Melancolia

3 Capítulo 3 - Verônica


Tenho me dedicado tanto a minha carreira que, infelizmente, pouco tempo tem me sobrado para ser a companheira que o Nelson precisa que eu seja. Ele tem sido compreensivo, mas sei que não tem sido o relacionamento que ele esperava.

O triste é me dar conta de que, embora lamente por ele, não lamento por mim. O Nelson é um homem incrível, mas o amor não aconteceu e quando penso nele é como o amigo ausente e não o namorado de quem deveria estar morrendo de saudade.

Por pior que seja assumir isso, a verdade é que o Érico ainda é dono dos meus pensamentos e dos meus sentimentos. Há muito tempo não tenho noticias dele, tenho viajado bastante para promover meu álbum e nas ocasiões em que me encontro em São Paulo, acabo jantando com o Nelson uma noite e o tempo que sobra passo em casa ao lado do Mauricio e da Santa. Meu empresário diz que essa semana as coisas vão dar uma sossegada e poderei aproveitar mais a companhia de todas as pessoas que amo.

Quer dizer, não de todas.

Mesmo correndo o risco de encontrar o Érico, esta noite vou ao Cantaí. Sinto falta daquele palco e daquele público. Foi lá onde tudo isso começou e sempre será lá onde eu encontrarei motivação para prosseguir.

Então, hoje é noite de Cantaí.

É bobo, mas me pego preocupada com o que vestir, indecisa entre algo mais Verônica e algo mais Palmira. Ultimamente tenho encontrado um meio termo entre ambas, mas a ansiedade por estar de novo naquele lugar e, mesmo não querendo admitir, a possibilidade de encontrar o Érico, está arruinando a minha cabeça e fica difícil pensar e me concentrar em qualquer coisa.

Não sei em que pé estão as coisas na vida dele, todos com quem falo são sempre muito delicados em não tocar em seu nome, então, sabe-se lá o que pode aparecer na minha frente. Espero não ter que vê-lo com outra mulher ou sendo estúpido com alguém. Há um tempo aprendi a não me deixar ser atingida por isso, mas depois de um tempo longe, já não sei o efeito que ele pode ter sobre mim.

Quando cheguei ao Cantaí, fui bem recebida por todos e inevitavelmente, enquanto cumprimentava todos, corri os olhos pelo lugar, procurando por ele.

Gostaria de dizer que fiquei feliz por não vê-lo ali, mas junto a sensação de alivio, algo triste assentou-se em meu peito.

Eu estava com saudades. Eu queria vê-lo.

E alguém lá em cima atendeu a minha secreta vontade, pois no momento em que subi ao palco, após poucos minutos no recinto, Érico entrou e se direcionou ao bar.

Ainda estava de costas para o palco e eu ali parada sem conseguir me lembrar do que estava fazendo ou notar todos os rostos me encarando cheio de expectativas.

Quando ele se virou e olhou diretamente para mim, meu coração já acelerado, descontrolou-se como se quisesse sair pela boca. Como era possível ainda amá-lo dessa forma tão devastadora?

Os olhos dele encontraram os meus e só me dei conta de que tinha deixado de respirar, quando Nelson se aproximou.

– Verônica? – ele perguntou.

Quando olhei para ele, seus olhos foram de mim para o Érico e a nuvem que cobriu seu semblante mostrou que ele havia entendido a razão da minha petrificação.

– Desculpe – pedi não apenas por meu comportamento, mas por tudo que ele significava.

– Tudo bem, eu entendo.

Ele se afastou e sentou-se junto aos outros que me aguardavam cantar.

Não me atrevi a olhar na direção do Érico novamente. Olhei para a frente, para todo o resto do meu público, instantes depois de fazer sinal para a banda e ouvir os primeiros acordes da minha primeira música de trabalho.

Durante os longos minutos que a música durou, não desviei o olhar do ponto invisível que estabeleci a minha frente. O Érico podia já ter ido embora, mas algo em mim me dava a certeza do contrário. Podia sentir os olhos dele queimando a minha pele.

Enquanto cantava, minha mente trabalhava numa forma de entender as coisas que li em seu semblante, naqueles poucos segundos em que ousei encará-lo. Seu rosto parecia mais ameno, a raiva que havia em seus olhos desaparecera e ele não parecia bem. Se fosse possível, apesar de tudo, diria que ele estava sofrendo por me ver.

Era ridícula a forma como isso me enchia de tolas esperanças.

Será que era esse meu destino? Alimentar-me das migalhas que a vida me dá?

Quando a música acabou e as pessoas aplaudiram, toda minha resistência desabou e o busquei entre as pessoas no balcão do bar e lá estava ele, ainda no mesmo lugar, o olhar buscando o meu, como se não tivesse sequer piscado desde que Nelson interrompera nosso momento.

Então, quando eu descia os poucos degraus deixando o palco, e abandonei seus olhos cheios de angustia, voltando a procura-lo em instantes, ele não estava mais lá.