Memórias Póstumas de Red
4 Primeiro Passo

''Pois nunca, jamais vendi minha alma para ninguém! Ela é minha! Humana! Extraia de mim o que eu desejo, pois não é possível que eu deseje algo mau… '' — Piquenique na Estrada
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Acordei no dia seguinte com o som da minha porta abrindo. Levantei da minha cama percebendo Ashford, que acabara de entrar no quarto. Eu não tinha dormido bem, então desejei ao Pokémon, verbalmente, um bom dia.
Em resposta, O Mistermime me estapeou.
Eu sei o que você está pensando. Um Pokémon doméstico, atacando um humano? Ultrajante. Mas, apesar da dor ardente, senti-me envergonhado, em vez de chocado ou furioso. Eu estava acostumado com isso.
Era nosso jogo. Eu não tinha aprendido a linguagem dos sinais só observando — isso seria ridículo. Ashford se encarregou de me ensinar seus sinais desde quando eu era mais novo, de modo que hoje em dia, era falta de educação eu me comunicar com ele verbalmente. Ele nunca tinha me batido perto da minha mãe, é claro, e também não tão forte a ponto de me machucar. Sempre foi um jogo, o preço de errar era um pouco alto, mas como dizem alguns, sem dor sem ganho.
Me corrigi fazendo os sinais para 'acordado' e 'manhã', adicionando uma saudação no final. Ashford se afastou da cama quando me levantei.
Ele levantou ambas as mãos, e espalmou-as. Eu não estava no clima para brincadeiras, então tentei passar por ele. Ele se moveu para esquerda e bloqueou a passagem.
Levantei a sobrancelha e tentei o outro lado. Também bloqueado.
Ashford agitou os dedos. Aparentemente, ele não iria me deixar sair até eu concordar em jogar. Confuso, imitei sua posição e postura. Nós não jogávamos o jogo dos espelhos desde quando eu era criança, mas parece que a minha partida desencadeou algum impulso nostálgico nele.
O jogo dos espelhos era simples. Eu tinha que copiar os movimentos dele o máximo que conseguisse. Parecia fácil, mas se eu ficasse para trás por muito tempo, ele me daria um tapa no rosto, dois por hesitar. O jogo foi ficando cada vez mais selvagem e complexo à medida que eu progredia. Ele sempre me deixava passar se eu conseguisse imita-lo por uma boa quantidade de tempo. Eu me tornei bom o suficiente para praticamente prever o próximo movimento dele, e foi nesse ponto em que ele parou de me desafiar e se concentrou em me ensinar os sinais
Ashford começou em um piscar de olhos, primeiro, torcendo e curvando os dedos em nós. Ele não estava para brincadeira, tomei a mesma posição que ele e instantaneamente ele se contorceu em outra, eu acompanhando-o apenas alguns milésimos atrás. Ele pulou em um pé só e eu o imitei em um piscar de olhos. Agachamento com só uma perna, seguido por segurar um pé nas costas e abaixar. Provavelmente eu poderia dar aula de ioga.
Ashford elevou a dificuldade. Flexões com uma mão só. Um suplex alemão. E em certo ponto ele fez um cartwheel parado. Cinco minutos de intenso movimento depois, ele levantou uma mão e nós dois fizemos o sinal de ''pronto''. Ainda estava meio recoso, porque ele já havia me enganado mais de uma vez fingindo que terminou e em seguida fazendo um movimento complexo.
Mas realmente havia acabado, limpei o suor da minha testa na manga do pijama e observei os dedos de Ashford se curvando para dentro e para fora em movimentos incertos, olhando para mim, para o chão, e para o gesso semi-acabado do teto.
O Mistermine bateu no lado da testa com dois dedos. Lembre-se, ele disse. Ele se aproximou e pegou uma de minhas mãos e tocou a testa dele. Lembre-se de mim.
Eu fiquei tão emocionado que não conseguiria falar nem se eu quisesse. Tristeza e arrependimento me invadiram sem aviso prévio. Eu sorri e fiz uma série de sinais; "Futuro", "Lembrar" e "Carinho".
Comicamente, isso pareceu irrita-lo. Ashford fez um sinal para eu prestar atenção e repetiu o gesto de 'lembrar', desta vez com 'passado' e imitação entusiástica de flexão e abdominal.
Eu não pude deixar de rir. Lembre-se do que eu te ensinei, ele dizia. Claro. Ashford nunca tinha sido do tipo sentimental. Fiz um sinal de 'não se preocupe' e algumas combinações aleatórias de sinais obscuros como 'Estou com fome, mas não disso' e 'seis meses, três dias e cinco horas atrás' e 'Estou sendo perseguido por um grande Arcanine zangado e acredito que devemos correr agora '.
O Mistermime levantou as mãos em sinal de rendição e se arrastou para o lado, deixando eu passar. Parei para pegar algumas maçãs na cozinha e saí.
Sabendo que essa seria a última vez que veria a minha não amada, mas memorável cidade natal, eu me demorei para ir até o rancho. Fiz questão de dar bom dia para algumas pessoas que conhecia — O alfaiate e seu tear, que consertava os rasgos do meu uniforme de trabalho no rancho; o ferreiro e o carpinteiro, que eu via com frequência nos últimos dias por causa da reconstrução da nossa casa; a bibliotecária e suas coleções, onde eu passava muitas folgas; o doceiro e o barman. Eram todos relacionamentos pequenos e tranquilos, e eu não queria esquecer de ninguém.
Isso me atrasou, mas eu não tinha intenção de trabalhar mesmo. Isso era importante, queria ir embora sem arrependimentos tardios.
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Um dos trabalhadores me indicou a localização atual do Professor. Era estranho atravessar os corredores brancos da ala principal do laboratório pela última vez. O cheiro de desinfetante no ar sempre me lembrava um hospital.
Os assistentes e cientistas que passavam no corredor nem prestavam atenção em mim, concentrados em suas próprias tarefas; o Professor sempre os levava ao limite, quebrando muitos sonhos daqueles que pensavam que participar da Equipe de Pesquisa era algo fácil. Tinha uns que se eu não saísse da frente me atropelariam. Esse lugar tinha um profissionalismo solene, do tipo que eu não gostaria de ficar por muito tempo.
O escritório do Professor era humilde e discreto como sua personalidade. A decoração monótona do escritório apesar de simples visualmente, era lendário por ter figurado diversos documentários sobre o Professor e seu rancho. Eu sempre gostei desse lugar. Aos meus olhos, o escritório do Professor parecia perfeitamente adequado para seu objetivo, desde as estantes de aço ao relógio digital na parede acima do Professor, postado ali para que os visitantes não desviassem o olhar do Professor enquanto conversassem caso estivessem com pressa. A única coisa de cunho pessoal era uma janela alta e estreita no fundo da sala, que dava para os recintos Pokémon mais próximos do rancho. Decorações eram para casas, não para laboratórios, segundo o Professor, decorações atraiam falta de profissionalismo e relaxamento.
O Professor respondeu tão prontamente como se estivesse me esperando quando bati à sua porta.
— Entre, Gary. — Sua voz abafada atravessou a porta fechada. Hesitei um segundo antes de entrar.
O Professor estava como sempre, nenhum traço dos eventos do dia anterior no rosto dele. Eu nunca havia o visto sem camisa polo, calças sociais e o tradicional jaleco branco até o dia anterior da formatura, quando ele alugou um terno para a cerimônia de seu neto. Os olhos dele se arregalaram um pouco quando ele me viu.
— Ah, é você Red. — Ele se referiu a mim pelo meu nome de batismo — ele sempre o fazia — mas pelo bem desse registro, eu simplesmente substituirei pelo meu apelido. Sua voz era suave e ponderada. — Eu não estava esperando você. Quando você perdeu a hora, presumi que você tivesse tirado um dia de descanso. O que posso fazer por você?
Eu disse a ele que estava deixando a cidade e que estava lá para receber meu último salário. Eu não me incomodei em medir palavras ou dar explicações — mesmo com toda sua brandura, o Professor não gostava de conversas inúteis. Eu adicionei um 'senhor' no final, no entanto. Era um termo de respeito, e eu não respeitava ninguém como eu respeitava ele.
O Professor encarou isso com calma — como ele encarava tudo. Raramente ele era pego de surpresa por alguma coisa. Eu esperava uma rápida assinatura no cheque, e talvez uma pergunta superficial, se ele estivesse se sentindo curioso naquele dia. Mas ele fez outra coisa. O Professor levantou-se da cadeira, e colocou o jaleco debaixo do braço.
— Caminhe comigo. — Ele disse, e eu obviamente o acompanhei. Era impossível não adquirir o hábito de seguir às ordens do professor depois de passar tanto tempo com ele.
Andamos pelos corredores do complexo. O Professor levou um momento para pensar e conceituar mentalmente seu discurso enquanto andávamos aparentemente sem destino. Ele começou a falar quando viramos um corredor.
— Você nunca foi como os outros, Red, espero que saiba disso. Não é apenas o seu desempenho escolar, que admito rivalizar até com o do Gary, ou o seu trabalho aqui, onde nunca vi mãos mais firmes, não, não essas capacidades. Essas são apenas questões de diligência: já vi o mesmo em muitos outros, embora talvez não no mesmo grau que você.
Eu via jalecos brancos por toda parte. Cientistas e seguranças, curvando-se para um ancião corpulento. Eu assisti os cientistas atrás de nós procurando cartões de acesso para atravessar o posto de segurança pelo qual o Professor simplesmente passou andando, afastando os seguranças indicados pela Liga para longe como se estivesse limpando teias de aranha.
— É a mente que nos move. Para falar a verdade, Red, já estou de olho em você há um tempo — mais do que você imagina. Você é uma anomalia. O que você pretende fazer lá fora? Recuso-me a acreditar que uma vontade como a sua existe sem ambição para alimentá-la. Qual é sua ambição?
Tínhamos chegado a um laboratório vazio, cheio de grandes supercomputadores e máquinas piscantes. Parecia um santuário interno, uma lente pediu um código, que o Professor teve que completar para conseguir entrar. Talvez fosse minha imaginação, mas senti que podia praticamente sentir o progresso científico acontecendo enquanto estava ali entre as máquinas, o potencial dos Pokémon sendo explorado um pouco mais a cada segundo.
Eu queria me tornar um treinador, eu disse a ele.
O Professor bufou. — Andar um quilômetro é uma ambição maior que essa. Toda dona de casa possui uma Licença de Treinador hoje em dia. Não. Tem que ser algo mais.
Perguntei se ele tinha tanta certeza porque ele não me dizia então, já que minha resposta não valia de nada. Talvez tivesse sido mal educado, o Professor sempre foi um herói pessoal meu, e ouvi-lo menosprezar meu sonho doeu mais do que eu estava disposto a admitir, apesar de seus elogios generosos anteriores.
As sobrancelhas do Professor se ergueram antes de retornarem ao normal, ele suspirou e encostou as costas em uma mesa, com uma expressão que eu descreveria como envergonhada, se estivesse estampada em outra pessoa.
— Julgo que utilizei as palavras erradas. Não o convidei aqui para menosprezá-lo, Red, muito pelo contrário. Quero lhe oferecer um emprego, no meu laboratório.
Como você pode imaginar, fiquei um pouco chocado. As pessoas estudavam anos para ter a chance de concorrer a uma bolsa no laboratório do Professor. E só a nata conseguia atrair a atenção do Professor, e isso depois de anos de trabalho no campo. Se eu conseguisse uma bolsa de pesquisador sem um diploma seria algo completamente sem precedentes. E eu conhecia o Professor. Ele não faria essa oferta de brincadeira. Você teria que ser louco para dizer não.
Mas eu disse, eu disse não.
Era obviamente uma resposta à qual ele não estava acostumado, pela carranca que fez. Mas, como um bom cientista, ele recolheu esses novos dados, e retomou o fio da meada.
— Você deve se tornar um treinador, então. É algum ginásio que chamou sua atenção? Sei que não são os Rangers, a marinha, a polícia ou a milícia; caso contrário, você simplesmente teria conseguido uma bolsa de estudos facilmente — O Professor continuou, procurando respostas na minha declaração em branco. — Eu simplesmente gostaria de entender seus planos.
Eu procurei aprovação no rosto do Professor quando comecei a explicar meus planos, mas senti um crescente desconforto ao ver o rosto dele enrugar em uma expressão de desaprovação.
— Você está disposto a começar sem Pokémon ou Pokedex? — Ele perguntou baixinho, uma nota de descrença em sua voz. Ele tinha um bom motivo. Tentar me tornar um treinador sem um Pokémon inicial era uma jogada arriscada, na melhor das hipóteses — eu teria que pegar um selvagem e treiná-lo ou capturar um selvagem cujo preço de venda pudesse me dar o dinheiro suficiente para comprar um inicial, ambos eram negócios perigosos que exigiriam que eu me aventurasse na selva sem um Pokémon para me defender. Mas, eu tinha confiança na minha habilidade. Passei toda a minha infância na floresta de Pallet e sempre obtive a maior pontuação nos exercícios de caça e rastreamento na escola.
Eu disse isso e o Professor caiu em pensamento silencioso mas furioso. Ele apertou o queixo e balançou a cabeça negativamente.
— Não. Não, isso não vai ser bom. — O Professor virou-se para a mesa e abriu uma das gavetas. — Eu tenho um novo trabalho para você, Red, um que acho que você aceitará.
— Johto acabou de lançar a sua nova Pokedex de segunda geração há alguns meses, você deve lembrar. — O Professor disse. Eu assenti. Ele mostrou a Pokedex na mão. — Bem, ela está recebendo ótimas críticas, então o conselho de pesquisa tecnológica de Kanto começou a me pressionar para rivalizar com eles, interessados em uma competição amigável, pelo menos é o que me dizem. — Ele encolheu os ombros. — Cá entre nós, metade dos membros do conselho é separatista, por isso tenho certeza de que há alguma coisa política do tipo minha região é melhor que sua região acontecendo. No entanto, eu decidi concordar e acabar logo com isso, então aqui está: a segunda geração da Enciclopédia Pokémon de Kanto, com mensagens ilimitadas, desbloqueio por touch, joguinhos e todas as outras bobeiras que fizeram os treinadores de Johto babarem.
O Professor a colocou sobre a mesa e empurrou-a em minha direção.
— O problema é que ainda não foi testado por ninguém. Tenho certeza de que resolvi todos os bugs, mas cuidado em excesso nunca é demais. Eu gostaria que você ficasse com ela e escrevesse uma resenha depois. — Seu rosto então tomou o sorriso que o tornara o visitante favorito na escola de Pallet. — Eu não vou pedir para você fazer isso de graça. Que tal uma cópia antecipada e a isenção da taxa para o exame inicial de treinador?
Eu não conseguia falar. Foi perfeito. Foi a melhor coisa que alguém já havia feito por mim. Mas eu tinha que agradecer e recusar.
Que?
Claro que você não entende. Você nunca foi pobre. Quando você vive sem muita coisa, seu orgulho se torna tudo que você tem. Eu nunca havia aceitado caridade e não era hoje que eu começaria aceitar. Acreditava que se eu aceitasse, eu prejudicaria tudo que minha jornada representava.
Felizmente, fui impedido de cometer o maior erro da minha vida por ninguém menos que meu rival, atravessando a porta bem naquele momento.
— Eai, esse é um baita de um acordo, ein, Red. É melhor você não ser estúpido de recusar. — Blue falou esticado e com o sotaque característico da cidade rural de Pallet. Sua fala foi se tornando mais informal gradualmente, reflexo das tardes que passara com os oficiais da Milícia e dos Rangers. Seus braços estavam confortavelmente dentro da jaqueta, um pacote com uma tira ao redor do cotovelo. O Eevee de Blue, um inicial raro que sem dúvida fez o Professor suar para conseguir, seguia atrás dele obedientemente. — Saca, não é como ele estivesse dando pra você. Eu também tenho, e pode acreditar que ele vai me dar uma novinha em folha caso seja lançada.
— Olá Gary. — O Professor respondeu, acrescentando muito secamente. — Boa tarde para você também.
— E aí vovô. Aqui está o seu pacote, ou seja lá o que for isso — Blue jogou o embrulho em uma mesa, onde aterrissou com um estrondo. O Professor estremeceu. Blue me deu curto aceno com a cabeça. — Vovô me contou sobre o leve choque que você levou, então passei na sua casa para ter zoar por ter sido derrotado por um rato amarelo. Cheguei a tempo de ouvir você falando essa besteira de ir pra Viridian. Se liga, eu comecei na frente, com um Pokémon bom e raro. Como você espera me alcançar indo obter sua licença em Viridian? Vai economizar para a Pokedex e treinar um selvagem? Nem se de o trabalho. Se você fizer isso, eu já vou estar na metade da liga quando você começar.
— Gary pretende desafiar os Ginásios de Kanto. Ele já até contratou um mentor. — O avô explicou. Não havia orgulho em seu tom, mas o fato do professor sentir interesse em mencionar isso era revelador. — Ele diz que pretende desafiar a Elite dos Quatro.
— Pode apostar que vou. Irei me tornar o Grande Campeão, cara, Hall da Fama. — Blue sorriu. — Você vai me ver sempre que abrir sua carteira e pensar ''cara, eu queria ter aceitado aquele acordo quando eu era mais novo'' — A expressão de Blue mudou rapidamente de descontração para uma carranca. — Você não quer ser esse cara, Red. Aceite o trabalho.
Eu gostaria de dizer que passei muito tempo lutando com meus desejos conflitantes, meu orgulho e meu sonho, mas o tempo que passei ponderando foi uma desilusão. Minha mente já havia decidido no momento que Blue entrou naquela sala como o rei do mundo e de todos que habitam nele. Arrogante ou ambicioso, certo ou errado, eu queria isso, e queria muito. Qualquer atalho que me aproximasse desse objetivo eu pegaria, e foda-se o custo.
Hesitei por poucos segundos e silenciosamente peguei a Pokedex. Um grande sorriso provocativo se espalhou pelo rosto de Blue e ele me deu um tapa nas costas. — Esse é o espírito, Red! Carpe diem, faça ou morra, que se fo — Ele olhou incisivamente para o avô. — que se exploda as consequências. Quem quer viver para sempre?
— Menos, Gary. — O professor disse sarcasticamente, um sorriso irônico torcendo seus lábios. — Vou mandar trazer o exame.
— O que? Ah cara, você tá de brincadeira? Aquela coisa bizarra? — Blue reclamou, obviamente não querendo deixar a papelada estragar o clima. — Vamos lá, vovô, nós dois sabemos que o teste é uma piada. Esqueça onze anos, eu passaria até com dois. Você realmente vai perder tempo com esse papel higiênico?
O Professor parecia pronto para rebater, então eu intervi rapidamente, assegurando-lhe que estava feliz em fazer o exame.
— Obrigado, Red. É bom ver que há quem aprecie o valor de seguir o procedimento.
Após uma mensagem em um computador e uma breve espera, uma assistente trouxe uma cópia do ECTP de Pallet, ou Exame de Certificação de Treinador Pokémon. A assistente era magra e alta, com óculos redondos e sapatos de salto alto, Blue se recusava a deixá-la sair da sala sem tentar conquista-la. Ela fugiu antes que ele pudesse pensar na próxima cantada.
Levei cerca de meia hora para terminar o exame. Eu não precisei olhar mais de uma vez para uma pergunta de múltipla escolha, e as respostas longas eram risíveis. O exame se focava mais em evitar Pokémon do que treiná-los. Eu teria terminado antes, se Blue não tivesse soltado comentários adicionais toda vez que eu virava uma página; aparentemente ele havia memorizado o exame.
— Oh, página três? Confira a pergunta 23, você vai rir.
— Apresse-se e vire, cara, há um erro de digitação na pergunta 45 que você precisa ver.
— Oh, você chegou nas respostas discursivas, ótimo. Ei Red, cara, olhe para o número sete. "Em que horário seria o melhor momento para atacar um Snorlax"? Quem faz essa pergunta com certeza nunca encontrou um Snorlax.
Terminei e levantei para entregar o exame, mas Blue rapidamente interceptou e o pegou antes que pudesse agir, lendo e folheando como uma criança impaciente. O Professor passou a mão no nariz e suspirou irritado.
— Certo, certo, certo, certo, — declarou Blue, em um tom de tédio. — Certo, certo, um errado, dois errados — caramba, Red, o capítulo sobre direito Pokémon estava faltando em seu livro ou o quê? — continuou — Certo, certo, certo e certo. Respostas discursivas estão longas, então provavelmente estão certas, ou pelo menos fazem sentido. — Ele entregou o exame avô, pegando um chiclete no bolso e colocando-o na boca. — É agora que agimos com suspense como se ele fosse reprovar?
O Professor pegou o exame e começou a folhear quase na mesma velocidade que seu neto. As mentes dos Carvalhos pareciam funcionar em velocidade impressionante. Ele lecionou enquanto lia. — Não, Gary, simplesmente existe uma coisa chamada não comemorar antes do — Ele parou — Não tem nenhuma questão errada aqui, Gary, sobre o que exatamente você estava falando?
— Eu considerei a pergunta dos pokesteroides anabolizantes errada porque é. A única coisa que ilegalizar eles fez, foi leva-los para a comunidade criminosa. Você sabe quantos Pokémon morreram por causa de Doces Raros misturados? Você sabe quanto dinheiro Kanto poderia ganhar legalizando e taxando-os? — Blue deu de ombros. — Quero dizer, eles não vão parar de usar mesmo, ilegais ou legais. Metade dos militares os usam. Tudo que precisa ser feito é legaliza-los, taxa-los e reafirmar a regra de não uso na Liga com testes, para que os competidores se mantenham limpos. Fazendo isso você mata a receita vinda do contrabando e venda criminal, reduz as taxas de criminalidade, mortalidade e cria uma nova indústria, gerando mais empregos e dinheiro para a Liga. Tudo de uma só vez.
— Os testes mostraram que os Pokémon que usam pokesteroides são quase impossíveis de serem reintegrados na natureza.— O professor argumentou. — E isso sem falar do problema do vício.
— Uh, o que? Vícios a doces puros são sempre psicológicos. Os únicos vícios reais surgem de doces misturados com narcóticos, que não seriam permitidos se os Doces Raros fossem regularizados!
Sentindo sinais de uma longa discussão, eu rapidamente me intromei para perguntar meu desempenho no teste. O professor piscou e olhou novamente para o meu exame antes de colocá-lo na mesa.
— Uma pontuação perfeita, como eu suspeitava. Assim como meu neto aqui teria obtido se ele não estivesse muito ocupado levantando bandeira para a legislação dos drogados.
Blue franziu as sobrancelhas. — O argumento de reintegração nem sequer é um ponto válido. É raro até para criminosos liberar Pokémon na natureza. Nosso objetivo não é mais a expansão? Esquecemos que foram os Pokémon selvagens que criaram os Continentes Negros.
Perguntei rapidamente quando eu ia conseguir meu Inicial. O Professor desviou o olhar severo de Blue e esfregou o queixo, pensativo.
— Infelizmente, Red, eu só pedi os três iniciais para a graduação e, é claro, Blacky aqui. — A Eevee de Blue, recusando-se a ser ignorada, pulou sobre a mesa ao lado do Professor. Ele a acariciou abaixo do queixo. — Além do Pikachu capturado ontem, não tenho Pokémon de nível inicial no rancho. Posso fazer um pedido hoje, mas vai demorar alguns dias até chegar.
— Isso é péssimo, parceiro. Eu estava esperando uma pequena batalha antes de ir. — Blue enfiou as mãos nos bolsos. — Ah bem. Talvez sua mãe possa tolerar você por mais alguns dias, não é? A gente se vê por ai. — Ele assobiou bruscamente para Blacky, que saltou da mesa para se acomodar a seus pés.
Blue estava indo embora? Perguntei.
Blue esfregou a nuca sem jeito. — Bem, sim. Eu só voltei só para entregar o pacote do vovô e respirar um pouco. Dica de irmão, Red: o macete para desafiar os Ginásios é ir devagar. Mais da metade dos perdedores que você vê nos noticiários são aqueles que tentam ir direto ao ginásio, atravessando as rotas com pressa e só batalhando com outros treinadores. Isso não funciona. É preciso de experiência. — Ele cruzou os braços. — Vou atravessar a Floresta de Viridian. Será um bom lugar pra treinar Blacky e esse novo Pidgey que capturei. — Só naquele momento que percebi a Pokebola extra presa no clipe magnético do cinto. — Ele sorriu maliciosamente — Talvez se você se apressar, poderá me alcançar em Pewter. Mas acho difícil.
Ele então me deu um dos mais falsos e bajuladores ''joinha'' da história da mentira e virou-se para sair.
Virei para o Professor e disse a ele que ficaria com o Pikachu. Pode chamar isso de rivalidade, ou apenas cansaço de ser sempre menosprezado por Blue. Naquela época, eu não fazia ideia do que aquele Pikachu significaria para mim. Naquele momento, eu simplesmente me recusei a deixar o Blue sair por cima de novo. Certamente isso serviu para esse propósito. Blue ouviu, retrocedeu um passo e olhou para mim com uma cara estúpida. O Professor apertou as próprias mãos, preocupado.
— Você tem certeza, Red? Não tive nenhuma chance de domesticá-lo. É provável que a última memória dele seja de seu ataque. Estou perfeitamente disposto a fazer um pedido urgente de inicial, se estiver preocupado com a velocidade de entrega. E eu não posso em sã consciência lhe entregar um selvagem.
Não havia como retroceder agora. A ideia já havia se enraizado na minha mente. Eu venceria Blue; e faria isso começando com um selvagem. Eu assegurei ao Professor que ficaria com o Pikachu.
Blue gargalhou. — Ah cara, vovô, Red falou então tá falado!
— Fica quieto, Gary! — O Professor falou, finalmente perdendo a paciência com seu neto. Ele suavizou seu tom enquanto falava comigo. — Red, você tem certeza de que não está agindo precipitadamente? — Ele pensava que eu estava cometendo um erro tolo, tomando essa decisão de sangue quente, e estava meio certo.
Olhei para Blue e vi algo completamente diferente. Havia uma diferença na maneira como ele olhava para mim, um desafio tácito no jeito como ele ficava de pé, com as mãos no bolso, o rosto brilhando em antecipação. Antes, eu era o que ele havia superado e deixado para trás. Agora, com essa ação ousada, eu era seu rival renascido, igual, respeitado, para ser prudente, para ser temido.
Naquele momento, naquele lugar, eu senti que podia escalar o pico do Monte de Prata para sentir isso novamente, de mãos nuas e de rosto ensanguentado.
Perguntei ao professor quão rápido ele poderia trazer o Pikachu até aqui.
Blue sorriu de orelha a orelha. O Professor ficou sombrio, rancoroso, quase frio. — Então não há como dissuadi-lo. Bem. Vou buscar o Pikachu e o dinheiro de seus trabalhos no rancho, quaisquer consequências a partir de agora são problemas somente seus. Já basta de lidar com crianças por hoje.
Menos de uma hora atrás, tal dura declaração do Professor teria me intimidado — agora, era o descontente zumbido de um mosquito. Ganhei muito mais do que perdi naquela conversa, senti.
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Passei em casa, é claro. Como não poderia?
Vocês dois não iriam entender, já que nunca tiveram pais, não do tipo real, que você sabe que te ama; aquele amor como a gravidade, a água corrente e o próprio tempo; um amor que não pode ser medido ou mudado por nenhum ser, ou força existente nesse mundo.
Não direi a vocês nada sobre a despedida que ocorreu lá dentro, nem uma palavra sobre o que foi dito, nem sobre os sentimentos que foram compartilhados. Descrever para vocês a sensação de deixar um parente é o mesmo que explicar cores para um cego, ou cantar para um surdo. Mesmo que eu pudesse, eu não iria faze-lo. Ver vocês, Rockets, apodrecer pela própria ignorância é uma visão muito mais agradável a meus olhos.
Um pouco depois, eu estava de volta à rua, infelizmente, o sol não estava nem perto de se por, estava bem no topo, arruinando aquelas cenas bonitas de uma saída dramática.
Andei até a beira da cidade. Entrei sem hesitar. Foi um breve minuto até chegar ao outro lado, um período durante o qual pareci me tornar hipersensível a meus arredores. Eu podia ouvir todos os carvalhos e o vento sussurrante. Eu podia sentir a grama e as ervas daninhas através das minhas calças de viagem e provar o gosto do verão seco de Kanto. Eu podia sentir o cheiro da minha alma de adolescente deixando o corpo.
Primeiro, meu pé direito atingiu a poeira da Rota 1 e depois o esquerdo. As minúsculas nuvens de poeira que levantei pareciam flutuar para sempre.
Olhei para trás e vi meu passado exposto em uma grande desgraça.
Olhei para frente e vi a eternidade.
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1) Alfaiate e Ferreiro: Devido ao ódio dos Pokémons por locais grandes de fabricação, produção em massa e poluição, os assentamentos — como Pallet — sem uma muralha ou milícias fortes, tendem a regular práticas menores como essa, essenciais para a vida civilizada. Isso levou a um grande reavivamento em pessoas habilidosas e especializadas, muitas vezes auxiliadas por Pokémon.
2) Documentários: Desde que a tecnológica de gravação foi legalizada, o cinema e a televisão sofreram uma explosão de interesse. Alguns artistas chamam de A Renascência do Video. Muitos filmes educacionais foram feitos para o uso escolar, incluindo biografias de figuras importantes, um grupo no qual os principais cientistas e pesquisadores estão definitivamente inclusos. Nesses filmes, o Professor Carvalho recebeu pouco interesse ou cobertura devido à sua personalidade não muito animada e discurso sucinto, por isso, não teve muito tempo em tela. Porém, ele é mencionado de entrevista e discurso sucinto, e não teve tempo extra na tela. Ele é, no entanto, mencionado em vários documentários do Professor Elm.
3) Coordenação Pokémon: O nome oficial para a ocupação em treinar Pokémon para competir em concursos. Muitas pessoas desinformadas e ignorantes chamam de nomes mais pejorativos como: Pokefan, Maquiadores de Monstros ou Pokegayzismo.
4) Exercícios de Caça e Rastreamento: Com o perigo iminente aumentando à medida que as cidades se tornam mais avançadas tecnologicamente, as aulas de sobrevivência rapidamente se tornaram obrigatórias nas escolas certificadas pela Liga. Essas aulas incluem a evasão e o rastreamento de Pokémon, sobrevivência, identificar sinais para retornar á civilização caso você se perca na natureza, e muitas outras coisas.
5) Continentes Negros: O nome plural para as grandes massas terrestres invadidas por Pokémon através do mar ocidental. Registros anteriores indicam que esses lugares costumavam ser divididos em países por humanos, a partir dos quais algumas comunidades unidas podem rastrear seus ancestrais e etnias. Nenhum contato relatado foi feito com nenhuma civilização humana além da nossa. Excursões pela Ásia Sombria, o Continente Negro mais próximo, são proibidas em todas as regiões e são classificadas como Traição sem Igual por todas as Ligas Pokemon. As únicas informações obtidas são de equipes militares altamente treinadas que atravessam o mar com pouca frequência para explorar a terra, que se tornou ainda mais pouco frequente nos últimos tempos devido às baixas taxas de retorno.
6) Sociedade: Cada pessoa é uma pessoa, uns treinam para batalhar, outras cobram cinco Idols por uma volta em seu Rapidash, outras passam dez aos em um mosteiro com um Shedinja ou um Dusclops contemplando a vida após a morte e a eternidade. Ou, como visto em maior quantidade em Sinnoh, veneram e adoram certos Pokémon. O que não falta nesse mundo é diversidade.
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