Memories

29 Memory Twenty Eight


Notas iniciais
Olá! Demorei muito, né? Me desculpe mesmo. Sei lá, esse capítulo foi bem difícil de escrever. De qualquer forma, isso já passou e agora estamos aqui ~ Primeiro, gostaria de pedir desculpas pelo tamanho do capítulo. Sei que 9 mil palavras é bem cansativo de se ler, mas eu peço paciência. Nem eu gosto de escrever coisas muito longas assim, pois sei que cansa o leitor. Espero mesmo que isso não aconteça novamente '-- Então, por favor, não se assustem, tenham força e leiam com calma, apenas não desistam. Por fim, gostaria de dar boas vindas aos leitores que me adicionaram no facebook. Espero que realmente estejam gostando da fanfic. Bem, tenham uma boa leitura =)

Memories

Memory Twenty Eight

• • •

Incomodado, Izaya remexeu-se na cama, sentindo um miado agudo e irritante penetrar seus ouvidos.

— Silêncio, Kuro! — Ordenou, jogando seu travesseiro no gato ao lado da cama.

Entretanto, com um movimento rápido e gracioso, o animal desviou do objeto, reiniciando seu miado insistente logo em seguida.

— Maaaai! — Chamou preguiçosamente, escondendo a cabeça debaixo da coberta — Dá um jeito no seu gato.

Porém não houve resposta.

Ainda escondido, ele apalpou o lado esquerdo da cama. Ao não encontrá-la, sentou-se sobre o colchão, logo notando o sutil som da ducha ecoando pelo quarto.

— Oh!

Ignorando Kuro e com um sorriso malicioso nos lábios, saiu da cama e caminhou até a porta do banheiro. De forma lenta e silenciosa, ele a abriu, adentrando sorrateiramente no lugar. Com cuidado e sempre observando a silhueta da garota através do vidro fosco do box, Izaya começou a se despir.

Sentada em um banquinho embaixo do chuveiro e cantarolando uma música sem melodia, Mai tomava seu banho tranquilamente, alheia as intensões maliciosas do rapaz.

Perceber isso fez o sorriso do informante aumentar ainda mais.

Ao terminar de tirar sua roupa, Izaya foi até a porta do box e a abriu.

— Mai-chan! ~~ ♥

Pega de surpresa, a menor soltou um gritinho e deu um pulo no lugar. Com os olhos arregalados, virou-se para ele.

— I-Izaya…?! — Exclamou, cobrindo os seios. — O-o que faz aqui?

— Ora, vim tomar banho com a minha coelhinha ~ — respondeu simplesmente, fechando a porta e caminhando até ela.

— Mas a-assim tão… Tão d-de repente?

Com o rosto em chamas e ainda trêmula pelo susto, a jovem levantou-se do banquinho e tentou se afastar dele. Todavia, suas costas logo se encontraram com a parede do azulejo, deixando-a sem saída.

— E-espera um pouco, Izaya! — Ela pediu, envergonhada e aflita.

Izaya apenas riu, avançando o suficiente para colar seu corpo ao dela. Além da água do chuveiro que caía sobre os dois, agora ele também podia sentir a pele quente a macia de Mai contra a sua.

— Por que está se cobrindo, ein? — Provocou.

Ele a segurou pela cintura e afastou um dos braços que ela usava para cobrir o busto. Fitando aquele lindo rosto corado, que tanto o provocava, aproximou seus lábios do ouvido dela.

— Achei que tivéssemos superado isso, meu amor — sussurrou sensualmente, sentindo-a arrepiar. — Afinal, não há mais motivos para contermos o inegável amor e desejo que sentimos um pelo outro. Nunca houve, certo?

Não houve uma resposta por parte de Mai, porém ele ouviu-a soltar um suspiro ansioso e excitado. Sorrindo de forma satisfeita, afastou seu rosto dela, observando sem pudor seus seios redondos e depois fitando-a de forma desejosa, sentindo seu membro reagir àquela visão.

— Ótimo — falou. — Porque esse é o momento perfeito para eu te mostrar e ensinar algumas coisas novas ~

Saindo do transe, ela arregalou os olhos, com o rosto esquentando ainda mais.

— E-espera… — pediu sem fôlego, sentindo as mãos de Izaya apalparem seu corpo. — Esperaaaa!

— Ah, Mai-chan, você fica tão linda quando está envergonhada! ~ ♥

— Kyaah!!

• • •

— Sabe, no começo eu achei que você ia me jogar no chão e fugir — comentou em tom de riso.

— Desculpe… É que você me assustou — murmurou envergonhada.

Sentado na beirada da cama, com Mai acomodada entre suas pernas, Izaya secava os longos cabelos negros da menor com uma toalha.

— Não precisa se desculpar — ele riu. — Sem falar que, se eu tivesse percebido que você realmente não estava confortável com aquilo, teria parado.

A menor não respondeu, deixando que o informante secasse seu cabelo. Até que tomou coragem e o olhou por cima do ombro.

— V-você… Gostou? — Mai perguntou um pouco sem jeito, com o rosto ruborizando.

Confuso com a pergunta, ele franziu o cenho.

— Eu… Eu tentei dar o meu melhor e fazer tudo certinho — acrescentou envergonhada. — Também prestei muita atenção no que você me ensinou…

Izaya ainda a encarou por alguns segundos sem dizer nada, até finalmente compreender ao que ela estava se referindo. Exibindo um sorriso fino e malicioso, ele tocou sua face.

— Você foi incrível, Mai-chan — falou em tom aveludado — Eu amei cada segundo com você dentro daquele box.

Mesmo que tímido, um sorriso sincero e feliz abriu-se no rosto da jovem.

— Obrigada — disse, desviando seus olhos dele e virando-se para frente novamente. — Eu também gostei muito.

Que gracinha…, ele pensou com humor. Ela queria ser elogiada.

— Pronto, acabei — avisou, puxando a toalha dos cabelos de Mai.

— Obrigada!

Com um pulinho, ela se levantou da cama, mas voltou-se novamente para o rapaz, se aproximando dele e lhe dando um rápido, porém carinhoso, beijo. Izaya sorriu para ela, o que a fez soltar uma risadinha encabulada e se afastar para perto do armário. Dando-lhe as costas, ela abriu a porta e começou a procurar seu uniforme. Rindo, o informante fez o mesmo, pegando sua calça jeans e blusa negra de mangas longas para substituir o pijama que usava.

Enquanto ele vestia seu sobretudo, a jovem fechou a porta do móvel e foi até o criado-mudo ao lado da cama. Sobre a superfície de madeira, sua aliança descansava. Com delicadeza, Mai a pegou e colocou em seu dedo, fitando-a com carinho e estima.

— Vamos? — Izaya chamou sua atenção.

— Vamos!

Juntos, deixaram o quarto e caminharam até as escadas, descendo para o andar inferior. Ao passo que Mai ia até o sofá pegar sua pasta, o informante aproximou-se de sua mesa para pegar o celular.

O rapaz, ao tê-lo em mãos, por hábito, checou se havia alguma mensagem ou ligação. Para sua surpresa, havia cinco chamadas perdidas de Mairu. Por um momento, considerou retornar, mas logo descartou a ideia. Sua irmã falava demais e era intrometida, ligar de volta lhe traria apenas dor de cabeça.

Revirando os olhos, guardou o celular no bolso do casaco.

— Ei, Mai-chan, o que acha de tomarmos café da manhã em uma cafeteria? — Sugeriu, caminhando até a porta. — Você também precisa comprar algo para o lanche, não é? Podemos passar em uma loja de conveniências no caminho.

• • •

Efetuaram o desjejum em uma lanchonete próxima ao escritório e, logo após terminarem, passaram em uma loja de conveniências para que Mai comprasse seu obento.

Ao saírem, um vento frio e úmido os cumprimentou, balançando fracamente o casaco de Izaya e a saia de Mai. Em resposta, a menor encolheu no lugar e aproximou-se mais do rapaz.

— Que frio — ela murmurou, reiniciando sua caminhada junto do mais velho.

O informante apenas riu internamente. De fato, estava frio, porém a simples companhia de Mai espantava qualquer sensação de desconforto. Sua pequena e delicada mão contra a dele, seus dedos entrelaçados e a sensação do metal das alianças transmitiam um calor gentil e agradável, que envolvia seu coração de um jeito único e reconfortante.

Inconscientemente, apertou mais a mão dela, temeroso de que aquela sensação sumisse e, ao mesmo tempo, tentando compreender e atribuir um nome ao que estava acontecendo dentro de seu peito, que havia começado a palpitar de um jeito diferente.

Ao perceber o que estava fazendo, Izaya afrouxou o aperto, instantaneamente sentindo-se embaraçado por estar se aventurando nesse tipo de pensamento. Por mais que tivesse passado algumas semanas desde o dia em que admitira seus sentimentos por ela, para alguém como Izaya, que havia passado quase toda sua vida longe de coisas como amor e carinho, ainda era um pouco difícil lidar com momentos desse tipo. Na verdade, apesar de todo o seu conhecimento acerca do comportamento humano, ele ainda se sentia confuso com seus próprios sentimentos e perdido em situações em que desejava demonstrá-los ou enfrentá-los de frente.

Não que fosse admitir isso em voz alta para alguém, claro que não. Ele era Orihara Izaya, alguém que sempre sabe o que fazer e que tem total controle sobre qualquer situação em que está envolvido. Precisava demonstrar que estava tudo bem e dar segurança a Mai.

Não quero mais fazê-la sofrer, pensou.

Izaya respirou fundo, relaxando os braços e ombros. Nesse momento, ele percebeu que não era o único a apertar a mão dela. Da mesma forma, Mai também o segurava com força.

Curioso, abaixou os olhos até ela, notando que seu sorriso animado havia sumido e o brilho em seus olhos se apagado. Ao contrário de momentos antes, a jovem parecia cabisbaixa e receosa.

Antes de perguntar se estava tudo bem, por instinto observou o ambiente a sua volta primeiro. Logo sendo capaz de compreender o que estava acontecendo.

Enquanto divagava sobre seus sentimentos, haviam se aproximado do quarteirão onde se localizava o colégio de Mai. Em consequência disso, os pedestres haviam sido substituídos quase completamente por estudantes uniformizados a caminho da escola. Na verdade, parecia que Izaya era o único adulto ali. Um fato que parecia chamar bastante atenção, principalmente levando em conta que ele e Mai estavam de mãos dadas. Era fácil notar os olhares desconfiados, de espanto e, até, nojo.

Ah, quanta ignorância da minha parte, repreendeu-se.

Desde o dia em que haviam se separado até o momento atual, tantas coisas aconteceram entre eles, que Izaya havia se esquecido completamente da complicada situação de Mai naquela escola. E que grande parte disso era culpa dele.

Desde que começara a frequentar aquele colégio, a jovem vinha tendo dificuldade em se aproximar de seus colegas. E, devido a sua aparência e personalidade, que muitas vezes chamavam a atenção, havia atraído para si olhares de desgosto, principalmente por parte das meninas. O que acabou gerando uma série de fofocas e, vez ou outra, sutis intimidações. Mas tudo ficou ainda pior quando ele e Mai passaram a demostrar certo envolvimento amoroso em público — muitas dessas ocasiões sendo forçadas pelo próprio Izaya, que sabia que havia observadores que levariam o acontecimento para dentro da sala.

As intimidações, piadas e rumores, tudo chegou a um nível tão baixo e cruel, que deixaram Mai em um estado psicológico extremamente vulnerável e ferido. Por culpa dele.

Claro, provavelmente as coisas já não estavam mais tão complicadas, afinal, na época recebera uma ligação da escola, o informando sobre o bullying. E, se os professores e a diretoria estavam sabendo do fato, era provável que tenham tomado providências. Entretanto, duvidava que fossem completamente efetivas. As provocações podiam não serem mais feitas abertamente, porém tinha certeza que o clima que a cercava não deixava Mai se sentir confortável e segura em classe.

— Ei, Mai…

— Izaya — ela o interrompeu, com os olhos fixos no passeio. —, esqueci de dizer… Talvez hoje eu fique até mais tarde na escola.

Ele ergueu as sobrancelhas.

— É mesmo?

— H-hoje é meu dia de limpar a sala depois da aula — começou com a voz fraca. — Por isso, é provável que eu demore um pouco para voltar.

— Compreendo — assentiu, fingindo estar pensativo. — Curioso, na minha época limpar a sala após a aula não era algo tão demorado assim, já que o professor sempre sorteava duplas. Mas imagino que no seu caso, tendo que fazer tudo sozinha, realmente leve mais tempo que o normal.

Mai encolheu os ombros, sem coragem de olhá-lo.

— Isso…

— Também pode acontecer algum imprevisto, não é? — Continuou em tom casual. — Afinal, é muito comum sapatos sumirem do armário de calçados e aparecerem espalhados pela escola.

Mai parou de andar e soltou sua mão. Os ombros estavam caídos e seus olhos transmitiam culpa.

Izaya também havia parado, mas alguns passos a frente dela. Respirando fundo, deu meia volta e caminhou até ela.

— Já tem quase um mês que voltou a morar comigo, por que não me disse nada? — Perguntou, deixando um pouco de irritação escapar. — Sei que eu deveria ter me lembrado disso e tomado alguma atitude, mas ao menos você poderia ter me dito o que estava passando.

Ao não receber uma resposta de Mai, soltou um suspiro pesado.

— Quase quatro semanas aguentando intimidações e você não me disse nada — falou e tom repreensivo. — Como quer que eu cuide de você, se não me conta seus problemas?

— … Eu não queria incomodá-lo com isso — respondeu, tão baixo que ele quase não ouviu.

— Me incomodar? — Sua voz saiu mais alta que o normal, fazendo quem passava olhá-los — Olá, querem participar da conversa? — Convidou com sarcasmo.

Quando o pequeno grupo de estudantes se afastou deles, Izaya voltou a olhar para Mai. Ele a segurou pelos ombros, fazendo-a encará-lo.

— Vamos, agora me diga, como estão sendo seus dias na escola? — Insistiu, fitando-a com intensidade.

— … H-horríveis — respondeu. — Ninguém se aproxima de mim e às vezes as pessoas fazem coisas ruins comigo.

Ao ouvir aquelas palavras, certa indignação e raiva borbulhou em seu peito. Porém, ele manteve-se sério.

— Ótimo — falou, soltando-a. — Considere seus dias nessa escola contados. Irei colocá-la em outro colégio.

— Vai…? — Perguntou, subitamente surpresa.

— É claro. Este aqui não está a sua altura — respondeu com um dar de ombros exagerado. — Mas você terá que frequentá-lo por alguns dias. Acha que consegue?

Ela ainda o encarou por alguns segundos atônita, até voltar a si e responder:

— Sim!

— Boa garota.

Sentindo um pouco mais animada e segura, Mai sorriu.

— Então é melhor eu me apressar, se não chegarei atrasada — falou, começando a andar. — Até mais tarde, Izaya!

Acenando, ela aumentou a velocidade de seus passos, afastando-se rapidamente do rapaz, que retribuiu o gesto.

Parado no meio da rua, Izaya suspirou divertidamente.

— Me incomodar? De onde ela tirou isso? — Ele riu. — Como é bobinha.

Dando meia volta, ele reiniciou sua caminhada. Em seu bolso, sentia seu celular vibrando. Sabia que era Mairu, e por isso o ignorou. Tinha trabalho a fazer e não sentia a menor vontade de atendê-la.

• • •

Aquele começo de dia havia sido proveitoso. Enquanto Mai estava na escola, o informante usou seu tempo longe dela para pôr em dia seus serviços e trabalhar em seus planejamentos pessoais — apesar de vez ou outra se pegar pensando na jovem e em como estaria.

Era início de tarde e Izaya havia acabado de sair de uma negociação entre dois grupos mafiosos rivais a pedido de Shiki. Havia sido algo demorado, mas como sempre obteve sucesso.

Satisfeito com seu dia, caminhava com tranquilidade pela rua em direção ao escritório, quando sentiu novamente seu celular vibrar. Revirando os olhos, Izaya o pegou e fitou o visor.

— Quanta insistência — murmurou, apertando o ícone verde e levando o aparelho ao ouvido. — O que você quer comigo?

— Seu idiota, por que não me atendeu ou retornou minhas ligações?! — Mairu perguntou em tom irritado — Tentei falar com você o dia todo!

— Apenas não me pareceu conveniente — respondeu com indiferença. — Vamos, fale logo o que quer.

— Às vezes você consegue ser incrivelmente desagradável — retrucou. — Se não fosse pela Mai-nee, eu nem estaria me dignando a ligar para você.

— O que tem ela?

— Ah, agora está interessado — riu com sarcasmo. — Pois bem, Iza-nii, eu tenho uma notícia para você: nossos pais estão de volta ao Japão.

— E o que eu tenho com isso? Eles sempre voltam de seis em seis meses e passam alguns dias por aqui. E desde que eu saí de casa, eles não fazem mais questão de me ver.

— É, só que dessa vez é diferente e é ai que está o problema — falou Mairu, alarmada. — Eles querem te ver, mas não só você, como a Mai-nee também!

— O que? — Sua voz elevou-se. — Você contou a eles sobre nós, Mairu?

— Claro que não! — Negou magoada. — Eu não sei como eles descobriram. Mamãe me ligou hoje bem cedo, dizendo que havia desembarcado em Kyoto e que depois pegaria um voo para Ikebukuro. Achei que era só isso, quando ela de repente acrescentou: não se esqueça de avisar ao seu irmão que dessa vez quero ver ele e a tal garota com quem se envolveu. E então desligou.

— Droga — praguejou. — Preciso desligar, Mairu.

— C-certo… — ela respondeu um tanto aflita, algo bem incomum.

Izaya parou um instante.

— … Obrigado — disse por fim, desligando logo em seguida.

Bufando, guardou novamente o celular no bolso, caminhando a passos largos e rápidos em direção ao escritório. Era até melhor que Mai demorasse, assim poderia dar um jeito nisso antes que ela tomasse conhecimento acerca de seus pais.

Definitivamente, não queria que Mai os conhecesse.

Seria desastroso. Não que eles fossem perigosos ou desprezíveis, mas o rapaz conhecia a personalidade dos dois. Eram rígidos, sérios demais e até intolerantes, principalmente sua mãe. Não que isso fosse um problema para Izaya, pois nunca se importou com a opinião dos dois. Todavia, dessa vez não seria só ele, havia Mai. Ela e o fato de ter se casado com uma garota de dezesseis anos. Por mais que não ligasse para isso, sabia que seus pais desaprovariam. E a última cosia que queria era ver Mai ouvir as ásperas e cruéis palavras de seus pais criticando algo que ela tanto valorizava. Já havia feito isso uma vez e o resultado fizera com que nunca mais desejasse vê-la daquele jeito.

Mas também havia outro motivo para não querer que os três se encontrassem. Por mais que não admitisse e dissesse que a única coisa que sentia pelo casal fosse indiferença, secretamente acumulava certo rancor dos dois. Desprezava-os por terem sido muito mais que pais ausentes. Por causa deles, Izaya havia passado sua infância e adolescência imerso na mais puro solidão, sem conhecer o que era carinho e afeto.

Por culpa deles, havia aprendido a não se apegar as pessoas e se isolar emocionalmente de todos.

E agora, essas mesmas pessoas que simplesmente o deixaram de lado durante toda sua vida, estavam de volta, querendo se intrometer na vida que havia construído com a úncia pessoa que lhe era importante.

E isso era inaceitável.

Parado de frente para a porta de seu escritório, Izaya respirou fundo. Se encontrar com seus pais seria inevitável, mas ao menos poderia proteger Mai disso tudo.

Pegando as chaves em seu bolso, o informante destrancou a porta e a abriu. A primeira coisa que notou ao entrar foi que havia uma pessoa parada de frente para os janelões ao fundo da sala. Inicialmente achou que fosse Namie, porém ao ouvir o barulho da porta se fechando, a figura virou-se para ele e Izaya pôde reconhecê-la.

— Bem-vindo de volta — cumprimentou.

Mesmo depois de seis anos, ela continuava do mesmo jeito que se lembrava. Bela e elegante, com um rosto de traços altivos. O cabelo castanho e liso ia até metade das costas e os olhos vermelhos exibiam um brilho malicioso.

A mulher parada a sua frente sorriu com desdém, dando alguns passos em sua direção.

— Quanto tempo — ela falou. —, meu filho.

Sim, aquele era sua mãe, Orihara Kyouko.

— O que faz aqui? — Perguntou ameaçadoramente, apertando os punhos.

— Ora, não me vê há mais de seis anos e é desse jeito que me recebe? — Ela questionou ofendida. — Não foi essa a educação que lhe dei.

— Não fale como se realmente tivesse me criado — devolveu com frieza. — Agora, responda minha pergunta.

Kyouko voltou a sorrir e olhou-o como se a resposta fosse óbvia.

— Vim visitar meu filho, que há muito não vejo — respondeu com ar inocente. — E conhecer sua querida esposa.

— Como você soube sobre ela? — Questionou, sentindo a raiva acumular-se em seu peito.

Sua mãe deu de ombros, com ar indiferente.

— Já que meu filho não faz questão de manter contado comigo, como uma boa mãe, de vez em quando pergunto as suas irmãs como está. Só que dessa vez parecia que elas estavam me escondendo algo, então resolvi procurar outra fonte. Ou seja, liguei para o Shingen-san e ele me contou que você havia se casado!

Ela parou, um brilho frio e indignado começou a surgir em seus olhos.

— Confesso que no começo até fiquei feliz com a notícia — continuou, com aspereza. — Pensei que alguém finalmente havia conseguido acabar com essa sua postura desagradavelmente indiferente e fiquei aliviada… Até ele me contar com quem você havia se casado.

— Não é como se isso fosse da sua conta, mãe — falou com igual frieza. — E se é por causa da sua insatisfação que está aqui, sugiro que vá embora. Não tem direito de se intrometer na minha vida, muito menos conhecer Mai.

— É claro que tenho — rebateu, começando a se enfurecer. — Uma adolescente, Izaya? Uma garota qualquer de dezesseis anos que você achou em um orfanato. É simplesmente um absurdo! E quando os filhos tomam atitudes irresponsáveis e ridículas, é dever dos pais interferir! Esse casamento é um grande erro e eu e seu pai somos contra.

— Ir contra? Interferir? — Izaya riu com escárnio, ainda que a forma ofensiva como sua mãe havia se referido a Mai o tivesse irritado. — Quantos anos você acha que eu tenho, mãe? Não sou mais uma criança, você não tem mais poder sobre mim. Nunca teve, na verdade.

Ela pareceu hesitar.

— De fato, Izaya, não temos — concordou sobriamente. — Porém, nós ainda podemos colocar um pouco de juízo nessa sua cabeça inconsequente e da sua suposta esposa.

— O que quer dizer com isso? — Perguntou perigosamente.

— Amanhã você e ela irão jantar comigo e com seu pai — decretou. — Teremos uma conversa sobre esse casamento e iremos mostrar a vocês dois o erro que estão cometendo. Daremos um basta nisso.

— Sabendo disso, acha mesmo que eu vou ao jantar e, ainda por cima, levar Mai? — Zombou com descrença.

— Mai — ela repetiu com desgosto, balançando a cabeça de um lado para o outro em desaprovação.

Após um suspiro, ela continuou:

— Sim, Izaya, você vai ao jantar e irá levá-la também, pois se não o fizer, serei obrigada a ir diretamente nela — ameaçou. — E então será apenas a garota para ouvir tudo o que temos a dizer — Kyouko se permitiu um sorriso vitorioso. — Tenho certeza que você não quer que isso aconteça, não é? Afinal, pelo que sei, sua esposa é um tanto sensível com coisas do tipo.

Izaya apertou os punhos, tentando conter a fúria impiedosa que se revoltava dentro de si.

— Você não ousaria…

Sua ameaça a divertiu.

— Por favor, Izaya, não haja como se estivesse no controle de tudo — falou com pouco-caso, passando por ele. — Amanhã as sete no restaurante Adega Azul, ouviu? Seja um bom filho e apareça lá sem atraso com sua esposa.

Sem dizer mais nada, Kyouko caminhou até a porta e deixou o escritório.

Parado no mesmo lugar, Izaya olhava atônito para frente. Não acreditava no que havia acabado de acontecer. Havia sido desafiado por sua própria mãe, ameaçado e facilmente vencido. Não só era algo humilhante, como também lhe trazia um amargo gosto de impotência.

No silêncio do apartamento, o barulho de seu celular tocando o arrancou de seus pensamentos conturbados. Ele pegou o aparelho em seu bolso, lendo o nome de Mai no visor.

Não, aquilo não podia ser uma derrota.

• • •

Izaya havia colocado uma máscara sobre seu rosto.

Mesmo com tudo que havia acontecido, mesmo estando imerso em preocupações e seus pesamentos estivessem focados no jantar, em momento algum ele deixou que isso transparecesse.

Com uma expressão tranquila, buscou Mai na escola, perguntou-a sobre seu dia e a ouviu ao longo do trajeto de volta e também contou sobre o seu quando chegaram. Durante o período da tarde e até um pouco antes de anoitecer, ficou ao lado dela, desfrutando de sua companhia, que mesmo em uma situação como aquela, o acalmava.

Todavia, quando o céu escureceu e a Lua dominou o véu negro que cobria a cidade, Izaya ergueu-se de seu lugar, dando início ao seu plano.

— Esqueci de lhe dizer, Mai-chan, mas hoje a noite terei que sair para resolver alguns assuntos — falou. — Mas não se preocupe, não pretendo demorar.

— Tudo bem — ela respondeu, sorrindo. — Vá com cuidado.

O informante então subiu para o seu quarto, a fim de tomar outro banho. Após pegar suas roupas no armário, ele se dirigiu para o banheiro e fechou a porta. Não perdeu tempo com um banho de banheira, tomou uma rápida ducha e colocou suas roupas.

Estava deixando o banheiro, quando encontrou Mai parada no meio do quarto.

— Você precisa mesmo ir? — Ela perguntou com pesar.

— Preciso — respondeu com um dar de ombros entediado. — É um serviço irritante, confesso, mas faz parte do meu trabalho, por isso preciso mesmo ir.

A menor o encarou por alguns segundos com ar desanimado, porém compreensivo, até que, para a surpresa de Izaya, um sorriso triste tomou conta de seus lábios e ela disse:

— Mentiroso.

Aquilo o pegou desprevenido.

— Você vai se encontrar com seus pais, não é, Izaya?

— Como você…?

— Suas irmãs me contaram — interrompeu, magoada. — Disseram que sua mãe o visitou e o chamou para jantar com ela e seu pai. E você escondeu isso de mim!

— Você não entende, Mai — ele devolveu de forma dura a odiando sua irmã por falar demais. — Os meus pais, eles não aceitam que eu tenha me casado com você.

— Eu também sei disso, a Mairu me contou tudo — a menor respondeu. — Disse que sua mãe desaprova a sua decisão e acha que é um erro, e agora quer convencê-lo disso também. Eu sei de tudo e não acredito que você me escondeu essas coisas!

Ofegante, ela se calou, trêmula e com lágrimas nos cantos dos olhos.

— E o que você queria que eu fizesse? — Izaya perguntou, não conseguindo conter a aspereza em sua voz. — Que eu te dissesse cada palavra da minha mãe e ainda a levasse para ouvir ainda mais absurdos que a fariam chorar?

— Eu queria que confiasse em mim — devolveu. — Que da mesma forma como pediu hoje cedo, me deixasse cuida e você.

Ao ouvi-la repetir as mesmas palavras que havia lhe dito mais cedo, Izaya foi incapaz de respondê-la.

— “Sendo assim, case-se comigo, Mai, sorria e cuide bem do coração que estou lhe dando, que eu farei o mesmo com o seu” — ela recitou. — Também foram essas palavras que você me disse aquele dia no parque. Foram com essas palavras que você me pediu em casamento, Izaya!

Mai parou, e o encarou de forma intensa e penetrante.

— Ou será que você disso aquilo só para me agradar e no fundo eram apenas mentiras? — Perguntou.

Houve silêncio e por pouco o informante não se desviou dela.

— Não era mentira, Mai. Tudo aquilo era a mais pura verdade — respondeu de forma profunda, indo até ela a segurando-a pelos ombros. — Mas você precisa compreender, as coisas não são tão simples assim. Meus pais irão te dizer coisas duras e cruéis, irão criticar e condenar a coisa que você mais valoriza e presa. Tudo isso irá feri-la e a fará chorar, e eu não quero que isso aconteça. Também me machuca vê-la sofrer.

— E você pretende ouvir a tudo isso sozinho? — Insistiu ela.

Aquilo o fez hesitar. Havia detestado cada segundo na companhia de sua mãe e odiado cada palavra proferida por ela. No fundo, apesar de ter tentado fingir indiferença, cada crítica o havia irritado e enfurecido. Sem falar que a ideia de ir jantar sozinho com seus pais para poder ouvir ainda mais reprovações lhe causava um terrível desgosto.

Afinal, apesar de nunca admitir, seu relacionamento com Mai, a união que tinha com ela, era algo que havia se tornado extremamente valioso para Izaya.

— Não vai ser fácil — advertiu.

— Eu sei disso — devolveu, olhando-o de forma compreensiva. — E é exatamente por esse motivo que quero estar lá. Sou sua esposa, Izaya, e estarei ao seu lado até nos momentos difíceis. Serei forte, prometo!

O rapaz a encarou em silêncio, mas por fim suspirou, soltando-a.

— Certo, iremos ao jantar juntos.

Mai sorriu.

— Também prometo que não vou chorar — acrescentou animada. — Me espere aqui, enquanto tomo banho e troco de roupa. Não fuja, ok?

Enquanto a jovem caminhava em direção ao banheiro, o informante foi até a cama e se sentou.

Certo, realmente aquele não era o seu dia. Havia sido completamente derrotado duas vezes. Todavia, em vez de se sentir humilhado como na ocasião anterior, um sentimento diferente cresceu em seu peito. Era uma mistura de orgulho e satisfação, que involuntariamente o fez sorrir.

Era estranho, mas agora, sabendo que Mai estaria com ele, todos os seus temores, apesar de ainda existirem, haviam se atenuado. Até o desgosto de ter que encarar seus pais novamente havia diminuído.

Sabe que a tinha ao seu lado, o fazia sentir uma segurança que nunca experimentara antes.

• • •

— Que lugar enorme — Mai comentou, olhando através da janela do táxi, enquanto Izaya pagava o motorista.

Ao lado do automóvel, erguendo-se sobre estruturas de madeira polida e vidro fume, estava o restaurante Adega Azul. Apesar de não ser possível ver o lado de dentro devido ao vidro escuro, o local parecia grande e extremamente bem frequentado, com direito a um segurança na porta carregando uma lista de reservas.

— Vamos — falou o rapaz, abrindo a porta do carro e descendo.

A jovem o seguiu e juntos caminharam até o segurança. Após o informante dar o nome de sua mãe, o homem os deixou passar e eles atravessaram a porta.

Iluminado por ornamentados lustres de cristal, o restaurante era preenchido por um mar de mesas ocupadas por pessoas bem-vestidas e com garçons de expressão solene transitando por entre elas. A decoração do lugar era quase extravagante e as refeições levadas aos clientes tinham um toque caprichoso e exótico.

Ignorando aquele ar pomposo, Izaya passou os olhos pelo salão, à procura de seus pais. Após alguns segundos, achou-os acomodados em uma mesa ao fundo, dentro de uma pequena saleta sem portas.

A visão dos dois o fez suspirar.

— Izaya — Mai o chamou.

Ele virou-se para a menor, que sorriu e segurou sua mão.

— Vamos juntos — ela falou.

— Sim, vamos.

De mãos dadas e com passos firmes, os dois cruzaram o restaurante, até chegarem ao casal, que também havia notado a presença deles.

— Fico feliz que tenha aceitado meu convite, filho — Kyouko falou com deleite, assim que se aproximaram.

— Não que eu tivesse muita escolha — devolveu. — Sem falar que Mai também insistiu em vir.

Assim que ouviu o nome da jovem, o sorriso de sua mãe desapareceu e ela virou-se para a menor, observando-a criticamente.

Aquele olhar fez Mai estremecer, todavia, ela se obrigou a manter-se firme e não se desviou dela.

— Eu sou Orihara Mai — apresentou-se educadamente. — É um prazer conhecê-los.

— Infelizmente não posso dizer o mesmo, Mai-san — devolveu Kyouko, abrindo um sorriso frio. — De qualquer forma, sou Orihara Kyouko e esse é o meu marido…

Ela virou-se para o homem sentado ao seu lado, que até o momento vinha observando toda a situação em silêncio. Com exceção dos olhos castanhos, que carregavam um brilho misterioso, era muito parecido com Izaya. Possuía a mesma pele clara, cabelos negros revoltos e rosto fino e bonito.

— Orihara Shirou — ele completou, fitando Mai. — É um prazer conhecê-la, senhorita.

Sua voz saiu isenta de emoção, não havia gentileza, porém muito menos reprovação, algo que pareceu incomodar sua esposa.

— Também é bom revê-lo, filho — acrescentou, acenando sutilmente com a cabeça para Izaya,

— Com essa expressão fria no seu rosto, eu não tenha tanto certeza, pai — o rapaz respondeu com ironia.

A provocação não surtiu efeito em Shirou, porém sua mãe irritou-se, limpado a garganta e olhando repreensivamente para ele.

— Por que não se sentam? — Ela convidou com uma pontada de aspereza na voz. — Temos muito o que conversar e acho que será melhor para vocês se estiverem devidamente acomodados.

A contragosto, Izaya acatou ao pedido, sentando-se de frente para o seu pai, com Mai ao seu lado.

— Bem — Kyouko começou, encarando a menor de forma gélida. —, imagino que meu filho tenha lhe contado o motivo de estarmos reunidos aqui, não é?

— … Sim — Mai respondeu, tentando não deixar que sua voz saísse trêmula. — Vocês…

— Nós somos contra esse casamento — ela interrompeu de forma dura e repreensiva. — Nós, os pais do Izaya, somos completamente contra essa união e estamos aqui para mostrar a vocês o grande erro que estão cometendo.

Mai sentiu um aperto doloroso em seu peito ao ouvir aquilo. Já sabia desse fato, pois Mairu havia lhe contado e Izaya também a advertira sobre as intenções de Kyouko, todavia, ouvir isso diretamente dela a machucou. Talvez, se aquilo tivesse vindo de outra pessoa, não teria lhe incomodado, mas aqueles eram os pais, a família, de seu marido, pessoas que supostamente também haviam se tornado sua família no dia em que se casaram.

— Não que isso seja da sua conta, mãe — o rapaz comentou amargamente.

Ignorando seu filho, a mulher continuou a encará-la.

— Me diga, Mai-san, você consegue pensar em um motivo para termos essa opinião acerca desse casamento?

— N-não — ela respondeu. — Afinal, não vejo porque haveria algo de errado entre nós para vocês serem contra.

Kyouko riu com desdém.

— Não vê nada de errado? — Repetiu incrédula. — Está tudo errado! Querida, você tem míseros dezesseis anos, é uma criança — cuspiu com nojo. — Uma criança que se casou com um rapaz de vinte e seis anos. Pode até não ser crime, mas é algo digno de repúdio.

Aquelas palavras fizeram Mai encolher no lugar, porém ela apertou os punhos, tentando não se abater.

— Tente entender — Kyouko continuo. — Você é jovem e ingênua demais para lidar com as responsabilidades do matrimônio. Tudo pode parecer lindo no começo, mas essa fantasia logo vai acabar, dando lugar a uma dura realidade, que você não será capaz de lidar.

A mulher então virou-se para Izaya.

— E de você, Izaya, eu esperava mais. Já é um adulto e como tal deveria ter um pouco mais de responsabilidade e bom senso — repreendeu. — O que tinha na cabeça quando aceitou se casar com ela?

— Meus motivos não lhe dizem respeito — o informante respondeu enfurecido. — Minha vida não lhe diz respeito. Por sinal, a única ingênua aqui é você, que ainda não percebeu que seu filho cortou completamente os laços que tinha com você.

Seu comentário fez o rosto de Kyouko contorcesse em uma careta raivosa.

— Deixe de ser ingrato e perceba que estou lhe fazendo uma grande favor em alertá-lo sobre essa estupidez! Ingênuos aqui são vocês, que ainda não perceberam no tipo de situação deplorável em que se colocaram.

— É estupidez apenas para você e essa sua ignorância. Quer mesmo que eu acredite que está me fazendo um favor? — Izaya riu com desdém. — Por favor, mãe, se realmente quisesse me fazer um favor, teria ao menos escutado a história de mim, em vez de um estranho, para depois falar o que acha. E não, por puro impulso, aparecer em Ikebukuro e arrastar a mim e minha esposa até aqui para ouvir esses disparates.

— E do que isso iria adiantar? — ela devolveu. — O resultado seria o mesmo, afinal, está completamente iludido! Os dois estão, por isso não conseguem perceber o que de fato está acontecendo.

Kyouko então se calou, fitando o filho com intensidade e reprovação. E Izaya sustentou o olhar, o devolvendo com animosidade e raiva.

— Acorde, Izaya, e perceba a verdade.

— E qual é essa maldita verdade, mãe?

— Que você se casou com ela por pura carência! Por causa desse seu trabalho questionável e sua personalidade difícil, acabou completamente sozinho e, sem outra opção, simplesmente foi até um orfanato, onde pegou uma criança, igualmente solitária, e muito ingênua, e se casou com ela. Esse casamento não passa de uma atitude impulsiva de duas pessoas carentes.

— Então é essa a impressão que tem de nós? — Izaya perguntou baixo e perigosamente.

— Sim, é única explicação plausível para esse absurdo — sua mãe respondeu. — A não ser que…

A voz de Kyouko foi morrendo aos poucos e ela arregalou os olhos, empalidecendo.

— Não me diga que… — começou trêmula. — Não me diga que então ela está grávida?!

Aquilo definitivamente pegou Izaya de surpresa. Espantado, virou-se para Mai, que havia se encolhido no lugar, envergonhada e com o rosto vermelho, e depois se voltou para sua mãe, irritado.

— Eu realmente não acredito que você disse isso — sibilou. — Acha mesmo que eu seria tão irresponsável a esse ponto?

— E o que quer que eu pense? — Kyouko gesticulou exasperada. — Já não dá mais para confiar em você, filho. Olhe a que nível você se rebaixou — ela apontou para Mai.

— Já chega — o rapaz falou enfurecido. — Cansei disso, não vou continuar aqui ouvindo você desrespeitar Mai — ele pegou o pulso da jovem e fez menção de se levantar. — Vamos sair daqui, o jantar acabou.

— Espera, Izaya — ela pediu, resistindo.

— Não vou continuar aqui, Mai.

— Por favor, espere — insistiu.

Um tanto chocado com a resistência da mais nova, Izaya a encarou, percebendo que havia algo de diferente em seu olhar. Mesmo que ainda embaraçada, Mai o fitava de forma corajosa e decidida, como se pedisse que confiasse nela.

— Agora é minha vez — falou.

Diante daquelas palavras e olhar, Izaya se obrigou a voltar para a cadeira, ainda que insatisfeito. Bufando, encarou sua mãe, que observava a cena com o cenho franzido e insatisfeita, e depois se voltou para Mai.

A jovem sorriu, mas depois respirou fundo, virando-se para Kyouko.

— Eu — ela hesitou, com as bochechas corando. — Eu não estou grávida. Mas isso também não significa que nosso casamento seja fruto de uma atitude impensada e movida pela carência.

— É mesmo, não foi? — A mãe de Izaya inquiriu, nem um pouco convencida. — Então me diga, o que realmente fez com que os dois quisessem se casar?

— O nosso amor — Mai respondeu. — Esse que, ao longo do tempo, tornou-se tão forte e intenso, que apenas a ideia do nos afastarmos machuca. É por isso que nos casamos, porque desejamos do fundo de nossos corações nunca mais termos que passar pela dor da separação ou pelo sofrimento que a solidão traz. Porque ansiamos por passar cada dia de nossas vidas juntos, sorrindo um para o outro, vivendo dias felizes e nos apoiando nos difíceis — ela parou um segundo, respirando fundo. — Eu me casei com o Izaya porque ele é a pessoa mais importante da minha vida, eu o amo e quero protegê-lo, ser capaz de lhe trazer conforto e lhe dar felicidade. E, da mesma forma, também acredito que ele possa fazer o mesmo na minha vida. É isso.

Kyouko, que apenas ouvia a tudo calada, piscou os olhos, fitando Mai sem expressão alguma. Até que seus lábios se curvaram para baixo e os olhos se tornaram gélidos.

— Acha mesmo que vou acreditar em tudo isso? — Perguntou friamente. — Você é uma criança, não sabe nada sobre amor ou como cuidar de outra pessoa.

Aquilo havia sido demais para Izaya. Enfurecido, estava pronto para responder algo, quando sentiu Mai segurar sua mão por baixo da mesa. Ele ergueu os olhos para encará-la, notando que mesmo diante da rispidez de sua mãe, ela se mantinha firme.

— Com licença.

Uma quinta voz ecoou pelo grupo, chamando a atenção de todos ali para o garçom de pé ao lado da mesa.

— Lamento que seja necessário dizer isso — ele começou polidamente. —, mas recebi reclamações de vários clientes, que estão se sentindo incomodados com a conversa de vocês. Por isso, gostaria de pedir que abaixem um pouco o tom de voz ou se retirem.

— Nós dois vamos nos retirar — Izaya falou, erguendo-se da cadeira e puxando a jovem junto.

Ele olhou para as três pessoas que o cercavam e deu um sorriso cruelmente carregado de rancor.

— Imagino que seja nossa culpa a conversa, que começou tão civilizada, ter chegado a um nível tão vulgar. Lamentamos muito.

— Espera — interveio Kyouko. — Nós ainda…

Porém Izaya não ficou ali para ouvir o resto da frase. Segurando firme a mão de Mai, ele a arrastou para fora do restaurante.

Ao sair na rua, não pegou um táxi de volta para o escritório. Na verdade, nem isso passou pela sua cabeça. Estava tão irritado, tão terrivelmente enfurecido com tudo que havia acabado de acontecer, que não conseguia nem pensar com coerência em qualquer coisa que não tivesse relação com o jantar.

Não conseguia acreditar em tudo que sua mãe havia dito aos dois e o tamanho desprezo com que tratara Mai. Relembrar todas as palavras dela fazia o ódio borbulhar em seu peito.

— E-ei, Izaya…!

Sua mãe, aquela que o abandonara e era indiferente ao próprio filho, havia simplesmente aparecido em sua vida e menosprezado o que Izaya tinha de mais importante. Era inadmissível! Ela até podia ter dito tudo aquilo para ele, que não teria se importado, mas era intolerável que alguém maltratasse sua Mai.

— IZAYA!

Sobressaltado, o informante parou de andar e soltou a mão da jovem. E, antes que pudesse dizer algo ou perceber o que estava acontecendo, sentiu Mai segurar seu rosto, fazendo com que olhasse para baixo e a encarasse.

— Acalme-se, Izaya, está tudo bem — a menor reconfortou em tom manso e gentil. — Acabou, você não precisa mais se preocupar.

Inicialmente ele não conseguiu reagir. Porém, encarar aqueles olhos azuis, tão doces e cheios de uma tranquilidade amorosa, fez com que lentamente seu rancor amargo se dissipasse.

— Eu estou bem — ela sorriu. — Nós estamos bem.

— … Sim, nós estamos bem — respondeu, um pouco ofegante.

Izaya colocou suas mãos sobre as dela e se deixou respirar aliviado, lodo depois dando um fraco sorriso.

— Você foi muito bem, Mai-chan — elogiou, sentindo uma calmaria agradável tomar conta de si. — Muito melhor do que eu, até.

— Hehe ~ — ela fez, orgulhosa de si mesma. — E eu nem chorei!

Mai então parou de sorrir e soltou seu rosto, abraçando-o com força e afundando o rosto em seu peito.

— Ei, Izaya — ela chamou baixinho. — Você passou muito tempo sozinho, sofrendo com a solidão. Deve ter sido realmente difícil e doloroso… Mas agora você não precisa mais se preocupar, pois eu estou aqui. Você não está mais sozinho, por isso, esqueça essas memórias tristes e o que é ter que enfrentar a tudo e a todos sozinho.

Surpreso com as palavras dela e com o fato dela ter compreendido algo que ele nunca havia externado, Izaya a abraçou de volta.

— É, eu não estou sozinho.

Apreciando um o calor do outro, permaneceram assim por vários minutos. Até que o informante ouviu um som estranho. Era baixo e semelhante a um ronco.

— Urgh… — Ela gemeu, apertando-o mais.

— Mai?

— Fome… — Murmurou, logo em seguida erguendo o rosto ruborizado. — Estou com fome.

Izaya não sabia dizer ao certo o motivo, mas ouvir aquilo o fez soltar uma longa e alta gargalhada, deixando a menor ainda mais constrangida. Ela soltou-se dele e o encarou ofendida.

— Desculpe… Mai-chan — falou sem fôlego. — É que você me pegou de surpresa, ou melhor, seu estômago. HAHA, não fique assim, eu também estou com fome.

Ele pegou sua mão, trazendo-a para mais perto.

— Vamos, vou levá-la para comer algo — ofereceu. — Há muitas lanchonetes e cafeterias boas por aqui, tenho certeza que vai gostar.

— Oh, está me convidando para um encontro? — perguntou ela, se deixando ser levada pelo rapaz.

— Parece que sim.

— Hehe, então eu aceito ~

Juntos e mais aliviados, os dois começaram a caminhar juntos pela rua.

— Ei, Mai-chan — chamou.

— Sim?

— Você é incrível.

• • •

Três dias haviam se passado desde aquele desastroso jantar e, até o momento, seus pais não haviam dado qualquer sinal de que voltaria para uma “segunda rodada”.

De certa forma, Izaya se sentia um pouco aliviado com isso, mas, ao mesmo tempo, desconfiado. A conversa que tiveram naquele dia havia ficado incompleta e seu pai não dissera qualquer palavra sobre os dois, fato que o deixava intrigado. Obviamente, não havia comentado nada com Mai sobre isso, ela parecia ter lidado bem com todas as críticas de sua mãe e não queria correr o risco de estragar sua tranquilidade. Todavia, isso não o impedia de ficar atento e de olhos abertos em qualquer tipo de aproximação do casal.

Desviando sua atenção da tela do computador, observou Mai sentada no kotatsu em frente a T.V, fazendo suas atividades da escola. Isso o fazia lembrar de que já havia tomado quase todas as providências para sua transferência, o que significava que logo ela estaria estudando no Raira.

Voltou-se novamente para o seu trabalho, notando que seu celular vibrava, avisando-o de que uma mensagem acabara de chegar. Ao olhar o visor, notou que vinha de um número desconhecido. Curioso, checou seu conteúdo, logo se deparando com uma simples frase:

“Estou te esperando aqui embaixo”

Podia até não conhecer o número, ou estar esperando alguém, mas tinha completamente noção de quem era.

— Ei, Mai-chan, vou ter que sair para resolver uma pendência — avisou. — Prometo não demorar.

— Certo — ela respondeu, sem se desviar de seu livro.

Após se despedir, o rapaz deixou o apartamento e desceu até o hall do prédio. Mal havia atravessado as portas de vidro, quando viu um carro negro e lustroso parado próximo ao passeio.

Escondendo as mãos nos bolsos de seu casaco, Izaya adotou uma postura desinteressada e fria, caminhando até o automóvel.

— Então esse é o segundo round? — Ele perguntou, assim que a janela lateral se abaixou, revelando seu pai.

— Apenas entre no carro, Izaya — falou sem se alterar, destrancando a porta. — Vamos dar uma volta.

Revirando os olhos e dando um suspiro cansado, o informante fez o que lhe foi pedido, acomodando-se no banco do carona. Assim que fechou a porta, Shirou acelerou e eles se afastaram do edifício.

Por vários minutos o interior do carro permaneceu no mais absoluto silêncio. Izaya, conhecendo seu pai e sabendo que suas palavras frias ou irônicas não surtiriam efeito, manteve-se calado e com os braços cruzados, esperando o que quer que ele quisesse lhe dizer.

— Então, como foi que vocês se conheceram? — O homem perguntou finalmente.

Involuntariamente o informante fez uma careta de desgosto, pouco inclinado a dividir com ele sua vida com Mai.

— Por que quer saber?

Shirou deu de ombros, sem tirar os olhos da rua.

— Você é meu filho e se casou — explicou simplesmente. — Todo pai tem um mínimo de interesse em saber o que levou o filho a tomar essa decisão.

Bufando, o rapaz descruzou os braços, pensando em como explicar toda a história sem parecer louco.

— Bem, a verdade é que nós nos conhecemos por acidente — começou.

E então Izaya começou a contar toda a sua história com Mai. Obviamente, omitiu as partes sobrenaturais, inventando outros fatos que se encaixassem nos acontecimentos. Todavia, de resto, contou tudo que havia se passado entre os dois durante todos aqueles anos, cada detalhe, sentimento e briga que tiveram.

Reviver tudo aquilo e colocar em palavras o fez sentir certa nostalgia, um ligeiro aperto no coração e até certa culpa, por ter dificultado tanto as coisas para Mai, que sempre o tratou tão bem. Porém também o fez pensar na quantidade de experiências que tinham juntos, no quanto aprenderem e cresceram um com o outro durante todo aquele tempo.

Já seu pai, ainda que atento ao transito, ouviu a tudo que Izaya havia dito em silêncio e interessado. Não esboçou qualquer reação ou teceu algum comentário, com se abdicasse da necessidade de julgá-lo, fixando-se apenas na vontade de conhecer e guardar a história contada pelo filho.

— Você deu bastante trabalho para ela — Shirou comentou por fim.

— Sim, muito — concordou. — E, agora parando para pensar, eu nunca me desculpei apropriadamente, mesmo achando que ela não faça questão disso. Mas eu estou aos poucos tentando compensá-la por isso.

— Por falar nela, me conte mais sobre a garota — pediu. — Como é sua esposa?

— A Mai-chan? — Izaya sorriu ao pensar nela. — Chorona. Ela chora por qualquer coisa, tanto por tristeza, quanto por felicidade. Mas isso não me incomoda, eu até gosto. Quando isso acontece, eu sempre a abraço e digo para não se preocupar. Sempre funciona. Ela também é muito manhosa e fofa, adora quando eu faço carinho nela ou a elogio. Às vezes, até coisas simples que eu faço, seja segurar sua mão ou sorrir, a deixam absolutamente feliz.

Izaya parou um instante, pensativo.

— A Mai-chan também é carinhosa e gentil. Sem falar que é muito atenciosa, consegue perceber coisas em mim que nem eu noto e sempre está ao meu lado quando preciso dela. Ah, e ela é tão inocente e tímida! — Ele riu. — É muito fácil deixá-la embaraçada, chega a ser divertido.E isso a deixa ainda mais fofa. Fora isso, é uma excelente desenhista, apesar de já ter um tempo que eu não a vejo fazendo isso. A Mai-chan também gosta de ler, cozinhar e dançar. Suas matérias preferidas são inglês e literatura.

O rapaz parou de falar, pensando em Mai, na imagem dela sorrindo e lhe dizendo coisas gentis. Isso o fez se sentir bem.

— Depois que eu a conheci, nunca mais me senti só. Estar com ela, ouvir sua voz e sentir seu toque carinhoso me faz feliz. É como se eu não precisasse de nada mais além dela — falou com sinceridade. — Eu realmente adoro estar com a Mai-chan.

— E é por isso que se casou com ela? — Shirou perguntou.

— Sim e não — respondeu. — Ela é maravilhosa e fofa, eu admito, mas há outro motivo que me fez tomar essa decisão.

— Que seria…?

— A Mai… — Izaya respirou fundo. — Ela se tornou aquilo que tenho de mais precioso. Por isso que eu me casei com ela, porque quero mantê-la ao meu lado para sempre e ser capaz de cuidar dela, para que nada mais a faça sofre ou a machuque.

Shirou deixou um sutil sorriso brincar em seus lábios.

— Sabe, filho, eu nunca esperaria ouvir isso de você — falou, pela primeira vez deixando um pouco de emoção, uma mescla de surpresa e contemplação, transparecer em seu tom. — Mas confesso que vendo você durante aquele jantar, realmente comecei a desconfiar que algo havia mudado em você.

— É mesmo? E o que te fez achar isso?

— Você sempre foi frio e indiferente. Na época em que ainda morava com a gente, sempre que brigávamos ou criticávamos alguma atitude sua, você simplesmente nos ignorava — falou. — Porém, durante aquele jantar, o aposto aconteceu. Você irritou-se e a defendeu. Naquela noite ficou claro o quanto ela era importante para você. Pode até não ter mudado com outras pessoas, mas ao menos para ela você se tornou alguém melhor.

Izaya não respondeu ao cometário, simplesmente porque seu orgulho não deixava. Entretanto, também não negou, pois sabia que era verdade e que seu pai havia percebido isso.

— Bem, se é assim…

Manobrando o carro, Shirou saiu do meio da rua e seguiu para perto do meio-fio, estacionando. Ao parar, largou o volante e virou-se para o seu filho, encarando-o.

— Confesso que ainda não consigo tratar como algo normal o fato de você ter se casado com uma menina de dezesseis anos, porém se essa é a sua escolha, eu não tenho direito de interferir, ainda mais quando é tão nítido o quando está lhe fazendo bem — falou. — Entretanto, eu sinto que preciso lhe dar um conselho. Por isso, escute bem, Izaya, amar é diferente de ser amado.

— Argh — o rapaz interrompeu com desgosto. — Já é a segunda pessoa que me diz isso.

— Bem, então significa que você realmente precisa pensar sobre o significado disso.

Izaya revirou os olhos.

— Eu sei muito bem o que significa.

— Imagino que sim, mas é provável que tenha dificuldade em aplicá-lo em sua vida com a Mai-san, um problema que não parece se aplicar a ela.

— O que quer dizer com isso? — Estreitou os olhos.

— Você está no caminho certo, Izaya, mas ainda há pequenos detalhes que ainda deixa passar — explicou. — Por exemplo, você ainda parece muito fechado no que diz respeito a deixar claro seus sentimentos por ela. Por mais que a Mai-san saiba da existência deles, há momentos em que ela provavelmente sente receio em se abrir com você, deixá-lo conhecê-la e compreender o que se passa em seu coração. Por isso, aprenda a deixar evidente que quer cuidar dela e estar ao seu lado. Mostre o quando gosta dessa nova vida tanto quanto ela e que quer vê-la criar raízes e crescer, dê a sua esposa segurança.

Mesmo com Shirou terminando sua fala, Izaya não respondeu. Estava pensativo.

Se ele tivesse lhe dito isso há alguns dias, o rapaz com certeza teria rido de seu conselho e o ignorado. Todavia, aquele incidente da escola em que Mai não lhe contara sobre as intimidações que sofria o fez perceber que realmente havia coisas que ela não lhe contava e que ainda existia nela um certo medo de lhe dar trabalho, incomodar e até decepcioná-lo, que a fazia resistir em pedir ajuda. Isso era ridículo, porém mostrava que ainda havia algo nele que a fazia pensar assim.

Outra coisa que também havia percebido era que ela quase nunca falava sobre si mesma se Izaya não lhe perguntasse, e ainda sim nunca era por muito tempo. Isso para não comentar sobre sua ligação com o sobrenatural, que definitivamente ela mantinha em completo segredo. A maioria das coisas que sabia sobre Mai, ou havia descoberto por si mesmo, ou perguntado a ela. As conversas que tinham, quase todas eram preenchidas pelo rapaz e a jovem apenas o ouvia.

Talvez seu pai realmente tivesse razão e ele precisasse deixá-la mais à vontade.

— Acho que você… — ele começou, entretanto, um duvida que surgiu repentinamente em sua mente o fez parar e mudar um rumo de sua sentença. — Espere, como você pode saber sobre tudo isso se só nos viu por uma noite?

Shirou sorriu.

— Aquele jantar foi há três dias, tive tempo para conversar com suas irmãs e visitar o Shinra-san — contou com simplicidade. — Por sinal, ele falou que vocês só se casaram no civil.

— Sim — respondeu. — Os preparativos para a cerimônia são demoradamente trabalhosos e queríamos nos casar o quanto antes.

— Mas terá uma cerimônia?

— Sim, a Mai está… — sua voz foi morrendo. — … Preparando tudo.

— Sozinha — completou seu pai.

Izaya bufou.

— Talvez, só talvez, você tenha razão no que está dizendo.

— Sim, talvez eu tenha — riu Shirou.

— E é só isso que tem a me dizer?

— Tem mais uma coisa — falou. — Eu e suas irmãs, e sua mãe um pouco a contragosto, compramos algo para a Mai-san. Está no banco de trás.

O informante se virou, achando uma caixa retangular e rasa, encapada com um tecido azul claro com detalhes brancos sobre o banco traseiro. Interessado, ele a pegou.

— O que é isso? — Perguntou.

— Um quimono tradicional de inverno — respondeu. — O fim do ano está chegando e os festivais também, provavelmente vai querer levá-la em algum. As comemorações natalinas e culturais de Tóquio são realmente boas. Também acredito que ela vá ficar, como você diz, muito fofa com essa roupa.

Ao ouvir seu pai proferir aquela palavra, Izaya se virou para ele, como se não acreditasse na forma como havia acabado de se referir a Mai.

— Fofa?

— Estou apenas repetindo o que você disse, filho — ele deu de ombros. — Sabia que você a chamou disso pelo menos umas três vezes durante a nossa conversa?

— Eu não…

— Hmm, você tem um gosto bem peculiar para mulheres — Shirou comentou, com uma pontada de humor. — Mas confesso que já desconfiava dessa sua preferência, apesar disso também ter ficado bem claro enquanto você a descrevia. Como é mesmo que eles chamam coisas assim… Ah, sim, lolicon.

— PAI!

— Ouvi isso de suas irmãs — defendeu-se.

— Que ridículo, não faz o menor sentido o que está dizendo! — o informante devolveu em tom ofendido. — Não sei de onde as pessoas tiram essa ideia equivocada sobre minha pessoa.

— É claro que não.

— De qualquer forma, obrigado pelo presente, ela vai adorar — agradeceu forçando um tom indiferente.

— Espero que sim — Shirou comentou. — Bem, era apenas isso que eu queria conversar com você. Realmente espero que as coisas entre vocês durem para sempre e você seja feliz, filho. A Mai-san é uma boa garota e eu acredito que ela fará muito bem a você. Ah, e lamento pelo jantar. Apesar de sua mãe realmente estranhar sua decisão, no fundo ela só estava magoada por você não ter contado a ela sobre o casamento.

— Imaginei que era esse o motivo do escândalo — Izaya revirou os olhos. — Bem, talvez eu mande para vocês um convite de casamento, ok?

— Gentil da sua parte — riu Shirou, rodando a chave na ignição e ligando o carro. — Agora, é melhor voltarmos. Imagino que queira começar a pensar em como colocar em prática meu conselho.

Acelerando, o pai de Izaya deixou o meio-fio e voltou para a rua. A viagem de volta começo silencioso, até que o informante disse:

— Hm, obrigada, pai.

Memory Twenty Eight Finalized

Notas finais
Olá, meu jovem desbravador, parabéns por ter achegado até aqui. Então, o que achou? Os nomes Shirou e Kyouko eu não inventei e sim peguei da Wikia, o que não significa que realmente sejam os nomes reais dos pais do Izaya. Falando deles, até onde eu sei, eles não aparecem no LN e são apenas meramente citados. Por isso, como não tinha uma base, inventei mesmo a personalidade deles, usando como molde um pouco do Izaya. Bem, sobre o fato da Kyouko não ter gostado da Mai, gostaria de dizer que não foi algo feito para despertar pena, mas sim mostrar que realmente um casamento 16x26 não é algo lá muito normal. Na verdade, soaria bem estranho se ao menos um deles não surtasse com isso. E o fato da Mai não ter se sentido fragilizada ou machucada com as palavras da Kyouko, é porque depois de voltar a morar com Izaya ela amadureceu e agora está bem mais confiante dos seus sentimento, por isso todas aquelas coisas não a afetaram tanto a ponto de abatê-la. E, sobre o Shirou, ele tratou isso com mais tranquilidade devido a personalidade mais fria e controlada, também porque ele percebeu o quanto isso está fazendo bem ao Izaya e que o melhor que ele pode fazer é apoiá-lo mesmo. Também preciso dizer que futuramente talvez a gente se encontre com os dois novamente :3 Sobre o conselho do Shirou, logo, logo, veremos o Izaya tentando aplicá-los a sua vida com a Mai. Também preciso confessar que gostei bastante da parte do carro, onde o Izaya fala sobre a Mai. Por mais que eu narre os sentimentos dele durante a história, é a primeira vez que eu faço ele expondo isso para alguém. Foi algo que realmente gostei de escrever. Agora, falando sobre o próximo capítulo... Preciso dizer que estou particularmente ansiosa para escrevê-lo. Sem tretas, será mais romântico e irá abordar um tema mais... Maduro. É algo que há muuito eu quero colocar na história e por isso mal posso esperar para escrever. Por isso, aguardem. Tentarei não demorar. Por fim, peço que comentei. Não se esqueçam de deixar a opinião de vocês, pois elas me ajudam a continuar a todo vapor com a fic. Recomendações também são bem vindas, caso se sinta inspirado, haha. Bem, agradeço a todos os comentários deixados!