Memories
26 Memory Twenty Five
Notas iniciais
Memory Twenty Five
Quando estava longe de Mai, suas noites eram frias e desconfortáveis, com poucos e espaçadas horas de sono. Entretanto, agora a situação era completamente o oposto. Sentia-se confortável e mais acolhido do que nunca. Seu corpo estava relaxado e totalmente descansado.
Dessa vez, não apalpou o lado esquerdo da cama, pois sentia a jovem deitada sobre seu peito e com um dos braços envolta de seu tronco. O calor de seu corpo e a maciez de sua pela contra a dele lhe trazia uma sensação agradável.
Ainda um pouco sonolento, ele olhou para as feições adormecidas de Mai. Com a mão livre, acariciou seu rosto.
Não foi um sonho, pensou. Tudo aquilo realmente aconteceu e as coisas entre nós estão começando a mudar.
Pouco a pouco ele começou a relembrar dos acontecimentos da noite anterior com mais clareza. A discussão que tiveram, a conclusão de que não poderia viver sem Mai e decisão de suportar tudo para estar ao lado dela. E, então, aquela incrível experiência, onde ambos se uniram de forma tão íntima e prazerosa, compartilhando intensos e apaixonados sentimentos.
Entretanto, em meio a isso, o que mais o surpreendia era o fato de que ele, um homem tão frio e inalcançável havia entregado seu coração a alguém. Orihara Izaya, o informante desprezível e cruel que repudiava o amor e não se deixava envolver havia escolhido amar uma pessoa e tornar-se vulnerável a ela.
Izaya havia se apaixonado e admitia esse amor, algo que em momento algum de sua vida esperava que acontecesse consigo.
Era uma situação nova e completamente inesperada. Sentia como se estivesse dando o primeiro passo em direção a um mundo completamente desconhecido. Era um pouco assustador e sentia-se, de certa forma, inseguro. Mesmo que já tivesse fingido tais sentimentos e simulados situações semelhantes com outras pessoas, vivê-los com sinceridade e estar emocionalmente envolvido com aquilo era algo completamente diferente. Algo que Izaya nunca experimentou.
Aquela era a primeira vez que se sentia inexperiente em relação a algo, o que fazia com que uma grande quantidade de perguntas e reflexões despontassem em sua mente.
Voltou a olhar para Mai e acariciou seu rosto uma última vez, antes de, com cuidado para não acordá-la, sair da cama. No fundo, queria continuar ali, imerso no conforto dos braços da menor, mas precisa pensar um pouco.
Silenciosamente, ele caminhou até o banheiro. Sem antes, é claro, passar o olhar pelo quarto e dar um sorriso malicioso ao ver suas roupas espalhadas pelo chão.
Adentrado no Box, ligou o chuveiro e deixou a água quente escorrer pelo seu corpo. Seus machucados chegaram a arder, mas ele não se importou com isso, pois sua mente já estava longe dali.
Completamente desperto, Izaya começou a pensar sobre o que havia acontecido entre eles, o que estava acontecendo e o iria acontecer. Agora que as cosias estavam começando a se resolver, muito iria mudar, afinal, não poderia acordar e simplesmente fingir que nada havia acontecido e nem ignorar o que o futuro lhes reservava, ainda que não preferisse pensar nisso.
Todavia, sentia-se um pouco perdido quando tentava pensar sobre esse assunto. Ironicamente, naquela condição, ele era o inexperiente e Mai a experiente. Ainda que achasse que ela também pudesse ter suas dúvidas, para a jovem tratar desse assunto chamado amor era algo quase natural e simples.
O que não acontecia com o informante.
Não gostava de admitir, mas era verdade. Ainda que pouco, receava não ser capaz de lidar com esse sentimento ou demonstrá-lo a Mai. Temia descobrir que no fundo era incapaz de cuidar dela e lhe dar o amor que merecia, e no fim, acabar ferindo-a novamente. Afinal, Izaya nunca foi um homem que soube amar. Era uma pessoa fria e cruel, que não se expressava com sinceridade e não demonstrava afeição.
A pior escolha possível para alguém se apaixonar.
No entanto, mesmo com toda essa podridão, alguém havia decido amá-lo. Sem se importar com quem ele realmente era, Mai o amava. Ela, uma garota gentil, delicada e de coração puro, mas com um comportamento peculiar e que na verdade não era humana, o amou com todas as forças, suportou tudo para estar ao seu lado e acolheu seu coração despedaçado. Alguém que mesmo quando devia ter lhe dado às costas, optou por esperar em meio à dor até que ele aceitasse seus próprios sentimentos, para então perdoá-lo e recebê-lo de braços abertos.
Izaya não a merecia, porém ali estava ela, ao seu lado, depositando toda a sua confiança nele e acreditando do fundo de seu coração que estar com ele era o certo, que seria feliz ao seu lado e teria seu amor correspondido.
E ele desejava isso. Queria dar tudo isso a ela; alegria, amor, carinho... Seu coração clamava pela garota e exigia colocar para fora tudo o que sentia por ela e que guardou para si por todo aquele tempo, ainda que estivesse inseguro quanto a como o faria.
O mundo não havia mudado, muito menos Izaya, mas dessa vez havia alguém ao seu lado e, única e exclusivamente para ela, concentraria todos os sentimentos afetivos e apaixonados que sempre renegou de si mesmo.
De agora em diante, mesmo que o futuro de ambos fosse sombrio, teria uma vida longe da solidão e da dor, passariam por novas experiências e aprenderia juntos as nuances daquele intricado sentimento chamado amor.
Izaya deixou uma risada contida lhe escapar.
Era engraçado, mesmo que se sentisse um pouco perdido e confuso, havia certa empolgação e expectativa quanto ao que ia acontecer dali para frente. Estava ansioso para experimentar cada pedacinho daquela nova situação em que se encontrava. Mas, principalmente, feliz por estar com Mai novamente e por ela também estar vivenciando essa felicidade.
Terminando o seu banho, desligou o registro e saiu do chuveiro. Após se secar, voltou ao quarto – Mai ainda dormia –, e vestiu um par de calças negras de moletom.
Ele afastou-se do armário e voltou a se sentar na cama, ao lado da jovem.
Ainda que eu esteja cheio de dúvidas, estar ao seu lado aprece certo demais, pensou, ajeitando os fios negros da franja da menor. Mesmo que o medo de te perder de uma hora para outra ainda não tenha me abandonado.
— ... Izaya? — Ele ouviu alguns segundos depois.
— Bom dia, Bela Adormecida — cumprimentou.
Ainda um pouco sonolenta, Mai coçou os olhos e depois lhe deu um sorriso caloroso.
— Será que ainda estou sonhando? — Perguntou. — Porque é isso que parece tudo o que aconteceu: um lindo e doce sonho.
— Oh, é mesmo? — Ele sorriu com malícia, percebendo que a jovem ainda estava embreada pelo sono. — E por que acha isso?
O rosto de Mai enrubesceu e ela desviou os olhos dos dele.
— Porque a noite que tive com você foi uma experiência maravilhosa. A sensação de estar ligado a você daquela forma foi incrível, eu nunca havia sentido algo tão bom. E... — ela juntou coragem para encará-lo. — Ouvir você dizendo que me ama e saber que me quer ao seu lado tanto quanto eu te quero, foi a melhor coisa que já me aconteceu. Foi tudo tão incrível, que eu mal consigo acreditar que realmente aconteceu.
Izaya fitou a menor. O sorriso dela fazia seu coração bater de modo diferente e seus olhos brilhantes, repletos de carinho, o faziam se sentir aquecido por dentro. Perto de Mai, todas as suas preocupações pareciam sem importância.
— Bem, então é melhor começar, pois realmente aconteceu — o rapaz respondeu. — Eu também nunca havia me sentindo tão bem com alguém, Mai. Na verdade, você é a única pessoa com quem me sinto verdadeiramente bem. Estar ao seu lado faz com que eu me lembre de que tenho um coração e me faz sentir mais vivo do que nunca.
Quando Izaya deu por si, todas aquelas palavras já haviam saído por seus lábios. Ela parou um segundo, surpreso com a súbita confissão. No entanto, ao ver a alegria estampada nas faces de Mai, não se importou.
— E eu não me arrependo de nada — disse por fim.
A jovem se sentou na cama, usando o cobertor para se cobrir.
— Eu também não — devolveu, tocando seu rosto.
Suavemente os dedos de Mai roçaram por sua pele. Ela massageou suas faces e desceu para o pescoço, chegando ao peito.
— Vou cuidar deles para você — falou. — De todos. E quando menos esperar, todos eles terão se curado.
— Eu nunca tive dúvidas de que você era capaz disso — devolveu.
Com um sorriso, Mai afastou-se e se enrolou melhor na coberta, erguendo-se da cama.
— Acho que você já tomou seu banho — ela observou. — Agora é minha vez.
Izaya a observou caminhar até o banheiro e adentrar nele. Só quando estava completamente sozinho é que percebeu que o sorriso em seus lábios não havia sumido em momento algum. Acenando com a cabeça, ele riu.
— Hm, acho que vou tomar outro banho — pensou em voz alta. — Mai-chan, eu vou com você ~
Obviamente, Izaya não tomou seu segundo banho, pois ficou ocupado demais trocando sutis carícias com a jovem debaixo do chuveiro.
Mesmo depois dela ter tomado aquele tipo de iniciativa na noite passada, o informante sabia que Mai ainda não se sentia totalmente confortável com esse tipo de interação mais íntima. Ela ainda era muito tímida e receosa, um pouco travada até. Por isso, durante o banho, por mais que ela tentasse relaxar e demonstrar segurança, era óbvio pela a expressão em seu rosto que estava constrangida.
Todavia, não era algo que o preocupava, ele ainda pretendia trabalhar isso com ela aos poucos — ainda que achasse que a menor nunca perderia totalmente essa vergonha.
Depois de gastar o triplo do tempo para tomar banho, ambos saíram do banheiro. Izaya voltou a colocar suas calças negras e Mai vestiu uma blusa sua de botões e mangas cumpridas da cor cinza.
— Sente-se na cama — ela instruiu, enquanto pegava um kit de primeiros-socorros no armário. — Durante o tempo em que estive morando com o Shinra, ele me ensinou como cuidar de vários tipos de ferimentos. Por isso, não se preocupe, vou fazer tudo direitinho.
Ela acomodou-se atrás do rapaz e abriu a caixinha branca, tirando dela tudo que iria precisar.
Por vários minutos a jovem se ocupou com os machucados localizados nas costas do mais velho. Ela o tratava com tamanha delicadeza, que o informante mal a sentia. Ao terminar com aquela região, Mai saiu do seu lugar e pediu licença para se sentar entre suas pernas, dando continuidade aos seus cuidados. A garota começou passando pomada nas locais arroxeados e enfaixando os cortes em seus braços.
— Sabe, Izaya — ela começou. — Durante aquele tempo em que ficamos separados, por mais que eu tentasse, nunca conseguia parar de pensar em você. Sempre que fazia ou aprendia algo novo, me perguntava o que você iria achar daquilo. Ou quando fazia algo que eu gostava, sempre acabava pensando em como seria mais divertido se estivesse na sua companhia. Era triste, mas agora estávamos juntos e eu não consigo pensar nas várias coisas que quero fazer com você. Há tantos assuntos que quero conversar, passeios que quero dar... Sem falar nas coisas novas que aprendi que quero lhe mostrar — ela deixou uma risada infantil escapar. — Eu estou realmente empolgada com tudo isso, mal posso esperar para reviver esses momentos felizes com você. Só de pensar que viveremos coisas semelhantes ao que passamos naquele dia na cobertura do prédio e do jantar que tivemos, fico toda arrepiada!
Ela parou um segundo, se focando melhor em um ferimento mais profundo.
— Agora nenhum de nós dois precisa mais se sentir sozinho — continuou em um tom mais baixo e gentil. — Porque temos um ao outro. Ao seu lado eu me sinto completamente segura e com o coração aquecido — ela levantou os olhos para o moreno. — E eu quero fazer com que sinta o mesmo estando comigo, Izaya. Quero poder dar a você muitos momentos felizes para que nunca mais se lembre de como é estar sozinho.
— Realmente, você está bem empolgada — ele riu, passando a mão em sua cabeça. — Na verdade, desde ontem à noite você se mostrou bem empolgadinha e cheia de energia. Mal pude acompanhá-la, sabia?
— I-Izaya... — ela murmurou corando.
Ele soltou outra risada diante seu embaraço.
— Não há motivos para ficar com vergonha disso, Mai — acalmou-a. — Na verdade, gostaria que se sentisse o mais confortável possível ao meu lado. Ainda que seu rostinho corado seja tentador e te provocar seja algo simplesmente divertido, ficaria feliz se você aceitasse essas interações como uma parte normal da nossa relação.
— E-eu vou tentar... — falou, com o rosto enrudecendo ainda mais. — Prometo.
— Tudo bem — ele deu de ombros. — Tentarei ir com calma também... Talvez.
A jovem encolheu um pouco no lugar e sentiu um arrepio percorrer seu corpo com a nova perspectiva de que agora coisas daquele tipo seriam normais. Não que ela não gostasse de quando Izaya a tocava, mas era algo realmente embaraçoso. Ela sabia que teria que aprender a se acostumar com aquilo, mas preferiu não pensar muito no assunto naquele momento, concentrando sua atenção nos curativos que fazia no rapaz.
— Talvez fique uma cicatriz, Izaya — ela avisou ao terminar, tocando a atadura em seu peito esquerdo.
— Não tem problema.
Ele segurou sua mão, fazendo-a voltar a encará-lo.
— Obrigado, Mai.
Izaya inclinou-se sobre ela e a segurou com delicadeza pela cintura. Percebendo o que ele iria fazer, a jovem também se aproximou, fazendo com que seus corpos se tocassem, e enlaçou o pescoço do informante com os braços. Seus lábios se juntaram em um beijo lento e carinhoso, com ambos se abraçando para que pudessem sentir um ao outro.
Mai inclinou a cabeça para o lado, sentindo os lábios macios e experientes de Izaya movimentarem contra os seus. Ela, tentando imitar o que havia feito anteriormente, mordiscou-os de leve o roço timidamente sua língua contra eles, enquanto sentia o rapaz aconchegando-a ainda mais em seus braços.
Ao se separarem, a menor lhe deu um sorriso sem graça.
— Eu realmente preciso me acostumar com isso... — Comentou, logo depois desviando o olhar dele.
Aos tropeços, ela desceu da cama e começou a juntar suas roupas espalhadas pelo chão. Izaya a observou pro alguns segundo e, com um sorriso malicioso, ergueu-se da cama e caminhou até ela.
Quando Mai levantou após pegar a última peça, o informante parou atrás dela.
— Troque de roupa, nós vamos sorrir para almoçar — ele avisou.
— Certo e onde nós...
Suas palavras foram subitamente cortadas por um gritinho fino e assustado, proveniente dela mesma ao sentir seu bumbum sendo muito mais do que apalpado.
A menor deu um pulo e se virou rapidamente para o moreno com os olhos arregaçados e o rosto em chamas.
— P-p-por que fez isso?! — Exclamou, segundo a região apalpada.
O rapaz apenas riu e piscou para ela.
— Não será só com beijos que terá que se acostumar, minha doce Mai-chan ~ — ele falou. — Mas não se preocupe com isso, ficarei muitíssimo feliz em ensiná-la a namorar ~ Mal posso esperar para termos nossos momentos românticos ♥
Mai sentiu um arrepio percorrê-la novamente, o que a fez dar alguns passos para trás e sair correndo para fora do quarto.
O informante soltou outra risada e caminhou até seu armário.
— Ah, Mai-chan, isso será tão divertido ~
***
Pelas ruas de Shinjuku, poças de água se acumulavam sobre a sua superfície. O clima estava úmido e frio, devido ao outono que tomava cada vez mais conta dos dias. As folhas das árvores, antes verdes, agora estavam amareladas e muito já havia abandonado a copa das árvores para ir de encontro ao chão.
Com as botas provocando pequenos espirros de água, Mai caminhava alegremente sobre o passeio, vez ou outra desviando com pequenos pulinhos das poças que encontrava pelo caminho. Ela não conseguia parar de sorrir e sentia suas energias renovadas.
— Para onde estamos indo, Izaya? — Quis saber.
— Está frio, gostaria de comer algo bem quente — respondeu. — O que acha de uma casa de sopas e caldos?
— Ótima ideia ~
O informante a guiou pelas ruas, sem nunca tirar os olhos da figura saltitante de Mai, até chegarem a um restaurante de aspecto rústico. Eles adentraram no recinto e se acomodaram em uma das mesas.
O moreno pegou o cardápio, e passou os olhos pelos pratos.
— O que você vai querer? — Perguntou um pouco distraído.
Ao não receber uma resposta, abaixou o menu, percebendo que a menor o encarava de um jeito estranho e compenetrado, quase como se estivesse em transe.
— Mai? — Chamou.
— A-ah, desculpe — ela balançou a cabeça, desviando sua atenção dele, um pouco perturbada. — Me distraí com alguns pensamentos.
Por um curto período de tempo, talvez por um milésimo de segundo, o informante viu um brilho de tristeza em seus olhos. Mas esse sumiu rapidamente, sendo habilmente encoberto por uma máscara de animação por parte da jovem.
— Eu vou querer o mesmo que você pedir, Izaya — ela falou.
Com atenção, o informante observou cada pedaço de sua expressão, lendo as pequenas fissuras que ela tentava esconder. O sorriso estava um pouco forçado, seus dedos tamborilavam ansiosamente o tampo de madeira da mesa e seus olhos pareciam focar-se em tudo para não encará-lo diretamente por muito tempo.
Perceber aquilo foi extremamente incomodo e o desagradou. E, para piorar, ele não sabia dizer o motivo daquela mudança. Foi um comportamento estranho e repentino, que não combinava com a alegria que presenciara há menos de dez minutos.
Izaya quis perguntar o motivo, mas preferiu se resguardar, ao mesmo tempo querendo que a própria chegasse até ele e lhe contasse o que a afligia.
Acenando e fingindo não ter percebido tal comportamento, chamou o garçom e fez o pedido. Logo, duas grandes tigelas com sopa de missô, feita com tofu, cebolinha e pedacinhos de peixe foram deixadas sobre a mesa.
Saborearam-na com tranquilidade e em silêncio. Ao acabarem, Izaya pediu a conta, enquanto Mai ia ao banheiro. Ele a observou se afastar, mas teve que tirar sua atenção dela para se focar no garçom.
Depois de pagar e receber seu troco, o rapaz ergueu-se da mesa e dirigiu-se para o pequeno hall de entrada. A menor estava demorando, mas ele quase não pensou nisso, distraindo-se com o ambiente a sua volta. Reparou nos clientes, nas pessoas que atendiam, quando se cansou e passou a fitar o pequeno quadro de avisos preso a parede ao seu lado. Pregado nele, havia vários folhetos de festividades que ocorreriam na cidade durante aquela semana. No início, nenhum deles despertou seu interesse, até que leu um que o fez tirar o alfinete que o prendia e levá-lo mais próximo aos olhos.
— Pronto, podemos ir — ouviu Mai.
Izaya virou-se para ela, com um sorriso extremante satisfeito nos lábios.
— Mai-chan, o que acha de sair em um encontro comigo? — Perguntou, guardando o folheto no bolso.
— Um... Encontro?!
Rindo da reação dela, o rapaz se adiantou, caminhando a passos rápidos para fora do restaurante, voltando para as ruas da cidade, deixando-a para trás.
Eufórica, a jovem o seguiu, gritando seu nome e tentando alcançá-lo.
— Espera, Izaya! — Ela chamou, enquanto corria. — Um encontro?
— Isso mesmo ~ — assentiu, ainda mantendo um ritmo rápido. — Excelente ideia, não?
— S-sim, mas...! Ain, me espera!
Mai agarrou o sobretudo de Izaya por trás, tentando freá-lo.
— Siiim? ~~ — Ele virou-se para menor com uma inocente expressão de dúvida.
— Vamos a um encontro? — Mai perguntou com os olhos brilhando.
— Nós vamos? — Fingiu surpresa.
— Izaya...! — Falou em tom choroso.
— Certo, certo — ele fez um gesto apaziguador. — Sim, nós vamos a um encontro e será essa noite. Gostou da ideia?
A colegial abriu um grande sorriso de animação.
— Sim, sim! Já estou empolgada, Izaya. Esse será o nosso primeiro encontro e eu tenho certeza que será incrível. E aonde nós vamos?
— Será uma surpresa.
— Ah, vamos, me conte.
— Não ~
A menor fez bico, mas o informante continuou imperturbável.
— Valerá a pena. Por isso, aguarde — pediu. — Sairemos as sete, ok?
— ... Certo.
— Bem, então vamos indo — ele parou um segundo. — Ah, mas antes vamos passar em uma loja de roupas. Acho que você precisa de alguns casacos.
***
Sentado no sofá de couro do escritório, Izaya esperava Mai trocar de roupa. Um pouco inquieto, ele acariciou Kuro deitado ao seu lado e depois pegou uma revista na mesinha de centro. Porém, pouco absorveu de seu conteúdo, devido à ansiedade que sentia. Era estranho e pouco usual para alguém como ele, mas não conseguia parar de pensar em como seria o passeio e ter expectativas. Também achava isso curioso. Já havia passado por tantas situações, dos mais variados tipos, mas nenhuma delas jamais havia despertado nele o que vinha sentido desde aquela manhã.
— Estou pronta.
Ao ouvi-la, Izaya ergue-se do sofá, encarando a menor. Ela usava um dos casacos que havia lhe dado, era longo e branco, um pelos envolta da gola e capuz, com uma blusa vermelha por baixo e calça jeans escura.
— Então vamos.
Como o local do encontro era um pouco mais distante, o rapaz optou por pegar um taxi. Imersa em curiosidade, Mai manteve-se o trajeto inteiro olhando pela janela. E, faltando um quarteirão para chegar ao destino, ela conseguiu ver onde seria o encontro.
— Um parque! — Ela exclamou completamente fascinada.
Quando o taxi parou próximo à calçada, a jovem desceu e o moreno a levou até a bilheteria. Pago os ingressos, ambos entraram no que, na perspectiva de Mai, parecia um paraíso de cores e diversão.
Completamente deslumbrada, a menor parou no meio do caminho para contemplar o que estava diante de si.
O espaço onde o parque havia se instalado era extenso, pontilhado por brinquedos que executavam movimentos de tirar o fôlego. Tudo era iluminado por luzes coloridas e piscantes, que se destacavam no céu noturno. Uma música divertida e animada ressoava pelo ar e pessoas fantasiadas caminhando por entre os visitantes. Havia também várias barracas com joguinhos onde se podia ganhar prêmios ou então apenas vendendo comida. Tudo era decorado com balões e bandeirinhas de todas as coras e letreiros brilhantes.
Mai ofegou de emoção, sem saber por onde começar.
— I-Izaya, eu... Isso é incrível!
Rindo da reação da garota, ele se aproximou e colocou a mão em seu ombro.
— Está vendo aquele brinquedo ali? — ele apontou para o único que não estava funcionando. — Aquela é a roda-gigante e faz parte da atração principal. Às dez horas irão ligá-la e as pessoas que compraram os ingressos especiais terão o privilégio de assistir ao show de fogos lá do alto. Obviamente, graças a mim, nós estamos incluídos nesse seleto grupo — explicou com ar convencido.
Radiante, Mai acenou para ele e precipitou-se em direção a uma montanha-russa, mas parou no meio do caminhou e virou-se para Izaya, que havia ficado para trás.
— Vamos! — Chamou. — Sem você não tem graça.
O informante soltou um suspiro divertido, olhando em volta, e a seguiu. Realmente, viver ao lado de Mai significava estar sujeito a novas e inusitadas experiências. Bom, ele teria que se acostumar com isso. E, também, não era como se não gostasse de se sentir surpreendido.
— Certo, certo, vamos.
A colegial, completamente hipnotizada pelo ambiente novo e cativante, escolheu a maior montanha-russa para começar. A sensação do frio na barriga a deixou sem fôlego, mas também aumentou ainda mais sua euforia. Em seguida, ela escolheu o carrinho bate-bate, brinquedo que a cada trombada dada a fazia soltar risadas. Logos após, Mai decidiu ir ao carrossel. Mesmo que não fosse algo rápido ou emocionante, ela ficou fascinada com ele, indo três vezes no brinquedo.
E assim foi, até irem a todas as atrações. Quando terminaram, Izaya a guiou até as barracas com jogos. Mai não era muito boa neles, mas isso não a impediu de se divertir. O informante também tentou alguns e acabou ganhando para ela um ursinho de pelúcia com uma fita azul enrolada no pescoço.
— Obrigada, Izaya.
Ela abraçou o ursinho e depois encarou o moreno com o rosto corado.
— Não só pelo ursinho, mas pelo passeio e por tudo. Desde ontem tudo tem sido incrível e eu estou muito feliz — falou. — Conhecer você foi a melhor coisa que me aconteceu, Izaya. Por isso, independente do que aconteça, irei me esforçar para que esse tempo com você seja o mais incrível possível. Eu vou... — ela respirou fundo. — Lhe dar muito mais do que o meu eu anterior lhe deu, tanto, que nem vai notar a diferença e acreditar que nunca nos separamos! Farei com que esse tempo juntos seja melhor do que qualquer coisa que já tenha experimentado.
Surpreso com as palavras da jovem, Izaya não conseguiu lhe dar uma resposta imediata. Ele apenas a encarou, sentindo como aquelas palavras desencadearam em sua mente e coração uma série de pensamentos e sentimentos.
Desde ontem, sentia-se imerso em coisas que há muito não sentia. Alegria, amor, carinho... Antes de conhecer Mai, eram coisas que não entravam em seu coração frio e ressecado, muito menos lhe eram direcionadas. Mas depois de conhecê-la, ele passou a provar desses sentimentos e vivê-los em seu âmago. Entretanto, quando ela foi embora, todas as coisas boas lhe foram roubadas e Izaya achou que nunca mais poderia senti-las. Por muito tempo acreditou que o vazio deixado pela partida da garota e sua perda de memoria nunca seria preenchido novamente.
Mas lá estava ela, a pessoa mais importante de sua vida, lhe oferecendo tudo isso e muito mais. Izaya podia sentir pouco a pouco toda a dor e sofrimentos sendo apagados. As memorias agonizantes de seu tempo de solidão e o desespero de nunca mais poder reviver aquela vida estavam sendo sutilmente apagados.
Uma vida nova. Podemos recomeçar.
Ele poderia ter tudo aquilo de volta, era só não deixá-la mais escapar de seus braços. Era só cuidar bem dela e manter o sorriso em seus lábios. Era só...
— Izaya...?
— Mai, casa comigo?
O sorriso em seus lábios sumiu e ela arregalou os olhos. Mai deu um passo para trás, porém Izaya a acompanhou.
— Você sabe o que significa uma pessoa querer casar com a outra, não é? — Ele insistiu. — Eu sei que sabe. Sendo assim, case-se comigo. Você quer cuidar de mim e poderá fazer isso, assim como eu também poderei cuidar de você. Vamos viver juntos e do nosso jeito, sem se importar com as outras pessoas e ter qualquer tipo de preocupação. Vamos criar o nosso próprio mundo e não deixar que ninguém mais entre nele.
Izaya olhou intensamente para Mai, com os olhos brilhando com uma certeza imperturbável.
Não havia mais motivos para se resguardar, nunca houve.
Naquela noite, debaixo da chuva, Izaya havia feito sua maior aposta. E agora era hora de expor todas as suas fichas e deixar que o jogo começasse. Era tudo ou nada, e ele já havia feito sua escolha.
Independente do que os estivesse esperando no futuro, o maior desejo dele era estar ao lado de Mai. Não queria mais se sentir só, muito menos se culpar por não ter sido capaz de dar a ela a vida que merecia.
Com tudo isso em mente, Izaya procurou nos olhos da jovem a mesma certeza que inundava seu coração.
Mas ele não a encontrou.
Naquele momento ele percebeu então que toda a alegria e felicidade antes presentes nos olhos azuis da menor havia se extinguido, sendo subitamente trocados pelo mesmo brilho de tristeza que presenciou mais cedo, só que dessa vez somado ao medo e incerteza.
— Não — ela respondeu.
— O que? — A incredulidade transbordava por suas palavras.
— Eu disse não!
Mai afastou-se do rapaz e saiu correndo. E, inicialmente, confuso demais com a sucessão de acontecimentos, ele não a acompanhou. Entretanto, ao perceber que ela se dirigia para a roda-gigante e que se entrasse ali sem ele só a veria novamente depois do show de fogos, Izaya se pôs a correr.
A fila para o brinquedo estava pequena, porém Mai passou na frente de todos que ali estavam, recendendo várias reclamações, e entrou rapidamente na cabine vazia. Ela tentou puxar a porta para fechá-la, mas o maquinista apareceu para perguntar o que estava acontecendo e exigir os ingressos. Mas ao ver os olhos marejados de Mai, pareceu ficar um pouco desconcertado com a situação, porém ainda sim pediu os tickets.
— Lamento o que quer que tenha acontecido, mocinha, mas preciso do seu ingresso — ele falou.
— Estão aqui comigo — a voz de Izaya soou.
O rapaz também furou a fila, sem se importar com os olhares de indignação que lhe eram direcionados. Ele entregou os passes para o homem e entrou lá dentro, sentando de frente para a menor.
Ainda que confuso, o maquinista apenas deu de ombros e fechou a porta. Segundos depois o brinquedo começou a subir.
Sentado, mesmo internamente atônito com a recusa da jovem, o informante a encarava om um semblante sério e duro.
Não que ela tivesse a obrigação de aceitar seu pedido, mas depois de tudo que passaram e das declarações que trocaram, a forma como a menor agiu repentinamente não fazia o menor sentido e era até frustrante.
Mai, que sempre deixou claro o quanto o amava e queria permanecer ao seu lado, havia simplesmente dito não e fugido de Izaya, quando o mesmo decidira tomar a mais importante da vida de ambos.
Ela havia recusado um pedido de casamento dele... Isso não fazia sentido!
— Mai — ele a chamou.
Encolhida no banco, ela apertou ainda mais o ursinho contra o rosto.
— O que foi tudo isso? Por que você...
— Izaya idiota — sua voz saiu abafada, mas ao mesmo tempo dando sinais de que estava embargada. — Você estragou tudo.
— Eu o que? — Exclamou incrédulo.
— Não devia ter falado aquelas coisas. Não devia ter me pedido em casamento. Está tudo errado!
— Errado?! — Ele se ergueu do banco, sem querer admitir que aquela recusa o havia magoado. — Por que diabos eu estaria errado?!
A menor não respondeu.
— Ontem você disse que faria tudo para estar ao meu ado e que, independente do que acontecesse, era para apostar nesse sentimento que temos um pelo outro — ele se aproximou dela. — Bem, é o que estou fazendo! Estou lhe dando o meu coração e mostrando o quão forte é o que eu sinto por você, colocando em palavras e atos o meu desejo de estar ao seu lado e apostando tudo que tenho nesse sentimento.
— Você poderia ter feito isso sem me pedir em casamento! — Ela devolveu.
— Qual é o seu problema, Mai? — Ele tentou tirar o ursinho de seus braços. — Até agora a pouco você estava me fazendo declarações de amor, porque de repente está me afastando?
— Por que... — mais e mais lágrimas desceram pelo seu rosto. — Porque eu não sou humana e nunca poderemos ficar juntos para sempre. E é exatamente o que está me pedindo, mas eu não posso lhe dar isso.
Ao ouvir as palavras da jovem, as forças de Izaya começaram a diminuir, fazendo-o se sentir fraco.
— Essa é a verdade...
Mai abaixou seu ursinho, exibindo suas feições tristes para o rapaz.
— Duas pessoas se casando significa o desejo delas de nunca mais se separarem. São duas pessoas se tornando uma só... — falou. — E, Izaya, é o que eu mais quero. Não poderia existir algo que me deixasse mais feliz. Me tornar sua esposa, ter a certeza de que sempre estaríamos juntos e ter seu coração só para mim seria maravilhoso. Mas, infelizmente, eu não posso lhe retribuir isso, porque sei que não ficarei ao seu lado para sempre. Eu não sou humana e um dia não estarei mais aqui com você. E, caso nos tornássemos um só, quando eu partisse, o deixaria incompleto.
Ela deixou os ombros caírem de exaustão e abaixou os olhos para os próprios pés.
— Eu não poderia fazer algo tão cruel com você.
— Então, o que você pretende fazer de agora em diante? — Ela o ouviu perguntar. Não tinha coragem de ver a decepção em seus olhos.
— Vamos viver juntos, cuidando um do outro. Seremos carinhosos, trocaremos palavras doces e teremos uma vida feliz, longe da solidão. Mas, quando eu perceber que minha partida está próxima, irei começar a me afastar de você, até nos tornarmos indiferentes um para o outro. Assim, quando eu for embora, você quase não sentirá a minha falta — ela explicou. — Parece ruim e triste, mas não é! Farei o nosso tempo juntos valer a pena, eu prometo. Não vai se arrepender de me ter com você. Eu irei cuidar de tudo, para que não haja feridas, mas para isso acontecer, não podemos nos casar...
Não houve resposta. O silêncio era pesado e cortante, esmagando o pobre coração de Mai, que acreditava ter estragado tudo.
— É esse o seu plano? — Ele perguntou.
— É...
Novamente o silêncio.
— E o que acontece se eu disse que não aceito isso?
Mai arregalou os olhos e levantou a cabeça para encarar o informante, mas ele havia se ajoelhado na sua frente e a fitava com intensidade.
— Ein, Mai-chan, me responda.
A jovem tentou articular algo para lhe dizer, porém nada saía de seus lábios.
— Foi o que pensei — continuou e em seguida deu um suspiro. — Ah, Mai, você não tem a menor ideia das bobagens que acabou de dizer, sem falar que está se contradizendo. Eu sempre soube que você não era humana e, ontem, quando disse que faria tudo por você, estava completamente ciente de que um dia você não estaria mais comigo, lembra-se? Isso já não é mais um problema para mim. Não vou mentir, isso ainda me assusta e sei quando esse dia chegar irá doer em mim, mas já estou pronto. Eu resolvi apostar tudo em você e não me arrependo. Para mim, ter seu amor vale mais do que qualquer coisa, e eu sofreria o pior dos males para tê-lo, mesmo que por um segundo.
Ele esticou a mão para limpar o rosto de Mai.
— Sendo assim case-se comigo, Mai. Viva ao meu lado e não pense no futuro. Concentre-se apenas em sorrir e cuidar bem do coração que estou lhe dando. E, quando o dia da sua partida chegar, apenas segure minha mão e diga que foi um prazer me conhecer e que me amou até o fim. É só isso que eu peço.
— M-mas... — as lágrimas não paravam de descer.
— Vamos, Mai, aposte comigo. Só vale a pena se estivermos juntos. E não se contenha mais, direcione a mim todos os seus sentimentos e eu devolverei na mesma intensidade.
No início, ela hesitou, mas então seu coração começou a bater tão forte, chamando por Izaya, que ela não conseguiu mais se conter. A colegial se deixou cair nos braços do rapaz e enlaçou seu pescoço com os braços, afundando o rosto no ombro dele, deixando as suas lágrimas de alívio e emoção correrem livremente.
— Acho que isso é um sim — ele comentou em tom baixo, abraçando-a também.
Por mais que Izaya tivesse dito que era uma besteira, no fundo sabia que as palavras de Mai continham a mais pura verdade. Ao decidirem se casar, iriam aprofundar ainda mais o laço que os unia, começariam uma vida nova e se apegaria um ao outro mais e mais, coisa que faria com que a separação deles se tornasse ainda mais dolorosa.
Izaya sabia que o futuro que teria estava cheio de sofrimento, que a despedida era inevitável e que passaram noites sem dormir, temendo o amanhã. Já estava ciente da tragédia injusta em que estavam se colocando e das feridas incuráveis que ela iria deixar.
Todavia, ele não se importava. Não mais.
Já estava cansado de fugir, fingir que não sentia e ficar trancado atrás daqueles gélidos muros que havia erguido para se proteger. Por isso, única e exclusivamente para Mai, ele iria abri-los e deixá-la entrar, e juntos, criariam um pequeno mundo só deles, longe do resto.
— Ei, Mai-chan, é melhor para de chorar — falou, massageando suas costas. — Ou vai perder o show de fogos.
A menor afastou seu rosto do ombro do mais velho e olhou pela janelinha da cabine. Estava tomada por tantas emoções, que mal havia notado que a roda-gigante havia chegado a um de seus pontos mais altos e que, no céu noturno de Ikebukuro luzes flamejantes arrebatavam-se, formando grandes e magníficas estrelas brilhantes.
Com a ajuda do informante, ela se pôs de pé, sem conseguir tirar os olhos daquele espetáculo. Em silêncio e de mãos dadas, ambos assistiram ao show, ao passo que, dentro de seus corações se instalava um doce e confortável alívio.
— Eu aceito, Izaya — falou a jovem, sem tirar a atenção da atração. — Vou me tornar sua noiva, e então sua esposa. Vamos apostar juntos e ficar juntos até o final.
Ela virou-se para o rapaz, que ainda olhava para fora. Seus olhos ainda estavam molhados, mas a felicidade era óbvia em suas feições.
— Ei, Izaya, você está sorrindo — observou.
— Não estou não — devolveu sem encará-la.
— Está sim! Porque você está feliz, assim como eu, não é?
— Não seja boba — ele revirou os olhos e voltou-se para ela. — Se eu estivesse feliz, eu teria feito isso...
Izaya deu um passo em sua direção e segurou o rosto da menor, inclinando-se para unir seus lábios em um beijo apaixonado.
***
Quando o show acabou, o brinquedo voltou a se mover e os dois voltaram ao chão. Ao saírem da cabine, Mai logo percebeu que alguns dos outros estavam sendo desligados.
— O que está acontecendo? — Ela perguntou.
— Essa foi a atração final, agora o parque está fechando — respondeu, notando que a jovem já não segurava mais a sua mão. — E acho que também está na hora de irmos embora.
— Uma pena... Mas podemos comer algo antes?
— Tudo bem.
Os dois caminharam até uma das barracas de comida e comprara duas caixinhas quadradas contendo meia dúzia de takoyakis em cada e refrigerantes. A colegial procurou mesas para sentar, mas não achou e também viu que Izaya caminhava para fora do parque.
— Aonde vamos? — Ela o acompanhou.
— Você estava tão eufórica na vinda para cá, que nem percebeu que passamos por aquele playground no caminho. Vamos para lá.
Ainda que algumas pessoas passem pela rua, o parquinho estava vazio, tendo apenas como companhia as árvores flageladas pelo frio e os postes que iluminavam o espaço.
Sentaram-se em um dos bancos, sentindo-se aliviados depois de uma tarde tão movimentada, e prontos para iniciarem a pequena refeição. Comeram em silêncio, saboreando a comida. O bolinho era recheado com polvo, rapas de tempura e gengibre, frito em molho agridoce e tinha um gosto maravilhoso e caseiro.
— Ei, Izaya — ela o chamou ao terminar. — Posso te contar uma história?
— Fique a vontade — deu de ombros, levando o último bolinho a boca.
— Na verdade, não é uma história e sim uma lenda — admitiu, olhando para o céu. — É a lenda do Laço Vermelho do Destino, a Akai Ito.
Izaya parou de tomar seu refrigerante para encará-la, mas a jovem parecia distraída com as estrelas.
— De acordo com a lenda, assim que uma pessoa nasce, uma linha vermelha é amarrada em seu dedo mindinho, invisível aos olhos dos humanos, e conectada a outra pessoa, a qual ela estará destinada a encontrar e amar no futuro — Mai contou, abrindo a mão no ar, cobrindo a Lua com ela. — Uma corda vermelha invisível conecta aqueles que estão destinados a se encontrar, independente do tempo, lugar e circunstância, e então se amarem. A corda se estica e se emaranha, mas nunca se rompe.
Ao terminar de recitar aquelas palavras, ela abaixou a mão, concentrando-se em seu dedo mindinho.
— Você acredita que nessa lenda, Izaya? — Mai o encarou. — Acha que estamos conectados pela Akai Ito?
Izaya parou, hipnotizado por aqueles olhos azuis.
Se fosse em outros tempos, nem pensaria para responder, diria não. Sempre foi um homem cético, que acreditava que a vida era formada por coincidências que se encaixavam ao acaso. Destino não existia para ele.
Todavia, agora, não conseguia pensar em seu encontro com Mai como uma simples coincidência. Um mero acidente não mudaria tanto sua vida. Chegava a quase se sentir ofendido quando pensava nisso como algo tão banal. A companhia de jovem havia se tornado algo tão importante e insubstituível em sua existência, que a única forma que Izaya consegue classificar aquele encontro era como... Algo predestinado, talvez?
Não sabia dizer. Quando pensava em Mai, sua existência sobrenatural e a relação profunda que tinha com ele, sentia que era algo muito mais complexo e maior do que era capaz de compreender. Como se uma infinidade de segredos e significados se escondessem por trás dela, e que nem a própria tivesse consciência.
— Não sei, quem sabe? Mas seria bem prático se esse fio realmente existisse, pois ai, quando você resolvesse fugir de novo, eu poderia puxá-la de volta e amarrá-la a mim.
Mai soltou uma risada sem graça e voltou-se para frente. Izaya fez o mesmo, mas a espiou pelo canto dos olhos. Por fim, ele deu um suspiro e se colocou de pé, um passo a frente do banco, para que a menor não visse seu rosto.
— Sabe, Mai, se essa lenda realmente existe, talvez haja uma chance — falou. — Ela nunca se rompe, foi o que disse, por isso, vou segurá-la com todas as minhas posso, para que nada te leve de mim.
Mai sorriu com tristeza, mas ainda sim tocada por suas palavras.
— Sim, me segure bem forte e nunca tire os olhos de mim — ela também se levantou e segurou a mão do rapaz. — Pois estamos ligados por muito mais que uma linha do destino e é algo que nem o tempo ou a distância podem apagar.

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