Memórias de vidro

1 Pude notar bem de perto seus olhos


Se bem me lembro, foi em uma tarde de maio de 1919, final da tarde, para ser mais exato. O sol resplandecia seu fulgor e mesclava o azul e o magenta no céu, e por fim, como prole um lilás suave com tom avermelhado surgira.

Nos campos de margarida havia uma mulher, estava deitada, imóvel, aparentava cochilar em um macio e aconchegante sono. Seu vestido branco camuflava-se em meio às pétalas, e seu cabelo dourado brilhava em meio ao amarelo do pólen. Admirei-a de meu carro. Pelos ínfimos segundos olhei-a até perder de vista.

— O que tanto olhas, Edmund? — Perguntou Branca, minha mãe. — Esses campos não são novidades para ti, ao menos não o suficiente para corar-te assim.

— Sei disso, sei disso, mas nele havia algo que me chamou a atenção. — Acreditei que não contar fosse a melhor opção.

— Senhora, estamos cruzando a fronteira do Ducado de Morryes. — Interrompeu o chofer.

— Perfeito! Espero que a festa de noivado aconteça como o previsto. Seria um desperdício algum empecilho qualquer atrapalhar.

— Por que devo me casar com minha prima? — Indaguei, mas não deveria desconcentrar-me e dar ao luxo de ceder a uma deselegância casual.

— Cale-se! Tu, único herdeiro do título de Marquês do Marquesado de Collins, deves casar-se com a herdeira titular do ducado, sabes bem que alianças são devidamente importantes.

— Isto é patético! Nossa família é rica, além disto, a igreja intervirá. — Apoiei-me em certeza.

— Suborno resolverá. — Sorriu. – Dar-te-ei um conselho, não como tua mãe, mas como uma pessoa que é mais experiente que ti. Não há nada que o dinheiro e o poder não possam fazer, mesmo ao clérigo ou a mercenários, guarde essas palavras.

— Senhora, chegamos.

— Prepare-se. — Sorriu com um truque barato, afinal, conquistara meu pai com um sorriso e um cruzar de pernas sedutor.

Havia uma multidão. O povo da cidade era barrado por soldados policiais, que com cassetetes, não permitiam ninguém passar. Caminhei ao lado de minha mãe até os repórteres surgirem. Canetas e cadernos voavam em todas as direções, um tumulto infindável em meio a perguntas e mais perguntas. Fora-Me instruído a apenas sorrir e nada dizer. Dizia minha mãe. "Para essa gentalha, os abutres que alimentam a vida da plebe, apenas para eles e para bandidos; atue como um cavaleiro atua para seu inimigo, mostre-se erudito, clássico e misterioso... Mas para isso, um sorriso, boca calada e um relógio de bolço de ouro já basta“. Assim o fiz, perguntaram-me coisas sem qualquer gota de lógica ou pudor. Até perguntas tão inúteis que levariam os plebeus à loucura. Jornalismo uma cultura efêmera e quase nauseabunda.

Ao final do que parecia um interminável tapete vermelho rodeado por pessoas da plebe e mariposas do jornal, estavam as grandes portas da mansão de Morryes. Madeira tingida de vermelho vivo como se escorresse sangue entre as tábuas de pinheiro detalhada com ferro banhado a ouro; desde a campainha às dobradiças. Estavam abertas, dentro se podia ver o salão. O vermelho mesclado com vinho sobressaía juntamente com o ouro do ferro banhado, mesas redondas espalhadas por vários lugares e no centro um enorme círculo vazio para os convidados dançarem, a orquestra posicionava-se no fundo do palco. Era notável desta orquestra apenas os cabelos brancos e as costas do maestro. Coloquei minha máscara, cobria em volta dos olhos e a testa, por cima do nariz se estendia um bico curvo para baixo, como de uma coruja, era de porcelana francesa e enfeitada pelos maiores pintores do reino, a máscara enegreceu-se com a tinta preta e prata fundida fora usada para detalha-la. Cobri meu rosto e amarrei com a fita. Alguns convidados já sentados apreciavam a opera e a bebida. As máscaras eram de infinitos modelos e artes. Passei pelos convidados. Não havia tempo para cumprimentá-los. Eu e Branca fomos diretamente à anfitriã, minha tia, Duquesa de Morryes, irmã de minha mãe. Passamos pelos corredores que nos levaram aos cômodos. Lá uma empregada nos acompanhou até a sala onde a Duquesa e fidalga estavam, juntamente com uma criada que servia chá e já colocara as xicaras para nós.

— Há quanto tempo, irmã! — Levantou-se animada e abraçou-a. — Vamos guardar as formalidades para fora deste cômodo. — Voltou os olhos a mim. — Veja só; Como ele cresceu. Está cada vez mais parecido com o pai.

Caminhei a sua direção, peguei a mão e beijei-a. — É um prazer fazer uma visita novamente, agora podendo recordar-me de fato.

— Muito educado da tua parte. — Segurou o vestido e cumprimento-me flexionando um pouco os joelhos.

Olhei Cecília, minha prima, como era de se esperar, virou o rosto, tímida. Preciptei-me em sua direção, beijei sua mão.

— Estás linda, Cecília.

— Olhe que lindo casalzinho se cortejando. — Elizabeth parecia emocionada. — Apesar de Cecília estar relutante com o casório, não há outra maneira de manter o Ducado em nossa linha familiar. Não se preocupem com a paixão ou o amor, logo ele aparece. — Confortou-nos.

— Espero. — Disse, acreditando. — Apesar de ser minha prima, é a primeira vez que a vejo e me lembro com clareza.

— Não sejas rude, Edmund! – Exclamou Branca. — É uma bela moça no auge de sua beleza, além de educada, apesar de tímida.

— Ótimo, todos já se conhecem. Vamos aproveitar o momento e beber um pouco de chá antes do baile. — Pediu Elizabeth sorrindo.

— Como está a saúde do teu marido? — Perguntou Branca.

— Não passa de seis meses, por isso a pressa. — Disse cabisbaixa.

— Perdoe-me por fazer lembrar dele assim de repente.

— Está tudo bem. Apesar de gostar dele, descobri recentemente que sempre me traiu, estou triste, mas ainda assim não é como se fosse antes de descobrir este infortúnio. — Pausou para refletir um instante. — Esse foi um amor que se desenrolou sozinho, espero que convosco não ocorra o mesmo. — Sorriu.

Depois de uma curta conversa fomos ao salão, as duas irmãs andando à frente pelos corredores e eu e Cecília atrás. Não abrimos a boca para falar, percorremos quietos o caminho. Acabamos chegando ao palco. Nesse curto período anoiteceu e o salão lotou, Elizabeth tomou a frente e pôs-se a falar.

— Senhoras e senhores. É com muito prazer e êxtase que vos convido para o baile de noivado de minha linda filha com o Marquês de Collins, espero que apreciem a noite. Obrigada. — Saímos do palco e nos misturamos com os convidados.

Havia um grupo de homens conversando. Foi cumprimentá-los.

— Com licença, cavalheiros. Gostaria de agradecer-vos por estarem aqui hoje, é; de fato, uma honra. Sou o Marquês da casa Collins.

— O prazer é meu. Sou o visconde do ducado de Morryes. Alfred Dumos. – Apertou minha a mão.

— Sou o Barão de Panz, Josef Panz, um antigo guarda real do Czar Nicolau II.

— Surpreendo-me como estejas aqui. Certamente a revolução bolchevique dizimou a corte em sua totalidade, hoje três anos depois vejo um raro sobrevivente da monarquia. Realmente é uma honra estar presente no mesmo local que o senhor. — Cumprimentei.

— Sou Luiz, o Barão do condado zelado pelo visconde Alfred. Prazer em te conhecer.

— O prazer é meu. — Despeço-me aqui cavalheiros, darei boas-vindas a mais convidados. — Curvei-me levemente, já que não usara chapéu no momento para despedir-me adequadamente.

Nada mais que um baile luxuoso, como sempre tive de abusar de cordialidade com os convidados, mas uma coisa deslumbrava minhas retinas, a valsa. Tal qual fazia os casais levitarem, como os cisnes em suas lagoas, movimentando suavemente os vestidos das damas. Dancei com algumas mulheres, e por último com Cecília. Só notei seu vestido depois de chamar-lhe para uma valsa lenta e suave. Usava vestido vitoriano negro, com muitas rendas e laços, o chapéu de grande aba escondia o moreno cabelo amarrado em um coque com presilhas de prata. Ficamos parados um em frente ao outro devido a troca de casais.

Fitou-me com um olhar brilhante e sorriu com o canto da boca, curvei-me e estendi a mão.

— Dance comigo Duquesa. — Sorri e beijei-lhe mão quando segurou a minha.

Estava disposto a dar uma chance para um amor, senti que ela sentia o mesmo, ambos tentando generosamente entender o mundo um do outro. Nessa dança palavras voaram, lindos cortejos e poesias trocávamos livremente numa harmonia sem igual. As mãos dela estavam suadas. Diminuiu nossa distancia aos poucos até nossos corpos se encontrarem; pude sentir seus seios e o bater de seu coração. Quando finalmente não escutávamos mais a música ou outros ruídos alheios, notamos que éramos os únicos a dançar. Os olhares curiosos dos outros transbordavam emoção e excitação. Quando Cecília notou, afastou-se repentinamente.

— Perdoe-me. — Saiu do salão o fora correndo ao jardim.

Todos olharam, e, com os olhares disseram. "Corra atrás dela". Tive de fazer, fui aos fundos, era um pequeno jardim, com algumas estatuas e chafarizes, calçadas de pedras, e ao redor trepadeiras forjavam uma parede de folhas pequenas. O caminho levava a um espaço com uma pequena lagoa artificial, usada para banhar-se em dias quentes, mas que agora adormecia com folhas das noites de outono. Sentada no banco na frente desta lagoa estava Cecília, coloquei-me ao seu lado, olhei-a atentamente.

— Posso? — Perguntei pedindo-lhe um lugar para sentar.

— Claro. — Disse com um aconchegante sorriso.

— Obrigado.

— Desculpe-me por aquilo, não foi minha intenção, deixei-me levar pelo momento. — Ruborizou a face em vergonha.

— Está bem, acredito que será um prazer te conhecer melhor.

Cecília levantou e ficou em pé a minha frente, estendeu a mão. — Concederia esta dança?

Fora a valsa mais linda que havia dançado até aquele momento, sem música ou outras pessoas. Dançamos acompanhando o sibilar da brisa que passavam pelas folhas. Uma dança calma que fez meu coração acelerar. A casualidade e intimidade que jamais permiti uma mulher ter. Um momento marcante como se estivesse começando a sentir uma ligeira admiração por ela.

— É estranho como de repente acontecem as coisas. Eu ainda não concordo com este casamento. — Desabafou ela. — Mas sinto que há, em meu peito, um vazio, uma lacuna que não compreendo; talvez seja um romance que o preencha.

Naquele momento pude notar bem de perto seus olhos azuis como a noite de lua cheia, um azul netuno, que se destacava em meio à luz da lua, nunca vi olhos de mesmo tom.

— Está na hora. — Disse ela cabisbaixa. — Com licença.

Partiu ao salão. Já eu, fui ao meu aposento, despi-me, trajei um roupão de pele de lebre, sentei-me numa poltrona em frente à lareira e servi uma generosa dose de uísque.

Não demorou para uma criada abrir a porta.

— Perdão senhor, mas os convidados te aguardam.

— Diga a eles que não passo bem, que a viagem me cansou e a bebida multiplicou o efeito, estou fadigado e não desejo ser incomodado de meu repouso.

A criada fitou o copo em minha mão. – Como quiser, senhor. — Reverenciou-se e saiu.

Admirei o fogo na lareira, a lenha sendo vorazmente devorada pelas chamas que cuspiam labaredas para o chão logo à frente; aposentei meu copo sobre console, deitei na cama, peguei o meu precioso pedaço de jornal do dia 19 de abril de 1912.

— Edward, meu pai.... O que devo fazer? Desgosto-me em ser algo que não sou, mas a tua casa depende dos fatos atuais. — Segurei o jornal com mais força.

Sempre que lembrava de meu pai, voltava em memórias de acontecimentos que guardarei para sempre. Por Deus! jamais havia imaginado que aconteceria. Era manhã, um torpor preocupara Edward, como uma procela derivada de uma saudade antecipara. Lá estava ele embarcando no navio para uma reunião da bolsa em Nova Iorque, mas queria estar abordo do titã das águas. O qual talvez nem o Kraken ou Deus poderia afunda-lo. Era o que aparentava, sua tecnologia esplêndida garantia tal ideia; em quase três horas após a colisão o navio naufragou. Edward não sobreviveu ao mar congelante do Atlântico e faleceu com mais centenas de pessoas. Nunca encontraram seu corpo, talvez jamais teria saído e o Titanic fora seu túmulo.

Lembro-me de acordar na manhã seguinte com as cortinas se abrindo e permitindo que o sol entrasse. Acarinhava-me com sua luz que acaba se tornando desprezível ao acordar com tal.

— Bom dia, senhor. — Disse a mesma criada que fora em meu quarto pela noite anterior. — Ordenaram-me acorda-lo o mais depressa possível.

— Está bem, está bem, mas feche as cortinas, seus atos me torturam.

— Seu banho está pronto.

Levantei e fui ao banheiro do quanto, depois de alguns minutos sai com um roupão de tecido grosso e macio.

— Vestir-te-ei, senhor.

— Não quero, faço-o sozinho.

— Foram ordens, senhor.

— Qual é o teu nome?

— Madalena.

Voltei-me a ela. — Madalena, não estou à vontade com esta situação. Vamos designar deste modo. Irei ao banheiro trocar-me e tu ficarás a arrumar a cama.

— Sim, senhor.

Minha prima, tal como dama e fidalga do ducado, minha noiva tão de pressa.

Um amor construído com base em convivência é como um alicerce que sustenta um poema que finda, no entanto, um sonhado amor, aquele que faz-te engasgar incontáveis vezes apenas para tentar se expressar; este sim é, de fato, um alicerce que sustenta o infindável. Eis o momento que o acaso me abandonou e o destino estendeu a mão para o motivo de escrever tais memórias. Que são, inicialmente, belas e singelas, porém, assim o caráter mais sombrio que algo assim parecerá. Não por ser esdruxula ou terrorista, mas pelo rumo que as coisas aconteceram. Pois nesses dias, quando era feliz, nesses dias era humano...