Memories

21 Memory Twenty


Notas iniciais
Olá, tudo bem? Bem, vamos primeiro aos agradecimentos. Gostaria de agradecer a Kanra, que deixou uma linda recomendação em Memories. E a sofie roxy, que não só é uma nova leitora, como recomendou Miracle e comentou, fazendo com que a fanfic passasse dos 200 comentários, com 8 recomendações. O que me deixou muito feliz. Isso mostra que realmente Miracle é uma excelente fanfic e que fez muito sucesso por aqui. Espero que Memories siga o mesmo caminho. Agora, sobre o capítulo. Ele está apenas fabuloso, devo dizer. E grande, mas vale apenas. Boa leitura

Memorie Twenty

Se comparado com o que havia acontecido anteriormente, os dias que se seguiram podiam ser definidos como calmos. Entretanto, para Mai, estavam longe de agradáveis.

Com o conselho de Izaya em mente, ela conseguiu juntar coragem para ir à escola. Para o seu alívio, durante aqueles primeiros dias depois de toda aquela confusão, nada lhe aconteceu. Nada de fotos, palavras baixas escritas no quadro ou chacotas. Ninguém na sala comentou algo sobre o incidente, mas também nenhum de seus colegas lhe dirigiu a palavra. Ainda conseguia sentir o clima tenso e os olhares raivosos de algumas meninas, mas não passava disso.

Levando em conta o comentário do informante sobre o telefonema que recebera, acreditava que toda aquela confusão havia chegado aos ouvidos dos professores, que tomaram alguma atitude em sua ausência. Infelizmente, ela estava pouco crente que aquela passividade iria durar. Logo alguém encontraria um jeito de zombar dela sem que percebessem.

Todavia, mesmo que fosse uma falsa calmaria, Mai estava aliviada com isso. Menos uma preocupação para ocupar sua mente, que já estava abarrotada demais com os sentimentos conflituosos provenientes de sua “relação” com Izaya, que cada dia parecia piorar. Ele não a deixava sair do apartamento, salvo ir para a escola, e isso estava começando a incomodá-la. Mai sentia falta de Ikebukuro e dos poucos amigos que tinha lá. E esses também pareciam notar sua ausência, recebia mensagens das gêmeas e de Celty, porém a colegial não tinha coragem de explicar o que estava acontecendo, o que a obrigava ignorar aquelas tentativas de comunicação.

Certa vez, tentara pedir a Izaya para sair, mas ele a ignorou. E, curiosamente, ela notou, o próprio parecia sair do escritório e ficar fora com muito mais frequência ultimamente.

Se era por causa do trabalho ou da própria garota, ela não sabia dizer. Mas, às vezes – e para o seu pesar –, era um alívio permanecer sozinha. Sempre que ficava de frente para o rapaz, as lembranças do que havia acontecido entre eles no quarto voltava a sua mente. E aquilo era algo que ela não queria mesmo pensar. Pois, sempre que aquelas cenas vagavam sem permissão por sua mente, sentia um desagradável arrepio percorrer seu corpo. Sem falar no medo que corria pelas suas veias ao considerar a possibilidade daquilo se repetir.

Então, para reprimir o medo e a insegurança, Mai tentava se focar no próprio informante e em seu complexo psicológico.

Mesmo que o moreno fingisse o contrário, ela sabia que havia mágoa, solidão e um coração ferido escondido por aquela fachada cruel e manipuladora. Mas, ao mesmo tempo, conseguia ver raiva e ressentimento queimando em seus olhos. Sentimentos que ficavam ainda mais fortes quando ele lhe dispensava palavras cruéis e maliciosas, ou se aproximava para lhe fazer algo. Sempre que isso acontecia, Mai acabava constrangida e magoada, reações que às vezes pareciam divertir o rapaz, mas em outros momentos irritá-lo.

Diante de tudo isso, a sensação que a mais nova tinha era que o muro que os separavam se tornava cada vez mais impenetrável. Suas palavras amáveis, gestos carinhosos e preocupação não pareciam surtir efeito no informante e, em algumas ocasiões, até o incomodava. Já tinha aceitado o fato de que, naquele momento, Izaya a via apenas como um brinquedo submisso, mas não queria admitir que tudo estava pedindo.

E, quando pensava naquele passado esquecido e no seu outro eu que um dia conseguiu se tornar algo importante para ele, uma angústia a tomava.

Queria ajudar Izaya, curar as feridas de seu coração, não importava como. Mas estaria mentindo se dissesse que também não desejava ser uma pessoa importante para ele e receber um pouco de genuína afeição. Que não sentia vontade de lhe pedir que fosse carinhoso.

Mas as chances de seu pedido ser ouvido pareciam remotas. E, se analisasse de forma mais realista toda a situação em que se encontrava, iria concluir que era melhor desistir completamente desse sonho absurdo. Entretanto, Mai não conseguia. Era apegada demais a essa vã esperança. Em parte, por causa de sua ingenuidade, todavia, também era devido a sua natureza sobrenatural, que estava ligada a tudo que, do impossível, se tornava possível. Algo que, do fundo do seu coração, a pedia para esperar.

Ah, e é claro, não podia se esquecer do maior culpado: aquele sentimento profundo, mas ao mesmo tempo cruel, que havia se apoderado de seu coração. Aquele que a fazia desejar estar sempre perto do rapaz e a tornava capaz de suportar vários sofrimentos por ele.

Um sentimento que, mesmo em meio àquela situação turbulenta, a fazia acreditar que caso se esforçasse, um dia Izaya olharia para ela com pesar, acariciaria seu rosto e pediria desculpas. Claro, acreditar nisso a vazia sofrer ainda mais.

Por isso, quando o moreno se esqueceu completamente de levá-la para sair como “prometera” e não parecia inclinado a se lembrar, Mai se sentiu particularmente decepcionada. No início ficou com medo de insistir, mas acabou cedendo depois de quase uma semana, e indo até a mesa do mais velho e perguntando:

— Quando vamos sair?

O rapaz a encarou por alguns segundos, sempre expressão alguma.

— Ah, é mesmo — ele murmurou sem interesse. — Deixa isso para amanhã, vou precisar sair agora para fazer um serviço.

Desanimada, a garota abaixou os olhos para o chão. Por outro lado, o moreno deu um sorriso malicioso e segurou seu queixo, erguendo-o.

— Bem, talvez eu repense minha decisão e resolva ficar. Apenas tem que me dar um motivo — ofereceu com malícia. — Temos tempo de sobra. O que acha de me convencer a atender seu pedido?

Com os olhos arregalados em um arrepio percorrendo seu corpo, Mai se afastou das mãos do outro.

— Hmmn, muito chato — comentou menosprezo.

Ele ergueu-se de sua cadeira e vestiu o sobretudo. O informante caminhou até a porta e, antes de sair, olhou para cima do ombro.

— Me espere acordada. E não saía — ordenou, antes de deixá-la.

Sozinha e desmotivada, a colegial deixou os ombros caírem. Suspirando, voltou a se sentar no sofá. Enquanto esperava o tempo passar, brincou um pouco com Kuro, leu alguns mangás, viu um filme na T.V e, por fim, resolveu cozinhar algo para comer. Tentou preparar uma tigela de Lamen, que não ficou muito bom, mas que mesmo assim ela empurrou garganta abaixo.

Entretanto, mesmo depois de jantar a assistir T.V mais um pouco, Izaya não voltou. Começando a se sentir sonolenta, subiu para o andar de cima e se jogou na cama. Para se distrair, pegou seu celular e conectou-se ao chat. Queria conversar um pouco com Kanra sobre o que estava acontecendo e pedir ajuda, mas ela não estava online. Ficou conversando um tempo com Setton, quando Mai e Kyo entraram.

CHATROOM

[Private Mode] (Mai-san): Por onde você tem andado?!

[Private Mode] (Mai-san): Quer dizer, o que está acontecendo?!

[Private Mode] (Aoi-san): Desculpe, é a Mairu, não é?

[Private Mode] (Mai-san): Isso mesmo.

[Private Mode] (Mai-san): Agora, me diz o que está acontecendo!

[Private Mode] (Aoi-san): Não entendi sua pergunta.

[Private Mode] (Mai-san): Não?

[Private Mode] (Mai-san): Então serei mais direta.

[Private Mode] (Mai-san): O que houve entre você e o Iza-nii?

[Private Mode] (Aoi-san): Nada.

[Private Mode] (Mai-san): Nada?

[Private Mode] (Mai-san): Porque sabe... A Celty-san veio até mim e comentou que viu você chorando há uns dias no meio da rua. E que também havia testemunhado uma cena bem perturbadora entre você e o Iza-nii. E que, quando foi perguntar para ele se não a estava maltratando, meu desagradável irmão respondeu que não era mais pra chegar perto de você e te esquecer.

[Private Mode] (Mai-san): Shinra-san também falou que está preocupado.

[Private Mode] (Mai-san): Você sumiu da cidade. E o Iza-nii ignora qualquer tentativa minha e da Kuru-nee de perguntar sobre você.

[Private Mode] (Mai-san): Sem falar que ele anda ainda mais desagradável que o normal. Esses dias o Shizuo-san quase foi detido por culpa dele.

[Private Mode] (Mai-san): Ah, e não podemos esquecer o fato de que você tem ignorando nossos telefonemas e mensagens.

[Private Mode] (Mai-san): Agora, você acha realmente que eu vou acreditar que não tem nada acontecendo?

Por longos, minutos não houve resposta de Mai.

[Private Mode] (Mai-san): Mai-nee?

[Private Mode] (Aoi-san): Eu sei! Eu sei! Eu sei!

[Private Mode] (Aoi-san): Sei perfeitamente o quão ruim as coisas então entre eu e o Izaya.

[Private Mode] (Aoi-san): Que ele me trata com crueldade, mesmo eu me entregando de corpo e alma para deixá-lo contente.

[Private Mode] (Aoi-san): E que isso é injusto!

[Private Mode] (Mai-san): Mai-nee…

[Private Mode] (Aoi-san): Mas o que você quer que eu faça?

[Private Mode] (Aoi-san): Eu já tentei de tudo.

[Private Mode] (Aoi-san): Mas não importa o quanto eu o ame, nada parece chegar ao coração do Izaya!

[Private Mode] (Aoi-san): Mas eu não tenho coragem de deixá-lo. Porque sou ingênua e talvez estúpida, pois ainda tenho esperanças de que um dia ele vai se cansar disso e começar a me tratar bem!

Perturbada com a descarga de emoções repentina, Mai se desconectou do chat, sem esperar qualquer resposta da outra. Com as mãos trêmulas, jogou o celular em um canto e abaixou a cabeça, tampando o rosto com as mãos.

Expor tudo aquilo a deixou nervosa e frustrada. Mas, principalmente, irritada. Com ela mesma, por se considerar tão terrivelmente incapaz, e com Izaya, por estar ferindo a si mesmo e a ela com todas aquelas atitudes.

***

Inspirando longamente o frio ar outonal, Izaya olhou para o céu nublado.

Mais um pouco..., pensou.

Sentado no banco da praça principal de Ikebukuro, o informante observava o movimento de pessoas; grupos de adolescentes se divertindo, famílias passeando, alguns solitários transeuntes e casais tendo um encontro.

Era irônico saber que poderia pegar qualquer pessoa li e manipulá-la a seu bel-prazer, moldando sua mente e vida com uma extrema facilidade. Mas quando se tratava de sua própria vida, o rapaz sentia-se com as mãos atadas e impotente.

Era ridiculamente humilhante ter a vida bagunçada por uma garota.

Aquela conversa... Mesmo que quase uma semana tivesse passado, Izaya ainda sentia ódio ao lembrá-la.

Tantas, tantas palavras... Tão afiadas quando flechas mortais, perfurando suas defesas facilmente e atingindo-o em cheio. A cada momento que passava ao lado de Mai, mais e mais os muros, antes impenetráveis, que havia erguido em volta de seu coração, eram abalados. E, em consequência disso, rachaduras estavam sendo criadas, liberando seus medos e fraquezas. Fazendo-o perder o controle sobre si. Eram sentimentos patéticos que, por mais que tentassem, não conseguia contê-los.

Eles estavam lá, queimando-o por dentro. Uma dor que aumentava cada vez que Mai lhe sorria, era gentil e demonstrava se importar.

Como aquela garota conseguia tocá-lo em o menos esforço, mesmo ele fazendo de tudo para isso não acontecer?

Izaya se odiava por isso, odiava ser tão vulnerável a ela. Não queria sentir tudo aquilo. Não queria ceder o coração a Mai.

De novo, não.

Foi o que havia feito da última vez, cedido aos sentimentos dela, se deixado levar. E o que ganhou com isso? Um grande e sangrento buraco em seu peito, impossível de ser reparado, por onde escorria sofrimento e ressentimento.

Era o que havia ganhado ao aceitar aquele maldito sentimento. E agora corria o risco de cair nessa mesma armadilha e ganhar outro rombo.

Não... Izaya não iria deixar que isso acontecesse de novo. Pouco a pouco estava cortando os laços que o ligavam a ele. E, especialmente, destruindo o grande causador daquele problema: a própria Mai.

— Orihara-kun?

Sendo subitamente arrancado de seus devaneios, o rapaz olhou com o cenho franzido para a pessoa que o chamava.

Shinra estava de pé logo a sua frente, havia trocado o seu habitual jaleco branco por um sobretudo cinza e esboçava uma expressão de surpresa.

— Ora, se não é o meu bom amigo, Shinra — cumprimentou, fingindo um sorriso. — O que faz por aqui essa hora?

O médico o observou por alguns segundos e, por um momento, Izaya viu um brilho de preocupação em seus olhos.

— Estava no Rússia Sushi com a Celty, mas quando estávamos saindo, ela recebeu um serviço de última hora e tive que voltar sozinho.

— Isso é novidade, geralmente sou eu quem arruma serviços inesperados para ela — deu de ombros, levantando-se do banco. — Bem, gostaria muito de ficar e conversar, mas também preciso ir.

Izaya deu dois passos para longe do amigo, mas quando estava em meio ao terceiro, sentiu seu braço sendo segurado.

— Orihara-kun — chamou-o novamente, mas dessa vez em tom sério.

O informante olhou por cima do ombro.

— Seja sincero comigo, está tudo bem?

Izaya viu novamente a preocupação no olhar do jovem médico, mas isso só o fez estalar a língua, em um gesto de irritação.

— Está preocupado comigo? Oh, que fofo ~ — falou com ironia — Tirando o desagradável Shizu-chan que não morre logo, está tudo bem, obrigado.

— Você sabe que não é nesse sentido que estou falando — insistiu o rapaz de óculos.

— Ah, não? — o moreno puxou seu braço de volta, exibindo um sorriso de escárnio. — Claro que não, estupidez a minha não ter percebido. Você quer saber é se está tudo bem com a Mai-chan, não é?

Shinra não respondeu, apenas continuou encarando o outro de forma sério e penetrante.

— Ela está muito bem, vivendo a vidinha que sempre quis e merece — deu de ombros, devolvendo o olhar.

— Não acho que viver trancada no seu escritório, aguentando ser maltratada por você, seja algo que ela deseje — retrucou.

— Ai que se engana! A Mai-chan me ama profundamente e o que ela mais quer é viver para me agradar, mesmo que eu seja odioso e desagradável. E eu não sou completamente injusto, ainda que sofra comigo, ela ainda ganha pequenas regalias, se é que me entende.

O médico apenas suspirou longamente.

— Por que não facilita as coisas, tanto para ela, quanto para você, e retribui os sentimentos dela?

— Retribuir? Até aprece que eu me rebaixaria a esse ponto — falou com desprezo. — Sem falar que é um completo desperdício direcionar qualquer tipo de sentimento a Mai.

— É mesmo? Então, deixe-a livre, pare de perder seu tempo com ela, se é assim. Suas irmãs e Celty me contatam o que está acontecendo. Ninguém aguenta tanto sofrimento — falou. — Deixe-a ficar com a gente, ao menos por um tempo.

— Que tocante, uma verdadeira preocupação de pai, não é mesmo? — zombou. — Me faça um favor e esqueça a Mai, ela fez isso com todos nós. É mais do que merecido.

Decidido a não continuar com aquela conversa, Izaya deu as costas para o amigo e tomou seu caminho.

— Por acaso isso é algum tipo de vingança, Orihara-kun? — ele ainda conseguiu ouvir, na medida em que se afastava.

Talvez, pensou. Não, é bem mais do que uma simples vingança.

Durante o trajeto de volta ao escritório, Izaya murmurava xingamentos e praguejava. Já estava irritado quando saiu de casa e seu humor havia piorado quando divagou sobre a lamentável situação em que estava e agora aquela conversa com o intrometido do Shinra.

Ao chegar a seu apartamento, logo notou que o recinto se encontrava silencioso e escuro. Provavelmente Mai não havia conseguido esperá-lo acordada.

— Se está dormindo, é melhor que acordo logo — murmurou, enquanto subia as escadas. — Essa noite você vai ajudar a melhorar meu humor.

Quando entrou no quarto, para seu agrado, a colegial não estava dormindo. Ela se encontrava sentada na cama, abraçando suas próprias pernas.

— Ora, e não é que você ficou mesmo me esperando? — riu, aproximando-se da cama. — Que obediente.

A menor não respondeu e com a luz apagada do quarto, não conseguia ver suas feições. Mas Izaya não se importou com isso, também não fez questão de mascarar seu humor ácido, deixando que seu tom de voz denunciasse sua irritação e intensões.

— É melhor não resistir dessa vez — ordenou, sentando no colchão. — Venha aqui.

Obedecendo ao comando e sem dizer uma palavra, Mai arrastou-se até seu colo e sentou-se de frente para ele, colocando as mãos em seus ombros.

Agora mais de perto, o rapaz conseguiu distinguir melhor as feições da menor. Seus olhos azuis, sempre vivos, não tinham brilho, transmitiam cansaço. Havia tristeza e submissão ali, mas ao mesmo tempo uma disforme sombra de irritação.

— Ora, o que é isso? Ficou irritada porque não te levei para sair como havia prometido? — zombou, mas a reação por parte da jovem foi diferente.

Ao invés de concordar ou negar, Mai aproximou seu rosto do dele e juntou seus lábios. Surpreso, o rapaz não correspondeu de imediato, mas logo ele levou uma mão à nuca da menor e começou a aprofundar o gesto. Não era um beijo carinhoso ou afetivo, mesmo que a garota fosse delicada com seus movimentos, o moreno correspondia de forma seca e selvagem. Enquanto suas mãos percorriam o corpo de menor sem pudor.

Ela sentia-se ser tocada por baixo das vestes, segurando-se para não soltar nenhum som embaraçoso ou demonstrar receio. Tentava ao máximo e concentrar no beijo. Porém, ele a afastou e a encarou com um sorriso maldoso. Uma de suas mãos foi até o lenço vermelho de seu uniforme e o desamarrou, afrouxando a gola da blusa de marinheiro, expondo seu ombro esquerdo e parte de seu sutiã.

— Você realmente tem um corpo atraente, sabia? — falou com malícia, correndo os lábios pela pele macia do pescoço de Mai. — Ah, e como você é frágil. Tão inocente e pura... Que chega e me deixar enjoado, mas também me faz ficar ainda mais tentado a marcá-la. Mais do que justo, não? Donos precisam marcar seus pertences.

Izaya depositou alguns beijos naquela região, em seguida explorando-a com a língua. A menor estremeceu sob seu toque, sentindo também uma das mãos do informante massagear de forma não muito gentil um de seus seios.

Não se sentindo satisfeito com apenas aquilo, o moreno trocou os beijos por mordidas, deixando marcas escuras e dolorosas no pescoço na jovem. Ela soltou alguns gemidos de dor, mas ele não se importou, apenas queria macular ainda mais aquele corpo.

— Hora da melhor parte, Mai-chan — falou — Não espere que eu tenha o mesmo cuidado que dá última vez. Não estou interessado em saber se vai doer ou não, apenas não reclame a aguente.

Izaya empurrou-a contra a cama e se colocou sobre ela. Seu sorriso era sádico, fazendo Mai ficar assustada. Ela tremia sobre o colchão, sentia uma imensa vontade de empurrá-lo de si ou simplesmente chorar e pedir para que não a machucasse mais.

Mas já estou tão ferida, pensou com pesar. Talvez já nem seja capas de sentir mais dor. Mas ainda sim...

Em uma última tentativa de súplica, ela mirou os olhos do mais velho. Seus olhares se encontraram, e quando Izaya sustentou aquela conexão, o medo e o ódio desapareceram. Sem que se dessem conta, ao manterem-se inertes, apenas trocando olhares, um sentimento diferente aflorou entre os dois. Uma silenciosa mensagem queimou no coração de ambos, dizendo que, mesmo com todo aquele ressentimento e sofrimento que aquela relação possuía, havia algo os conectando. Uma ligação forte, impossível de ser rompida, mas que, naquele momento, por não saberem como lidar com ela, haviam-na transformado em grilhões.

Aquela ligação tinha nome.

Mai, apesar de tudo, já estava acostumada a enfrentá-la de frente e se deixar senti-la. Por outro lado, Izaya não. Estar com a colegial na cama, dentro de um quarto escuro, pronto para se ligar fisicamente a ela e sustentando um olhar que fez os sentimentos que tanto tentava esquecer se aflorarem, o fez recuar.

— I-Izaya...? — menor sussurrou, tentando tocar seu rosto.

Entretanto, antes que ela pudesse senti-lo, o informante se afastou. Mai não conseguiu ver seu rosto e sentia que ele evitava olhá-la.

— Estou enjoado disso — murmurou, saindo da cama.

A colegial se colocou sentada, surpresa com a ação. Sem dizer mais nada, ele lhe deu as costas e adentrou no banheiro. Mai estava aliviada, mas aquela trocar de olhares anterior a deixou realmente aflita. Sem conseguir se conter, ela se encolheu no lugar e abaixou a cabeça. Lágrimas solitárias escorreram pelo seu rosto.

— Não me deixe sozinha... Não fuja dos meus sentimentos — implorou para a escuridão. — Pois eu também quero ser amada por você.

No banheiro, debaixo da água corrente, os olhos de Izaya se perdiam na parede de azulejos claros. Enquanto sua mente repetia incansavelmente a mesma frase: De novo, não!

***

Por um breve momento, ele não sabia onde estava. Até que o som do mar penetrou em seus ouvidos e a sensação dos pés descansos afundando de leve na areia se fez presente.

Estava escuro e frio, mas o mar se apresentava tranquilo e harmonioso.

Exatamente como naquele dia, lembrou-se. Como eu odeio praias...

— Eu amo o mar — ele ouviu atrás de si.

O rapaz virou-se na direção da voz. Em pé, a alguns metros dele, estava Mai. A saia longa de seu uniforme balançava com a brisa, o casaco negro do rapaz aquecia seu corpo e o anel prateado adornava seu dedo anular. Em seu rosto havia um sorriso gentil e apaixonado, mas ao mesmo tempo distante.

— Eu sei — ele respondeu.

Desejava ir até ela, mas seu corpo não se mexia.

— Mas eu amo muito mais você — ela continuou. — Mas, sabe, o meu maior desejo não é ver o mar novamente, mesmo eu o adorando muito. É poder estar eternamente ao seu lado.

Mai começou a caminhar em sua direção, ainda sorrindo.

— Eu estarei sempre ao seu lado, nunca irei te abandonar — falou. — Porque, independente do que aconteça, ou de quantos anos passem, eu sempre irei te amar.

A quase um passo do informante, ela parou.

— E você, Izaya?

— Eu...

Ele ergueu a mão para tocá-la, mas antes que conseguisse finalizar o gesto, um forte vento bateu, levantando os grânulos de areia. O informante fechou os olhos e levou as costas da mão até o rosto para se proteger. Porém, da mesma forma que a ventania começou de repente, ela parou. Quando voltou a abrir os olhos, não havia nada a sua frente, além do casaco e anel caídos na areia.

— Mai...?

Uma risada sádica o respondeu em sua mente.

“Acabou sozinho de novo, que dó”, ele ouviu ecoar. Conhecia aquela voz. Era ele mesmo, com aquele tom de escárnio que usava para jogar a miséria de suas vítimas na cara delas.

“Patético... O mais temido informante de Ikubukuro com medo da solidão”

“Não, pior, com medo de ser abandonado novamente”

“E, por causa disso, recorreu a métodos infantis para se sentir seguro”

“Se não quer sofrer de novo, por que simplesmente não a descarta?”

“Ah, é claro, você se tornou tão ridiculamente carente da companhia e sentimentos daquele ser que nem ao menos humano é, que não consegue se desapegar”

“E só porque ficou magoado e agora está com medo, a maltrata. Isso é tão infantil”

“Até aquela coisa consegue ser melhor do que você, sabia? Ao menos ela não tem medo da dor”

Ele ouviu outra risada. Queria responder àquelas palavras, se impor. Porém, algo o segurava. Sua voz morria antes que conseguisse pronunciar qualquer coisa.

“Por que não assume a derrota e aceita que...”

Seus olhos lentamente se abriram e antes mesmo que o mundo ao seu redor entrasse em foco, já podia sentir sua cabeça latejando. Praguejando, Izaya sentou-se na cama, logo percebendo que era o único ali.

— Maldito sonho — cuspiu com ferocidade.

Depois de fazer suas higienes e trocar de roupa, saiu do quarto. Ao descer, viu Mai sentada no sofá com Kuro no colo. Chegou a se perguntar porque ela ainda estava ali, mas um segundo depois lembrou-se que era sábado.

A garota também notou sua presença e tentou disfarçar seu olhar magoado, lhe dando bom dia.

O rapaz não respondeu, apenas espiou-a pelo canto dos olhos e caminhou até a cozinha, onde tomou alguns goles do café preparado por Namie.

— Izaya... — ouviu.

Ele largou a xícara sobre a mancada e a encarou.

— Deixe-me adivinhar, você quer sair? — supôs, com um misto de irritação e cansaço.

— Vamos apenas sair para tomar café da manhã em alguma cafeteria — pediu timidamente. — Eu ainda não tomei o meu também.

Izaya respirou fundo. Conseguia notar certa expectativa escondida naqueles olhos azuis. Não fez questão de tentar descobrir o que era, não daria em nada, afinal.

— Vamos, então.

O informante caminhou até a porta e Mai o observou destrancá-la.

É minha última chance, pensou com um pouco de medo. Desculpe, Izaya, estou chegando ao meu limite. Preciso fazer algo.

Na rua, ambos andaram lado a lado no mais absoluto silêncio. A caminhada de nada ajudou a melhorar o humor do mais velho. Sua cabeça ainda latejava e aquele maldito sonho continuava a espetá-lo. Tudo a sua volta o incomodava, principalmente a garota ao seu lado, que não parava de espiá-lo pelo canto dos olhos.

— Diga logo o que quer — exigiu.

Ela deu alguns passos sem respondê-lo, até que parou de andar. Sem entender aquilo, Izaya também parou e virou-se para Mai.

— Izaya... — ela começou, um pouco acanhada. A jovem olhava para o chão, mas então reuniu coragem para olhá-lo nos olhos. — Eu realmente te amo muito, Izaya.

Mai respirou fundo.

— Eu te amo — repetiu, se aproximando ele. Seu rosto estava corado, mas ela continuava mantendo contado visual. — Você é alguém importante para mim e é tudo o que eu tenho.

“Eu sempre irei te amar”

— E ficar longe de você, do seu coração, me faz sofrer — ela continuou. — Dói saber que há uma distância entre nós. Porque o meu maior desejo é estar ao seu lado e poder fazer com que seja feliz. Eu faria tudo por você.

“Eu sempre estarei ao seu lado”

— Sei o quanto está sofrendo, o quando seu coração está machucado e despedaçado, mas se as coisas continuarem desse jeito, a tendência será só piorar, a ponto de nem eu conseguir suportar. Eu também sinto dor e sofro, tanto quanto você. Da mesma forma que você não quer sofrer, eu também não — Mai argumentou, ofegante, devido ao coração disparado. — Quero poder ser feliz ao seu lado. Por isso, por favor, não fuja mais de mim e do que está acontecendo. Deixe-me cuidar de suas feridas e tocar seu coração. Sei que posso compensar a falta que fiz e minhas memórias.

VOCÊ NÃO VAI!

— Calada! — ele interrompeu-a. — Pare com isso, é simplesmente irritante! Não suporto mais ouvir essas palavras doces, elas me enojam — Izaya mirou-a com ódio. — Não aguento mais você dizendo que me ama que quer estar ao meu lado. Todo esse sentimentalismo é falso. Seu é amor é falso, assim como você! Não vai me amar e não vai estar ao meu lado. Sei disso, porque foi a mesma coisa que você me disse antes e no final sobrou apenas eu! E você não se importa com isso.

Ele deu um passo para frente, fazendo-a recuar.

— Entenda de uma vez, esse seu amor não vale nada para mim. Não passa de uma palavra vazia que alegra apenas a você. Já me disse isso várias e várias vezes, mas de nada serviu para mim, porque você me abandonou, não sobrando nada além de solidão e raiva.

Izaya estava ofegante, mas a fúria e a cólera ainda borbulhavam dentro de seu corpo. Ao passo que Mai o encarava completamente assustada e sem palavras. Seus olhos azuis estavam trêmulos, indicando que as lágrimas provenientes de um coração ferido e quebrado estavam prestes a se libertarem. Mas antes que escorressem pelo seu rosto, a colegial tentou sair dali. Entretanto, prevendo sua fuga, o informante a segurou pelo pulso com força e a puxou.

— A-ai...! — ela gemeu, apertando os olhos.

— O que foi, vai fugir? Irônico, já que você a pouco estava me pedindo para não fazer isso — ele riu com desgosto. — E agora, onde está o seu lindo amor, ein? Achei que suportaria tudo por mim.

— P-por favor, Izaya... Me solta — pediu entre lágrimas.

— Patético — falou, soltando-a. — Por isso não vale a pena ter qualquer coisa com você.

Conseguindo conter um pouco daqueles sentimentos rancorosos, Izaya contemplou o estrago feito por suas palavras. Mai não havia se afastado depois dele tê-la soltado, ela continuava lá, tremendo e chorando. Incontáveis lágrimas escorriam pelo seu pequeno rosto, moldando um choro pesado e sôfrego. Seus ombros tremiam e ela soluçava.

E vendo aquilo, a raiva contida em seu âmago começou a se dissolver, dando lugar a um novo sentimento, quase desconhecido para o rapaz.

Izaya começou a sentir culpa. Muita culpa, e aquilo o desarmou completamente. Mas, principalmente, fez sua consciência pesar. Porque, no fundo, ele sabia que estava sendo injusto com Mai. Nada do que havia acontecido era culpa dela. A colegial não queria tê-lo deixado, doeu tanto nela, quanto nele se separarem. Muito menos ter perdido suas memorias. Tanto, que ela sofria com isso e tentava suprir essa falta. E o informante tinha noção de que todos os sentimentos que ela tinha por ele eram puros e verdadeiros, a ponto de fazerem-na se sacrificar por ele.

E Izaya tinha consciência, sobretudo, que a coisa que mais machucaria Mai e deixaria feridas profundas era ele, alguém tão importante e valioso, duvidar e rebaixar a nada esse amor.

E, por causa de uma magoa e ressentimento guardados, envolvidos pelo medo, o informante havia acabado de fazer isso, em alto e bom som, desejando nela toda a sua crueldade e ódio.

Ver o resultado de seus atos... Mai com os ombros trêmulos e solução em meio às lágrimas fez com que o desconhecido sentimento de culpa perfurasse seu peito.

Ele a encarou, atônito, e involuntariamente ergueu a mão para tocar seu rosto. Porém, antes que pudesse concluir o ato, algo aconteceu.

Por causa de toda aquela tensão conflituosa que os envolvia, nenhum dos dois prestou atenção no que estava acontecendo em volta. Por isso, nem Mai ou Izaya perceberem a aproximação de Shizuo, muito menos a grande lixeira de metal voando na direção do rapaz.

Quando o informante, de fato, notou o que se aproximava, já era tarde demais. Uma forte dor atacou seu ombro direito e ele sentiu-se sendo jogando a vários metros contra o chão.

Trincando os dentes e sentindo um ódio mortal daquele monstro imprevisível, ele se pôs de pé com certa dificuldade. Shizuo se aproximava segurando uma placa de PARE sobre o ombro e estampava seu típico sorriso assassino, enquanto bradava o nome de Izaya. Os olhos vermelhos do moreno automaticamente caíram na garota; ela ainda estava parada no mesmo lugar, olhando-o espantada, ainda sem se recuperar do susto. Mas antes que Mai o fizesse ou tentasse socorrê-lo, Izaya sibilou:

— Não se aproxime.

Alheio às ordens do informante, o loiro se aproximava.

— Sempre soube que você era um bastardo ignorante que gostava de humilhar e desprezar os outros, mas dessa vez você se superou — Shizuo falou com nojo. Ele olhou para a jovem e depois se virou para Izaya, estalando a língua. — Prepare-se para morrer, pulga.

O moreno tentou fingir um sorriso altivo.

— Ora, ao menos eu tenho completa noção do que estou fazendo. Muito diferente de você, que mesmo querendo proteger as pessoas, sempre acaba ferindo e espantando a todos — ele riu. — Pobre monstrinho incompreendido.

Tirando a placa de cima do ombro, o segurança preparou-se para acertar o moreno. Entretanto, Izaya era rápido, e mesmo que não quisesse e que estivesse detestando o fato de ter que deixar a situação daquele jeito, ele teve que se afastar o mais depressa possível.

Enquanto o informante corria para longe dali, perseguido por Shizuo, ele olhou por cima do ombro, vendo a imagem de Mai ficar cada vez mais longe.

A que ficou para trás, que havia presenciado toda aquela cena com o coração e mente bagunçados demais para agir, só conseguiu se recuperar do susto muito depois dos dois sumirem de vista. Mai deu um passo incerto para frente, mas logo sentiu alguém segurar seu ombro e virá-la.

— Celty... — sussurrou, quando o capacete amarelo e as roupas negras entraram em seu campo de visão.

“Já está bom, Mai-chan. Pare de sofrer”

Ele podia ouvir a voz da motoqueira, continha um misto de pesar e compreensão. Aquelas palavras fizeram-na sair do transe em que se encontrava. Perdida, a colegial finalmente olhou em volta. Várias pessoas a encaravam, surpresas ou entretidas com o pequeno show. Entretanto, a garota não se preocupou com isso. O que chamou sua atenção foram os vários rostos conhecidos ali presentes que também haviam presenciado aquilo. Viu Shinra, Mairu, Kururi, Anri, e até aquele grupo que andava de vã, que certa vez as gêmeas lhe apresentaram.

Mai sentiu seu rosto esquentar e fitou o chão. Mas a Dullahan colocou a mão em seu ombro de forma acolhedora.

— O que eu faço agora, Celty? — suplicou em tom baixo. — Estou tão perdida.

“Não sei, mas também não acho que seja hora para pensar nisso” — respondeu.

A menor sentiu sua cabeça sendo envolvida por algo e quando deu por si estava usando um capacete negro.

“Vamos”

Ela hesitou, mas por fim suspirou.

Terminou da pior maneira possível, pensou, enquanto era guiada para longe dali.

Memory Twenty Finalized

Notas finais
Então, o que acharam? Eu adorei o capítulo, sério mesmo. Consegui passar tudo o que eu queria e direcionar a história para o caminho que havia preparado ~ Acho que agora ficou mais claro o que estava acontecendo com o Izaya, né? Sim, o fato da Mai tê-lo deixado, bem quando o próprio aceitou seus sentimento deixou váárias cicatrizes. Calma, que as coisas vão ficar ainda mais claras. Bem, espero muito mesmo que comentem e, se quiserem, recomendem. Se você favoritou a história ou colocou-a nos acompanhando, por favor, não deixe de comentar. Minhas postagens demoram, mas são regulares. Mas também sou influenciada pela quantidade de comentários, o que significa que posso acabar postando mais rápido. Na verdade, é o que eu quero, pois Memories tem dois arcos. Esse primeiro, que chegou ao clímax agora (e provavelmente vai acabar em dois ou três capítulos) e o segundo , que ao meu ver, é o melhor e mais emocionante, com muito mais elementos. E é o que mais quero escrever. Por sinal, ao contrário de Miracle, essa fanfic terá 40 capítulo (ou 35, depende). Espero que consigam me aguentar até lá. Ah, uns dias atrás uma leitora sugeriu que eu postasse Miracle/Memories no AS. E eu achei uma boa ideia. Só que tenho que, primeiro, revisar os primeiros capítulos, e eu tenho certa preguiça disso. Mas logo começarei a postar lá também (irei avisar, ok?). E, pensando nisso, me ocorreu a ideia de postar no FF.net em inglês (sim, a tia fala inglês). O que acham? Como lá é um mar caótico de couples, suponho que o povo de lá seja mais mente aberta pra casais e como Miracle/Memories é uma excelente história, acredito que também vá fazer sucesso por lá. Ai, e por favor, IzayaxMai é canon. Ela é o par perfeito pra ele Bem, é só isso. Espero que tenham gostado e não se esqueçam de comentar