Memorias Fragmentadas
5 Cicatrizes
Com alguns curativos improvisados, Shimi observava Yafei com faixas no ombro e na cintura, carregava um remédio que ajudava a estancar o sangue apenas amenizando o caso, para que pudesse sobreviver até fazer um tratamento adequado. Seguindo-a preocupada, elas duas andavam pela casa abandonada ainda, tinham deixado o corredor que lutaram com a criatura para trás, junto com algumas escrituras na parede que Yafei tinha feito, não conseguia identificar o que significava, mas tinha um ar de importância já que Yafei dedicava sua concentração para fazer tais desenhos. Chegando na sala que ficava no final do corredor, notou que era outro quarto, só que bem maior com uma cama de casal no centro bem velha, essa estava apenas com um dos pé quebrado fazendo ficar inclinada, o quarto possuía um guarda roupa logo ao lado da entrada feito de madeira, sem portas com seu interior vazio e tomado de poeira e teia de aranha, com diversos buraco feito por cupins.
O brinco de Yafei aumentou a intensidade do brilho, começou a olhar em volta para ver se não havia nem outra criatura. Sem ver nada achou estranho, já que os brinco reagiam a essas aparições, Yafei mantinha concentrada na sua investigação olhando para cada detalhe no quarto, até que um momento que ela puxou sua bolsa que tinha na cintura, retirando alguns pedaço de carvão e amuletos, desenhando no chão mais algumas escrituras formando uma frase em meia lua, sentando atrás da frase, ficando no centro, alinhou três amuletos feito de madeira, que estavam tinham a letra “S” escrito com tinta branca neles, e por último pegou várias pétalas de flores e jogou para frente espalhando pelo quarto.
Sentando no chão cruzando as pernas, cerrou os punhos aproximando as mãos colocando encima das coxas, fechou os olhos e começou a respirar fundo, seus brincos aumentavam e diminuíam a intensidade do brilho junto com sua respiração, sussurrava palavras incompreensíveis algum tipo de língua que Shimi não compreendia. Andou até parede se afastando de Yafei com medo de atrapalhar sua concentração, ficando fora da sua visão apenas observando ela, sentindo que a tensão no local estava mudando, o quarto antes abandonado parecia ganhar algum tipo de vida, esse sentimento era familiar para ela, um sentimento de eternidade, de estar presa a um local, sentindo seu corpo lhe rejeitando novamente, querendo sair de dentro dele como um animal dentro de um casulo. Seu espirito estava pulsando dentro de si, seu peito começou a doer diversos sentimentos borbulhavam em seu coração, não entendia o que estava acontecendo, cada palavra que Yafei pronunciava sua mente se revirava, uma dor de cabeça começou a tomar conta algo totalmente diferente, nunca tinha sentindo isso antes, não como ela se lembrasse de suas dores de cabeça.
Um ser apareceu na frente de Yafei, podia ver claramente não era transparente ou possuía deformações, era um ser humano ou aparentava ser um, extremamente pálido usando vestimentas simples e branca, cabelos cinzentos com olhos azuis, o ser estava de pé olhando para Yafei, apenas desviou o olhar para Shimi, que sentiu um arrepio repentino quando a criatura arregalou os olhos a sua presença, contudo sua atenção foi puxada de volta para Yafei que ainda recitava sua oração.
—Você é livre, aquele que te prende não te prende mais- Seus olhos ainda estavam fechados, como podia saber que tinha alguém ali- Sua alma é livre, sua alma é livre para encontrar Slyveth.
Uma ânsia de vomito veio de repente, caiu de joelhos a escutar as última palavras, com a mão na boca se concentrando para realmente não vomitar, olhou para o ser que estava ali, abrir os braços e sumir lentamente, até que o brilho do brinco diminuísse até o natural que era. Yafei olhou para trás e ficou surpresa ao ver Shimi de joelhos ofegante, em um segundo deslizou para o seu lado colocando a mão no seu ombro.
—Você está bem? — Olhou de encima a baixo, Shimi estava suando a ponto de deixar seus cabelos molhados, a respiração pesada e rápida, olhos arregalados encarando o chão- O que aconteceu? Parece até que viu um fantasma.
—Eu não sei, eu apenas... eu apenas...- Não conseguia pensar em palavras suficiente para descrever o que realmente estava acontecendo, isso era comum acontecer quando estava acontecendo algum tipo de exorcização- Só não me sinto bem.
—Talvez seja febre- Colocou a mão na testa de Shimi, enquanto tinha uma expressão séria- Agora eu que não sei! Vamos voltar, no templo podemos ver melhor a sua situação.
—Eu também acho que pode ser melhor.
Com ajuda de Yafei conseguiu se levantar e manter de pé, olhou para os amuletos no chão a madeira tinha ficado escura e o “S” sumido, as pétalas murcharam, a única coisa que se mantinha era a frase feita de carvão.
Enquanto caminhavam para o templo, gradualmente ia se sentindo melhor, a sua respiração já estava se regularizando, não suava excessivamente mais, conseguia sentir sua fraqueza se desvaindo, sentindo firmeza em cada passo, os sentimentos estranhos sumiram assim que se afastaram da casa, deixando mais tranquila, pois entender o que era aquilo que sentia estava sendo mais complicado que reviver alguma memória que estava evitando lembra.
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As duas haviam chegado no templo depois de uma longa caminhada, apesar de uma missão simples foi bem cansativa, sugando suas energias mais do que esperavam. Ambas estavam na cozinha, Shimi de joelhos logo ao lado de Yafei que estava sentada numa cadeira, preferindo ficar nessa posição para deixar os olhos na altura do ferimento em seu ombro, ao lado um pequeno banco onde deixou dois copos de água, um sujo de sangue outro estava limpo, um pouco de algodão, um pano e faixas. Com delicadeza limpava o ferimento extenso que tinha sido aberto logo acima de seu peito, do ombro até a metade do tronco, alguns centímetros para cima teriam pego em seu pescoço, com uma bola de algodão um pouco húmido passava na feriada, enquanto Yafei respondia cada movimento com uma careta de dor enquanto segura a cadeira com força para aquentar a dor.
—Esse ferimento está muito feio- Franziu o cenho, enquanto olhava o tamanho do corte, parecia que foi atacada por algum animal selvagem- Vai deixar uma cicatriz horrível
—Mas cicatrizes são legais- No meio da cara feia que Yafei estava fazendo surgiu um sorriso- As pessoas vão olhar e dizer “Nossa olha essa cicatriz, ela é sinistra”- Disse com uma voz grossa, fazendo uma imitação de alguém muito mais velho que ela.
—Isso não é uma coisa para se ficar feliz- Continuava a limpar o ferimento, pegando um novo algodão, colocando o algodão sujo de sangue numa pequena caixa junto com outras, estava quase acabando de limpar- Cicatriz são marcas horríveis, acabam com a beleza natural.
—Mas deixam o ser mais sinistro- Continuava a sorrir, com animação que Shimi não entendia, achava cicatriz algo feio- Vai precisar fazer pontos?
—Mas é claro! Olha tamanho disso- Apontava com as duas mãos com os olhos arregalados
—Você sabe fazer pontos? Digo se lembra como se faz- Seu sorriso sumiu imediatamente, enquanto tentava olhar para o ferimento sem tocar o queixo nele
—Eu acho que sei- Tentou buscar em suas memorias, algo que tinha recém percebido, ao passar dos dias sua memória voltava gradualmente, pequenas peças começam a aparecer como se nada tivesse acontecido- Talvez eu saiba.
—Não sinto confiança nesse seu “Eu acho” ou “Talvez”, eu confio em você, mas quero ter certeza que vai da tudo certo- Shimi pode notar a expressão de Yafei ficar preocupada.
—Eu acho que você está certa, talvez Yaokai saiba fazer- Jogando a última bola de algodão na caixa, pegou um pequeno pote, as ponta do dedo estava suja de sangue, não se importou muito e retirou a tampa, vendo uma pasta cor de pele, olhou confusa para aquilo, nunca tinha visto algo parecido- Isso funciona mesmo?
—Sim, Yaokai sempre passava nas minhas ferida quando eu era pequeno, sempre me machucava nos treinamento- um pequeno semblante de nostalgia se formou, enquanto ela sorria- Uma vez eu tinha que treinar recitações de orações, mas eu estava tão entediada que resolvi subir na arvore para pegar uma fruta, mas não deu muito certo- Ela deu os ombros, ainda sorrindo, enquanto olhava para o lado- Um galho de quebrou e cai no chão ralando todo meu braço e perna direita, eu chorei tanto que o mestre veio correndo ver oque tinha acontecido, chorei mais por medo da bronca que levaria por estar matando treinamento, mas ele apenas me pego no colo e trouxe para dentro, passando essa pasta nos meus ferimentos.
—Entendo, então eu acho que vai funcionar- Colocando o pequeno pote encima do banco novamente, começou a lavar a mão usando o copo de agua limpo que tinha ali.
—Você continua falando “eu acho”- Com um cara emburrada encarando Shimi, tentando pensar em algo para responder, mas não tinha nada a dizer, não tinha certeza de seus pensamentos- Assim vou ter que começar a te agredir
—Oque?!- Olhou imediatamente para o rosto de Yafei que estava sério, depois de alguns segundo começou a rir- Isso não faz sentido!
—Você também não esta fazendo sentido!- Empurrou Shimi que caiu sentada no chão
—Mas oque?!- Observando Yafei rindo, colocou a mão no rosto enquanto balançava a cabeça decepcionada- Eu tenho certeza que eu sou a única levando essa situação a sério!
Depois de limpar totalmente a sua mão, passou o dedo na pasta retirando um pouco, em seguida levou até o ferimento de Yafei, aos poucos e com cuidado ia passando, sempre que terminava de passar limpava a ponta do dedo no copo de água depois passando o dedo na pasta novamente, seguindo com esse procedimento repetidamente. Yafei estava incomodada, contorcendo o rosto, olhando para os lados e apertando a cadeira ainda mais, Shimi não tinha muito oque fazer sobre a situação aquela dor era inevitável.
Estava quase acabando de passar, quando ouviu passos vindo da rua, o som de botas pressionando a areia lhe soava familiar, lembrando vagamente dos tempos que trabalhava para a guarda da cidade, sempre marchando entre as estrade de terra da sua vila, patrulhando e mantendo a paz no local, o som de passos parou por um momento e algumas batidas na madeira, em seguida o som da porta se abrindo para o lado. Totalmente parada concentrada nos passos que Yafei ficou a encarando, os sons se aproximaram lentamente, chegando até o deposito, barulho de algo sendo posto no suporte de armas, depois um suspiro baixo. Som seguiu até a porta da cozinha revelando Yaokai que entrou no lugar totalmente despreocupado, olhando para as duas de forma neutra, até notar os ferimentos de Yafei, fazendo se aproximar para encher melhor. Sua expressão mudou para desaprovação enquanto colocava a mão no queixo, Yafei tocava as ponta do dedo, enquanto olhava para o lado escondendo sua vergonha.
—Shimi poderia me dizer o que exatamente aconteceu- Virou o rosto para si, o que deixou surpresa, esperava que perguntasse para Yafei.
—Mas porque você está perguntando a ela, eu sou a discipula- Ficando emburrada cruzando os braços, depois soltando um grito de dor, por fazer a ferida se mexer.
—Tenho uma impressão que ela é a única que está levando essa situação a sério.
—Eu concordo- Colocando os braços na cintura olhando séria para Yafei, que novamente desviou o olhar, voltando a tocar a ponta dos dedos- Eu não sei exatamente como explicar...
—Tenho certeza que vai ser melhor que Yafei- Yaokai ignorou completamente a encarada que Yafei lançou para ele.
—A casa estava abandonada, e eu vi uma criatura transparente e deformada com braços longos, quando percebi essa criatura atacou Yafei disso uma batalha começou entre os dois
—Você viu?- Seu rosto ficou sombrio, olhava sério para ela que não entendia muito bem o porquê- Braços longos e deformada, devia ser uma aparição de segundo grau, o que mais?
—Eu consegui fazer o exorcismo na casa, parece que a aparição estava prendendo uma alma no lugar, de inicio eu senti a vibração de uma alma presa, e comecei a procurar pela alma, mas fui descuidada- Olhou para baixo um pouco triste, e decepcionada consigo mesmo.
—Não fique triste por cometer erros, aprenda com eles para não repeti-los- Se virou para sair da cozinha mas parou antes- O mais importante que você esta bem, vou pegar linha e uma agulha para remendar você.
Havia passado duas horas desde que Yaokai deu os pontos nas feridas de Yafei, depois disso Shimi recolheu tudo que ela tinha pego para limpar a ferida devolvendo a seus devidos lugares. Os três se reuniram no salão principal, Yaokai sentou no chão de costa para o altar de Slyveth, virado para direção das duas, sentadas logo a sua frente, ficaram em silencio por alguns segundos, notando que os dois estavam de olhos fechados com a cabeça um pouco inclinada para baixo, a respiração dos dois estavam em sincronia, conseguindo sentir a atmosfera do lugar mudar para algo mais tranquilo, uma paz reconfortante. No final os dois abriram os olhos em sincronia, soltando um longo suspiro.
—Qual relatório da missão? — Yaokai cruzou os braços, enquanto falava calmamente.
—Não ah muito oque falar mestre- Yafei abaixou a cabeça, em seguida olhou para Shimi- A casa estava abandonada, como de costume.
—Costume? — Shimi interrompeu não percebendo sua atitude foi um pouco grosseira, mas Yafei não demonstrou se importa, apenas concordo com a cabeça.
—Muita dos pedidos, costumam ser em lugares abandonados- Fez uma pausa para pegar o copo que estava do seu lado e tomar um gole da sua bebida, Shimi ficou surpresa por não ter notado que ele tinha trazido algo, as manga de seu roupa se estendiam além das mãos, escondendo sua mão logo objetos que carregavam, Yafei usava algo parecido, porem a manga da sua roupa ia até o pulso, mas era muito mais folgada.- Normalmente são lugares que vão ser reformados, mas aparições impedem qualquer tipo de trabalho
—Entendi- Colocou a mão no ombro de Yafei- Desculpe interromper pode continuar.
—Não se preocupe- Demonstrou um sorriso meigo em resposta, ver aquele sorriso fez toda culpa sumir, Yafei voltou a olhar Yaokai- Como eu falei antes, havia uma aparição de segundo grau aprisionando a pobre alma no local.
—Como funciona essa classificação de “aparições”- Com dos dois dedos fazendo sinal de aspas- Era uma criatura poderosa, pensei que fantasma não pudessem interagir com mortais
—Fantasma não podem, aparições sim- Yaokai falou antes que Yafei pudesse dizer algo, Shimi notou que ela estava fazendo um bico de raiva, desviando o olhar de Yaokai- Quando um fantasma consegue interagir fisicamente com o plano mortal, passamos a chamar ele de aparição, os de primeiro grau apenas interagem com objetos sem vida, derrubando, empurrando, jogando entre outras interações, quando ele consegue interagir com seres vivos ele passa para segundo grau, podendo tocar, empurrar, ferir de terceiro grau segue mesmo conceito porem são mais poderosos, tendo mais força, uma raiva incontrolável, atacando a primeira vista, os de quarto grau são os que conseguem interagir com a alma diretamente.
—Possessão?- Uma curiosidade surgiu em especial sobre os quarto grau, não entendeu porque surgiu.
—Esse é reservado para os demônios- Dessa vez Yafei conseguiu falar antes de seu mestre, quase se enrolou nas palavra de tão rápido que falou.
—Sim, os demônios são os únicos que podem se apoderar de corpos- Enquanto falava balançava a cabeça em desaprovação a atitude infantil de Yafei- Aparições de quarto grau costumam ser chamado de devoradores de alma, um nome auto explicativo, depois de ter sua alma sugada a pessoa fica em estado de demência, sem reação, sentimento, olhar fixo e não consegue interagir com ninguém, é sensível ao toque, podendo ficar próximo dela por horas que ela não ira fazer nada, mas se tocar muito provável que ela corra de medo.
—Entendi – Sentia estranha ao escutar aquilo, algo dentro de si estava se revirando – Tenho outra dúvida, a aparição tentou sugar algo de Yafei, mas os brinco impediram
—Hum?- Yaokai olhou sério para Shimi ficando um pouco desconfortável, até Yafei olhava de forma diferente- Você conseguiu ver isso também? Digamos que algumas aparições têm suas características únicas, pela sua descrição e o relato de Yafei, deve ser um glutão.
—Glutão? — O sentimento estranho se dissipou e no lugar apareceu uma empolgação para saber mais desse assunto.
—Eles são os piores- Yafei se inclinou para frente enquanto concordava com a sua própria afirmação- Eles prendem almas para sugar sua energia, e quando vem um ser vivo atacam, mas não matam com golpes, apenas sugam suas forças até falecer de exaustão, os de terceiro grau são um pesadelo!
—Entendi- Sentiu duvida se o trocadilho dela tinha sido de proposito, sua duvida ficou mais forte quando pensou se deveria rir ou não- Os brincos, eles brilhavam de forma diferente, até impediram a aparição de atacar
—Eles reagem quando estão na presença de espíritos e demônios, nos alertando sobre o mal a nossa volta, até trazendo proteção- Puxou seu colar que ficava dentro da roupa, onde o colar brilhavam com uma luz fraca com tom amarelado- Ficam apagado quando não estão na presença de nem um espirito, ficando mais forte quando se aproximam, piscam quando estamos fazendo algum ritual intensificando o poder dele, e algo que ele tem comum com a katana é que podem tocar os espíritos, então jogamos na aparição para sabemos onde atacar, e temos que escolher onde usar, seja um colar para que fique na altura do coração, ou na orelha para proteger a cabeça.
—Entendi- Olhava para o colar que brilhava com uma luz fraca, sentindo uma energia emanando dele- São bem uteis
—São essenciais! Eu me sinto nua sem eles- Yafei passou a mão em um do seus brincos- Gostaria de poder usar enquanto durmo.
—Por hoje é só, tenho algumas tarefas a fazer, Yafei você esta liberada de suas obrigações por hoje- Yafei abriu um enorme sorriso, cerrou o punho dando um leve soco no ar com empolgação- Outro dia gostaria de falar com você Shimi, mas hoje quero que descanse.
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Andando por uma construção de madeira, varias pessoas andavam para um lado pro outro, todos desesperados quase gritando de nervosismo, o chão repleto de pessoas feridas, inúmeros médicos tentavam dividir sua atenção com os pacientes, enfermeiros sem muita experiencia tremiam ao se deparar com casos graves, pessoas sem braços, feridas horríveis, fraturas exposta alguns com febre altíssima por conta das infecções. Porem não estava se importando, não mais, aquela batalha não tinha apenas matado seu querido amigo, todo aquele horror havia mudado ela, puxou do bolso um elástico, juntou os cabelos manchados de sangue e ainda sujos por conta da batalha e prendeu eles num rabo de cavalo. Não teve tempo de tirar a armadura, aqueles que estavam em condição de andar tivera que ajudar carregando os feridos, mas o que estava lhe incomodando foi que deixaram para trás todos os corpos mortos, deixou seu amigo para trás.
Foi abrir a porta que o prefeito estava, mas escutou vozes lá dentro, uma conversa quase se transformando em uma discussão pelo tom das vozes.
—... Eu não tive escolha- uma voz mais velha ecoou pelo local, sendo escutada abafado pela porta- Não podia aceitar!
—Você devia ter aceitado! – Uma voz feminina, reconheceu a voz dela, uma assistente do prefeito, nunca falou com ela porem via ela sempre andando com o capitão da guarda- Você pode ter começado uma guerra!
—Uma guerra do que ser extorquido por eles- O som do soco que ele deu na mesa foi alto bastante para ser escutado perfeitamente, todos atrás dela teria escutado se não fosse tão barulhento.
—Você esta sendo irracional, não tinha nada de mais no acordo, e também não precisava matar o seu líder- Praticamente berrou a frase.
—Não grite comigo seu cadela, ele me ofendeu e riu quando eu tentei apenas negar o acordo- Um arrasta da cadeira veio de repente, passos pesados começaram a surgir, sentiu que deveria interferir estava confuso de mais, e tudo indicava apenas uma coisa.
—Você iniciou isso- Shimi chutou a porta, vendo o prefeito se aproximar da sua assistente, com uma expressão de ódio curvado pronto para fazer algo que não devia, ela apenas encarava ele sem medo algum, seus punhos cerrados. Atenção dos dois se voltou para ela, algumas pessoas no lado de fora olharam o que estava acontecendo, mas voltaram o que estava fazendo num instante- Você iniciou aquela batalha!
—Quem é você?- Balançou o braço para trás com raiva e com um careta encarava Shimi.
—Eu sou uma dos soldados que teve que lutar sem necessidade! – Sentiu a raiva tomar conta do seu corpo, aquele ódio pulsando em seu peito, o sangue correndo pelas veias com vontade de explodir encima do prefeito.
—Não fez mais que sua obrigação, alguém insignificante como você não deve questionar minhas ordens!
—Pessoas morreram naquela batalha- Cerrou os punhos e caminhou em direção ao prefeito, segurou pela gola levantando e batendo na mesa logo atrás dele, aproximando o rosto do seu- Morreram sem necessidade alguma, e porquê? Me diga porquê?
—A vida é assim mesmo, vocês aceitaram sua morte quando decidiram virar soldados mulher! Me poupe do seu moralismo! — Cada palavra podia sentir o bafo de vinho, junto com uma chuva de saliva.
—Ele não vale a pena, não faça nada para se rebaixar ao nível dele- A assistente falou com um tom mais calmo, enquanto olhava para a porta quebrada- Se existe justiça, ela vai chegar até ele
—Justiça?- Shimi sentiu ainda mais raiva e ódio, aquela palavra não tinha significado algum, era justo pessoas morrerem por aquele homem, mas resolveu solta-lo, se afastando dos dois realmente não conseguiria nada matando ele- Eu me demito- Segurou o símbolo da cidade preso na sua armadura, puxando com força rasgando, em seguida jogou no chão.
Um pasto se estendia por toda sua frente, segurando uma corda enquanto puxava algo muito pesado, estava exausta, três dias sem descanso algum, trabalhando sem parar por erro de apenas uma pessoa, de longe avistou a arvore que estava procurando, mais alguns passos e estaria chegando em seu objetivo. Já perto da arvore, soltou a corda se inclinando para frente, colocando a mão nos joelhos respirando fundo, cansaço estava tomando conta de seu corpo, só pensava na hora que poderia descansar, mas não era hora ainda. Encima do caixão de madeira, pegou uma pá e começou a cavar um pequeno buraco, sem para ia cavando sem olhar para os lados, até forma um grande buraco mas não era suficiente, nunca seria suficiente, nunca pensaria que teria que fazer aquilo, nunca pensou que passaria por algo próximo disso, ninguém nunca pensa, todos apenas sonham com a felicidade enquanto o mundo nos entrega tristezas. O grande buraco se tornou uma cova, estava quase terminando, foi até a ponta do caixão e começou a empurrar para dentro da cova, com maior cuidado tentou colocar sem fazer nem um estrago, o caixão entrou na cova ficando inclinado com metade para fora, caiu sentada no chão toda encharcada de suor e sujo de terra, mas isso ela já estava a três dias, e não podia parar cada segundo era crucial para ela, não poderia descansar antes de colocar seu amigo para descansar.
Entrou na cova, segurando a ponta do caixão que estava dentro e começou a puxar, o peso estava dificultando toda a situação, mas continuava a puxar até que o caixão inteiro estava na cova, saiu da cova e caiu deitada no chão respirando muito mais forte e rápido que antes, queria pode fazer isso com todos os colegas, entretanto isso acabaria matando ela de exaustão, levantou em apenas um salto, pegando a pá no chão voltando ao seu trabalho, começou a jogar terra para dentro da cova, cada punhado de terra que iria para dentro, era uma pontada no seu coração, um adeus informal, um adeus que nunca iria acontecer. Cerrou os dentes, em vez de colocar a terra dentro da cova estava jogando com raiva, sua frustação crescia, seu coração acelerado a saudade batia com força, tudo aquilo de uma vez só, sua exaustão a dor nos musculo a enxaqueca pulsando com força, o mau cheiro que queimava o seu nariz, finalizou o seu trabalho com um berro, jogando a pá no chão com tudo, olhando para cima arqueando o corpo para trás, não sentia vontade de chorar, senti vontade de deixar de existir ela matou sem necessidade, perdeu um amigo sem necessidade, estava sofrendo sem necessidade e não podia fazer nada, sabia que nada iria ajudar, nada faria o tempo voltar. Ajeitou a postura, com os punhos cerrados cenho franzido olhava para a cova fechada, tudo na volta estava verde da grama, apenas a cova era um marrom sem vida. “que frustrante” pensou, pegou a pá novamente, colocou no ombro e saiu andando, com passos firmes e sem derramar uma lagrima, ele provavelmente tiraria sarro dela se estivesse chorando.
Abriu os olhos, vendo o teto de madeira do templo, seu rosto encharcado de lagrima, uma dor em seu peito junto com uma tristeza causado por saudades do seu amigo. Levantou ficando sentada na cama, passou as mãos no rosto, jogou o cabelo para trás e ficou encarando a cama por algum tempo, enquanto processava tudo que estava acontecendo, a memoria ainda passava por sua mente só que agora vinha apenas imagens e recordações simples, de repente começou a se questionar “porque tenho que passar por isso novamente” a pergunta mudou para algo mais especifico “porque eu sinto que nunca passei por isso antes” seus pensamento estavam causando uma ansiedade terrível, suas mãos estavam tremendo as lagrimas corriam pelo seu rosto sem perceber, seu colo já estava molhado de tantas lagrimas que haviam caído, tantos porque passavam por sua cabeça, agonia tomava conta de seu corpo, a vontade de correr de gritar mas nada saia e assim ficou por mais de meia hora até se acalmar lentamente.
Andou até a porta abrindo lentamente, para que não fizesse barulho andou na ponta dos pés pelo corredor abrindo a porta que levava até o salão principal. Abrindo deu de cara com uma enorme sala vazia e escura, só agora percebeu como era grande o local a noite deixava mais macabro porem não sentia medo, o local era reconfortante, só tinha aspecto de abandonado pelo vazio que havia no local. Deixou tais pensamento de lado e seguiu para rua, colocando um chinelo de madeira que ficavam no lado da porta, Yaokai havia tido que não poderia andar com nem um calçado dentro do templo, era única regra que Yafei parecia gostar, já que estava sempre de pés descalço até andando pelo jardim exibindo suas longas meias pretas. Por fim sentou em um banco em frente a arvore no centro do jardim, a luz da lua dava uma iluminação especial para arvore, não tinha vento nessa noite para fazer os galhos e as folhas dançarem em ritmos aleatórios porem belos. Sem questionamento estava sendo em como era diferente, começou a ver suas memorias de forma mais crítica, sua personalidade era tão diferente, duvidando se era a mesma pessoa. Fechou os olhos e seguiu olhando a arvore com cabeça erguida vendo a lua atrás dela, uma visão que guardaria por resto da sua vida.
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