, eu te entendo. Está tudo bem — ela falou e, apesar de seu tom apresentar certa tristeza, também havia compreensão nele. — Talvez realmente não seja um bom momento para falar desse tipo de coisa. Não quero forçá-lo a aceitar algo com o qual se sente inseguro. Por isso… — sua voz falhou, porém Mai obrigou-se a continuar. — Vamos esquecer esse assunto. Vai ser melhor assim, para nós dois. Até eu agora acho que…

— Não — ele a interrompeu. — Eu não quero esquecer que você me pediu isso, Mai.

Arregalando os olhos, a menor levantou a cabeça e encarou o rapaz.

— O-o que…?

— É isso mesmo que ouviu — assegurou o informante. — Independente de como eu me sinto, sei que as coisas podem mudar. E eu quero que mudem. Por isso, peço que me conte como se sente sobre isso e quais são seus verdadeiros desejos. Sei que você deve ter pensado muito sobre esse assunto e eu quero saber de tudo.

— Tem certeza? — o rosto de Mai enrubesceu e ela desviou seus olhos dos dele. — S-são cosias tão bobas…

— Não ligo, quero saber mesmo assim.

Um tanto incerta, ela voltou a fitá-lo. Assim que seus olhares se encontraram, Mai viu em Izaya uma mescla de ternura e paixão, algo bem diferente do que presenciara momentos antes no escritório. Isso a deixou aliviada e fez seu coração bater mais rápido.

— Certo… — falou por fim.

— Muito bem — ele sorriu, soltando-a, mas logo em seguida pegando sua mão. — Vamos para o nosso quarto, lá é mais confortável.

Após receber um aceno dela, o informante a levou até o quarto que dividiam. Ele foi o primeiro a se sentar na cama de casal e, assim que Mai se aproximou para fazer o mesmo, Izaya a puxou para o seu colo.

— Achei que seria melhor assim — explicou-se, ao ver a expressão de surpresa dela. — Sem falar que…

Deixando sua frase incompleta, ele levou seus lábios até o rosto da jovem, depositando um beijo em sua bochecha e depois descendo pelo seu pescoço, causando arrepios em Mai.

— I-Izaya… — ela deixou escapar.

— Já estou acabando — sussurrou de volta.

Envolvendo-a com seus braços, o informante a trouxe para mais perto, pressionando seus corpos. Enquanto isso, seus lábios depositavam pequenos beijos e mordidas no pescoço da jovem, fazendo-a soltar baixos suspiros. Quando terminou, ele segurou o rosto de Mai e a beijou.

Movimentando-se de forma lenta e carinhosa, Izaya pediu passagem com sua língua a Mai, que entreabriu os lábios sem hesitar. Juntos, massagearam suas línguas uma na outra, ora na boca de Mai, ora na de Izaya. E, enquanto aproveitavam a deliciosa sensação que dividiam, atreveram-se a explorar seus corpos com as mãos, algumas vezes apalpando e em outras apenas acariciando o que havia escondido por debaixo de suas roupas.

Por mais que aquilo fosse algo que lhes trouxesse prazer físico, também era uma forma de demonstrarem com mais intensidade o amor que sentiam um pelo outro. Principalmente Izaya, que, por ter dificuldade de colocar em palavras seus sentimentos, usava disso para expressar de forma mais sincera e direta o que sentia por Mai. E, naquele momento, ele estava dizendo, através de seus afagos e beijos, que a amava e lamentava por tê-la magoado. Que não queria ser fraco e ansiava mais do que qualquer coisa realizar seu desejo de ter um filho.

— Um menininho — ela sussurrou entre um beijo e outro. — Eu quero um menino.

Ouvir aquilo fez Izaya dar um sorriso involuntário. Satisfeito por perceber que ela parecia bem melhor e mais à vontade, sessou seus beijos e se afastou para encará-la.

— É mesmo? — Surpreendeu-se. — Achei que fosse querer uma menina. Por que um garoto?

— Para falar a verdade, eu não sei ao certo — comentou. — Mas toda vez que me imagino entendo um filho, é sempre um garoto.

— Hm, e você se imagina muito nessa situação? — Izaya perguntou com certa malícia.

— U-um pouco… — murmurou envergonhada.

— Então me conte as coisas que pensa, estou curioso — pediu com sinceridade. — Como seria o nosso filho?

O rosto da jovem voltou a enrubescer, mas ela acabou deixando um tímido e afetuoso sorriso escapar.

— Curioso e cheio de energia, mas também muito carinhoso e apegado a nós. Seria do tipo que sempre quer um cafuné, ficar abraçado a nós ou em nosso colo. Ele também iria gostar muito de ler e desenhar, pois eu o emprestaria todas as minhas coisas.

Mai parou um segundo, pensativa.

— Um lindo menininho, de cabelo negro, que está sempre bagunçado, e olhos vermelhos iguais aos seus — retomou, enchendo de carinho cada palavra sua. —, que sempre está correndo para lá e para cá, sorrindo e se divertindo. Sabe, às veze eu me imagino carregando-o em meu colo e ouvindo-o me chamar de mamãe.

A jovem olhou para os próprios braços e mãos.

— É estranho, mas eu quase posso senti-lo comigo. Seu corpinho pequeno e quente, embalado em meus braços em um sono tranquilo. Quando penso nisso, meu coração bate de um jeito diferente e eu sinto como se já o amasse antes mesmo dele existir — ela então olhou para Izaya. — Eu também penso em você, segurando-o no alto para fazê-lo rir e então o abaixando para abraçá-lo. É uma imagem muito bonita e que me enche de alegria. Pois depois disso, ele sempre acaba dizendo que te ama e você então fica surpreso, mas depois sorri e diz que também o ama.

Ambos ficaram em silêncio. Mai agora parecia um pouco triste, enquanto o informante não sabia o que dizer. Era difícil para ele acreditar que realmente seria um bom pai como Mai acreditava. Entretanto, ao mesmo tempo, uma parte dele, após ouvir aquelas coisas, parecia remexer-se dentro de si, como se, mesmo com todas as suas dúvidas e inseguranças, quisesse tentar arriscar.

— I-Izaya… — ela chamou, um pouco envergonhada e insegura. — Se por acaso… Por acidente, eu acabasse engravidando, você iria amar essa criança?

— É claro que sim, Mai — suas palavras saíram tão naturalmente e cheias de sinceridade, que até Izaya mal acreditou que haviam sido ditas por ele. Mas sua maior surpresa foi descobrir que não se arrependia nem um pouco delas.

— Realmente? — A menor perguntou, cheia de surpresa e contemplação.

— E por que não amaria? Seria o nosso filho, algo que veio de mim e de você, e do sentimento que temos um pelo outro. Não haveria como não amá-lo.

Uma expressão de pura felicidade formou-se no rosto da jovem e ela o abraçou.

— Ouvir isso me deixa tão feliz! — Exclamou sonhadora. — E ele também iria amá-lo, Izaya. Tenho certeza, nosso filho iria amar e se orgulhar do pai que tem mais do que tudo. Afinal, o Izaya que eu amo é a pessoa mais incrível do mundo, que quando ama alguém, independente de seus defeitos, faz de tudo por essa pessoa. Posso dizer isso com certeza, pois você tem me feito a mulher mais feliz do mundo.

Ouvir aquilo o deixou sem fala. De um jeito que não sabia explicar, Izaya sentia-se tocado por aquelas palavras, vendo nelas algo belo e verdadeiro. O apreço de Mai por aquela criança era lindo e a forma como ela confiava nele, tão apaixonada e inocente, era comovente. Sentia quase como se Mai estivesse lentamente se tornando o apoio que precisava para seu lado fraco e incapaz.

— Peça de novo.

— O que? — A menor se afastou, encarando-o confusa.

— Me peça de novo, Mai — falou com convicção.

A jovem então compreendeu ao que ele se referia. Quase assustada, devido a tamanha surpresa, e sem acreditar no que estava lhe aconteceu, ela não conseguiu respondê-lo de imediato.

— I-Izaya, n-nós… — tropeçando em meio as palavras, Mai tomou fôlego. — Izaya, nós podemos ter um bebê?

Dessa vez foi o mais velho quem respirou fundo.

— Sim, Mai, nós podemos — respondeu, encostando sua testa a dela. — Não agora, pois você ainda é nova e precisa amadurecer a si mesma e sua própria vida. Porém, quando estiver pronta, será um prazer ter um filho com você.

Completamente emocionada, Mai jogou-se no rapaz, abraçando-o forte. Lágrimas de felicidade molharam o seu rosto e ela não conseguia mais conter a alegria que sentia.

— Muito obrigada — ela soluçou. — Muito obrigada, Izaya.

Ele apenas riu.

— Ora, não precisa me agradecer, Mai-chan — falou, beijando o topo de sua cabeça. — Afinal…

Ao perceber que não houve uma continuação em sua frase, Mai, ainda sem soltá-lo, ergueu o rosto para encará-lo.

— Afinal…? — Repetiu curiosa.

Izaya desviou seus olhos dos dela, parecendo momentaneamente sem graça, mas acabou voltando a fitá-la.

— … Bem, eu não sei explicar ao certo, mas…

O informante parou, coçando a nuca e um tanto sem jeito. Aquele tipo de sentimento, juntamente com esse recém-descoberto desejo, eram completamente novos para ele. Nunca havia passado por algo parecido, ou se imaginado em tal situação, por isso, era difícil para ele lidar tão abertamente com algo como aquilo. Sentia-se embaraçado, inseguro e perdido. Todavia, ao mesmo tempo, quando se imaginava ao lado de Mai, com uma criança em seus braços que podia chamar de sua, uma sensação quente e prazerosa se espalhava em seu peito, bem semelhante ao que experimentava quando estava com a jovem. Era algo assustador, mas que igualmente o enchia de expectativa.

— … Mas talvez uma parte de mim tenha gostado de ouvi-la falando desse nosso filho com tanto amor e agora também o deseja tanto quanto você — confessou. — Eu ainda acho que serei um péssimo pai, mas com você ao meu lado, quem sabe as coisas não acabem tão ruins assim?

Mai sorriu, animada.

— Certo! Então, assim como eu, você também irá se preparar e amadurecer, ouviu? — Ela falou. — Vamos juntos aprender a como criar uma criança e fazê-la feliz. Mas, sabe, acho que já começamos bem, pois nós dois amamos o nosso filho antes mesmo dele nascer. Não é incrível?

— E-eu… — era tanta confiança e apoio que recebia de Mai, que ele mal conseguia lidar com isso. Por fim, a única coisa que conseguiu fazer foi rir. — Acho que, na verdade, você que é incrível, Mai-chan.

O elogio a fez corar, deixando-a sem graça.

— N-não exagere, eu só me empolguei demais.

— O que foi realmente bonitinho — comentou, bagunçando seus cabelos. — Por sinal, você sabe como se faz e de onde vem os bebês?

Mai arregalou os olhos, seu rosto adquirindo um tom mais intenso de vermelho.

— É c-claro que eu sei! — Gaguejou.

— E você está ansiosa para fazê-lo comigo? — Perguntou malicioso. — Quer dizer, falam que são necessárias várias tentativas, todas cheias de muuito amor. Então eu imagino que será até fácil no nosso caso. Sem falar que acho que vamos nos divertir muito no processo.

— Izaya!

O rapaz riu alto com seu constrangimento, mas acabou parando ao perceber que ela havia ficado emburrada.

— Eu também vou querer um menino — disse, chamando sua atenção.

— É mesmo? — Falou empolgada. — Então será um menininho! ~

— Como pode ter tanta certeza?

— Eu apenas sei — ela assegurou.

— Certo, mas eu quero que tenha os seus olhos.

— Acho que esse vai acabar sendo uma surpresa — disse, mas acabou acrescentando baixinho: — Mas eu prefiro que sejam vermelhos.

Izaya riu.

— E o que mais? — Mai pediu.

O rapaz parou para pensar. Era engraçado, mas estava sendo prazerosamente divertido ficar imaginando coisas assim com ela. Era como manipular alguém, mas de um jeito bom, coisa que ele só se dava ao luxo de fazer por Mai.

— Quando ele crescer, eu vou ensiná-lo inglês e russo — contou. — Mas até lá, me contentarei em apenas levá-lo para brincar naquela praça que você adora e no parque em que te pedi em casamento.

— Ele vai adorar! — A jovem exclamou, maravilhada com o rapaz. — E como você acha que ele vai ser?

— Gentil, carinhoso e manhoso, como a mãe dele. Cheio de energia e observador. Talvez, por sermos nós os pais dele, nosso fico acabe sendo um pouco “diferente” das outras crianças, mas eu sei que não haverá nada de errado em ser assim.

Após ouvir aquilo, Mai soltou uma doce e carinhosa risada.

— Você também, Izaya — ela começou, amorosa. — É incrível.

— Não seja boba — riu, com falso desdém. — Ah, agora que eu notei, você ainda não me disse que nome daria a ele.

— Ah — Mai sorriu de forma afetuosa. — achei que fosse óbvio, considerando que às vezes você parece me conhecer mais do que eu mesma.

— É mesmo?

Ele tentou pensar em algo, mas nenhum nome realmente a altura da imaginação de Mai passou por sua cabeça. Percebendo sua dificuldade, a jovem riu.

— Se tivéssemos um filho, Izaya, seu nome seria Kiseki.

— Oh — ele deixou escapar. — Como eu não pensei nisso? Kiseki, escrito com os kanjis de milagre. É perfeito.

— Sim — ela concordou. — Porque se, caso tivéssemos um filho, era isso que ele seria: nosso pequeno milagre.

Ali, juntos na cama, ambos sorriam um para o outro. Felizes, tomados pela paixão de uma nova descoberta e orgulhosos de si mesmos por perceberem que aquele sentimento belo e profundo que compartilhavam havia amadurecido de tal forma que começara a gerar frutos.

Todavia, no mesmo lugar onde estava a alegria, havia também uma inegável melancolia. Era um sentimento triste e desolador, que os machucava de forma tão dolorosa que se tornava quase impossível manter o sorriso e fingirem que não havia nada de errado. Principalmente para Mai, que se sentia sangrar por dentro por ter suas esperanças e sonhos mutilados de forma tão cruel e impiedosa. Na verdade, ela não era a única, Izaya também passava por algo semelhante, mas no caso dela, tudo ficava ainda pior pela terrível culpa que guardava dentro de si.

— É um nome lindo, Mai — o informante a consolou, gentilmente acariciando seu rosto e lhe dando um afetuoso beijo.

— Eu sei… — ela devolveu, meio trêmula.

Ao ver o quanto ela se esforçava para manter-se firme, ela a abraçou.

— Nosso filho vai se chamar Kiseki — sussurrou para ela, passando a mão pelo seu cabelo. — Vai ser um garoto, de cabelos negros e olhos azuis como os da mãe. Será gentil e curioso, que adora ler, brincar e escapulir para nossa cama durante a noite. Iremos levá-lo àquela praça para se divertir nos brinquedos, andaremos de mãos dadas e comeremos no Sushi Russo. Você poderá pegá-lo em seu colo e ver seu sorriso. Ele erá o seu filho, Mai. Nosso filho, nosso Kiseki.

— Sim — ela concordou, afundando o rosto no peito dele. — Será o nosso pequeno Kiseki.

E foi assim que a felicidade daquele casal, que ainda nem havia nascido, morreu. Sendo soterrada por uma destino cruel e injusto.

• • •

Era manhã de sábado e o que ela mais desejava era permanecer deitada o dia todo. Entretanto, acabou mudando de ideia ao não encontrar Izaya ao seu lado na cama.

Olhando debilmente a sua volta, Mai procurou pelo informante. Ao perceber que ele não se encontrava no quarto, deixou o amontado confortável de cobertas e obrigou-se a se preparar para mais um dia.

Após terminar suas higienes e trocar de roupa, a jovem abandonou o quarto e desceu para o segundo andar. Mal tinha vencido os degraus da escada, quando viu o informante sentado em sua mesa falando ao celular.

— Pare de fazer estardalhaço por coisas simples — ela o ouviu xingar. — Já disse que é só uma pequena ajuda, nada mais. Eu farei a maior parte.

O rapaz ficou em silêncio por alguns instantes.

— Não, não, pare de exagerar! — Ele calou-se para ouvir a pessoa do outro lado, bufando instantes depois. — Ah, certo, você venceu. Levo tudo ai para você depois. Não faça nada idiota, ouviu?

Ele então desligou, soltando um suspiro cansado.

— Izaya?

— Oh, não te ouvi descendo.

— Está tudo bem? — Ela perguntou preocupada.

— Ah, sim, sim. Era só o Shinra, aquele idiota… — entretanto, sua frustração foi cortada por algo que ele acabou se lembrando. — Já tinha me esquecido, seu uniforme do Raira chegou. Está sobre o kotatsu. Vá lá ver se serve em você.

Assentindo, Mai foi até onde Izaya lhe indicara. Sobre o tampo de madeira havia dois conjuntos de uniforme, dobrados e guardados dentro de um pacote transparente. A jovem se abaixou ao lado do móvel para pegá-los, quando notou que havia um terceiro embrulho embaixo dos dois, porém menor e embalado em um pacote prata.

Separando-o dos outros, ela o ergueu e virou-se para Izaya, em dúvida.

— É para você — disse apenas.

Curiosa, a menor o abriu. E, assim que descobriu o que se escondia ali, ela sentiu seus olhos ficarem marejados.

Em suas mãos trêmulas, havia um macacãozinho de bebê, azul-claro, pequeno e macio.

— I-Izaya… — ela apertou a roupinha contra o peito. — M-muito obrigada…

Já o rapaz, que há muito havia deixado sua mesa, caminhou até ela e se abaixou ao seu lado. Ele podia vez suas lágrimas e sentir sua dor, porém estava de mãos atadas, pois sabia que a cura para o seu sofrimento era inalcançável, o que deixava um amargo gosto de impotência em sua boca. Mas isso não o impedia de tentar fazer algo. Por isso, Izaya a envolveu com seus braços, confortando-a com palavras amorosas e afagos carinhosos.

Sonhar era bom e muitas vezes podia ser prazeroso, trazendo esperança e felicidade. Entretanto, quando um destino cruel é traçado, torna-se um azedo e torturante veneno.

Notas finais
ENTÃO, O QUE ACHARAM?! Gente, vocês não tem noção do quanto eu estava ansiosa para falar desse assunto em Memories. Sério, era algo que eu queria muuuito retratar na história. Sei que o Izaya acabou ficando OC, mas eu sinceramente adorei como esse capítulo ficou. Confesso que soltei ataques fangirl quando esses dois lindos começaram a falar sobre como seria o filho deles (também preciso dizer que achei super fofo o Izaya propondo para a Mai morarem em um lugar diferente) Por sinal, o que acharam do nome? Apesar de não ser um nome muito comum, achei que Kiseki (e o seu significa) super combina com os dois. Não haveria nome melhor para um filho da Mai e do Izaya Mas falando do capítulo de forma um pouco mais séria, quero apenas ressaltar que não pretendo jogar no meio da história uma gravidez inesperada. Por mais que esse assunto vá voltar a ser levantado, acho que soaria completamente ridículo jogar uma gravidez ilógica no meio da história sem mais nem mesmo. ENTRETANTO, PORÉM, MAS, TODAVIA, algo me diz que um dia vocês irão conhecer o pequeno Kiseki, hehe. Ah, também há algo coisinha... Aquela parte do Izaya vendo a Mai segurando a flor... Bem, apenas digo para manterem isso em mente, hoho. Por último... Pff, quem foi a baitola que prometeu que não iria mais fazer capítulos longos? Mó kenga a menina... HAHAHAHA... Perdoem a Kah por isso Ç_Ç Bem, é só. Não se esqueçam de comentar, por favor. Quero muuuito saber o que acham desse capítulo! E, caso acharem que mereço, mandem recomendações AAH, já ia me esquecendo! Fiz um Ask, gente. Por isso, caso você seja um leitor fantasma com medo de comentar ou me add no face, sinta-se completamente livre para mandar uma perguntinha, deixar sua opinião e afins. Os mesmo vale para os outros leitores. conversem comigo, seus fofos Aqui: http://ask.fm/Kah_Fran Até o próximo capítulo!