Memórias de vidro
34 Essa fora a última noite que vivi e sonhei como um humano.
Era um dia claro, o vendo soprava e as folhas das árvores dançavam ao sibilar da brisa. Havia uma multidão contida por guardas policiais, que de mãos dadas, formavam uma corrente de retenção, a qual barrava a passagem de alguns nobres, da plebe e das mariposas asquerosas do jornal. Ao lado do caixão estava Branca, ela não chorava, nem mesmo uma lagrima escorria pelo seu rosto. Mas ela fingia estar em choque, e fingiu chorar até suas lagrimas secarem. Estava ereta ao lado do caixão e eu estava ao seu lado. Me abraçava com força. Ela segurava uma rosa vermelha, uma das flores que o rei preferia. Uma música triste pairava sobre o túmulo do qual o rei seria sepultado.
Os soldados da corte armavam os mosquetes com pólvora negra e esferas de ouro. Usavam uniformes negros com medalhas de prata e ouro, cintos brancos, chapéus de camurça com crina de cavalo. Logo depois de carregado os mosquetes, posicionaram-se em guarda e esperaram a ordem.
Um padre proferira a missa e alguns entes queridos do rei discursaram.
Quando Branca depositou a rosa sobre o caixão, pude ouvir suas últimas palavrar dirigidas ao rei.
"Amei-te, mas fora há tanto tempo, que cheguei a esquecer o que é amar-te."
Foram palavras de tristeza, nostalgia e, acima de tudo, palavras de ódio.
Seu caixão fora descendo aos poucos. Quando tocara o fundo da lapide, os sons dos mosquetes se eram possíveis ouvir. O rei fora enterrado com um romance que escrevera, uma história onde retrata o romance que vivera com Branca. Seu passatempo era escrever, e assim eternizara uma história de amor. Da qual os dois lembravam-se, mas nenhuma das partes mantivera vivo. Tal que, por um resultara em indiferença e obrigatoriedade de cumprir a promessa, e, outro guardara rancor da derrota e mostrava na pele alheia esse sofrimento contido. Mas a indiferença sobrepôs-se ao rancor, que com um tiro matou-o.
Após o funeral, vieram os pêsames e depois a dificuldade em retornar ao palácio. Despedi-me de Branca e o carro desapareceu em meio à multidão.
Encontrei-me com Carmelia, seguimos ao nosso carro e partimos. Nosso destino era o departamento de polícia.
Ao chegar segui diretamente ao gabinete do chefe de polícia. Entrei e sentei-me no sofá.
— Ao que devo a honra? — Perguntou ele.
— O senhor Dias soube de meu retorno?
— Acredito que não, o juiz impediu qualquer visita. Os carcereiros não são autorizados a trocas qualquer palavra com o prisioneiro.
— Visitá-lo-ei agora.
— Sinto muito, mas a ordem do juiz proíbe.
— Eu não sou uma visita, sou uma aparição, um fantasma do homem que teve seu peito perfurado por ordem desse homem. Pois bem, meu senhor, não sou uma visita.
— Farei esse favor. — Levantou-se e pegou um molho de chaves. — Venha.
Saímos de seu gabinete e seguimos às selas. O local era como imaginei, puramente de concreto. Mas continuamos até chegarmos a uma escada.
— Esse corredor nos guiará à masmorra.
— Prisões possuem isso ainda?
— Sim. Vamos.
Continuamos o caminho e descemos a escadaria. Realmente era uma masmorra. Paredes de pedra e portas de madeira reforçadas com aço. Caminhamos até a última sela.
— Está aqui dentro.
— Deixem-nos sozinhos.
— Ele pode atacar.
— Estou armado, e não morro facilmente. — Sorri.
— Faça como desejar.
Entrei na sela. Dias encontrava-se deitado de lado e voltado à parede. Arrastei um banco de madeira que lá havia, sentei-me e iniciei o diálogo. Carmelia estava em pé ao lado.
— Há quanto tempo. Lembra-se de mim?
Pulou da cama e virou-se surpreso. Logo o desespero delineou-se em seu rosto.
— Parece lembrar.
— Como?
— Como? Há! Sim. Como estou vivo? Isso que desejas saber? Sim estou. Sei que tu mandaste meu assassinato. Que infelicidade a tua.
— Clemência.
— Que infelicidade, matara o rei e tentou assassinar-me.
— Eu não o matei.
— Diga o quanto quiser, mas sabes que ninguém te escutará, estás louco. Como sabes que não foras tu quem matastes o rei? A arma fora encontrada na tua casa. Com um cano sobressalente a fim de retirar suspeitas.
— Sou inocente.
— Todos dizem isso. Aceite a tua punição, pois minha vingança contra ti fora demasiada leve.
— O que farás comigo?
— O que acha de uma estada em uma casa em uma fazenda na África?
— Aonde mandares irei.
— Pois bem. Será enviado a um lugar prazeroso, talvez com mais luxo eu esse lugar, com uma jarra de metal, talvez.
— Não podes fazer isso.
Levantei-me e saquei a arma. Encostei-a em sua mandíbula e disse.
— Acalme-se, Dias. Se tentares qualquer coisa que não seja refletir em uma sela fétida e escura, certamente a tua esposa e a tua filha não estarão seguras.
— Maldito. Como ousa.
— Se houvesses aceitado o teu lugar na vise diretoria, estaria hoje, bebendo vinho com a tua esposa.... Se não me engano, hoje é a vossas bodas de prata. Que triste fim, pois para o senhor haverá bodas de ouro e diamantes, mas para ela, que por pouco tempo será viúva, poderá comemorar bodas com outro. Que triste fim de uma vida pecaminosa, não é mesmo?
— Morra, maldito. Morra!
— Infelizmente isso não é possível. Tu não serias capaz de me matar agora. A propósito. O que farás durante o tempo que passar na prisão? Quantas formas de se matar já planejou?
Encolheu seus ombros.
— Não se passou nem mesmo uma semana e já pretende tirar a própria vida? Que fraco. Fiquei onze meses nessa condição e mesmo assim pensei em tirar a tua vida. Aproveitarei esse assunto e alertar-te-ei. Mas antes. Tu amas a tua esposa e a tua filha?
— Mais que tudo.
— Então alerto-te. Tu podes morrer de doença, mas se tentares suicídio ou ferir-se fingindo ser acidentalmente, saiba que no dia seguinte os jornais e a polícia estarão na tua casa, e detetives tentarão desvendar o caso. Ou seja, aproveite tua estada na prisão, e viva o quanto puder, para assim, manter as pessoas que amas seguras.
— Elas não têm nada com o meu plano. Deixe-as.
— E perder outra oportunidade de fazer-te pagar pelo que fizera? Não me leve a mal. Mas prometo-te que se não cometer suicídio ou tentá-lo, a tua família estará bem segura enquanto é abrigada por outro.
Caiu aos prantos, ajoelhava-se aos meus pés. — Não as mate, imploro.
— Se cumprir a tua parte, cumprirei a minha.
— Escaparei desse lugar, vingar-me-ei de ti.
— E adotará a alcunha de Conde de Monte Cristo? – Gargalhei e chutei-o.
— Não me faça de idiota, o que preciso é não me suicidar, mas não dissestes nada de tentar escapar.
— Como és atencioso. Se tu escapares, estará provada a tua determinação. Mas se morreres tentando, considerarei suicídio. Pense bem antes de tentar escapar. É uma boa aposta.
— O inferno te aguarda.
— Deixei de acreditar em lugares como esses. Céu, inferno? Sei que meu caminho me leva ao inferno, deixei de acreditar nisso, pois sei que minha esposa não está no lugar onde irei.
— Se queria encontrá-la, por que não se suicidou? Certamente Deus não julgaria pecado essa morte.
— Infelizmente a vingança passou pela minha cabeça antes. De qualquer maneira, encerremos os cortejos e cumprimentos. Iniciarei o interrogatório.
Velei a arma e sentei-me no banco. — Primeira pergunta. Por qual motivo tentara me matar?
— Assumir o teu lugar
— Mas eras o ministro dos médicos, não possuía poderes suficientes?
— Temia ser deposto, e as condições por ti estabelecidas pela administração da fábrica, seriam estáveis.
— Temias que o reinado caísse?
— Sim.
— Como sabia que haviam rebeldes?
— Em um regime monárquico, os nobres devem saber que o sistema pode ruir por revoltas, o poder nobre acaba e para um nobre inteligente, o poder industrial permanece.
— Parece que a tua sanidade retornou, parece alguém inteligente agora. — Sorri. — Entendo a tua preocupação com teu poder. Mas veja que esquecestes de informar-se sobre teu alvo. Meu caro Dias, não me matarás, sou imortal e participo de uma gangue poderosíssima. — Levantei-me. — Desejei fazer-te uma visita, mas não há utilidade em prosseguir com essa conversa. – Dei as costas e sai da sela.
Dias estava em choque, não se moveu nem mesmo para pedir clemência. Talvez soubesse minha resposta, então decidiu calar-se e aceitar seu destino.
Saímos da delegacia, entramos no carro e ordenei que me levasse à loja de ferramentas. Enquanto seguíamos, Carmelia perguntou.
— Por que o ameaçou daquela forma? Compreendo o que ele fez a ti, mas a tua vingança é demasiada insana.
— Eu sei de qual proporção ela é, mas pessoas como ele, certamente não aprenderiam com uma surra qualquer.
Ela não respondeu, nem mesmo proferimos qualquer palavra até chegarmos na loja.
Era um grande barracão de concreto. Havia tornos mecânicos, furadeiras de bancada, serras de inúmeros modelos e funções.
Seguimos ao balcão, entreguei minha lista ao vendedor.
— Estará em tua casa na manhã de amanhã.
— Assim espero, selecione os melhores materiais, desde as chaves ao maquinário, não ligo para o preço a pagar.
— Se desejares, posso entregar nessa noite.
— Deixe para amanhã.
— A nota fiscal em teu nome?
— Sim.
Fora uma compra rápida, nos cumprimentamos, saímos e voltamos ao carro.
— Caçará essa noite? — Perguntou Carmelia.
— Sim. Meu foco agora é o Walther. Tenho que adquirir informações.
— Não assassinarás inocentes? Digo inocentes os Werckinberrevichs que pareçam não saber de nada.
— Talvez.
— Prometa-me que os poupará.
— Não te prometo, mas evitarei assassinar alguém que não haja atacado um humano ou que eu não flagre o ato.
— E quanto aos interrogados? Poupá-los-á?
— Talvez, pois não escolherei um qualquer a fim de interrogar.
— Então não promete nada, certamente o que disse não será seguido. Pois bem, acabe como da última vez que te encontrei, agonizando com o projétil alojado no corpo. Chame-me com minhas pinças, e então alojarei outro projétil em teu corpo.
— Eu sei que o farias com prazer, pois adora usar essas pinças em mim. — Sorri.
Não trocamos mais nenhuma palavra até chegarmos em casa. Dirigi-me ao porão com os dois criados da casa. Pedi ajuda ao organizar o local. Separamos as ferramentas que já havia ali e abrimos um grande espaço para o novo maquinário.
— Meus caros senhores. Vós me ajudais nas minhas tarefas? Posso encarregá-los desse local à criadagem.
— Desculpe. – Cruzou os dedos e ruborizou a face. — Posso fazer peças particulares?
— Depende, o que pretende?
— Fabricar anéis, brincos e alguns utensílios, como fivelas e cintos. — Respondeu-me o criado. Seu nome era Henrrique, um jovem rapaz, franzino como eu, mas era sonhador. O outro criado chamava-se Gabriel, era mais velho e centrado, mas não era forte.
— Se seguires minhas ordens e ajudar-me a realizar meus pedidos, poderás usar essa oficina como desejar, quando terminar as pendências também.
Seus olhos iluminaram-se.
— Obrigado, esforçar-me-ei.
— E quanto a ti, Gabriel?
— Desculpe, senhor, dispenso. Deixarei esse trabalho para quem tem mais energia. Posso ser mais atlético que os senhores, mas meu joelho é mais fraco do que imaginam. Posso ajudar apenas as mulheres, carregando pesos, mas nada comparado a ferro.
— Não se justifique. — Interrompi. — Eu posso me regenerar, então não jungarei tua angustia. Deixarei o cargo do Henrique aos teus cuidados, se precisar de um novo criado, solicite entrevistas com a governanta.
— Obrigado, realmente, desculpe-me por não ser de utilidade. Mas ajudarei de com grado com trabalhos menos pesados.
— Então terminamos aqui. Volte ao teu posto e planeje-se. A partir de hoje o Henrique cuidará da oficina.
Gabriel deu as costas e saiu aliviado.
— A respeito dos teus serviços particulares, pretendes vender as obras?
— Sim. Apesar de eu receber bem na tua casa, quero arrecadar mais dinheiro para casar com minha amada.
— Entendo. Desejo-te sorte. Poderá usar qualquer material desse lugar. Não se preocupe com a reposição dos materiais, os custos serão pagos pela patente das invenções. Diga-me, quanto de experiencia tens com esse trabalho?
— Meu pai adorava ferramentas, quando morava em sua casa, eu usava algumas.
— Então tens um nível de experiência. Confesso-te que o meu nível é quase nulo. Gostaria que me auxiliasse no início, pedirei ao senhor Prier nos ensinar essa arte.
— O senhor Prier?
— Conheces ele?
— Meu pai o adorava. Era como um herói para ele.
Caminhei até o armário, retirei uma maleta e a máscara de dentro dela.
— Essa é uma máscara forjada por ele.
Seus olhos lubrificaram-se ao segurá-la.
— Posso mostrá-la ao meu pai?
— Infelizmente não, na verdade tu deves fingir que nunca vira essa peça.
— Sairá caçar com ela?
— Não tens medo desse meu comportamento?
— Todos os nobres têm lados ruins, nesse momento o senhor está sento tão bom comigo. Do que eu reclamaria? Se o senhor sai matar vampiros que me matariam se pudessem, então não ligo.
— É bom tê-lo comigo. — Sorri. — Quanto aos outros criados? Pensam como tu?
— Um pouco, eu não me importo quanto aos teus planos. Mas a governanta está preocupada com essa obsessão de vingança. Apesar de não termos medo do senhor, essa casa já fora alvo de inúmeros atentados. Temos medo disso.
— Tens medo, não vos culpo, se são meus criados, eu devo ensinar-vos a se defender.
— Como o fará, senhor?
— Dar-vos-ei armas e treinar-vos-ei.
— Para isso usarás a oficina?
— Sim. Se possível fabricarei armas e munição. E tu ajudar-me-á.
— Como desejar.
— Vá a esse endereço e fale com o ferreiro, se possível, leve teu pai contigo. Quero que aprendas o básico com ele.
— Partirei nesse momento. Qual é seu nome?
— Ele se apresentará, portanto vá sem demora.
Curvou-se e partiu.
— Parece que queres se aproximar da criadagem. — Disse Carmelia sorrindo. Sei que no fundo apenas deseja usá-los.
— Qual é a ideia que tens de mim? — Sorri. — Essa equipe de criados está servindo essa casa antes mesmo de eu chegar, mas conheço-os bem. Apesar de eu manipular, não significa que não tenha apreço pelos companheiros. É que pensas assim por tu seres uma masoquista. — Provoquei-a segurando-a pela cintura.
— Se sou, tu és pior. Mas são prazeres diferentes. — Beijou-me. — Sei que não me amas, mas assim está bom.
— És realmente uma masoquista. — Beijei-lhe de volta. — Vamos voltar, aprontar-me-ei, já é noite.
— Receberei o pedido, então não precisas acordar para isso.
— Logo começarei a te amar. — Sorri.
— Não me iluda mais. — Abraçou-me.
Carmelia seguiu ao gabinete e eu ao meu quarto. Banhei-me e trajei-me adequadamente. Voltei ao porão, vesti o casaco e a máscara.
As ruas estavam menos movimentadas, mas ainda apresentavam rondas policiais.
Caminhei entre as vielas e os becos. Evitava aventurar-me nas ruas. Eram bem iluminadas e abertas. Eu seria facilmente avistado. Não demorou e encontrei o corpo de um policial, no seu pescoço havia a marca de uma apunhalada, o padrão dos ataques dos Werckinberrevichs. Mordem a vítima, e depois de saciados, fincam-lhes um punhal no local da mordida. Analisei o cadáver, ainda estava fresco. Nessa região havia um maior número de vampiros. Abandonei o cadáver e continuei. Ao virar uma viela avistei duas mulheres. Reconheci-as como inimigas. Caminhei em sua direção. Parei próximo a elas e perguntei-lhes.
— Onde posso encontrar Walther?
Voltaram-se a mim. Caminhavam tentando seduzir-me.
— Não sabemos onde ele está.
— Quem se importa? — Acrescentou a outra. — Podes passar noite conosco.
— Não, obrigado. Dei as costas e comecei a caminhar.
— Não nos ignore. — Resmungou a primeira. — Não sejas esnobe, achas que não somos boas o bastante?
— Perdoem-me a grosseria do que acabara de fazer. São belas moças, mas amo outra mulher. — Curvei-me levemente.
— Imagina. Mas o que traz um homem mascarado a esse lugar?
— Um homem com rosto desforme e vergonhoso. Procuro alguém que me ajude.
— E a tua mulher ainda estas contigo? – Gargalharam.
— Não. Ela morreu em um incêndio, eu sobrevivi, mas com esse rosto vergonhoso.
— Parece uma triste história. Infelizmente não sabemos nada sobre o teu homem.
A outra mulher encostou-se na parede. — Por que não cometes suicídio? Tua mulher morreu e teu rosto fora destruído. Por que desejas viver?
— Talvez queira ver a luz do dia e os pássaros voarem.
— Ao menos a vida passa rapidamente, logo morrerás.
— Certamente, espero que seja tão logo após perder a vontade de viver.
— E a tua vontade se resume em que? Como iniciou o incêndio?
— Talvez um homem haja feito-o.
— Então tua motivação é a vingança?
— Sim. És esperta. — Sorri.
— Então devo alertar o Walther de que alguém o procura?
— Então sabes onde ele está. — Proclamei.
— Talvez.
— Infelizmente eu deixaria as moças irem, mas realmente não posso fazê-lo.
— Deixar-nos ir? — Gargalhou.
A outra mulher, a que disse não saber o paradeiro do Walther tentou calá-la, mas fora contida pelos braços firmes da companheira.
— Esse homem não nos deixará sair desse beco vivas. Ele é um vagante da noite, certamente. Tu sabes o que temos que fazer com inimigos assim.
— Eu sei. — Mas a mulher tremia, empunhou uma pistola e apontou-me.
— Se tu atirares, considerar-te-ei minha inimiga.
— A outra mulher sacou uma pistola e disparou no meu braço. Realmente doera, mas pude empunhas minha pistola e disparar acertando-lhe o pescoço. Ela caíra agonizando, não poderia reagir até seu ferimento se curar, o projétil rompeu a traqueia, isso fez com que sofresse asfixia e tentasse respirar. A outra tremia mais, mas seu dedo não podia puxar o gatilho.
— Pare !.... — Bradou. — Por favor, não me mate. — Seus olhos lubrificaram-se e caiu aos prantos.
— Se não disparares, não te matarei. Abaixe a arma.
Largou-a e ajoelhou-se. Suas mãos tremiam e lagrimas não parava de verter de seus olhos. Aproximei-me dela e segurei seus ombros por trás.
— Há algo que pode assassinar os vampiros, além de sangue de logo ou cremar o corpo. Um vampiro pode assassinar o outro apenas bebendo seu sangue.
— Pare! — Gritou chorando. — Por favor.
A outra mulher já começara a curar-se. Quando recobrou a sanidade, viu-se diante de mim e do corpo da sua companheira ainda nos meus braços e com meus dentes cravados em sua carne macia. Há tempos não provara sangue vampírico, apesar de ele não me saciar a sede, fora saborosa a visão do rosto delineado desesperado da outra mulher.
Ela empunhou novamente a arma e disparou, mas sua empunhadura estava frouxa, em conseguinte errou o disparo. Tentou disparar novamente, mas eu acertei-lhe a arma. Segurei-a pelo pescoço e prendi-a contra a parede. Ela segurava meu braço para que eu não a estrangulasse.
— Diga-me onde posso encontrar Walther.
— Vá ao inferno! — Respondeu-me.
— Onde o encontro?
— No inferno.
Apertei seu pescoço até ela debater-se.
— Onde o encontro?
— Inferno.
— Última chance.
— Eu já disse.
Joguei-a no chão e saquei a pistola. Ela tentou correr, mas estatelou-se após ser acertada por três disparos nas costas.
Limpei meu rosto e ajeitei a máscara. Continuei meu caminho. Após mais alguns minutos avistei um rapaz fumando um charuto. Caminhei em sua direção. Ele parecia ofegante.
— O senhor está bem? — Perguntei.
— Não se aproxime. — Ordenou sacando uma pistola. — És um caçador.
— Não sou, atire em meu peito e saberás, mas não será necessário, como pode ver, há um furo no meu braço, sou como o senhor. Levantei levemente minha máscara e mostrei-lhe metade do meu rosto manchado. A noite não premiria distinguir a diferença de tonalidade do sangue.
— Que bom que te encontrei. — Velou a arma e caminhou em minha direção. Deixou seu charuto cair ao chão. — Ajude-me, meu grupo fora obliterado.
— Acalme-se. Estou desesperado também. Estou procurando um homem chamado Walther. Sabes onde ele está? Posso ajudar-te a se esconder se disseres onde o encontro.
— Pode encontra-lo no inferno.
— Inferno?
— Sim. Um bordel no subúrbio.
— Pode ajudar-me? Diga-me o local.
— Próximo ao mercado de armas da Casa das armas.
— Entendo. Obrigado.
— Agora ajude-me, ajudei-te, por favor.
— Se queres fugir para qualquer direção, basta correr, mas parece que desejas ir a algum lugar especifico.
— Certamente, acompanhe-me ao ponto de encontro.
— Com prazer.
Caminhamos lado a lado.
— Perdoe-me a indelicadeza. Não me apresentei, sou Francis. Como se chama?
— Sou Josef.
— Usas um acessório curioso. Poderia saber o motivo de usares essa máscara?
— Um rosto vergonhoso, fora queimado, tal imagem traz-me indignidade.
— Desculpe-me. Agora percebo, o sangue que me mostrou é teu. Acreditei que havia apresentado sangue humano.
— Eu fora ferido por um disparo no pescoço, transbordara sangue pela boa e nariz, parece que esse rosto morfético pode ficar pior.
— Então foras transformado depois de ferido?
— Sim.
Quando dobramos uma viela, nos deparamos com um caçador.
— Parem! — Ordenou. — É o fim para os senhores. Acreditei que restara apenas tu, Francis. Quem é esse ao teu lado?
— Sou Josef, muito prazer.
— O prazer é meu. — Cortejou o soldado.
Apontou sua arma a nós e nesse mesmo momento apontei-lhe a minha.
— Meu senhor. Posso perguntar-te algumas coisas? — Pedi ao soldado.
— Pergunte.
— Quantos Werckinberrevichs tu mataras hoje?
Estufou o peito e respondeu. — Oito. Sete eram companheiros desse covarde.
— Gastara aproximadamente cinco disparos com cada?
— As armaduras são espessas. Por que me pergunta isso?
— Por que a arma que usas carrega projeteis tradicionais. Pelo que vejo, o coldre possui apenas três carregadores municiado ainda, pois gastara os especiais despreocupadamente.
— Queres experimentar?
— Talvez, dispare no meu peito, mas saiba que devolverei.
— Como sabes?
— Digamos que sou um bom conhecedor de estratégias de batalha.
— Certamente, confesso, fui imprudente.
— Diga-me, por que não escondestes que usas projeteis tradicionais? Não se sente acuado agora que sabemos?
— Posso disparar em vos e correr.
— Dou-te três segundos para escolhe um de nós e disparar. Mas saiba que esse homem poderá acertar-te.
— Então escolherei o senhor, pareces demasiado orgulhoso.
— Escolha-me e morra.
Em um momento rápido e de reflexo Francis empunhou sua arma, fazendo o caçador apontar-lhe e disparar. Disparei e acertei-lhe a testa. Caminhei em direção ao Francis.
— Onde fora atingido?
— No braço.
— Então estamos iguais. — Sorri. — Vamos ao ponto de encontro.
— Devo admitir, era um homem forte.
— De fato, mas imprudente.
Caminhamos por uma hora até chegarmos a um bordel. Sua faixada ostentava um desenho de uma mulher nua com as pernas cruzadas. A porta era de madeira e as paredes eram vermelhar. Batemos na porta e um homem atendeu. Trocaram algumas palavras.
A porta se abriu e entramos no local. Era movimentado, os moveis não coincidiam com o padrão de sua localidade, moveis requintados e trabalhados. Haviam algumas mulheres vestidas apenas com roupas de baixo servido comida e bebida. O público era quase em sua totalidade constituído por homens. Alguns adolescentes, mas certamente mais velho que eu.
— Caminhei com meu companheiro ao balcão. Sentamos em bancos e logo o garçom surgiu. Pedi-lhe uísque. — És novo por aqui. — Indagou-se ele.
— De fato.
— Devo dizer-te que é proibida a entrada com máscara.
— Meu rosto pode provocar-te pesadelos. É uma face indigna, peço-te que mantenha essa máscara.
— Farei essa gentileza. Apenas por hoje.
— Obrigado.
Logo minha bebida cegou. Abismei-me, confesso que está imerso entre tantos inimigos fez-me tremular.
— Estás tremendo, o que houve?
— Lembranças, perdoe-me, embebedo-me rapidamente.
— Obrigado por ajudar-me, certamente não estaria aqui se não me acompanhasse.
— E tu ajudastes-me com a preciosa informação.
— O que desejas com ele?
— Dê-me mais uísque. Desejo saber como funciona esse sistema. Como soubestes, sou novo nesse lugar
— Entendo, Walther é quem comanda as patrulhas. Ele poderá te colocar em um grupo.
— Parece-me bom. — Bebi o uísque em um gole largo.
— Apesar de se embebedar rapidamente, sabes beber. — Gargalhou.
— Obrigado.
— Quem é esse? — Perguntei.
— Um Werckinberrevich que serve aos Black Night. Aquele traidor, mata os próprios compatriotas.
Foram palavras de ódio que atravessaram meus tímpanos e ecoaram em meu orgulho, mas mantive-me quieto.
— Odiável. — Corroborei. — Mas sabem onde mora?
— Sabemos, mas ninguém pode invadir sua casa, todas as tentativas foram frustradas. Acredito que até mesmo seus criados estejam armados. Aquele maldito, pode andar à luz solar. Ele é um vampiro nobre?
— Que inimigo poderoso. — Fingi-me espantado.
— Ouvi dizer que ele busca vingança. Sua esposa foi assassinada por Wladimir. Desde então ele tenta encontrar nosso mestre.
— Mestre?
— Não conheces?
— Infelizmente não.
— Ninguém sabe seu nome verdadeiro, mas o chamam de Drácula.
— Drácula. Devo confessar que é um péssimo nome. — Proclamou Francis.
— Não diga tão alto, podem ouvir-te. Mas concordo. Parece piada. Talvez seja um pseudônimo de seu personagem favorito. Pois quem o viu, disse que são realente parecidos.
— Espero que não precise ter um apelido. — Exclamei. — Talvez me chamassem de Quasímodo.
Os dois riram.
— Onde o tal Drácula vive? — Perguntei.
— Se não sabemos seu nome, imagine onde vive. Mas ouvi boatos que vive ao sul desse país.
— Como um Conde, acredito.
— O único nobre estrangeiro que ouvi falar, fora o senhor de Panz. Talvez seja apenas um fazendeiro. — Indagou-se Francis.
— Um fazendeiro com uma gangue tão grande? — Perguntei.
— De fato, é uma boa observação. Poderia ser um mercador de café?
— Talvez. — Disse o intruso. — Mas ele me alimenta e me dera onde morar, isso já me basta para obedecê-lo.
— Eu tinha uma amiga, uma preciosa mulher. Que fora contratada para trabalhar para esse homem. Gostaria de saber se tens notícias dela, seu nome era Angélica, uma linda mulher com cabelos vermelhos.
— Era uma mulher bela, sua criada favorita, diziam nas ruas. Mas ninguém tentou arrancar-lhe palavra alguma sobre o que ela conhecia do nosso senhor.
— Diga-me, por Deus, onde vive essa mulher atualmente. — Extremei a voz.
— Ela se suicidou. Fora um ato digno, não deixou inimigos conseguirem informações quando fora capturada.
— Entendo. Como ela se suicidou?
— Com nossas cápsulas de sangue de lobo. Com apenas elas, podemos nos matar antes das torturas.
— Sangue de lobo pode nos matar? Posso ver a capsula?
— Também não sabemos o motivo que gera as mortes. Mas sabemos que acontece. — Retirou a capsula e me deu.
Era uma estrutura de vidro oco, mas no eu interior havia aproximadamente 1Ml de sangue.
— Isso é posicionado ao fundo da boa e quando precisarmos, basta mordem.
— Que perigoso. Mas reclamaste que o tal Edmund descobriu como nos matar.
— Descobriu. Houvera muitas baixas antes de conseguirmos defesas fortes. Porém, agora eles não lutam bem com elas, usam-nas apenas para a finalização.
— Estão trabalhando para melhorar o equipamento?
— Provavelmente, mas há rumores que não conseguiram, pois a carga deixa o projetil com fraca penetração
— Entendo. Como são essas armaduras?
— Chapas de aço, usamos algumas vezes em outros membros, como nas pernas e nos braços, porém, isso resulta em falta de agilidade e perda de parte dos movimentos, portanto o padrão é no peito. Pois uma gota de sangue de lobo pode nos matar se penetrar na corrente sanguínea. Talvez possamos sobreviver se o projetil nos atingir de raspão ou em um local sem muita circulação.
— Entendo. Ao menos possuem essa vantagem. — Continuei. — Essa guerra é inacabável, mas infelizmente necessária. Há horas que adoraria morrer, mas isso não me é válido. Ao menos sei o que pode me matar. Sangue de lobo. Infelizmente esse país possui uma grande quantidade desses animais.
— Se queres tanto morrer, por que não pedes a nós ou aos Black Night? — Perguntou Francis. — Podemos matar-te se quiseres.
— De fato, desejo isso do fundo do meu coração. Mas antes encontrarei um certo alguém e fá-lo-ei pagar pela minha infelicidade.
— Então buscas vingança? — Perguntou o intruso. — De quer queres se vingar?
— Infelizmente não posso dizer.
— Não confias nos amigos? Somos companheiros.
— Companheiros que não hesitam em assassinar o outro. — Gargalhei. — Dos senhores não espero mais que cortejos e palavras bonitas, talvez alguns favores em crédito.
— És um homem interessante. — Proclamou Francis. — Talvez possa ser de utilidade ao nosso grupo. O que não tem de dignidade no teu rosto, tens de leveza nas palavras. Mas diga-me, meu caro Josef. Por que usas uma luva na mão direita? Se o frio te assola, as duas mãos sofrem. Ou esconde algo? Como uma queimadura ou quem sabe, um nome.
— Infelizmente são os dois. Tatuei o nome da minha esposa na mão, e agora não há nome algum, nem mesmo uma pele uniforme. Infelizmente não posso retirar essa luva. Espero que não sejas curioso, que não esteja desejando saber como é meu corpo por baixo dessa roupa. Nem mesmo os teus olhos suportariam ver-me assim.
— De fato, se fores como imagino. Parece realmente perigoso expor minha retina a tenta feiura. Mas há algo que me incomoda. — Indagou Francis.
— Diga-me, por gentileza.
— Se o teu rosto é deformado, como falas com naturalidade? Se és novo aqui, como usa o dialeto ne Morryes? E por último como o senhor articula as palavras de modo como a nobreza faz?
Eu não esperei que ele notasse detalhes tão sutis. Uma gota de suor escorreu pela minha testa e meu coração acelerou. Eu sabia que meu disfarce fora comprometido. Restava-me a fuga.
— Não entendo. — Respondi-lhe. — Talvez seja a bebida que te faz delirar. Com licença, preciso ir ao banheiro.
Levantei-me e subi a escada ao segundo andar, dirigi-me ao banheiro, entrei e avistei meu reflexo no espelho.
— Como sairei desse lugar? — Pensei. — Certamente quando retornar serei fuzilado. Mas quando ele descobriu?
— Deves pensar como descobri o teu segredo. — Disse Francis. — Realmente acreditei em ti até o momento que perguntou pelo Walther. Ninguém o procura, todos os Werckinberrevichs sabem que não devem procurá-lo. Essa é uma das regras da casa. Ninguém sabe como ele subiu tão rápido na nossa hierarquia, realmente tenho inveja desse homem.
Francis estava em pé atrás de mim. E apontava uma arma, provavelmente com cartuchos roubados de algum caçador. Realmente eu estava em suas mãos.
— Devo admitir que fora um bom disfarce, fiquei realmente convencido. Mas logo que soube da tua identidade, meu caro Edmund, enviei um bilhete ao próprio Walther informando-lhe sobre o ocorrido.
— Então conheces bem esse homem? Diga-me, em quanto tempo tenho até teus reforços chegarem?
— Aproximadamente quinze minutos.
— É tempo suficiente.
— Para que?
— Para fazer-te arrepender.
Esquivei da trajetória de sua mira e avancei, desarmei-o e segurei-o pelo pescoço.
— Não acreditou que eu lutasse assim? Afinal, os registros que tens sobre mim são desatualizados. Mesmo não sendo forte, sei o básico a fim de defender-me. Quinze minutos é tempo suficiente para que eu faça-te pagar pela audácia. Posso arrancar-te a perna e fazer com que nunca possa andar, ou amputar-te os dois braços. A regeneração não faz crescer membros, apenas liga os separados e fecha feridas.
Retirei uma faca e finquei-a na palma de sua mão. Cravei a faca e prendi-a na parede.
— Não grite. — Ordenei. — Se gritares, far-te-ei um aleijado. Convenhamos, meu amigo, que ser aleijado pela eternidade? Não é prazeroso.
— Maldito.
— Não me elogie. — Peguei um vidro de álcool de limpeza e aproximei-o de rosto de Francis. — O senhor bebe bem, não é mesmo? Quero que beba todo o Conteúdo dessa garrafa.
— Estás louco?
— Louco? Talvez. Ou melhor, liberto.
Aproximei a garrafa e forcei-o a beber alguns goles. Sua respiração estava irregular, ele tossia e gemia. Despejei o resto do liquido em sua cabeça. Peguei uma segunda faca e finquei a outra mão na parede.
— Parece estar arrependido pela conduta. — Proclamei. — Sinceramente, haveria ido embora pacificamente se não fizesse o que fez.
Ele não conseguia responder, seu organismo estava envenenado pelo álcool.
— Isso não te matará, mas certamente causará dores lancinantes.
Apontei-lhe a arma e disparei. Em um segundo seu corpo estava em chamas. As labaredas saiam de sua boca e ele gritava e gemia enquanto cuspia fogo e sua face queimava aos poucos. Seus globos oculares ferveram-se e deles um liquido vazou. Após alguns segundos pude ouvir os passos, saquei a outra arma e disparei, fora o golpe de misericórdia. Retirei as facas. Seu corpo caiu ao chão. Mas o fogo não sessara. Chutei-o para fora.
Havia uma multidão de clientes e funcionários do local. Deixei-o queimar e voltei-me aos olhares curiosos.
— Esse homem tentou assassinar-me, veja a arma em sua mão. Eu não posso deixar alguém ver meu indigno rosto, pois esse morrerá. Alguém mais deseja saber a leprosa feiura que escondo?
Ninguém se pronunciou. Retirei a luva. Os olhares voltaram-se a minha mão, fuzilaram-me e sacaram as armas.
— Provavelmente estão pensando que sou um porco espião. Mas eu já fora desse grupo. Desse maldito grupo.
— Por que fora? — Perguntou o intruso.
— Foram eles que fizeram meu rosto como tal e também foram eles que assassinaram minha esposa.
— Então por que procurar o Walther?
— Desejo entrar a esse grupo. Desejo assassinar o meu malfeitor.
— Quem é esse homem?
— Edmund de Morryes.
— Ajude-nos a pegá-lo.
— Não me punirão por assassinar esse homem? Um chefe de equipe ou algo assim?
— Ninguém ordenou atacar-te. — Disse o garçom. — As regras são claras. Apenas sobreviva.
— Por favor, deixem-me entrar ao grupo dos senhores. – Ajoelhei-me.
— Não vemos problema. — Disse ele. — Consulte o conselho. Eles determinarão sua entrada.
— Posso fazê-lo por carta?
— Por que não o faz pessoalmente?
— Alguns problemas diplomáticos com uma empresa. Apesar de estar aqui essa noite, sou demasiado ocupado.
— Faça uma carta e envie a esse endereço.
— Obrigado. Se me dão licença, vou-me agora.
Cainhei entre as pessoas e encaminhei-me à saída. Meu coração estava disparado. Caminhei o mais rápido que pude até um beco e ajoelhei-me, minhas pernas perderam as forças e não pude me levantar por alguns minutos.
— Essa noite não estava nos planos. O que fiz? Não deveria comprometer-me com eles. Talvez seja melhor esquecer que essa noite aconteceu, lembrarei apenas das informações. Acreditam que meu nome é Josef, isso é bom. Porém, as testemunhas com quem conversei. Eles são realmente um problema.
Logo que recuperei os movimentos regulares, dirigi-me à estação. Peguei o primeiro bonde ao norte e corri à minha casa. Carmelia esperava-me no gabinete. Entrei e sentei-me no sofá. Ela notou meu comportamento e sentou-se ao meu lado.
— O que houve? — Perguntou assustada.
— Fiz um ato impensado.
— De impensado já faz tantos. O que fizera agora?
— Digo impensado por não ser planejado.
— Diga-me antes que eu sufoque de preocupação. Por que estás tão nervoso?
— Entrei no ponto de encontro dos Werckinberrevichs.
— O que? Como disse?
— Isso que ouvistes. E pior, fui convidado a entrar no grupo.
— Isso parece perigoso, mas seria oportuno.
— Queres se ver livre de mim?
— Se puderes entrar nesse grupo, nessa casa, certamente estará mais perto da tua vingança.
— Concordo, mas eles, um dia, tentarão ver o que trago por baixo da máscara, que, para eles, digo um rosto enfermo e deformado. Talvez possam dopar-me e ver meu rosto, assim estaria acabado.
— Não pensei nisso, mas se desaparecer, será procurado.
— Talvez, não sei o que fazer.
— Descanse, por hoje descanse, deite-se sobre meu colo e afagar-te-ei até eu poder saber o que tanto sonhas.
Assim fiz, não demorou até adormecer e cair em um sono profundo.
Era final da tarde e um belíssimo pôr-do-sol, a água refletia a luz alaranjada e também as nuvens. Eu pisava sobre as águas de um mar infinito. Dei as costas ao sol e avistei a lua tímida que se escondia em meio ao breu da claridade e da atmosfera. De fato, apresentava-se, mas encabulada e ligeiramente apagada. Caminhei em sua direção, pois a noite me era mais bela. Por horas caminhei pacificamente, admirando a luz solar abandonar-me e as estrelas consolarem-me.
O dia traz o canto dos pássaros, porém, só a noite traz consigo o universo.
Nesse sonho o leite da Hera estendia-se fresca e singelamente sobre o cosmos. Talvez haja devaneado em meio ao sonho, pois senti que os deuses banqueteavam entre as estrelas.
O vento sibilava e cantava como as musas. Senti-me em paz, senti-me bem. Nesse mar não havia tempestade. Nem mesmo ondulações, pois as que via eram dos meus paços macios calmos. A atonicidade desse belo momento seduzia-me com tal leveza. A água na qual eu pisava era aveludada e fazia-me não desejar parar de andar.
Caminhei sobre esse espelho, andei sobre o céu negro e iluminado refletivo.
Fora o último momento de paz que me lembro. Adormeci e vivi esse momento belo. Esse fora meu último sonho bom e meu último momento do qual é belo. Essa fora a última noite que vivi e sonhei como um humano.
Na manhã seguinte, despertei com Carmelia pedindo que eu fosse ao palácio o mais rápido possível. Assim o fiz, vesti-me rapidamente sem questionar e partimos.
— Disseram-me que o assunto envolve a tua mãe, Edmund. — Disse Carmelia no carro.
Não respondi, não proclamei palavra alguma. Logo que cheguei dirigi-me ao local.
— Deixem-me passar. Eu ordeno. — Bradei em meio à multidão no corredor do palácio. Corri o máximo que pude até chegar ao quarto. Estava isolado por dois guardas reais.
— Sou seu filho, tenho o direito.
— Não podemos deixar-te passar. — Respondeu-me um deles.
— Deixem-no. — Ordenou o chefe de polícia.
Caminhou em minha direção e apertou minha mão. — Sinto muito pelo que aconteceu. — Disse ele.
Não pude ouvir mais nada. Nem os cochichos, nem as lamentações.
Sobre a cama ela estava, usava um vestido branco de dormir. Ao menos era branco. Pois, o rubor lhe consumira quase que de todo.
No seu pescoço havia fincado um punhal. Estatelei-me de joelhos ao lado da cama, segurei suas mãos e cai aos prantos.
— Por quê? — Pensei. — Por que? — Sussurrei. — Por quê? — Bradei.
— Encontramos esse bilhete na sua mão. — Disse o chefe de polícia.
Peguei o papel e tentei ler com as mãos tremulas.
"Não és capaz de parar mesmo com os exemplos anteriores? Pergunto-me se não se cansas de perder pessoas preciosas.
Sinta-se horado por receberes uma carta minha.
Drácula."
Dobrei o bilhete e guardei-o no bolço. Voltei-me novamente ao corpo da Branca e ali fiquei até ser retirado do quarto.
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