Uma sala branca com só uma saída
Luzes ofuscantes.
Uma parede de vidro embaçado.
Três guerreiros sentados á mesa, dois de um lado, um do outro.
Apenas um falava a verdade.

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Eu estava procrastinando em cima de uma pilha de palha, adiando a alimentação de Shiryuu, o Dragonite do Professor. Shiryuu era notoriamente temperamental para um Dragonite, e se divertia maliciosamente atacando os trabalhadores do rancho quando estava com fome.

Outra coisa que eu estava adiando, eram meus planos para o futuro. Eu sempre planejei sair hoje, ao lado de Blue. Não havia espaço para outra coisa sequer isso. Passei os últimos dias praticamente em um estado de catatonia, incapaz de acreditar que meus sonhos haviam sido levados tão rápido. Minha mãe havia me dado o meu espaço e, pela primeira vez, Ashford, o Mistermime de nossa família, não tinha brincadeiras que me distraíssem das dores da perda.

E então chegou o dia. Hoje de manhã, vi meu único rival entrar na grama alta para seguir sua própria jornada Pokémon. Ele até recebeu um pouco de atenção da mídia, uma entrevista ao vivo em nome dos treinadores iniciantes, sua saída havia virado assunto na cidade já há algumas semanas. Blue se foi e não olhou para trás uma única vez.

Eu estava perdido. Fiquei para trás, sem um propósito, à deriva em um mar de indecisão. Devo ir hoje? Devo esperar até juntar o dinheiro para o licenciamento?

Uma coisa era certa. Eu tinha que ir. Eu não aguentava mais ficar em Pallet.

Suspirei e peguei o jantar de Shiryuu no freezer, aceitando a tarefa como um método de ocupar minha mente, mesmo que por apenas alguns minutos. Peguei um par de chaves na prateleira, joguei a carne de Tauros na traseira de um dos vários buggys que os trabalhadores e assistentes usavam para atravessar o vasto rancho do Professor, e parti em direção aos penhascos.

O rancho de pesquisa era incrível, como esperado do Professor oficial de Kanto. Levaria anos de trabalho para apreciar completamente o quão difícil era manter tantos Pokémon diferentes juntos sem ocorrer uma catástrofe. De vez em quando ocorria algum incidente com as espécies mais agressivas, mas os cuidadores geralmente lidavam com isso, ocasionalmente, o próprio Professor precisava intervir para mediar.

E por mediar, é claro, quero dizer, liberar seu Gyarados e ameaçar soltar um Hyper Beam se eles não se acalmassem. Normalmente, o dever de intimidar os outros, era dividido entre Shiryuu e Gyarados, essa semana, era a vez do Gyarados. Shiryuu, nesse meio tempo, estava onde ele sempre ficava em seus dias de folga.

Estacionei o buggy a uma boa distância para não incomodar a grande fera. O dragão já havia destruído mais de um veículo por interromper seus cochilos e banhos de sol na beira do penhasco. Eu icei o saco de carne por cima do ombro com um grunhido e caminhei até onde ele estava cochilando na borda íngreme do platô.

Shiryuu era magnífico, um espécime antigo, com pele escamosa laranja-dourada e um estômago cor de creme coberto de cicatrizes e marcas de explosões, resultado de batalhas de um nível de poder indescritível, considerando o quão dura são as escamas de um Dragonite. Suas garras e chifre estavam lascados e arranhados, e uma de suas duas antenas, cortada na metade do comprimento da outra. Eu sempre me perguntei se tal defeito diminuía a força de seus terríveis ataques elétricos, ou se apenas os tornavam mais difíceis de controlar.

Suas asas irregulares se agitaram suavemente quando ele acordou, sentindo a minha aproximação.

Agora, não me lembro se foi imprudência ou desinteresse que me induziram a isso, mas algo me atraiu a olha-lo nos olhos quando ele acordou.

Shiryuu rolou no chão, e com a agilidade de uma serpente — lembrando de seus tempos de Dragonair — me derrubou em um único movimento fluído. Em um piscar de olhos eu estava preso no chão com uma garra maciça me segurando e um dragão rosnando na minha cara. Eu caí com força no chão, e meu boné saiu voando da minha cabeça. Eu ia tentar argumentar com ele, mas sabia que não adiantaria. Felizmente, eu não precisei.

Desviando o olhar, levantei ambas mãos, estendi meus dedos e os balancei em um gesto que aprendi com Ashford um dia na rua, quando ele foi encurralado por um Arcanine não muito feliz por ele estar bastante próximo de sua ninhada de Growlithes.

Os Mistermimes eram notórios por serem os únicos Pokémon que não falavam, nem mesmo utilizavam comunicação psíquica. Os pesquisadores não tinham certeza se era uma compulsão ou uma incapacidade biológica. O que se sabe era que eles se comunicavam de alguma maneira, e não simplesmente através de gestos com as mãos, cujas respostas os cientistas não tinham conseguido replicar.

Naquela época, eu tinha a opinião de que eles não haviam copiado os movimentos corretamente, pois eles sempre funcionaram muito bem comigo.

Shiryuu deu mais uma baforada de hálito fedorento e quente de dragão na minha cara antes que seu rugido diminuísse em um ronco baixo, quando ele mudou de posição e perdeu o interesse em mim. Me levantei cautelosamente e peguei o boné no chão, sentindo a dor de hematomas que com certeza apareceriam mais tarde. Me acalmei e mandei oxigênio para os meus pulmões novamente, eu era um idiota por ter decidido olhar um Pokémon-Dragão nos olhos, já era uma má ideia fazer isso com qualquer espécie agressiva, imagina com dragões. Apenas o Professor, seu treinador, fazia isso sem consequências.

O Dragonite fungou e cheirou ansiosamente a bolsa fechada antes de eu tirar do caminho dele. Antigamente, ele comia com tudo, mas a bolsa não descia muito bem. Eu abri e peguei o primeiro bife grande de Tauros. As pupilas de Shiryuu se dilataram imediatamente quando ele sentiu o cheiro.

Joguei o bife para o alto, e o Dragonite o tostou habilmente no ar com uma rajada de fogo antes de pega-lo com suas mandíbulas, mastigando vigorosamente. A carne de Tauros era incrivelmente grossa e densa, tão densa que mesmo a mandíbula de um dragão, cheia de dentes como estalactites, e com músculos capazes de esmagar pedras, tinha problemas em mastigar. Era a mesma carne que era utilizada para fazer a carne seca dos Rangers. Inicialmente, eu adorava jogar o bife e vê-lo queimando no ar, mas esse truque para mim já havia perdido a graça faz tempo, então eu me sentei, sabendo que levaria um bom tempo para Shiryuu engolir a carne grossa.

Pensando que não era uma alternativa tão ruim, decidi perguntar a Shiryuu o que eu deveria fazer.

Previsivelmente, ele me ignorou completamente, concentrado em sua refeição. Pequenos jatos de fumaça e chamas escapavam de suas narinas enquanto ele mastigava a carne enegrecida com vontade.

Shiryuu terminou em cerca de trinta segundos, um novo recorde. Ele devia estar com fome. Obedientemente, joguei o próximo bife no ar, observando-o desaparecer em um flash de fogo e mordidas.

Analisei meus medos e receios. A opção mais segura seria esperar juntar dinheiro outra vez e me registrar. Eu nunca pensei em tentar uma bolsa para Ranger ou Milícia; por alguma lógica, decidi firmemente que eu tinha que ser um treinador, um viajante, livre de dívidas e obrigações, explorando todos os lugares. Eu não tinha certeza do que procurava, mas isso não enfraquecia a força das minhas convicções. Uma pessoa não deve necessariamente estar procurando algo para encontrar.

A outra opção era me registrar em Viridian. Eu sabia, por pesquisas próprias, que o exame de licenciamento era muito mais barato lá por causa da grande população e do limitado número de Pokémon iniciais. Eles também não exigiam a compra de uma Pokedex junto com a licença. Se eu fosse para lá, poderia me tornar um treinador quase imediatamente, apesar de não ter um Pokémon inicial ou uma Pokedex. Não era uma coisa tão terrível, aprendia-se na escola a capturar um Pokémon sozinho, mas isso me colocava em uma tremenda desvantagem em comparação a Blue.

Mas, novamente, quando eu não estive em desvantagem em relação a Blue?

Blue. Sempre voltava a Blue.

Você já ouviu falar do termo “acordo tácito”? Blue e eu tínhamos algo assim. Nunca foi verbalizado ou dito em voz alta, mas nós dois sabíamos que sempre viria a isso. Eu contra ele, ele contra mim.

E olhe para nós agora. Hoje em dia eles estão chamando Pallet de ''A Cidade dos Campeões''. Vocês sabiam que o Professor Carvalho costumava ser um campeão?

Meu devaneio foi interrompido quando Shiryuu me cutucou com grosseria, obviamente esperando seu último bife. Pensei em uma coisa estranha ao entrega-lo.

Pense comigo. Shiryuu agiu de acordo com sua natureza me atacando. Ele obviamente não se importava com os problemas de algum humano que lhe trazia comida. Ao contrário da crença popular, a empatia não gera poder.

Talvez essa fosse a resposta que eu estava procurando para minha jornada, então? Seguir minha natureza.

Eu sei que parece banal, mas qualquer resposta parecia ser melhor que nenhuma. Me curvei para o dragão e dei um agradecimento meio sarcástico. Então carreguei os sacos de carne vazios para o buggy e voltei para a área principal.

Não, não corri imediatamente para começar minha épica jornada. No entanto, sai mais cedo do meu turno, utilizando dos muitos favores que os trabalhadores do rancho me deviam por eu trabalhar em seus turnos. A ''resposta'' me deu algo para ocupar meus pensamentos.

Qual era a minha ''natureza''? Considerei a pergunta enquanto caminhava pela trilha que levava do rancho do Professor ao centro de Pallet . Minha bicicleta havia quebrado no verão anterior, eu ia a pé todos os dias desde então, quase 16 quilômetros para ir e voltar. Era um bom exercício. Quando passei pelo mercado, uma resposta começou a se formar.

Toda pessoa tinha um sonho. Às vezes grandioso, como se tornar uma celebridade ou uma estrela. Às vezes mais humilde, como criar uma família ou passar na próxima prova. Há outra coisa que todas as pessoas parecem ter em comum: desistir

Para onde eu olhava eu via derrota. Pessoas capitulando, se contentando com menos, chegando “muito perto”. Lembro-me de alguns exemplos disso que ficaram na minha mente quando passava por eles na rua.

O dono do restaurante era um homem magro e careca, com uma licença de treinador desatualizada pendurada na parede e um dedo faltando mão esquerda marcada com cicatrizes de queimadura. Você podia vê-lo todas as noites de torneio no bar, gritando a estratégia de batalha mais alto que todos. Ele já havia ganhado uma taça?

A barista raivosa, que você podia ouvir cantar pela janela na hora do fechamento, era talentosa, jovem e atraente. Ela já teve uma audiência?

Lembro de minha mente voltar ao rancho, e ao seu venerado dono. Samuel Carvalho era um nome escrito nos paralelepípedos no final da Estrada dos Campeões. Seu nome era para estar gravado em detalhes dourados e, embaixo, esculpida sua equipe, naquela idade, ele se tornaria o sétimo treinador mais jovem a se tornar campeão, isso era reservado exclusivamente para aqueles que conseguiram vencer a Elite dos Quatro. Mas ele então ingressou na faculdade, obtendo seus dois doutorados em Poke-Tecnologia e Poke-Biologia, graduando-se em primeiro na sua classe. Os dias de batalha haviam passado e seu cabelo se tornara prematuramente branco. Ele era o único dos campeões a estar trabalhando — e não batalhando — quando a Elite dos Quatro e o Grande Campeão se reuniram para testar os treinadores com oito insignias e ver quem era poderoso o suficiente para cravar seu nome nas pedras do Plateau.

Mas, chegou na noite das finais, o Professor estava lá conosco, bebendo tranquilamente sua cerveja com o resto de nós no bar lotado, olhando melancolicamente os treinadores sendo massacrados ou se sobressaindo na televisão pixelizada. Ele alguma vez sonhou em dar o passo final, de ir lá pela quinta vez e convocar Lance para a arena? Apesar de todos os seus sucessos, ele era mais um homem com arrependimentos que nunca seria capaz de banir?

Perdido em pensamentos, eu nem percebi por onde andava. Eu não estava indo pra casa. Eu estava indo pra outro lugar.

O limite da Cidade de Pallet era um vasto e longo campo verde, cercado por uma floresta de carvalhos altos. Bem no finalzinho, em uma inclinação, você conseguia enxergar a grama alta, e o caminho de terra batida da Rota 1 lá embaixo. Todos os anos, no dia da formatura, os treinadores caminhavam pelo campo e iam embora, à caminho de Viridian, para enfrentar seus desafios pelas Cataratas da Vitória e começar sua jornada Pokémon. Teria sido mais seguro e prudente limpar o campo e pavimentar o resto do caminho, mas a tradição raramente é prudente. Além disso, de qualquer forma, o campo era varrido de Pokémon de antemão — assistir seus alunos serem atacados e feridos logo de cara não seria muito bom.

Eu tinha que olhar de novo, percebi. Eu não estava mais inanimado de tristeza. Eu tinha que olhar a grama alta da Rota 1 para encontrar meu futuro e sentir meus próprios desejos, minha própria natureza. A lógica não me ajudaria. Eu tinha que seguir meu instinto.

Eles ainda estavam tirando as decorações quando desci do campo de trás de Pallet em direção a grama alta. A festa de pós-graduação havia terminado e agora os adultos estavam fazendo as malas.

Alguns estudantes se demoraram, aproveitando o brilho dos sentimentos. Copos de plástico estavam espalhados nas laterais, vazios, esmagados, descartados. Fiz uma pausa para deixar algumas crianças passarem sem me derrubarem, eles estavam sendo perseguidos por outra criança que parecia absolutamente convencido de que sua pokebola de brinquedo guardava um lendário e sentiu a necessidade de gritar seu poder para todos ouvirem. Dois homens levantavam um refrigerador enquanto outro dobrava as mesas. O xerife, satisfeito por não haver nenhum bêbado problemático, montou em seu Rapidash e partiu. Vi o Professor Carvalho conversando calmamente com alguns homens de terno branco, que não eram ajudantes e que eu não havia notado a presença na cerimônia.

Passei despercebido enquanto me arrastava sob a bandeira de despedida, sendo desmontada por dois homens em cima de escadas. Parei na beira da grama alta, ceifada bruscamente na manhã anterior em preparação. Daqui, eu mal podia ver a borda do campo.

Nada. Não senti nada.

Frustrado, entrei na grama alta, sentindo o desespero arranhando a minha mente. Tinha que haver uma resposta, e tinha que estar aqui — onde mais eu poderia encontrar os caminhos para os meus sonhos?

Eu estava a uns vinte metros dentro da grama alta quando o sol desceu no ângulo certo para me acertar diretamente nos olhos.

Piscando rapidamente, puxei meu boné sobre os olhos.

Alguém chamou meu nome. Eu me virei e vi o Professor, abrindo freneticamente a grama alta com as mãos para vir em minha direção, uma expressão tensa de medo em seu rosto. Meu pulso pululou. A única vez que eu havia visto aquela expressão de pânico no rosto do Professor foi quando ele tentou domesticar um Munchlax. Dei um passo para trás, ouvi um guincho e algo se moveu debaixo de mim.

Agachado ali, rosnando sob a base das ervas daninhas, estava um Pikachu selvagem. Congelei instantaneamente. Eu não estava com medo — apenas crianças pequenas ficam com medo — eu estava apavorado.

Para você, pode parecer bem cômico. Pikachus estão entre os Pokémon mais fracos, desafiando a correlação de poder-raridade.

Em média eles possuem meio metro de altura, e armazenam toda a sua eletricidade nas bochechas. A maior parte de sua popularidade vem de Concursos e Espetáculos Pokémon.

Esse Pikachu, no entanto, não era pequeno. Tinha mais ou menos um metro, e sibilou pra mim, balançando sua grande cauda. Eu sabia que estava muito encrencado. Normalmente, Pikachus são dóceis, animados e evitam o contato humano, mas eles são extremamente protetores com a sua cauda, e por boas razões. Pikachus utilizavam a cauda como um condutor de proteção, escoando o excesso de eletricidade que o deixaria doente. Um Pikachu com uma cauda quebrada, estava condenado a uma morte lenta por auto-eletrocussão.

E eu havia acabado de pisar nela. A evidência do meu crime era a marca da pegada enlameada na cauda. O Pikachu estava obviamente puto.

Levantei minhas mãos lentamente e espalhei meus dedos no mesmo gesto que eu tinha usado com Shiryuu.

— Piiiiiiiiiiiiii-! —

As bochechas do Pikachu brilharam brevemente, e vi um forte chicote elétrico, mais rápido do que pude me proteger, e o mundo inteiro ficou branco. Meu corpo travou com força antes de eu desabar, meus músculos estavam falhando e saindo de meu controle. Parecia que alguém tinha ligado um aspirador dentro do meu intestino. A brancura se dispersou em explosões estelares de dor, me deixando paralisado na terra. Meus sentidos paravam gradualmente, lentos e incompletos, o mundo ao meu redor balançava e nublava, como se eu estivesse vendo tudo de dentro da água.

Eu podia ouvir o assobio agudo do Pikachu e o estrondo estático de uma Pokebola sendo liberada. Eu sentia um gosto estranho na boca. Minha pele parecia duas vezes mais grossa, roçando na terra e na grama pinicante. Minhas mãos, ao contrário do resto do corpo, queimavam. Estava tudo embaçado, até as cores.

Uma grande coisa de casaco branco se ajoelhou sobre mim, pressionando os dedos no meu pescoço. Que estupidez. Meu pescoço não estava machucado. Sim minhas mãos, minhas mãos, veem?

Tentei levantar meus braços, mas eles sofriam espasmos curtos como um Magikarp fora da água.

Distante, ouvi uma voz velha e familiar perguntar: — Você consegue falar, garoto?

Não conseguia, mas na minha opinião, respondi com um gemido muito bem articulado.

Fui erguido por braços fortes, e ouvi o Professor dizer a eles para me colocarem no seu caminhão: “ele vai ficar bem, apenas algumas queimaduras elétricas e paralisia, eu o levarei ao hospital” e “ligue para a mãe e conte o que aconteceu” e mais vários outros comandos rápidos que ele emitiu. Um dos homens de terno branco se aproximou e fixei os olhos no seu broche vermelho sem motivos específicos enquanto ele falava. Era um 'R' rodeado em dourado. O professor gritou para ele alguma coisa e ligou a caminhonete, então partimos.

Eu perdia e recobrava a consciência no caminho para o hospital, e meus lapsos de memória eram aleatórios: o professor trocando a marcha, o professor desfivelando o cinto de segurança, o professor em cima de mim enquanto eu era levado para o quarto. Com ele tão perto, notei traços sobre ele que nunca havia notado antes, linhas em seu rosto que não eram evidentes à distância. O Professor nunca pareceu, mas ele era velho. Velho e cansado. Você mal podia acreditar que ele tinha quarenta e poucos, seus cabelos eram brancos e seus olhos, acabados.

Eu finalmente adormeci completamente antes de acordar cerca de uma hora depois, minhas roupas normais de alguma forma magicamente substituídas por uma roupa hospitalar. O canto dos grilos e a escuridão lá fora me informavam quanto tempo havia passado.

Flexionei as mãos enfaixadas e senti apenas uma leve pontada de dor, indicando o tratamento.

Encontrei minhas roupas na mesa ao meu lado e minha mãe em uma cadeira no corredor de fora.

Não irei enche-lo com as gentilezas e inquietações sobre minha saúde que ela fez. Minha mãe era minha mãe e ela se comportou na época como todas as mães teriam se comportado, a sua, a minha ou a de qualquer outra pessoa.

Bem… talvez não a sua.

Não faça cara feia, nós dois sabemos que você é uma puta sem coração. E você, eu não conheço sua mãe, mas a julgar pela sua ocupação, ou ela te abandonou, ou não sabia como criar um filho.

Continuando, finalmente voltamos para casa. Ashford estava preocupado, é claro, e estava fazendo sinais de tristeza com as mãos em todas as direções quando entrei.

Diferente de mim, Ashford sempre foi famoso na cidade. Mistermimes não eram uma escolha muito comum como Pokémon doméstico, devido a um estigma associado aos Tipo-Psíquico e aos Mistermimes em geral. Desculpa dizer isso, mas alguns Mistermimes eram verdadeiramente grotescos, com rostos congelados em caretas ou choro. Ashford teve sorte, seu exoesqueleto havia congelado em uma expressão condescende, não diferente de um mordomo irritante, sobrancelhas erguidas e olhos arregalados com um lábio superior rígido.

Eu rapidamente fiz um sinal de 'tudo bem' com três dedos na mão esquerda e depois mostrei minhas mãos, onde apenas manchas fracas de cicatrizes brancas indicavam que o encontro com o Pikachu havia acontecido, tudo graças às capacidades curativas de um extrato de Ovo de Chansey. O Mistermime ficou mais calmo e começou a preparar o jantar.

Parei de pensar em quanto seria a conta do hospital e me encarreguei do principal desafio da noite: me despedir da minha mãe.

Eu fiz isso na hora do jantar. Ashford colocou meu prato na minha frente e eu não toquei nele por um tempo. Meu estômago ja estava cheio de indecisões.

— Você não está com fome? — Minha mãe perguntou.

Eu disse a ela que não estava. Então eu disse a ela que estava indo embora amanhã para me tornar um treinador Pokémon.

Minha mãe pousou o garfo e limpou a boca com o guardanapo e não falou nada por um tempo. — É muito perigoso. — Ela disse.

Depois de uma pausa, ela acrescentou. — Você viu o que aconteceu hoje. O mundo não é como Pallet. Eu sei que você pensa que sabe, mas não sabe.

Eu disse a ela que sabia e que, mesmo que realmente não soubesse, nunca descobriria se não aprendesse sozinho.

— Há milhares de coisas que podem dar errado. — Ela disse.

Eu disse a ela que as coisas dão errado em todos os lugares, e eu não precisava ir além do andar de cima do meu quarto — recém reconstruído — para perceber isso.

— Eu não quero te perder. — Ela finalmente disse. E sua voz tremeu à beira das lágrimas.

Eu disse que também não queria perde-la, mas mais importante, não queria perder a mim mesmo.

Ela afastou o prato, levantou-se e foi para a cozinha, não querendo me encarar. Entendendo que o jantar havia acabado, Ashford pegou nossos pratos cheios e colocou as sobras na geladeira. Eu sabia que ela ainda tinha mais a dizer, então não me levantei. A tensão e a culpa me enraizaram na cadeira, mas a convicção e motivação me estimulavam.

Minha mãe finalmente se recompôs o suficiente para falar uniformemente. — Pra onde você vai?

Eu disse a ela que iria primeiro a Viridian, onde o exame era barato e o licenciamento gratuito, e depois emitir meu desafio na Estrada dos Campeões. Depois, pela Floresta de Viridian para Pewter, e enfim Cerulean. Ou talvez eu seguisse um caminho diferente. Realmente não importava. Eu daria um jeito.

— Você não pode esperar? Até que você possa pegar uma carona com alguém para Viridian. Não quero que você viaje sozinho por aí.

Eu disse que não, se não eu ficaria nisso pra sempre. À espera de uma carona, à espera de dinheiro. Sempre havia algo mais para me fazer ficar, eu disse, e tinha a sensação de que ela sabia. Amanhã eu pegaria meu último salário com o Professor e depois sairia, sem exceção.

Infelizmente eu podia sentir o coração da minha mãe quebrar com aquela decisão, e desviei o olhar enquanto ela chorava. Já havia previsto esse resultado e suportaria as consequências de minha decisão.

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Enciclopedia Pokémon de Kanto — Index #122 — Mr. Mime
Características Básicas: Tipo-Psíquico, humanoide bípede, andrógeno.

Descrição: O corpo e os membros são cobertos por um exoesqueleto branco/esbranquiçado. Resistente e macio. Os membros são conectados à seção do tronco circular/oval por grandes esferas exoesqueléticas vermelhas bulbosas projetadas para proteger da luxação das articulações e vibrar em alta velocidade, produzindo o efeito de "barreira". Orbes semelhantes são observados na ponta de todos os dedos, capazes de vibrações igualmente altas e capacidade de criação de barreiras. Dois tufos curtos de cabelos azul-índigo/escuro são extrudados do crânio. Duas manchas exoesqueléticas redondas e rosadas se projetam das bochechas. Os pés assumem formas semelhantes às de um bobo da corte, com consistência e semelhança à couro grosso, permitindo mobilidade e equilíbrio sem sacrificar a defesa. O rosto é humanoide, com traços congelados na expressão que o Mr. Mime estava quando nasceu. Os olhos têm cerca de 1,3 vezes o tamanho de um olho humano normal e, em todos os casos típicos, assumem um tom carmesim.

Apelidos: O Pokémon Barreira, O Pokémon Palhaço, O Pokémon Mudo, Mimeys, PokePalhaço.

“... O Mistermime é um espécime interessante e único que se destaca como peculiar mesmo entre a estranheza natural associada aos tipos psíquicos. Ele não emite nenhum som distinguível e não apresenta nenhuma capacidade vocal, apesar de possuir a capacidade biológica, dificultando a vida dos pesquisadores. Antigamente supunha-se que eles eram do Tipo-Normal até que se percebesse que as intenções dos Mistermimes eram perfeitamente claras sempre que eles desejavam se comunicar. Observando isso, os pesquisadores conseguiram discernir que eles se comunicavam através de uma linguagem de sinais, embora não conseguissem estabelecer um alfabeto ou padrão, pois a replicação dos gestos não produziu nenhuma resposta discernível em outro Pokémon, mais uma vez despistando-os dos sonhos de decodificar uma linguagem Pokémon universal. Eles não são um Pokémon doméstico popular, pois muitos acham sua aparência humanoide e expressões fixas desde o nascimento inquietantes, mas desfrutam de uso comum na defesa militar e são uma parte essencial dos limitadores nos estádios de batalha, embora seu objetivo exato seja mantido em segredo para impedir tentativas de sabotagem e trapaça. Os Mistermimes se reproduzem assexualmente, e sempre são pais severos mas bastante protetores...“

Notas finais
Eu escrevo principalmente no Spirit, então se quiserem ler os capítulos com antecedência: https://www.spiritfanfiction.com/perfil/rolando2t/historias