Memórias de Novembro
25 Estratégia
ROMANCES MENSAIS
LIVRO XI – MEMÓRIAS DE NOVEMBRO
CAPÍTULO XXIV — ESTRATÉGIA
Steve estava pálido. Era como se todo o sangue de seu corpo tivesse sumido completamente. Ele suava e tremia, enquanto apertava as laterais da cabeça com intensidade. Os olhos estavam sendo comprimidos com uma força exacerbada e os lábios sangravam, machucados pelas mordidas que ele dava para conter o grito de dor. As crianças estavam assustadas. Liz e Alex choravam e Kayla parecia em pânico, segurando a irmã mais nova o mais firme possível.
— Peter, leve as crianças para o quarto. — Oriento, apoiando Steve, que ainda parecia estar sofrendo com o retorno de suas memórias.
— Está bem! — Ele concorda, também assustado com o estado de Steve. Ainda com os olhos fixos no homem, ele pega no braço de Alex e Kayla, puxando-os para se afastar da cozinha, mas eles pareciam relutantes. — Vamos, gente!
— Não! O papai está chorando! Ele está machucado!
Alex implorava para continuar, enquanto chorava assustado com a forma como Steve parecia estar sofrendo. Liz também não estava diferente. Ela implorava pelo pai, jogando os bracinhos pequenos e delicados na direção do homem. Kayla estava em choque e nem mesmo conseguia se mover. Também parecia estar lembrando de algo traumático e desesperador.
— Kayla! Vai! — Chamo o nome da garota, que arregala os olhos e parece despertar. Ela nota a luta de Peter para conter Alex e ainda a puxar para longe e finalmente começa a ajudar o rapaz a mover as crianças para o andar de cima.
— Peggy, eu sinto muito. — Sara também parecia preocupada. — Eu tentei ajudá-lo a recuperar a memória, mas acho que o forcei demais.
— Está tudo bem, Sara. É bom que ele esteja se lembrando. Ele teve um trauma e tanto, então acho que é normal ele sentir essas dores intensas enquanto tudo volta de uma vez para a mente dele. — Afirmo com sinceridade, ainda que meu coração estivesse sendo comprimido em meu peito. Eu odiava ver o quanto ele estava sofrendo e não poder fazer nada para ajudar. Era frustrante e desesperador.
— Eu vou colocar o Steve no sofá para ele se deitar. – Avisa Leonard, vendo o rapaz diminuir um pouco dos grunhidos de dor. – Talvez isso ajude a aliviar a fadiga e as dores.
— Eu vou te ajudar. – Prontifico-me, passando um dos braços de Steve em volta dos meus ombros, enquanto envolvo sua cintura. Leonard repete o mesmo processo com o outro braço. – Aguente firme, Steve.
— Está... bem... – Ele sussurra, parecendo fraco pela dor.
— Enquanto vocês o levam para a sala, eu vou pegar um copo de água e tentar entrar em contato com a tia Echo. Ela foi a médica do Steve junto com o dr. Underwood em Hawkins. Eles devem saber o que fazer para amenizar as dores de Steve. – Responde Sara, pegando o celular no bolso de sua calça.
— Certo. Obrigada. – Agradeço e ela assente, procurando um copo pela cozinha, enquanto tinha o celular pressionado pelo ombro contra a orelha.
— No três nós o levantamos. – Lidera Leonard e eu assinto, concordando. – Um... dois... três...
No mesmo instante, nós levantamos Steve e os guiamos até o sofá. Com cuidado e cientes de que ele ainda estava muito sensível, nós o deitamos no sofá. Sara não demora a aparecer com um copo de água. Ela o entrega a Steve e eu o ajudo a beber. Satisfeito, ele volta a se deitar, colocando o antebraço sobre os olhos para os esconder da claridade.
— E então, Sara? O que a sua tia disse? – Pergunto com preocupação, observando como Steve parecia frágil e vulnerável naquele momento.
— Ela estava atendendo um paciente. Pediu cinco minutos e disse que já retornava a li... – Sara é interrompida pelo toque de seu celular. – É ela.
— Atende! – Apresso a loira, que assente e leva o celular ao ouvido.
— Oi tia Echo. Eu sei que está ocupada, mas é uma emergência. Você se lembra do agente da CIA que trabalhava comigo e que a senhora atendeu no início do mês? Isso. Isso mesmo. O que teve amnésia. Então, ele está recuperando a memória nesse exato momento e está muito mal. Isso é normal? Devemos levá-lo ao médico? Ele está com uma forte dor de cabeça, está tremendo, suando frio e muito pálido. Sim. Sim. Parece que é tudo de uma vez. Sim. Ah, é normal? Então o que devemos fazer para amenizar essas dores? Ahan... Sim. Não. Não tem problema. Entendi. Está bem, tia Echo. Obrigada por ajudar. Prometo que em breve eu vou levar o Steve para a senhora repetir os exames. Sim. Ok. Tchau, tia Echo. Muito obrigada. Beijos e até breve! – Sara encerra a ligação e me encara, guardando o celular de volta no bolso. – Bom, ela disse que é normal ter esse tipo de reação. Tudo o que devemos fazer é dar muito líquidos e alimentos leves a ele. Steve deve descansar o restante do dia até conseguir recuperar as energias. Amanhã ele já deve estar melhor.
— Não temos tanto tempo. Precisamos parar Schmidt antes que ele alcance as crianças. – Sussurra Steve, tentando se levantar, mas não demora a voltar a cair no sofá ao experimentar a fraqueza de seu corpo.
— Ei! Vai com calma. Você precisa se descansar. – Digo, empurrando Steve permanecesse deitado. – Não se preocupe. Sara, Leonard e eu devemos ser o suficiente para proteger as crianças. Apenas se concentre em recuperar as suas memórias e se recuperar. Nós ficaremos bem.
— Eu... eu sou uma pessoa horrível. – Comenta Steve, desolado. – Eu... eu fiz coisas terríveis e... e...
— Não pense muito nisso, Steve. Não é o momento para você lidar com os conflitos éticos e morais que você está enfrentando. – Afirma Sara, parecendo entender o que se passava em sua mente. Encaro a loira, esperando alguma explicação, mas tudo o que recebo é um olhar significativo, pedindo silenciosamente para que eu não o questionasse naquele momento. – Leonard, você e eu vamos levar o Steve para o quarto deles para que ele possa descansar. Peggy tente acalmar as crianças, que devem estar apavoradas sem notícias do Steve. Quando terminar, desça. Nós iremos começar a planejar como iremos agir e quais serão os preparativos que vamos precisar para colocar o plano em ação.
— Tudo bem. – Concorda Leonard e não demora muito para que os dois levassem Steve para o quarto.
Sigo o casal logo atrás, sem conseguir tirar os olhos de Steve. Eu me perguntava o que se passava em sua mente de tão terrível que o havia abalado tanto? O que ele precisou fazer para se tornar um agente tão importante da CIA?
No entanto, enquanto subíamos as escadas, escuto o choro desesperado de Liz, fazendo com que eu me lembrasse que haviam duas crianças e dois adolescentes assustados, ansiosos por notícias do pai. Assim, deixo Steve aos cuidados de Sara e Leonard e vou atrás das crianças que, pelo barulho que faziam, com os choros altos de Liz, tudo indicava que eles estavam no quarto de Kayla.
Assim que chego ao cômodo, encontro Kayla tentando acalmar Lis, enquanto Peter distraia Alex, que já havia parado de chorar, mas ainda exibia uma expressão preocupada e desolada. Bato na porta e Alex é o primeiro a me encarar, levantando-se no mesmo instante. Ele corre em minha direção e abraça minhas pernas. Seus olhos exibiam aquele brilho de expectativa.
— Mamãe! Onde está o papai? Eu quero ver ele! – Pede Alex com um tom urgente. Acaricio o seu rosto e deixo um beijo em sua testa.
— Não se preocupe, meu amor. O papai está dormindo. Então fique calmo. Está tudo bem agora. – Garanto e ele assente, parecendo acreditar em minhas palavras, no entanto, Alex permanece abraçando minha perna.
— E então, mãe? Meu pai está melhor? Ele ainda está sentindo dores? Não é melhor levá-lo ao hospital para tomar algum medicamento que diminua as dores? – Questiona Kayla, alarmada. Liz continua a chorar desesperada e joga o corpo em minha direção. Pego-a do colo da irmã e encaro Kayla, tentando transmitir um pouco de tranquilidade.
— Ele está melhor. Tudo o que precisa fazer é ficar de repouso. Acabamos de falar com a médica dele e ela disse que é normal esse tipo de reação quando se recupera as memórias de maneira tão brusca. A mente dele precisa de um tempo para absolver todos os acontecimentos de trinta e cinco anos de sua vida. – Respondo, balançando Liz para que ela se acalmasse. A garotinha para de chorar e me abraça com força, enquanto encosta a cabeça em meu ombro.
— Mas o que foi que aconteceu, sra. O’Brien? – Pergunta Peter, encarando-me com curiosidade. Alex finalmente se afasta, permitindo que eu me movesse pelo quarto. Sento-me na cama e os adolescentes me encaravam impacientes, esperando alguma explicação. Suspiro e dou de ombros.
— O que aconteceu, mãe? – Insiste Kayla com uma expressão séria e determinada, mostrando que não desistiria até entender o que aconteceu. – Uma hora, ele e tia Sara estavam trocando golpes e de repente, ele cai no chão e chora de dor de cabeça. Por acaso, tia Sara o atingiu na cabeça sem que a gente tenha visto e ele acabou se machucando?
— Não. Sara apenas estimulou a mente dele a se lembrar. Não se esqueça que o pai de vocês era um agente da CIA. Ele sabia lutar muito bem. Ao entrar em um confronto com Sara e perceber que mesmo sem memórias, ele ainda era capaz de lutar como antes deve ter desencadeado o que ele precisava para ter de volta todas as suas lembranças de uma vez. Isso fez o cérebro dele sobrecarregar com tantas informações ao mesmo tempo, provocando essa forte dor de cabeça. – Conto, acalmando as crianças, que suspiram aliviadas.
— Então ele está bem? – Pergunta Kayla e eu assinto, trazendo um pouco de calmaria para nós.
— Isso mesmo. Ele logo, logo deve vir se encontrar com a gente. Enquanto isso, tudo o que ele precisa fazer é descansar até que seu cérebro possa se acostumar com a quantidade de informações que estão por vir. – Respondo e Kayla suspira aliviada. – Agora, que tal a gente descer para entender o que devemos fazer para colocar o maldito do Schmidt atrás das grades?
Peter e Kayla concordam imediatamente e assim que consigo fazer a Liz dormir em seu berço e descemos para conversar com Sara e Leonard. Surpreendo-me ao encontrar os dois em uma chamada de vídeo na televisão da sala com o notebook apontado para nós com um rapaz que parecia ter no máximo uns vinte anos e cinco anos.
— Olá. – Cumprimento, aproximando-me com cautela. Eu não sabia se aquele jovem era algum aliado ou alguém que eu deveria evitar.
— Ah, vocês chegaram. Peggy e crianças, esse é Freddie Benson. Apesar de não fazer parte da CIA e ne do FBI, ele é um dos melhores hackers que eu conheço. Se ele não for o melhor! – Apresenta Sara, fazendo o rapaz sorrir envergonhado.
— Olá, Peggy. É um prazer conhecer você. – Cumprimenta Freddie, sorrindo simpático. – Agora que você chegou, acho que eu já posso passar as informações que tenho até o momento.
— Por favor. – Peço, sentando-me com as crianças, Sara e Leonard no sofá da sala. – Acha mesmo que podemos encontrar Schmidt e acabar com toda essa loucura de programa de proteção a testemunhas?
— É claro. Com base nas informações que recebi do Leonard e do agente Jarvis, eu investiguei as câmeras de segurança de Port Royal e consegui encontrar a gravação onde ele foi visto pela última vez. Selecionei um raio de quinze quilômetros desse ponto para encontrar mais gravações que possam dar ideia de onde Johann Schmidt tem se escondido nesses últimos dias. — Explica Freddie, encarando-me com seriedade.
— E quanto tempo demora até que você consiga essa informação, Freddie? – Questiona Leonard e o rapaz exibe uma expressão pensativa.
— Umas quatro ou cinco horas. Port Royal e Beaufort podem ser cidades do interior, mas possuem muitas câmeras de segurança. Eu vou ter que analisar a imagem de todas as gravações até identificar um padrão para só então ter alguma ideia de onde ele possa estar. – Responde Freddie e isso parece decepcionar o casal.
— Qual a possibilidade de você fazer isso em duas horas? – Questiona a loira e Freddie passa a rir, como se tivesse achado que o que ela dizia.
— Sozinho? Impossível. Se ao menos eu tivesse Felicity por aqui, poderíamos trabalhar juntos e quem sabe conseguir as informações em um tempo menor que o previsto. Mas ela está trabalhando no hospital e sozinho eu não consigo. – Explica Freddie, dando de ombros.
— Se esse é o problema, então entre em contato com Glenn, marido da minha chefe. Vocês se deram bem, certo? Ele pode te dar esse suporte. Ainda mais que ele tem ido atrás da HYDRA há anos. Ele com certeza irá te ajudar. – Sugere Leonard e isso parece agradar Freddie, que assente, concordando.
— Está bem. Eu vou falar com ele. — Garante o rapaz, sorrindo com determinação.
— Enquanto isso, você e as crianças devem seguir sua rotina normalmente, Peggy. – Orienta Sara e eu a encaro surpresa.
— Como? Tem um assassino à solta pela cidade querendo machucar os meus filhos. Eu não posso deixar que eles fiquem vulneráveis e expostos assim. – Respondo e dessa vez é Leonard que se aproxima.
— Eu sei que está preocupada. Você tem todo o direito de estar, mas precisa confiar em nós. Schmidt não pode desconfiar que nós já sabemos que ele está por aqui ou ele pode acabar escorregando de nossas mãos mais uma vez. Por isso devemos ser discretos e agir como se nada tivesse acontecendo. Só assim podemos fazer um ataque surpresa e impedir que esse maldito continue praticando tantas mansões. – Explica Leonard com suavidade e paciência.
— Além disso, a escola é um lugar com muitos esconderijos e alunos. Schmidt jamais arriscaria atacar em um lugar onde ele pudesse ser pego. Por isso, lá é o local mais seguro para as suas crianças nesse momento. – Conclui Sara e eu suspiro, encarando as crianças ao meu lado. Elas parecem ansiosas para participar da missão.
— Tudo bem. Vamos fazer isso. – Concordo e posso ver as crianças sorrirem animadas. Encaro Sara e Leonard com seriedade. – Mas tudo deve ocorrer da minha maneira. Muito além de pegar o perigoso Caveira Vermelha, eu quero que a segurança de meus filhos seja prioridade da missão ou nada feito.
— Certo. Nós podemos fazer isso. — Garante Sara, sorrindo docemente.- Agora, é melhor a gente se preparar, porque estou sentindo que a ação está apenas começando.
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