Melodrama

1 He's a tear in my heart


—Eu não aguento mais -ele diz sentando na poltrona, solta uma respiração frustrada e sem esperança.

—Nós prometemos que iríamos enfrentar isso juntos -falo. Ele balança a cabeça discordando. -Até conseguirmos dinheiro suficiente para sair daqui.

—Até lá seremos mortos, Alek, sabe disso.

Sento no seu colo e o abraço. Seu cabelo cheira a alguma fruta que no momento não consigo recordar o nome. Eu o amo tanto. Conseguiria enfrentar qualquer problema com ele ao meu lado desse jeito, no entanto, ele já estava machucado demais.

Já fora agredido sete vezes desde que estivemos juntos, onde duas delas precisou ficar internado. Ameaças, xingamentos, opressões, vivemos todos os dias. Quando assumimos o namoro, ele perdeu família, amigos, trabalho. Em um curto espaço de tempo, ele perdera tudo e precisou lidar com inúmeros outros problemas. Não importa o quanto me ame, ele já estava cansado demais de todos esses empecilhos ao nosso redor. O que acabou de acontecer apenas levantou essa questão enterrada em uma camada muito superficial da mente dele.

—Eu não faço ideia do que teria feito se não tivesse você -ele fala ao meu ouvido, sinto suas lágrimas caírem sobre o meu ombro. -Mas eu não aguento mais, Alek. Eu simplesmente não aguento. Estou prestes a perder o controle.

Abraço-o mais forte. Precisava nos tirar desse país o mais rápido possível, senão eu o perderia. Enquanto estou com ele, sei que tudo está no seu lugar e não me importo com nada mais. Queria que a mente dele funcionasse como a minha.

Quando vamos para cama, consigo fazê-lo dormir cantarolando uma irritante música para crianças. Depois disso, fico muito tempo olhando para o teto, penso no incidente da manhã e choro. Estávamos conversando enquanto voltávamos para casa e por um simples costume, ele, Dmitri, beijou minha bochecha. Então, tudo aconteceu muito rápido. Dois homens que passavam nos interceptaram e nos ameaçaram, eu achava que seríamos agredidos mais uma vez, porém, eles apenas disseram para aguardarmos e foram embora. Continuamos nosso caminho e chegamos em casa.

Dmitri, por apresentar um quadro de ansiedade e depressão forte, ficou muito nervoso e isso atingiu seu estado mental mais uma vez. Eu precisaria tomar muito cuidado com ele por algum tempo. Nesse estado, qualquer momento sozinho, qualquer objeto cortante, qualquer remédio fora do meu conhecimento, poderia fazer com que eu o perdesse.

Já tínhamos dinheiro suficiente para ir até algum outro país da Europa, mas ele só queria a América, nenhum outro lugar que não fosse América. Eu odeio a América. Para mim, qualquer lugar fora da Rússia serviria.

Passo a observar seu rosto. Seus traços fortes no queixo irregular e no nariz comprido davam-lhe uma expressão carrancuda que, ao meu jeito, eu aprendi a ver de forma meiga. Sua careca sempre parecia pedir por carinho e, nesse momento, resisto à vontade de acariciá-la. Já nos conhecemos há mais de oito anos e a cada dia eu descubro uma coisa nova nele. Hoje, foi o dia de perceber como ele morde o lábio regularmente enquanto dorme. Eu o amo demais.

Acordo antes dele. Tento não pensar muito no dia de ontem e desço as escadas do prédio. Alguma coisa parece errada quando começo a caminhar pela rua.

Mais uma vez, tudo parece acontecer muito rápido. Em um instante, estou jogado no chão sendo açoitado por um bastão, os mesmos homens de antes consigo deduzir. Não sinto dor. Na verdade, não sinto nada.

As pessoas sempre me disseram que, antes de morrer, minha vida passaria diante dos meus olhos. Porém, eu não vi a minha vida, eu só pensei no que aconteceria depois da minha morte e, de alguma forma, sabia que estava certo.

Consigo ver Dmitri me procurando pelo apartamento e depois descendo para me encontrar. Ele me veria ali, morto no chão e gritaria. Eu já não sentiria suas mãos tocando meu rosto, nem ouviria seu choro ao meu lado. Ele me abraçaria e diria o quanto me amava, então me beijaria. Contudo, ele também saberia o que aquilo significava. Ele subiria as escadas do prédio até o último andar chorando e ficaria em pé no parapeito da cobertura. Sentiria o frio lá de cima e pensaria que, pelo menos assim, ele não partiria sozinho e não me magoaria; talvez até me encontrasse no lugar para onde pessoas como nós vão e sofrem eternamente. Assim, ele deixaria cair uma última lágrima e partiria. Tudo muito rápido. Quem sabe eu tenha percebido tarde demais como qualquer coisa nessa vida passa rápido demais.

Tudo isso passa na minha cabeça enquanto as pancadas continuam a me martirizar. Até que uma com a força necessária aplicada, esmaga a minha cabeça. E assim, rapidamente, parto antes dele.