Melodrama

2 If I lose myself


Notas iniciais
:c

Não consigo parar em um lugar. As pessoas me empurram para lá e para cá, o som ensurdecedor parece controlar todos ali. Apesar de tudo, isso me acalma. Sinto como se toda a bagunça dentro de mim tivesse algum sentido nesse lugar caótico. Tomo mais uma pílula, a terceira da noite, só queria que fosse a última.

Continuo pulando, o suor escorrendo por todo o meu corpo e meu cabelo caindo sobre o rosto. A sensação de liberdade toma-me por completo, não tinha ninguém ali para me julgar e dizer: “Seu doente de merda, vai se tratar! ”. Pelo menos nessa última noite, eu seria livre.

A música fica mais frenética, ou o remédio mais efetivo, eu não saberia diferenciar. Com os olhos fechados, observo as luzes coloridas preencherem todo o lugar, meu coração acelera como nunca e eu sorrio. Balanço a cabeça ao ritmo das batidas enquanto pego mais uma pílula do meu bolso. Tomo-a e um segundo depois alguém coloca a mão na minha cintura. Não olho para trás, hoje nada importa.

Ouço palavras sem sentido ao meu ouvido e antes que eu perceba qualquer movimento, estou sendo puxado para fora da pista. Mãos fortes seguram-me como garras e não há nada que eu possa fazer. Grito para me soltar, esperneio, chamo atenção, mas ninguém parece me ouvir. Não ouço mais nada, apenas encaro o estranho a minha frente.

Seu cabelo ruivo é curto e desajeitado, enquanto seus olhos azuis parecem me repreender de alguma forma. Sua testa vincada e as sobrancelhas contraídas são tão familiares, porém, não o reconheço. Não conheço ninguém com o sinal marrom logo abaixo do olho esquerdo, ou com uma boca tão proporcional e vermelha, muito menos com uma barba ruiva muito bem feita cobrindo toda a base do rosto. Não o conheço, mas faria de tudo para isso agora, ele é bonito demais. Quero-o para mim.

Ele continua falando e parece gritar comigo, as pessoas ao redor afastam-se e em um instante estamos tendo uma briga no bar. Eu não falo nada, muito menos ouço. Só observo seus traços e me imagino beijando cada parte do seu corpo, não consigo parar de sorrir. Ele me daria uma chance? Muito improvável. Ninguém se interessa por mim, sou estranho e exótico demais para isso. Por isso, apenas fico feliz porque meus últimos momentos seriam encarando um homem como esse. Tomo mais uma pílula e ele tenta tirar a cartela das minhas mãos, encaro-o como se fosse louco. Ninguém me impediria essa noite.

Quanto mais ele fala, menos pareço ouvir. Talvez eu já estivesse perdendo a consciência. Encaro seus olhos azuis e algo neles desperta um sentimento dentro de mim. Sua boca que chama tanto a minha atenção para por um instante, então ao vê-lo estático sei que acabei de me apaixonar.

As luzes voltam a aparecer quando fecho os olhos. Concentro-me e tento ignorar a música alta preenchendo toda a minha mente. Preciso ouvir sua voz ao menos uma vez, quero conhecê-lo.

—Mad...

Sua voz finalmente consegue entrar na minha cabeça, tão forte, poderosa e autoritária. “Mad ”, meu nome. Queria pedir-lhe para sussurrar ao meu ouvido mais uma vez, mas minha boca não se abre para nada. Ele continua falando, contudo não está mais irritado. Ele está triste. Seus olhos se fecham e vejo lágrimas caindo pelo rosto, tocando o chão. De repente, eu sei que o conheço. Com essa expressão infeliz consigo lembrar, ele é apenas mais uma das pessoas que eu decepcionei.

—Ed...

Consigo falar. Eu realmente ainda consigo falar. Para ele, eu podia fazer qualquer coisa. Ele abre os olhos assustados e sorri. Seu sorriso lembra-me o porquê ele foi a pessoa por quem me apaixonei. E pensar que alguns momentos atrás, eu me apaixonei por ele de novo. Meu coração se aperta e já não consigo me controlar. Por que ele estava aqui? Choro. Ele coloca seus dedos no meu rosto e tenta enxugar cada lágrima tão cheia de dor. Enquanto isso, minha mão tira todas pílulas da cartela e as joga no bolso.

Sua mão acaricia minha bochecha e não consigo deixar de sorrir. Então, fecho os olhos. As luzes parecem mais fortes. Sinto sua mão, sinto as pílulas e então sinto seus lábios nos meus, urgentes, trêmulos.

Retiro todas as pílulas do bolso e seguro-as firme. Ele se afasta. As luzes estão mais agitadas, sei que não demorariam para me apagar. Abro os olhos uma última vez e sorrio para ele, meu amor. Tomo-as todas de uma vez e as luzes preenchem tudo dentro de mim. Não consigo dizer adeus.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.