Memories
18 Memory Seventeen
Notas iniciais
Hoje eu gostaria de agradecer a ShuitzLove pela belíssima recomendação que ela deixou em Memories! ♥
E também a Lucy a YukiDatenshi por recomendarem Miracle.
Ai, meus leitores são os mais lindos! Adoro ser mimada por vocês x))
Ah, e sem falar na Maryliah Costa e, novamente, na YukiDatenshi por me ajudarem nesse capítulo (desculpe por ter prometido duas data e não ter cumprido!). Que, por sinal, foi muito difícil de escrever.
Agora o capítulo o/
Boa leitura
Memory Seventeen
Os olhos azuis de Mai encararam com desconfiança aquele estranho homem.
— Oh, mas levando em conta que está sendo usada e manipulada, acho que fica até difícil discernir seus próprios atos — comentou. — Se bem que, ignorância não lhe dá liberdade para agir de forma tão deplorável.
— O que quer dizer com isso? — a menor interrompeu. — Quem é você e como me conhece?
O homem riu.
— Sim, eu te conheço. O seu eu do passado e o atual. Hm, perda de memória, muito curioso. Adoraria descobrir o motivo disso ter acontecido, mas no momento meu foco é outro — explicou. — O que acha de andarmos um pouco enquanto conversamos?
— Não vou a lugar nenhum com você — recusou, arredia.
— Ah, Mai-kun, não me veja como um inimigo, vim aqui com a melhor das intenções, mesmo você não merecendo, para avisá-la de seus equívocos — soou magoado.
— Não acho que eu esteja fazendo algo de errado para precisar da sua ajuda — respondeu desconfortável.
— Mas é claro que está — o estranho adentrou no beco, aproximando-se de Mai. — Está se deixando ser usada pelo Orihara Izaya e se submetendo a ele de forma vulgar.
A colegial arregalou os olhos com a declaração, dando um passo para trás.
— Suponho que ninguém teve o bom senso de contar para você como ele realmente vê a relação que compartilham. Bem, então irei revelar a verdade — seu tom ficou mais forte e sério. — Acabe com a imagem fantasiosa que tem do Orihara-kun, pois ele não é nada do que pensa. Na verdade, é um homem desprezível e manipulador. E que, no momento, está deturbando a sua mente para usá-la como brinquedo sem que perceba. Abusando de sua inocência e se aproveitando de você.
— Isso... Isso é mentira! O Izaya nunca faria isso comigo — tentou defendê-lo.
— Tem certeza? Experimente, ao invés de obedecê-lo cegamente, tentar contrariá-lo — desafiou com crueldade. — Ele só é supostamente gentil com você porque está agindo conforme seu agrado. Pois tenho certeza que, caso fizesse o oposto, ele iria obrigá-la a se submeter aos seus caprichos, mesmo que isso signifique fazê-la sofrer — o homem parou um segundo, analisando o rosto acuado da garota. — E é muito fácil provar que falo a verdade. Diga-me, Mai-kun, de todas as vezes que o Orihara-kun fez algo por você, cite alguma que não tenha sido para provocá-la ou arrancar de você sentimentos que ele pudesse usufruir de alguma forma?
Infelizmente Mai estava consternada demais para respondê-lo. Aquelas palavras estavam atingindo-a em cheio.
— Suponho que nenhuma — deu de ombros, com pouco caso. — E sabe o real motivo dele estar agindo assim com você? Porque, no fundo, o Orihara-kun te odeia. A odeia por ter se esquecido dele e o abandonado. E agora que percebeu que não pode ter seu antigo eu de volta, a usa como marionete. O amor e todos os sentimentos afetivos que tem pelo Orihara-kun, para ele, não passam de divertimento com o qual ele se delicia, vendo-a se sujeitar a ele obedientemente, sem saber que o pior a espera. No fundo, ele nunca e nem quer retribuí-los verdadeiramente. E, quando se cansar de você, depois de usá-la e torturá-la, vai descartá-la sem dó; abandonando-a sem olhar para trás.
O estranho colocou as mãos no bolso do jaleco, com ar displicente.
— Ah, e por último. Aquelas meninas só agiram assim porque elas, e a maioria das pessoas a sua volta, enojam-na por render-se ao Orihara-kun dessa forma. A relação linda na qual você acredita é, na realidade, suja, indecente e bizarra.
Quando terminou de falar, afastou-se da trêmula colegial e foi até a entrada do beco.
— Cuidado, Mai-kun, uma hora o Orihara-kun exigirá muito mais de você do que acredita que possa dar. Ou então, a prenderá de tal forma que não consiga mais escapar. Apesar de achar que já se afundou demais para fugir. Bem, foi esse o meu aviso, espero que o utilize bem.
Mai o viu ir embora e sumir em meio à multidão na rua, sem forças para protestar. Suas pernas tremiam e a respiração estava descompassada. Aquelas tórridas palavras ecoavam por sua mente, criando ecos torturantes.
Não queria acreditar em nada daquilo, preferia fingir que eram apenas divagações de um estranho, mas ele parecia conhecê-la até demais e muitas das acusações batiam terrivelmente bem com sua vida ao lado do informante.
Lembrava-se das vezes em que o rapaz gritara ou era grosso com ela por coisas que havia feito que o desagradavam, sem nunca se desculpar por isso. Ou então, das ocasiões em que ele a provocava para no fim a menor acabar agindo da forma que mais lhe agradava. Recordava-se das vezes em que pedira ao rapaz para dizer qual havia sido a relação deles no passado, mas ele nunca a respondia.
E, principalmente, o que mais a magoava: Izaya nunca externou ou deixou claro quais sentimentos que tinha por ela. Essa era a pior das dívidas e que a mais lhe doía.
Será que todas as vezes que o informante foi gentil com ela foram mentiras? Apenas um teatro para torna-la submissa? Não... Não queria acreditar que todos aqueles momentos em que trocaram sorrisos e carinho eram falsos. Simplesmente não podia.
Entretanto, a possibilidade de ser abandonada, de nunca ter seus sentimentos correspondidos, era agonizante, quase desesperadora.
— Izaya... — sussurrou, sentindo as lágrimas molharem seu rosto. Seu peito doía, era como se enfiassem uma adaga de dois gumes em suas costas, acertando seu coração, que batia dolorosamente, tentando sobreviver às dúvidas que se negava a acreditar.
Sentindo as pernas bambearem, tombou contra a parede, deixando que a gravidade a empurrasse para o chão sujo. Entretanto, não se importava com a queda, a dor emocional era tanta, que não ligava para mais nada. A única coisa que queria era estar com Izaya e comprovar que tudo que eles viveram não era uma mentira. Queria poder voltar da escola todos os dias e saber que teria um lugar seguro, onde ele a estaria esperando. Que poderia sorrir e abrir seu coração para ele sem medo, demonstrar seus verdadeiros sentimentos e ser correspondida.
Infelizmente, depois daquilo, as coisas não pareciam mais tão belas aos seus olhos. A chama da dúvida havia se acendido em seu peito, criando sombras em seus cantos que a assustavam.
Sem falar que mal sabia o que fazer. Sentia-se perdida. O mais lógico seria tentar saciar suas incertezas, mas conseguir isso parecia tão difícil. Não sabia se contar para Izaya o que ouvira era uma boa ideia. E exigir dele explicações e a exposição de seus sentimentos parecia invasivo demais.
Ah, e sem falar na confusão criada pelos seus colegas de turma. Que era mais um de seus problemas.
Já havia escurecido quando Izaya resolveu voltar para o escritório. Pretendia ficar até mais tarde na rua, e havia tentado ligar para Mai para que o encontrasse no Rússia Sushi, mas acabou não obtendo sucesso, optando então por voltar mais cedo.
Ao adentrar no recinto, logo a notou sentada no sofá da sala. Em suas mãos havia uma folha de papel amaçado, porém, ao ouvi-lo chegar, guardou-a em sua pasta. Quando acabou, virou-se para ele e sorriu.
— Bem vindo de volta — cumprimentou.
O informante parou na porta, encarando-a. Nunca havia visto a colegial esboçar um sorriso tão melancólico e forçado. Até seus olhos estavam escurecidos e tristes.
Tal visão lhe foi incomoda.
— Tentei te ligar mais cedo — comentou, fingindo que nada havia percebido. — O que ouve com o seu celular?
— Descarregou — respondeu apenas, voltando a virar para frente.
Até sua voz estava estranha, baixa e sem forças.
Tirando o seu sobretudo, o rapaz caminhou até o sofá e sentou ao lado dela, pegando o controle remoto na mesa de centro para ligar a T.V.
— Como foi o seu dia? — perguntou sem muito interesse, espiando-a pelo canto dos olhos.
Ela estava encolhida no lugar, com o rosto virado para o lado contrário e abraçava com força sua pasta.
— Normal...
— Hm — fez, recostando-se contra o encosto do estofado, passando os canais sem muita vontade. — Quer saber, estou entediado — virou-se para a garota. — Quer ir comigo ao Rússia Sushi?
— Estou sem fome. Na verdade, acho que já vou subir.
Mai não havia nem se dado ao trabalho de olhá-lo para responder. Simplesmente se levantou e começou a se afastar dali. Sentindo-se afrontado, o informante jogou o controle em algum canto e se ergueu também, segurando-a pelo pulso.
— Ei, o que houve com você? — perguntou sem paciência. — Será que eu não posso te deixar um minuto sozinha em Ikebukuro que você volta assim?!
— Não aconteceu nada — ela respondeu, ainda sem encará-lo. — Apenas me solte.
A garota tentou puxar seu pulso de volta, mas não conseguiu, acabando por virar-se para o mais velho, ainda que mantivesse a cabeça baixa.
— Se não aconteceu nada, me olhe para responder — exigiu, segurando o queixo da colegial, obrigando seus olhos a se encontrarem.
Ao fitar os intensos e irritados olhos vermelhos, a menor se assustou.
— Me larga! — apavorada, ela o empurrou, afastando-se dele e correndo para o andar de cima.
— Mai! — ele chamou, mas a única coisa que ouviu em resposta foi o barulho da porta batendo.
Izaya estalou a língua, enraivecido. Que droga havia acontecido com ela? Ontem estava completamente animada, dizendo o quanto estava feliz por tê-lo como companhia. E agora aparecia no escritório daquele jeito, sem nem mesmo se preocupar em dar-lhe uma explicação. Parecia quase uma afronta e menosprezo a ele. Como se nada do que haviam passado importasse mais.
Enfurecido, subiu as escadas e seguiu para o quarto dela.
— Abre a porta, Mai — falou em tom rígido.
Não houve resposta.
— Eu estou falando sério.
Houve um longo silêncio, até que ouviu o som da tranca se movendo. Em seguida, a porta se abriu, pouco, apenas o suficiente para revelar metade do rosto da jovem. Ela ainda estava triste, mas agora também parecia um pouco envergonhada pelo que estava fazendo.
— Me deixe entrar — pediu.
Ainda resistindo um pouco, ela lhe deu passagem. O moreno passou pela abertura e sentou na cama.
— Vamos, diga logo qual é o problema e me poupe o trabalho de tentar adivinhar — disse sem paciência. — E para com esse chilique, é irritante.
Mai encolheu-se no lugar com suas palavras, porém tomou coragem ao menos para se aproximar. Sentia o olhar do rapaz queimar sobre si, deixando-a assustada. Estava, evidentemente, nervoso com ela, o que piorava ainda mais seu estado psicológico, já fragilizado devido às inquietações.
— Izaya... — sussurrou, com a voz fraca. — Eu... Eu só...
Ela realmente tentou lhe responder algo, porém as palavras se atropelavam antes mesmo de saírem de sua garganta, formando um bolo incomodo e sufocante. E havia tanta coisa que queria dizer; explicações, perguntas e declarações. Mas tudo isso estava envolto por uma capa de medo e receio, dando-lhe a horrível sensação de impotência; de ver aquilo que mais prezava ruir diante de seus olhos.
Diante da vã tentativa de se expor da menor, Izaya soltou um longo suspiro.
— Vem aqui, Mai.
— Ahn?
Antes mesmo de tomar consciência do que estava acontecendo, ela sentiu-se sendo puxada para baixo. E, quando notou que havia caído sentada no colo do rapaz, soltou um gritinho de pânico.
— E-espera...! — ela tentou sair dali, mas o moreno a segurou pela cintura.
— Tão assustada, tão confusa... Pobre Mai-chan — falou com certa malícia contida em seu tom. — Sempre tão desprotegida e frágil.
Ele levou a mão livre até a nuca de menor e aproximou seu rosto de dele, forçando um beijo. Quando seus lábios se tocaram, a tensão do corpo dela ficou ainda maior. Com a pretensão de diminuir isso, Izaya segurou-a de forma mais tenra. A mão que estava na cintura dela subiu para suas costas, massageando-a, enquanto a outra segurava a lateral de sua cabeça, aprofundando o beijo.
Pouco-a-pouco, sentindo-se fisicamente aquecida pelo mais velho, ela começou a ceder. E, ao invés de empurrá-lo, abraçou-o, aproximando ainda mais seus corpos e fechou os olhos.
Sem nada os atrapalhando ou contendo, deixaram que o beijo fluísse de forma mais calma. Seus lábios moviam-se lentamente, com um tentando agradar o outro e demonstrando um pouco dos sentimentos que guardavam pra si mesmos. O ato demorou muito mais que o normal e Izaya começou a perceber que seu corpo queria mais do que apenas aquilo. Entretanto, assim que sua mão começou a tocá-la por baixo da blusa do uniforme, ele a ouviu soluçar.
Interrompendo-se, afastou-se dela, fitando seus olhos marejados.
— Mai — sussurrou.
A colegial parecia desolada.
— O que aconteceu com você? — tentou novamente, de forma mais branda, tirando alguns fios negros da frente de seus olhos.
— Eu só estou cansada — respondeu. — Por mais que eu queira, nem sempre consigo sorrir e me sentir feliz.
O rapaz continuou a observá-la sem dizer nada. Era obvio que não havia acreditado em sua desculpa, mas sentia que por hora não conseguiria arrancar algo a mais dela, além de lágrimas. Desistindo de continuar, ele a tirou de seu colo, colocando-a sentada ao seu lado.
— Se está cansada, então vá logo dormir — instruiu, limpando seu rosto com a manga da blusa escura. — Vou ficar aqui com você até pegar no sono.
Estremecendo com o toque, ela acenou em concordância. Quando ele acabou, Mai levantou-se para pegar seu pijama e se trocar no banheiro. E, ao voltar, enfiou-se no meio das cobertas.
Suspirando, o rapaz se acomodou no lado vazio.
— Você vai dormir comigo? — ela perguntou.
— Não. Se não quiser dormir sozinha, venha para o meu quarto — respondeu, apagando a luz do recinto.
A mais nova não disse nada.
— Izaya — ela chamou, depois de um longo silêncio.
— O que foi?
— Quando não estou com você, também me sinto sozinha — falou em tom baixo. — Eu também só tenho você.
Ele virou-se para ela.
— Então por que fugiu de mim?
— Porque eu...
— Apenas durma, Mai — pediu. — Amanhã conversamos.
Demorou quase uma hora até que a colegial dormisse, porém ele ainda continuou lá por alguns minutos, observando sua respiração compassada. Perguntava-se o que havia acontecido com ela para que se comportasse de tal maneira. Chegou a pensar na possibilidade de ter sido algo na escola, mas parecia sério demais para uma simples discussão entre colegas. Sem falar que desconfiava que tivesse alguma relação com ele.
Alguém havia dito algo a ela, alguém que... Shingen. Considerando o aviso de Shinra, era muito provável que aquele cientista descarado havia se encontrado com ela e enchido sua cabeça com baboseiras absurdas.
Sabia que aquele homem tinha algum interesse em Mai por ela não ser humana, e isso o preocupava. Ele poderia ter dito de tudo para a menor, apenas para comprovar alguma teoria que criara acerca de seres de outro mundo. Não sabia exatamente o que Shingen queria, mas conseguia, levando em conta o comportamento da garota, ter uma noção do que havia falado para ela. Mai era sensível e ele tinha certeza que aquele cientista havia escolhido as piores palavras possíveis para amedrontá-la a respeito da fama do informante. Dito terríveis verdades acerca do rapaz que abalassem os sentimentos que a garota tinha por ele. E sabia que Shingen não precisaria mentir para assusta-a. Conhecia a si mesmo e o quão ruim, desagradável e deturbada era a sua personalidade e as atitudes que tomava.
Todavia, não deixaria que isso se tornasse um problema. Mesmo que ela chegasse a conhecer a obscuridade de seu ser, Izaya não permintiria que Mai se afastasse dele por causa disso. Ela era sua. Que visse então sua podridão, não importava. Iria obrigá-la a suportar tudo isso e a arrastaria para suas garras de forma traiçoeira, até que a garota sucumbisse a ele e não tivesse para onde fugir. Não deixaria que aquele homem, ou qualquer outra pessoa, tomá-la dele.
As coisas poderiam ter sido mais fáceis se ela não tivesse dado ouvidos a Shingen, mas agora já era tarde. Mas Izaya também conseguia ser misericordioso quando queria, e tinha paciência. Ainda daria alguma chance a ela para tentar esquecer o que ouvira e seguir em frente.
Havia acordado cedo naquele dia, mais do que o normal. Chegou a procurar o informante quando seu sono parou de embriagá-la, mas lembrou-se que estava em seu quarto. No mesmo instante as memorias do dia anterior também voltaram a sua mente, fazendo-a estremecer com a carga de sentimentos acumulada.
Levantou-se da cama e foi para o banheiro tomar banho. Ainda não se sentia bem e imaginou que se distanciasse um pouco daquele ambiente, poderia ter um pouco de alívio e pensar com mais clareza.
Terminado de se lavar, colocou um uniforme limpo, pegou sua pasta e alguns mangas que encontrou debaixo da cama dias antes e foi embora.
A escola mal tinha aberto seus portões quando chegou lá. Rapidamente deixou seus sapatos no armário e seguiu para sua sala, que estava completamente vazia. Fez questão de sentar na última carteira do canto, em uma leviana tentativa de se esconder do resto da turma que logo chegaria.
Enquanto esperava, leu seus mangás e até chegou a acessar o chat. Apenas Setton estava online, com quem teve uma agradável conversa. Entretanto, na medida em que o resto da classe chegava, começou a sentir um desagradável clima tenso, até que o professor entrou, obrigando-a a terminar o diálogo.
Ninguém olhou para ela, mas era quase palpável a raiva que emanava das duas garotas que tentaram atacá-la no dia anterior. Pretendia ficar sentada ali o dia todo e, quando a aula terminasse, ir embora o mais rápido possível, assim, evitando mais problemas. Infelizmente, no recreio, seu estomago importunou-a, exigindo comida, que o havia negado desde a hora que acordara. Tentou ignorar a fome, mas não conseguiu. Desistindo, decidiu correr até uma daquelas máquinas de salgadinhos que ficava no andar de sua sala e comprar algo dela.
No entanto, ao voltar, desejou não tê-lo feito. Quando olhou para o quadro negro, notou, escrito com letras garrafais seu nome com um valor em yens embaixo. Dele, saía uma seta que apontava para um desenho tosto de uma garota em uma posição comprometedora e, atrás dela, o de um rapaz. Ao lado dele, havia a palavra: cliente.
Quase deixou seu lanche cair no chão.
— Uma bela profissão — falou com sarcasmo uma das meninas.
Vários outros alunos começaram a rir. Mai sentou o seu rosto esquentar, mas conseguiu juntar forças para pegar o apagador e tirar aquilo do quadro. Enquanto fazia isso, ouviu o barulho de materiais caindo no chão. Ao virar-se, viu que a segunda garota havia pegado sua pasta e virando-a de cabeça para baixo, derrubando tudo que estava nela.
— Isso é por ontem — falou, soltando o objeto.
Ela apertou o apagador entre os dedos, mas não fez nada além de terminar de apagar o que sobrara do desenho e juntar suas coisas, suportando os comentários maldosos e risadas. Até o final da aula, a menor tentou fingir que nada havia acontecido, bloqueando sua mente para qualquer perturbação. Porém, quando o último horário se finalizou e ela cruzou os portões da escola, sentiu suas barreiras começarem a ruir.
— Surpresa? — perguntou.
Em pé, recostado ao muro e com as mãos no bolso do sobretudo, estava Izaya. Ele a encarava pelo canto dos outros e não esboçava qualquer expressão.
— Me esperando? — sussurrou.
— É o que parece.
Mai quis chorar. Ela quis correr até ele e abraçá-lo, confessar todas as suas angustias e pedir que a ajudasse. Não queria acreditar em mais nada, além do que o próprio informante lhe dissesse. Contudo, conteve-se. A insegurança a afastava dele.
— Suponho que esteja à toa no momento. — ele comentou. — Então, o que acha de dar uma volta comigo? — convidou.
A colegial olhou em voltar, pensando sobre o convite. Mas acabou não conseguindo contrariar ao rapaz.
— Certo.
Aceitando a companhia, ela o seguiu. O início da caminhada foi silencioso, com o mais velho ocasionalmente espiando-a. Ela não parecia muito melhor do que ontem, até pior, arriscava, ainda que tentasse esconder isso.
— Tem algum lugar em especial que queria ir? — o rapaz perguntou.
— Não realmente.
Estalando a língua por ela não estar cooperando, resolver leva-la até o parque que tanto gostava. Sua reação ao local foi contida, mas suficiente para que ele notasse e se desse por satisfeito.
Enquanto ela se sentava em um dos bancos, Izaya foi até uma máquina de bebidas quentes e comprou duas. Voltando para onde a jovem estava, ele sentou-se ao seu lado.
— Está bem frio hoje, não acha? — comentou, colocando uma das latas ao seu lado e abrindo a outra para beber. Era para ela, mas não a ofereceu.
Mai o encarou, depois abaixou os olhos para o que havia comprado.
— Oh, você quer? — fingiu de desentendido. — Sinta-se livre para me pedir.
— ... Posso ficar com essa, Izaya? — ela apontou. — Estou com frio.
— Frio? Ah, se é assim, não vai ser um cafezinho que irá te ajudar. — discordou. — Mas, se quiser, eu posso te esquentar.
O comentário a fez corar, mas a menor tentou fingir que não o ouviu, limitando-se a tentar pegar a lata que agora o rapaz erguera acima de sua cabeça.
— Não seja tímida, Mai-chan, venha e se aconchegue em mim ~
— Me dá! — ela ergueu-se do banco, alcançando a bebida nas mãos do outro e voltando a se sentar.
— Você é muito sem graça — falou, rindo um pouco a forma como ela agira. — E que mão gelada!
— A culpa não é minha, está frio. — retrucou emburrada, tomando um gole do café.
— Ora, também está frio para mim, mas a minhas mãos estão quentes.
Ela parou de beber, olhando-o. O moreno sorriu, pedindo as dela. Um pouco curiosa, a menor deixou a bebida de lado e mostrou-lhe suas mãos. Ele as pegou, juntando-as entre as suas.
Para Mai, elas estavam aconchegantemente aquecidas, dando alívio os músculos castigados pelo frio outonal.
— Ainda dói? — ela perguntou, olhando para as faixas brancas que enrolavam a mão esquerda do rapaz.
— Só um pouco, mas vai melhorar — respondeu. — Hm, eu não disse que podia aquecê-la? — acrescentou com malícia.
O rosto de Mai ruborizou, mas ela não se afastou, apenas encolheu-se um pouco.
— Sabe, Izaya, eu queria que as coisas fossem fáceis desse jeito — confessou. — Queria que, apenas um gesto simples e caloroso fosse suficiente para acabar com nossas dores, sem precisamos nos sentir inseguros ou amedrontados.
— A vida não é algo simples, Mai. Estamos sempre sujeitos a todo tipo de sofrimento. E, às vezes, alguns são grandes demais para serem subjugados por coisas comuns, ou por nós mesmo. — explicou, fitando seus olhos azuis. — Há ocasiões que precisamos da ajuda de outras pessoas. Porém, se tentarmos esconder os problemas, essa nunca chegará. Por mais que o outro queira fazer algo por você.
Sentindo-se intimidade pelas palavras dele, Mai recuou. Entretanto, ele a segurou pelo braço, não aceitando mais que se mantivesse em silêncio. Pretendia expor o que havia concluído, para que a menor ficasse encurrala com seus argumentos e finalmente se abrisse para ele. No entanto, para sua inconveniência, viu que do outro lado da rua havia dois homens encarando-os. Reconheceu os rostos como integrantes do grupo mafioso de Shiki. Chegou a considerar a possibilidade de ignorá-los, porém a presença de Mai ali deixava as coisas mais delicadas. Era melhor que resolvesse as coisas com aqueles dois homens, para que não viessem incomodá-lo mais tarde.
Resmungando, Izaya a soltou e se levantou.
— Eu vou ali resolver um assunto e já volto — avisou, caminhando para fora da praça.
Lamentavelmente o seu “já volto” durou quase uma hora. A mando de Shiki, os dois lhe fizeram uma serie de perguntas acerca do valor que cobraria e tempo que lavaria para conseguir informações sobre pontos de trocas e vendas de produtos contrabandeados. O moreno teria adorado negociar com eles, se no momento não tivesse outra prioridade. Só que, é claro, ele não faria um trabalho mal feito. Apenas não aproveitou a ocasião como sempre fazia quando trabalhava como informante. Gastando, então, quase uma hora até finalizar o serviço.
Mas, para sua infelicidade, quando voltou para onde Mai estava, com o intuito de retomar o que haviam começado, não a viu ali. Franzindo o cenho, ele observou em volta, mas não havia sinal da garota. Esperou alguns minutos, acreditando que ela havia saído dali apenas para comprar algo para comer, porém a situação continuou a mesma. Pegou o celular e tentou ligar para ela, sem resultado algum. Discou para o escritório e Namie atendeu, informando-o que Mai também não se encontrava lá.
Intrigado e até considerando a possiblidade de ter acontecido algo com a mais nova, ele saiu dali para procurá-la. Passou pelos locais que imaginou que ela poderia estar, mas não a viu em nenhum deles. Cansado de caçá-la às cegas, resolveu usar suas habilidades de informante. E, depois de fazer algumas perguntas para as pessoas certas, logo descobriu onde Mai estava.
Todavia, ao encontrá-la, não viu algo que o agradou.
Lá estava ela, conversando tranquilamente com Celty, suas irmãs e... Shizuo. A colegial sorria para todos e agia como se nada a perturbasse.
Izaya ficou ali parado, observando-a a distância, sem nenhum sentimento cobrindo sua face. Até que ela o notou. Seus olhares se encontraram e as feições despreocupadas dela mudaram para pânico. E ele, em resposta, fitou-a com raiva nos olhos, intimando-a para voltar para ele. Entretanto, para sua insatisfação e surpresa, Mai desviou-se dele, fingindo que não o havia visto, voltando a conversar com os outros ali.
Trincando os dentes, injuriado, e apertando os punhos, o informante foi embora. Não cometeria o humilhante ato de ter que ir lá e buscá-la. Que ela viesse até ele por conta própria e sofresse as consequências de seu egoísta ato que a aguardavam.
Vendo-o ir embora pelo canto dos olhos, Mai sentiu um nó de culpa forma-se em seu estômago. Sabia que teria sido melhor esperá-lo no parque, mas ele estava demorando tanto e suas palavras anteriores havia mexido tanto com ela, que a menor acabou indo embora. Pretendia voltar para casa, mas no meio do caminhou acabou encontrando com Celty e Shizuo. Não iria ficar para conversar com eles, mas a motoqueira insistiu que permanecesse e conversasse um pouco com ambos; que era uma excelente chance para retomar a amizade que tinha com o loiro, segundo ela. E, enquanto fazia isso, as irmãs Orihara – que pareciam perseguí-la – também aparecerem. Com isso, um engajado diálogo se iniciou entre o grupo, onde Mai fingiu a todo o momento que estava tudo bem.
Porém, quando viu o rapaz se aproximando, sua máscara caiu e passou a sentir medo ao ver raiva em seus olhos. Não teve coragem de fazer algo, principalmente com Shizuo ali, que poderia feri-lo novamente. Sua única opção foi desviar-se covardemente dele e esperar que fosse embora.
Ah, como se arrependia disso.
— Eu preciso ir agora — ela falou, depois de conversar mais um pouco.
“Já?” — questionou Celty.
— Quero voltar para casa antes de escurecer — desculpou-se.
— Aposto que está com pressa para se encontrar com o Iza-nii ~ — disse Mairu.
Fingindo não se incomodar com o comentário, Mai se despediu do gripo e foi embora. No caminho, repensou suas atitudes desde o dia anterior até agora e as comparou com as de antes de ter dado ouvidos àquele homem.
Havia sido uma mudança abrupta de comportamento. Era até compreensível a forma como Izaya correspondera a sua estranheza. Pensar nisso a fazia sentir-se mais culpada.
Realmente gostava do informante, seus sentimentos por ele eram fortes. Devia agir de acordo com seu coração e não deixar o medo domá-la. Não que as dúvidas fossem sumir com isso, mas precisava ser forte e suportar seus tempestuosos problemas. Sem contar que, ao seu deixar abater pela dificuldade, também havia ferido um pouco com rapaz com suas atitudes, e não era isso que queria.
Talvez, se fosse um pouco mais sincera com ele e expusesse um pouco de seus receios, a situação se tornaria menos complicada. Ah, sem falar que lhe devia um pedido de desculpas.
Tentando acumular um pouco de determinação dentro de si mesma, Mai retornou ao escritório. Ao chegar, encontrou o rapaz sentado em sua mesa, com seus sombrios olhos focados na tela do computador.
Quando ouviu o barulho da porta, ele focou sua atenção na recém-chegada. Sua expressão logo passou a ficar maldosa.
— Ora, ora, ora, veja só quem resolveu aparecer — recebeu, levantando da cadeira.
— Izaya... Eu preciso conversar com você — tentou, na prática era muito mais difícil e sôfrego executar o que havia planejado.
— A respeito do que? — indagou de forma exageradamente surpresa. — Sobre o que aconteceu ontem? Do jeito que vem se comportando? Ou da sua egoísta atitude de agora a pouco?
Mai retraiu um pouco, ouvi-lo dizer isso tão diretamente doía. Mas ela tentou não perder sua coragem, juntando as poucas forças que tinha.
— Eu sinto muito por tudo isso, Izaya. Principalmente pelo que aconteceu na rua. Sei que não foi uma atitude gentil de minha parte, ainda mais depois de você ter tentado me animar. E sobre a forma como eu venho agindo... — ela parou um pouco, voltando a sentir o peso de suas incertezas em seu peito e a insegurança de revelar tudo aquilo que guardava no fundo de seu coração. — A verdade é que estou assustada. E completamente perdida. Tudo isso por culpa de dúvidas que começaram a surgir e me perturbar, coisas que eu não sei como lidar... Mas, o que mais me assusta nisso tudo, é a possibilidade desses problemas me afastarem de você. Izaya... Você é uma pessoa importante para mim, e eu não quero que isso aconteça. Então, por favor, me ajude a acabar com esses receios...
Quando terminou, Mai olhou para o informante, em busca de apoio. Não havia dito tudo, mas foi sincera quando as suas preocupações, na esperança de que suas palavras tocassem o coração do mais velho.
Izaya, que a encorou durante toda a sua fala, não esboçava qualquer sentimento. Até que um sorriso de escárnio tomou seus lábios e ele começou a rir alto.
O ato repentino assustou a colegial, que arregalou os olhos.
— Ah, que belas palavras, Mai-chan! — exclamou sem fôlego. — Medo, afeto e inocência em um mesmo coração, que excitante. Você não tem ideia de como eu adorei ouvir tudo isso de você! — falou com malícia.
— É-é mesmo...? — ela perguntou, sem saber o que se passava realmente com ele.
— Sim, sim. Mas... — seus olhos passaram a refletir desprezo. — Eu não posso ajudá-la.
Estática, Mai o encarou. Izaya parecia ameaçador e distante, isento de qualquer sentimento relacionado a carinho ou compreensão.
— Acha que eu não sei o real motivo de estar agindo desse jeito comigo? — desafiou. — Não me subestime. Você não precisa me dizer, para eu saber que se encontrou com certo homem, de quem ouviu terríveis coisas a meu respeito, suficientemente fortes para abalarem seus singelos sentimentos por mim. — revelou. — Muito trágico, não? Quando percebi isso, quase fiquei com pena de você.
— Como você...
— E sabe por que, mesmo já sabendo de tudo isso, eu não posso te ajudar, Mai? — interrompeu-a em tom alto.
— Por que...? — questionou trêmula.
— Porque é tudo verdade — respondeu com indiferença. — Cada palavra daquele homem e muito mais. Sou desprezível e perigoso. Alguém que gosta de usar e se aproveitar das pessoas para o seu prazer pessoal. E que escolheu você como posse. Sim, Mai, você é o meu brinquedinho mais cobiçado e interessante. O que mais me traz diversão. — ele se aproximou dela, e levou a mão até o seu rosto, roçando de forma carinhosa seus dedos em sua bochecha. O tom que usava era baixo e perigoso. — E, para o seu desespero, não há como fugir de mim. Mesmo que corra e se esconda, eu conseguirei te achar e arrastá-la de volta para minhas garras. E farei questão de, em cada tentativa sua, castiga-la e prendê-la ainda mais forte. Mas isso só depende de você. Comporte-se bem, que você logo aprende a lidar com isso e, quem sabe, aproveitar um pouco dessa relação.
Memory Seventeen Finalized
Notas finais
Eu confesso, não gostei muito desse capítulo. Tem algo nele me incomodando. Por isso, quero saber o que vocês acharam e se essa impressão minha é apenas mimimi de autor.
E espero realmente que esse capítulo não tenha ficado meio... Drama mexicano ou contraditório.
Não, o Shingen não falou aquilo pra Mai à toa e o Izaya resolveu jogar tudo na cara dela porque... Bem, isso ficará claro no capítulo seguinte. Irei trabalhar bastante com isso.
Ah! Era para eu ter mostrado isso na capitulo anterior, mas eu acabei esquecendo. A Maryliah Costa fez um desenho da Mai.
http://25.media.tumblr.com/31914e72cc12cf01f80408f20b79324a/tumblr_mtcjkp7ZUa1qhxuzfo1_500.jpg
Olha que linda *---*
Bem, acho que é só isso. Espero que tenham gostado. Não deixem de comentar, preciso saber a opinião de vocês.
E, se tudo seguir como planejado, o próximo capítulo séria cheio de emoções.
Por sinal, quando eu finalizei Miracle, esqueci de classificá-la como "terminada". Mas agora já mudei e quem colocou ela no História que Acompanho já pode marcar que finalizou a história.
Está tarde, prometo responder aos reviews amanhã ♥
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