Melancholy
14 Capítulo XIII: Decision
Notas iniciais
– Carry! _o ruivo segurou em seu braço com força, se não fosse pela jaqueta jeans, acabaria deixando a marca de seus dedos na pele fina da mulher _você precisa parar com isso.
– Está me machucando _ela resmungou tentando se soltar _me deixe em paz!
O impulso de apertar ainda mais os dedos foi refreado ao ouvir o lamento de dor, ele a soltou, mas não deixou que saísse do quarto.
– O que pretende com essa chantagem sem sentido? Vai mandá-lo de volta ao Japão só para ficar com o filho? Sabe que o Theo irá visitá-lo, sabe que ele pode vir quando quiser! Não será eu quem vá impedi-lo. O Daiki é muito bem resolvido quando se trata de sua família, infelizmente brigar comigo não o impedirá de nada em relação a vocês _foi sincero o quanto pode.
– Foda-se _abriu um sorriso que não condizia com a cena _só quero vê-lo sofrendo, não me importo se ele vai ou não voltar. O que mais faz mal para ele atualmente é você, desejo que o despreze ao ponto de fazê-lo definhar do outro lado do mundo!... vai fazer o que? _completou ao ver que não continuariam a conversar _se eu começar algum escândalo e não puder protegê-lo, só irei parar quando alcançar o que pretendo.
– Eu posso protegê-lo _disse com falsa segurança.
– Veremos.
Carry deixou o quarto 56 em direção ao elevador, visivelmente abalada ela entrou no mesmo sem cumprimentar as outras pessoas que ali estavam. Taiga ficou estático mirando sem foco a porta de madeira branca: testou os limites da mulher, agora tinha receio pelo o que estava por vir.
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– Uh! Não acredito que ele errou essa cesta _Daiki reclamou fazendo um gesto exagerado _caramba.
– O Golden States vai ganhar _Kise roeu a unha se arrependendo em seguida _esse jogo está incrível!
Mione olhou de forma discreta para os amigos sentada na outra ponta do sofá, depois da viajem do ruivo, Kise acabou ficando mais um dia e ambos a convidaram para assistir a partida das quartas de finais da NBA. O balde de pipoca jazia vazio nas mãos do moreno que mal piscava com os olhos grudados na tv e o mesmo seguia ao amigo; ela viu a nítida imagem de dois adolescentes de 17 anos, desejou que Taiga também estivesse ali, algo não fazia sentido sem o verdadeiro dono da mansão.
– Querem mais pipoca? _disse gentil ao constatar que entrariam no intervalo.
– Não se incomode, Mione _Daiki girou o balde de plástico no dedo indicador _eu mesmo vou até a cozinha, você é nossa convidada.
A mulher virou o rosto para o lado evitando ser vista com a bochecha totalmente corada, Kise acompanhou o amigo até o outro cômodo sumindo de vista. Ela aproveitou para ligar o tablet e fazer seu trabalho, entrou nas principais colunas de fofocas – era a responsável por domar os jornalistas que tudo diziam a respeito da vida de seu chefe – precisou de apenas alguns segundos para encontrar uma matéria pequena se passando por despercebida, porém infinitamente importante. O título era estarrecedor: Kagami Taiga, o ex-jogador numero 1 de basquete e seu triângulo amoroso.
– What...? _aproximou o aparelho dos olhos.
Kagami Taiga, 32 anos, recentemente visto na companhia do misterioso moreno de cadeira de rodas, agora fora flagrado na França, onde faz uma viajem com seus alunos da academia Shoot Stars, com uma das mães de seus alunos. A senhoria Manson negou qualquer envolvimento, mas as fotos mostram claramente a mulher deixando seu quarto de madrugada.
E abaixo da reportagem duas fotos, uma de Taiga e Daiki no restaurante de mãos dadas e outra de Carry entrando no elevador do hotel onde estavam hospedados. O texto ainda continuava.
Estaria ele aproveitando a viajem para tentar um affair com a moça? E quem seria o homem trazido do estrangeiro que atualmente sempre lhe fazia companhia? Muitas questões envolvem o jogador, mas isso não é de se surpreender uma vez que fora responsável por imensos escândalos amorosos durante sua carreira.
– Arg esses tabloides... eles podem qualquer coisa _abriu o e-mail da editora realizando o procedimento padrão.
Kagami pedira o maior dos cuidados assim que Daiki foi morar consigo, como esperado, o moreno estava com receio de virar notícia e envolver Theo. Nada de surpreendente, porém ambos sabiam o quanto a mídia poderia ser cruel e com tantas novidades ao redor do ruivo, bastava um depoimento de Carry – ou qualquer conhecido – para ele voltar aos tabloides e ser crucificado. Digamos que a fama de Taiga nunca fora uma das melhores, ainda assim mantinha boa relação com os fãs.
A mulher terminou o serviço e voltou a guardar o eletrônico, para ajudar Kise ainda rondava a mansão sempre que podia, com certeza teria o dobro de trabalho. Pelo menos Akashi entendera a situação.
– Mione, o jogo! Por que não chamou a gente? _Daiki a repreendeu com um sorriso nos lábios.
– Oras, jogou por anos e não sabe que o intervalo é de 15 minutos? _ergueu uma das sobrancelhas arrancando um sorriso discreto do mesmo. Tinha se acostumado a presença do novo morador e com certeza a mansão ficaria silenciosa sem ele.
Daiki achou que seriam os três piores dias da sua vida, felizmente o loiro lhe fez companhia nos dois primeiros partindo a noite para um dos muitos desfiles que faria no mês. Sexta-feira o moreno se dispôs a dormir até perto das 13 horas quando finalmente se levantou para almoçar e logo se prendeu ao trabalho; não tivera muito tempo para pensar na situação que enfrentava. Taiga e seu segredo, a suposta chantagem de Carry bem como sua viajem repentina, ainda assim acreditava que ficariam bem.
No período da noite, quando os olhos já ardiam pelo brilho constante da tela do notebook, o moreno descansou a vista apagando a luz do escritório e mergulhando no escuro que tanto amava. A única luz vinha de fora, de um dos postes pequenos no jardim.
– Taiga, vai ficar tudo bem _a afirmação que saiu mais como uma pergunta fez seu coração tremer, ainda existia muita mágoa dentro de si e estava se segurando para não botar tudo a perder e aperta-los – Taiga e Carry – contra a parede _volta logo.
Desejou por fim. De fato estava quase na hora do ruivo desembarcar nos EUA e ele prometeu voltar para casa o quanto antes. Eles se despediram com um ar não muito amigável, Taiga parecia nervoso talvez pela viajem, talvez por Kise, não sabia explicar, mas saiu sem o abraço apertado de sempre.
Daiki se sentiu terrivelmente sozinho. O caloroso menino de 17 anos as vezes parecia se esconder dentro do homem de 32 e pelo tempo que ficaram longe um do outro, ainda não aprendera a esquecer ou melhor, a aceitar que Taiga tinha mudado. Pouco é verdade, ainda assim as mudanças existiam. Era difícil dizer o quanto o próprio Daiki tinha deixado de ser, será que Taiga também enxergava tais mudanças em si? Ou em 15 anos tudo que ganhou fora apenas um corpo inútil e um coração covarde?
Sim, estava com tanto medo! E o medo trazia consigo a insegurança, uma pequena palavra rude de Kagami Taiga e seu mundo parecia ruir.
– O Daiki de antes meteria logo um soco _fechou o punho _mas o Daiki de agora depende de você.
A constatação fez suas bochechas pegarem fogo, que espécie de frase vergonhosa era aquela?! Se tornar dependente era nada mais do que ser um fardo e isso seu orgulho não permitiria. Desde o começo sempre soube que aquela vida a dois de repente poderia acabar e se isso acontecesse, voltaria para casa de cabeça erguida; Taiga sempre seria um homem livre.
O pensamento triste fez seus lábios se curvarem para baixo, se dar por vencido se entregando ao coração que insistia em doer parecia ser uma opção bem mais fácil do que imaginava. Buscou em seu notebook o álbum de música, mas ao contrario do que pensou inicialmente, acabou deixando tocar música eletrônica – não estava no espírito, porém era melhor do que se afundar em melancolia.
– Let me think about it _cantarolou enquanto via qualquer bobagem na internet, entrou em seu facebook escolhendo candy crush para matar o tempo.
Depois de cinco vidas perdidas e de repetir pelo menos umas três vezes a mesma música, já estava animado novamente, cantando no ritmo e fazendo as paradinhas da música com a cabeça.
– Touch me, feel me, then you’ll find…
– Amor?
A voz rouca o fez engasgar, Taiga estava sabe-se lá a quanto tempo encostado na porta o observando e isso fez seu rosto esquentar absurdamente.
– Juro que bati duas vezes antes de entrar _se justificou erguendo as mãos para o alto.
– Se foder! _tapou o rosto arrancando uma gostosa gargalhada do outro _quando chegou?
– Agora pouco, como você está?
Daiki ganhou o abraço que sentiu falta na partida de Taiga, o aroma bom do perfume de seus cabelos embaçou seus sentidos. Apertou os dedos um pouquinho mais só para ter certeza que aquilo era real.
– Ótimo e você?
– Bem _mentiu _oh, vendo o que ai? _levou os dedos até o computador, mas foi puxado de volta.
– Deixa isso pra lá, quero um beijo...
A voz cheia de desejo fez o ruivo se render, resolveu deixar as preocupações de lado apenas por aquela noite e então...
“E então mesmo que você chegue a me odiar eu irei te proteger” Repassou a frase duas vezes em sua mente. Era como trazer um filme qualquer para a vida real, não conseguia assimilar que estava de fato acontecendo em sua vida! Uma chantagem tão idiota por motivos que ele mal entendia, dias após dias pensando em como resolver e nenhuma resposta lógica chegava até ele. Poderia simplesmente ameaçá-la de morte ou fazer com que nunca mais conseguisse um bom emprego, claro, por que não? Ainda assim algo não o deixava agir, como se o baque da notícia ainda estivesse fazendo efeito.
Assim que chegara da viajem Mione o recepcionou no hall de entrada perguntando o motivo de Carry estar visitando seu quarto de madrugada – ela jamais desconfiaria da fidelidade de Taiga, porém também sabia que não permitira ser fotografado naquela situação – o ruivo apenas resmungou que não era nada demais, sua coragem de contar à fiel escudeira esvaiu assim que pensou na possibilidade. Foi imediatamente ao encontro de Daiki e novamente o que estava na ponta da língua fora engolido.
Taiga estava acovardado.
– ...o que foi? _o moreno desfez o contato _está com a cabeça em outro lugar.
– Um pouco cansado _deu um selinho rápido em seus lábios _já comeu?
– Hum ainda não e você?
– Vou tomar um banho enquanto você janta e te espero no quarto, pode ser? Quero muito dormir.
– Claro, ah... amanhã me conta como foi a viajem?
Ele sorriu, Daiki pode enfim notar a olheira e os ombros caídos. Aquela aparência raramente se via no energético jogador, mesmo quando acabavam uma partida longa de basquete.
– Prometo que conto tudinho. O Theo mandou um presente pra você _se lembrou de repente _vou pegar e deixo na cômoda.
– Taiga...
– Hn?
– ... _umedeceu os lábios _nada, vou comer e já te encontro lá.
Daiki sabia que algo estava errado e Taiga entendeu que ele queria perguntar, ainda assim ambos ficaram calados e deixaram o cômodo.
Depois de uma noite totalmente silenciosa – quando Aomine voltou ao quarto, Kagami já dormia profundamente – o dia seguinte não fora muito diferente. A viajem fora resumida em menos de 20 minutos se limitando basicamente as travessuras de Theo, o que de fato não era um mau assunto, porém não ficou sabendo nada mais. Sexo também foi algo dispensado, Daiki até tentou o acordar com beijos calorosos e passadas de mãos nada sutis e Taiga o empurrou discretamente dizendo precisar de um banho e café da manhã.
As atitudes frias que seguiram durante toda a semana eram notadas rapidamente deixando o moreno sem ação, perguntar não adiantava bem como se mostrar irritado. De qualquer jeito era ignorado. Como último recurso, acabou pedindo conselhos a Satsuki, dessa vez Kuroko estava junto, porém ambos nunca se viram numa situação sem sentido como aquela e pediram desculpas pela impotência; perguntaram gentilmente se ele não queria voltar ao Japão pelo menos por algumas semanas esfriar a cabeça.
Outra visita que veio a calhar foi de sua sogra, a ruiva pequena e animada invadiu a mansão com presentes nas mãos e um sorriso gigante nos lábios. Aomine não pode deixar de notar que era muito parecida com Taiga... pelo menos com o Taiga de antigamente. Ela ficou na presença deles pela manhã tagarelando sem parar e só decidiu deixá-los de tardezinha alegando que eles deveriam aproveitar o final de semana juntos em algum lugar afrodisíaco. As bochechas de Daiki ultrapassaram a cor vermelho vivo dos cabelos do companheiro. Antes de sair, talvez por puro instinto de mãe, ela pegou nas mãos calejadas do filho e disse ao pé do ouvido desejando que ele ficasse bem – Taiga quase cedeu se forçando a calar a boca no meio da frase. Ruth não insistiu e Daiki viu sua ultima esperança ir embora.
Na terceira semana após a viajem, Aomine já não acreditava mais que tinham um problema com Carry e sim que o problema era ele desde o início.
Tentando dar vida ao relacionamento que afundava cada vez mais em tédio e frieza, Daiki esperou o amado na quadra de basquete nos fundos da mansão, ignorou toda sua vergonha e olhares curiosos dos empregados se aquecendo com algumas cestas de três pontos. Eles jogariam – ou pelo menos iria tentar – até que o sentimento de tristeza fosse enfim arrancado de Kagami e ele resolvesse se abrir. O peso de estar no escuro seguido por um Kagami que ele não conhecia estava o deixando no limite.
Apesar do frio, Daiki vestiu roupas apropriadas para o basquete e deixou a cadeira de lado se colocando em pé para lançar, acertou todas as cinco até ouvir o barulho do carro na garagem ao lado, suas mãos tremeram de leve e a bola rebateu no aro.
– Que bosta de cesta uh, Daiki _disse para si mesmo enquanto caminhava lentamente até o outro lado da quadra.
Mione tinha a missão de trazer Taiga até a quadra, sabia que ela iria conseguir e esperava que o ruivo enfim sorrisse.
O barulho do salto alto se aproximava, o moreno desistiu de recuperar a bola e esperou por ambos no meio da quadra tomando o cuidado de ajeitar o cabelo já quase grudado pelo suor.
– Oi! _estalou os dedos num gesto de nervosismo quando Taiga apareceu em seu campo de visão.
– Entregue _Mione deu uma rápida piscadela para o mais alto antes de dar meia volta e se afastar.
– Vamos jogar? _retomou sua caminhada até a bola, eram apenas alguns poucos metros _sabe que não perco pra você mesmo agora.
E enquanto falava Kagami permanecia calado, parado à porta da quadra. Aomine percebeu, claro, ignorou ao máximo levando a situação nos ombros e rezando para que terminasse como o planejado.
– Tudo bem, Taiga? _se abaixou para pegar a bola sentindo seus joelhos cederem de leve, apesar da dor, se levantou.
– Hn... _resmungou.
– Vem! Tira essa jaqueta pesada e corre até aqui.
Ele tentou seu maior sorriso, sua expressão toda gritava: Amo você e quero que fique bem. Mesmo sentindo tantas dores no coração quanto nos joelhos e tendões, Aomine quicou a bola o desafiando.
Taiga viu ali a oportunidade perfeita.
–---------- flash back -------------
O ruivo saiu do banho apressado com o celular que não parava de tocar sobre a pia do banheiro, atendeu quase no ultimo toque.
– Kagami _a voz fria de Carry gelou sua espinha _viu que foto maravilhosa está rolando nos tabloides? Eles querem uma entrevista comigo esse final de semana.
– Do que você está falando? _conteve a voz ao lembrar que Daiki poderia estar no quarto.
– Sugiro que pergunte a sua... detestável Mione, por enquanto ela está fazendo um bom trabalho tentando esconder sua relação com aquele inválido, mas não conseguirá barrar o assédio quando eu der qualquer entrevista. Minha mãe está acima de qualquer juiz se você tentar algo.
– Carry... por Deus você nunca mais vai conseguir trabalhar em lugar algum se continuar com isso!
– Oh, que ameaça bonitinha, Kagami, não me preocupo com isso baby. Sou peixe pequeno para empresas. Você tem quatro dias.
– Estou falando sério _rosnou.
– Idem. Vamos ver quem se machuca mais? Vocês e Theo ou eu?
–------------------ flash back off -------------
– Taiga? Está com medo? _mostrou a língua arremessando a bola do outro lado e acertando _já comecei... por favor _disse baixinho se pondo a caminhar novamente.
Taiga acompanhava os movimentos do outro tristemente, o que lhe doía mais? Ver Daiki naquela condição física? Vê-lo se esforçando para fazer Taiga sorrir? Saber que ele pode virar alvo da sujeira de Carry? O que doía mais? Encontrou a resposta assim que abriu a boca para dizer o que tinha evitado até aquele momento.
– E qual a graça? Você mal pode atravessar a quadra, se liga.
Em passos largos passou ao seu lado rapidamente indo de encontro com a bola.
– Guarda isso e para de me fazer passar vergonha, seus dias de jogador acabaram sabe... mesmo que possa ensinar, não pode jogar. Eu poderia ficar aqui com você por horas, mas não quero te humilhar mais do que essa cadeira já faz.
Kagami não viu, mas nesse meio tempo Aomine se aproximou e quando estava perto o suficiente lhe acertou um soco no rosto, o impacto fez com que o ruivo cambaleasse e ao notar que tinha sido acertado, ergueu o rosto pela primeira vez na direção do outro.
– Coloque-se no seu lugar _e então o empurrou, ele sabia que se aplicasse qualquer força externa sobre o corpo frágil de Daiki, ele cairia sem poder se sustentar. Aomine se desequilibrou e caiu de joelhos, a energia que se propagou por toda sua musculatura foi proporcional a facas cravando suas articulações já judiadas pelo frio e esforço físico.
O ruivo deu a volta e saiu da quadra, seu rosto não doía, o não soco tinha sido pra valer. Olhou para trás apenas uma vez ouvindo os soluços incontidos de Daiki, se ele não voltasse ao Japão após isso, mandaria Mione arrumar suas malas.
– Acabou.
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– Papai, o que foi? _Theo apertou a bochecha de Daiki o fazendo rir.
– Você é besta? Que isso, eu aperto sua bochecha _tentou, mas Theo correu _oe! Theo... hum, o quanto você gosta de mim?
A pergunta infantil fez o garotinho pensar.
– Do tamanho do mundo? Sabe, pergunta clichê a gente responde com resposta clichê... brincadeira _voltou a sentar em seu colo _é difícil dizer!
– Gosto de você do tamanho de um sorvete de morango _apontou para a taça vazia _por isso acho que vou pedir outro.
O menor chamou o garçom fazendo um pedido duplo. Ambos tinham combinado de dar um passeio, depois daquela noite com Taiga o mesmo saíra e não tinha retornado até então. Carry também estava insuportável de acordo com Theo e foram buscar refúgio um no outro, a sorveteria tradicional era a preferida deles.
– Vamos ao parque depois? Assisti Harry Potter! Quero ir ao parque em Orlando, vamos?!
– Claro, senhor Potter, e iremos comer muitos biscoitos.
O menor não entendeu.
– Leia os livros depois _inflou as bochechas arrancando risos.
– Preguiça, são enormes! Então podemos chamar o tio Taiga? Ele disse que adora essas coisas, aposto que vai ficar se entupindo de tortinhas e cerveja amanteigada.
– Podemos perguntar pra ele depois _fez uma falsa promessa, apesar de a tristeza ter se instalado em seu peito, continuou a sorrir _e como está na sua casa?
– Hum... _esperou que o garçom servisse as taças para continuar _a vovó anda indo lá todos os dias e a mamãe agora está trabalhando aos finais de semana também. É bem chato... queria sair mais com ela.
– A sua avó não gosta de mim _afagou os cabelos macios de Theo _e sua mãe está fazendo o possível para te dar tudo o que precisa, sua avó não aceita meu dinheiro por isso a Carry está trabalhando mais.
– Por que ela não gosta de você?
Daiki fez um gesto de dúvida com as mãos, Theo refletiu em silencio por alguns segundos não conseguindo chegar a nenhuma conclusão plausível.
– Então... deveria dar um presente pra ela, as pessoas gostam de presentes.
– Acho que ela não vai ficar feliz com isso, gostamos de ganhar presentes de pessoas que amamos.
– Entendo. Dady look! _de repente apontou para a janela, mesmo no segundo andar o moreno pode ver quem estava do lado de fora, falando ao celular _é o tio Taiga.
Daiki sentiu seu coração disparar e querer sair pela boca, com certeza fora uma infeliz coincidência e a essa altura o ruivo já tinha visto seu Camaro preto bem como o motorista esperando do lado de fora da sorveteria. Desejou que nunca tivesse saído de casa, tinha tomado a coragem de pedir para um dos empregados lhe acompanhar para o passeio – o primeiro sem Taiga em quase três meses – mas agora aquela ideia lhe pareceu abusiva.
– Ele está ocupado _segurou no braço do menor impedindo que se aproximasse da janela _vamos deixá-lo em paz, ok?
– Ah... queria que ele viesse tomar sorvete com a gente _insistiu abaixando o tom de voz _é tão divertido quando estamos todos juntos. Não acha?
– Acho, o Taiga é uma pessoa incrível mesmo _disse já com pensamento longe _quando estamos ao lado dele as coisas parecem infinitamente melhor.
– Gosta mesmo do tio Taiga, não é?
O rubor surgiu na maçã do rosto, acabou olhando disfarçadamente pela janela mais uma vez e viu que Taiga continuava a bradar algo no celular. Queria acenar e pedir para que subisse, ganharia então um sorriso enorme deixando os caninos brancos a mostra.
Por que não podia ser assim?
– Gosto muito. Theo, sua mãe diz algo sobre ele?
– A mamãe... _fez um biquinho meigo _acho que não, ela raramente diz algo sobre ele, só sabe dizer o quanto te acha bonito _ele tapou a boca _ops, era segredo.
– Oh... uh, é assim desde que nos conhecemos. Sua mãe também é linda e você tem alguns traços dela, mas vai crescer bonitão como seu pai.
– ‘To sabendo!
– E me diz, por que ela anda brava?
– Sei lá, ela está irritada o tempo todo e brigando com a vovó sempre que elas se encontram. Não sei o motivo delas ficarem juntas lá em casa.
– Aconteceu alguma coisa na França? _a urgência de sua pergunta fez Theo se endireitar na cadeira e dar mais atenção a conversa.
– Acho que não, foi normal... ah, eu vi o tio Taiga conversando com um fotógrafo, ele parecia meio bravo. As sobrancelhas dele... _segurou o riso _ficam assim, é muito engraçado _e imitou colocando os dedinhos pequenos sobre suas próprias.
Eles deixaram a sorveteria algum tempo depois, Theo resolveu ficar na casa do pai lhe fazendo Cia, por algum motivo o menor entendeu que Daiki não queria que o dia bom terminasse, sua inocência não permitia perceber o clima melancólico, mas seu instinto era tão aguçado quanto o de um adulto.
Eles estavam na quinta partida de Naruto quando ouviu as chaves tilintarem na porta de entrada, Kagami precisou respirar duas vezes mais rápido para dar conta do susto de vê-los sentados logo na sala de estar. Não esperava encontrar Aomine logo de cara. Theo percebeu que o pai desfez seu sorriso e tentou uma abordagem indireta se aproximando do ruivo e lhe dando um abraço.
– Saudades, tio! Como está?
– Bem e você, pestinha?
O garotinho balançou a cabeça num gesto positivo e o puxou pela mão.
– Vamos jogar com a gente!
– Ah... e-eu...
Taiga sentiu a distancia entre eles diminuindo lentamente, Daiki olhava para si um pouco sem jeito e ao mesmo tempo com visível irritação; queriam, ou melhor, necessitavam dizer algo naquele momento, porém Theo impedia qualquer contato.
Se rendendo, o ruivo jogou uma partida e depois disse que iria tomar um banho e pedir que Angel fizesse algo para eles – alguma surpresa. Não trocaram nenhuma palavra significativa, uma única troca de olhares foi o máximo que o moreno obteve do amado. Sua angustia não poderia ser pior.
Kagami entrou no quarto e sentiu sua mente exausta, sentou na beirada da cama tapando o rosto com as mãos. Poderia dormir assim mesmo, naquela posição desconfortável. Aquele mês estava sendo o pior de sua vida, não tinha vontade de sair do quarto e toda vez que via Daiki a vontade de chorar lhe apertava a garganta. Depois de dizer aquelas palavras duras na quadra de basquete, tudo o que pode fazer foi sair de casa e se enfiar num bar qualquer, afogou suas preocupações e o peso de fazê-lo sofrer em quase mil dólares de álcool. Depois de refletir em meio a ressaca sobre o que tinha feito, voltou para casa encontrando pai e filho jogando vídeo game em casa; seu coração despedaçou. Seu plano de mandar Mione fazer suas malas para enviá-lo de volta ao Japão falhou miseravelmente.
Estava sendo estúpido em seguir os planos de Carry, maltratá-lo para protegê-lo? Qual o sentido? De qualquer jeito a ferida que estava abrindo em seu coração deixaria cicatriz e isso o moreno já tinha de sobra. A contradição aos poucos se tornava insuportável e o labirinto cada vez maior. Se não tomasse uma decisão firme de uma vez por todas, acabaria perdendo muito mais do que imaginava.
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