Melancholy
15 Cap XIV: Free!
Notas iniciais
O jantar aquele dia fora o prato preferido de Taiga, Daiki e Theo: hambúrguer. O trio comeu por cinco pessoas e Angel ficou horrorizada pela quantidade de maionese gasta – ela faria apenas legumes e verduras pelo resto do mês – após se entupirem e mais algum tempo no vídeo game, o garotinho se rendeu ao sono e foi levado para o quarto de hóspedes no colo do ruivo. Ele sabia que já era tarde, mas a desistência do soldado mirim significava ficar sozinho com Aomine pelo resto da noite e querendo ele ou não, era inevitável tocar no assunto da noite anterior bem como seus problemas.
Respirou fundo antes de fechar a porta e voltar para a sala, Daiki guardava os controles do playstantion quando sua atenção fora tomada pelo ruivo, ele pediu para lhe acompanhasse e foram se recolheram na suíte principal. Assim que Taiga girou a chave como de costume sua garganta travou e as mãos tomaram uma leve tremedeira.
O que eu faço? O que eu faço?!
A mente ruiva entrou em pânico, até um minuto atrás parecia decidido, mas agora com o moreno fitando sua expressão apavorada, perdera totalmente o rumo da conversa. Ceder ou não?!
– Me desculpe! _disse por fim deixando que a frase fosse praticamente cuspida _por ontem, me desculpe por dizer aquelas coisas, era mentira. Uma... mentira sem noção.
– ...tudo bem, Taiga, sabemos que teve um fundo de verdade, não é exatamente uma mentira _sentou na cama deixando suas costas enfim relaxarem no colchão macio _só quero entender o que está de fato acontecendo.
O silencio voltou a castigá-los, Aomine poderia dizer tudo o que estava sentindo naquele momento – raiva, decepção e principalmente angustia – entretanto decidiu deixar que Taiga se explicasse primeiro. Um ponto para sua maturidade. Por outro lado, Kagami parecia à beira de um colapso e tudo que saia de sua boca eram resmungos inteligíveis como pequenas explosões de sentimentos.
– Desde o começo eu confio e vou acreditar em qualquer coisa que diga, Taiga! Mas continuar nesse escuro, além do seu comportamento frio é pedir demais. Não tenho 17 anos, entendo muito mais da vida do que imagina, precisa me dizer o que está acontecendo! E não vou tentar te agradar pra isso _sentou na cama cruzando pernas e braços, sua voz autoritária deixava claro que a paciência fora alongada o máximo possível.
– ...antes de mais nada, meu único objetivo era... ainda é, manter minha promessa. Quando veio morar comigo disse que estava com medo do assédio da mídia e exposição de imagem _começou escolhendo as palavras minuciosamente _desde então a Mione vem fazendo o trabalho de vetar qualquer notícia que possa ser prejudicial, ela fica de olho nos tabloides por mim. Ah... aquele dia na praia foi a primeira vez que a Carry veio falar comigo e para a minha enorme decepção ela disse que não estava satisfeita com a nossa... maneira de viver. Ela se mostrou uma pessoa fria _fez uma pequena pausa esperando que Daiki fosse defende-la, mas ele continuou em silencio _cheia de rancor por você, por motivos que.. bom, não entendo muito bem. No final, ela me disse que estava melhor quando você morava no Japão, longe do Theo e... ameaçou provocar escândalos manchando a minha imagem e expondo a sua vida, além do Theo caso eu não te mandasse de volta para casa. Fiquei bastante tempo pensando... porra, como assim? Que chantagem barata é essa? Mas quando parei para pensar, faz tempo que não viro notícia e basta uma pequena foto ou palavra de terceiros para tudo vir à tona e detonar nós dois. Tanto eu quando a Carry sabemos que basta... _ele balançou a cabeça num gesto negativo _algumas situações difíceis e palavras duras para que você se machuque, que está aqui na América longe da sua zona de conforto e que eu sou seu único porto seguro. Sempre soube como te fazer sofrer e me usei disso esse meio tempo, mas... meu caralho, Daiki, isso está me matando.
E a essa altura as lágrimas de Kagami já rolavam soltas pelo seu rosto macio. Sua explicação longa fora ouvida com bastante atenção e as expressões de Daiki variaram entre o susto e a raiva. Ao se calar seu olhar, antes desesperado, agora estava perdido como uma criança pedindo socorro; tinha falhado miseravelmente em protegê-lo.
– Então... _coçou a nuca _a Carry na verdade não quer a minha presença por mágoas do passado e exigiu que você me fizesse sofrer ao ponto de eu desistir de morar aqui. E... Taiga, isso não faz sentido.
– Não acredita em mim?
– Claro que acredito, em todas as palavras. Mas... se fosse somente pelo Theo, mesmo te odiando eu ainda viria para vê-lo.
A respiração do ruivo acelerou, graças aos céus tinha aquela resposta.
– Perguntei a mesma coisa! Ela me disse... ela não gosta de você. Daiki, a Carry te odeia e está fingindo.
Kagami estava quase sorrindo, agora era só esperar pela confirmação do amado e pensar juntos num modo de fazê-la retroceder com a ideia absurda. O peso sob os ombros de repente esvaiu, os joelhos agora estavam leves e até arriscou se aproximar um pouco mais da cama sentando na ponta do colchão de mola.
– Disse claramente que o objetivo era te fazer passar por maus bocados, violência não é certo, mas agora entende aquele tapa?
– ...Taiga, não faz sentido.
– Como?!
Quase caiu de costas, como assim não fazia sentido? Carry sentia ódio profundo de Daiki, fez a chantagem e fim! Qual parte Aomine Otário Daiki ainda não tinha entendido?
– Por que agora? Já estou aqui faz quase... três meses, além disso, ela própria já me convidou para morarmos juntos e até contou toda a verdade sobre a sua mãe. Se fosse apenas uma farsa que estivesse montando, não contaria o lado podre da senhora Manson... nem se arriscaria em ficar perto, uma vez que ela não sabia do nosso relacionamento então eu simplesmente poderia aceitar o convite. Foi repentino demais não acha?
– Daiki! Ela me chantageou!! Ela... puta que pariu, foda-se sabe... isso quase me deixou louco...
– Ei calma, não estou dizendo que você está equivocado, as peças só não se encaixam!
Daiki projetou o corpo para frente a fim de alcançar Taiga, mas o movimento brusco travou suas costas e não pode conter o gemido de dor. Sua respiração pesou e os dedos percorreram toda a extensão lateral tentando aliviar o aperto no nervo, Taiga se esqueceu totalmente do assunto importante para ampará-lo – era o primeiro contato significante em semanas.
– Oe, você está bem? Onde dói?
– N-não foi nada... _apertou o braço do ruivo inconscientemente _já vai passar, acontece de vez... em quando por causa da falta de... exercícios _disse entre ofegos, mas logo se acalmou sorrindo encabulado _me desculpe.
– Deita, vou massagear pra você, ajuda?
– Não precisa, já está melhor... que dizer, estávamos no meio de um assunto importante.
– ...amor, perdão _o empurrou levemente insistindo para que deitasse _sou um idiota, olha a situação que chegamos e por muito pouco não brigamos. Vamos fazer isso com maturidade, quer dizer, falta isso só da minha parte...
O moreno deitou de bruços e abraçou um dos travesseiros, sentiu suas costas serem pressionadas levemente trazendo alívio.
– Eu só quero entender a situação... _começou com a voz abafada pelo objeto macio _para tentar resolver da melhor forma possível. Sei que parece bem... ai, ai! Cuidado a cicatriz é meio sensível.
Taiga já tinha reparado na cicatriz, entretanto estavam sempre no meio da transa com a atenção focada em outras coisas; fora esse momento Daiki sempre evitava tirar a camisa, mesmo na praia mantinha a peça de roupa consigo até o momento de entrar na água. Seu receio bobo era fácil de entender, sempre fora tão narcisista que ver algo daquele porte cortando suas costas – tinha quase 15 centímetros e se tornara visível – feria um pouco seu orgulho. O ruivo levantou a camiseta mesmo a contragosto do amado, a observou por alguns instantes antes de levar a ponta dos dedos até a mesma e acariciá-la.
– Todo herói tem sua medalha e com certeza é mais valiosa do que todas aquelas da sala dos troféus.
– ...para de falar essas coisas vergonhosas _resmungou escondendo o rosto um pouco mais _isso acabou com a minha vida.
Não teve contra-argumentos, nenhuma palavra de consolo traria de fato algum efeito para aquela tragédia. Se manteve em silencio.
– ...Taiga, por que não me contou antes sobre a chantagem? Agora não parece que foi a melhor coisa a se fazer?
Os dedos habilidosos do ruivo pararam.
– Achei que podia resolver sozinho, sem incomodar você, também fiquei com medo que fizesse algo desmedido. Me desculpe.
– Tudo bem, você tem o dom de ser a pessoa mais gentil do mundo... imagino o quanto deve ter sido difícil. Tanto esconder isso quanto... bom, você sabe.
Até aquele momento Taiga não tinha se dado conta de algo óbvio: Daiki o conhecia muito! E por isso fora capaz de confiar no ruivo bem como entender todas as suas atitudes estúpidas. Seu coração aqueceu e o peito estufou de orgulho.
– Fiquei mesmo com medo de algo acontecer, sabe é um assunto muito delicado, se a Carry quiser mesmo ela pode acabar com nossas imagens. O mundo das celebridades é bem cruel, Daiki, pode não ter muita noção, mas infelizmente é assim... somos todos reféns de tabloides. Vivemos basicamente com o dinheiro dos fãs.
– É verdade, não tenho noção, até achei uma coisa bem exagerada quando me contou por isso fiquei relativamente calmo... mas pra você estar fazendo essa tempestade então realmente algo grave pode vir acontecer, certo? _Taiga concordou com um aceno _e o que sugere?
– ...se eu tivesse a resposta, não estaríamos tendo essa conversa.
– Tem razão _resmungou.
Daiki abandonou a posição incomoda e voltou a se sentar, o ruivo o fitou com os olhos vermelhos e a expressão cansada. Toda a vitalidade do homem de 31 anos pareceu se esvair, era difícil dizer quantos dias não tinha uma boa noite de sono.
– Hn... Taiga, fico feliz que tenha realmente tentado me proteger, mas... ah _desviou o olhar para qualquer lugar _se for necessário, voltarei para casa.
– Dai- !
– PORQUE _o cortou _fala sério, desde que vim pra cá você não teve um minuto de sossego, está sempre acontecendo coisas desagradáveis... não consigo ser auto suficiente por isso acaba se preocupando em dobro. Sei que estou de alguma forma te atrapalhando, mesmo que pareça pequeno. Taiga, a possibilidade de você não se adaptar a isso ainda existe e vim pra cá sabendo dessa condição, então se for o melhor para nós dois, não tem problema...
– Não... tem problema? _disse entre dentes _não tem problema?! COMO NÃO TEM?! Não diga essas coisas tão facilmente, droga! Tudo o que fiz até agora foi justamente porque quero continuar com você! Posso não ter passado por nada muito difícil na vida ou simplesmente desconhecer as dores de um trauma, ainda assim pretendo me esforçar para isso dar certo... não é só por você... é por mim também. Aomine Otário Daiki!
A declaração fez o moreno paralisar, nunca esperou uma declaração repentina de Kagami Taiga.
“Ah... você não mudou tanto afinal...” pensou sorrindo minimamente.
– Hey, amo você.
Taiga ficou sem reação, tinha sentido seus 17 anos voltarem de repente e acabou falando demais, até o chamara de “Otário Daiki”. Sua risada saiu nervosa e as mãos perderam o rumo ficando no ar, ele queria responder alguma coisa, mas sua mente esvaziara.
Daiki estalou os dedos numa tentativa de fazê-lo voltar a realidade, o ruivo então engoliu seco e meneou a cabeça para os lados.
– Tem outro motivo de eu não ter contado antes _o outro esperou pela resposta com o olhar fixo em si _fiquei com receio de... de eu me dar mal também. Sei que é puro egoísmo, meu caralho, me desculpe Daiki. Não é como se eu não confiasse em você, apenas... eu apenas... _e as palavras faltaram.
Daiki abriu um sorriso torto.
– Tudo bem, eu entendi. É óbvio que para uma pessoa que conseguiu tudo isso na vida _se referiu à fama e ao poder do dinheiro _ser ameaçado dessa forma o faz se retrair, a defesa é a primeira coisa que lhe vem em mente. Não posso te culpar por isso.
– Você não teria feito isso _disse baixo.
– Não, eu não teria.... entretanto não somos iguais.
– Me perdoa?
Ele só podia dizer que sim. Claro. Então por que seu corpo relutava em reagir de forma positiva? Tinha ficado bem chateado com toda aquela situação, o que era irônico, pois se decidiu confiar no ruivo. Optou por um sorriso falso o que fora o suficiente para acalmar o companheiro.
– E como faremos agora?
– Vou falar com a Carry, ah não faça essa cara, acha que existe outra forma? Pois bem, vamos resolver isso juntos.
– ...vamos sim _resmungou.
A conversa que parecia tão importante de início perdeu o fôlego, agora que Aomine sabia da chantagem bem como as razões de Taiga tudo o que restava era pensar em como resolver – e pensar sozinho – acreditava que da sua maneira as coisas iriam se encaixar mais facilmente. Tomou seu lado na cama se cobrindo até a altura do pescoço, sentiu o ruivo se movimentar ao lado e apagar a luz; o silêncio estranho fez ambos caírem em sentimentos confusos.
Daiki estava chateado pelas atitudes do ruivo terem alcançado aquele estágio, ele era uma criança por acaso? Tudo bem que prometeu confiar no mesmo, ainda assim o peito comichava por um alívio e na garganta palavras presas lutavam para sair. Taiga por sua vez descobrira o quão inconformado poderia ficar em apenas uma noite, falar com Carry? Bom, ok eles precisavam mas... e essa reação apática diante um problema que quase o deixou louco? Onde estava o ódio e reações exageradas de Daiki?! Muito pelo contrário, parecia que o mesmo estava com pena da loira. Era ele quem ainda não havia amadurecido o suficiente ou o moreno estava o fazendo de idiota?
Provavelmente a primeira opção.
– Taiga... _abriu os olhos não enxergando nada além da escuridão _será que isso vai dar realmente certo? Quero dizer, nossa vida juntos.
A pergunta soou pesarosa, o ruivo congelou por alguns instantes.
– Claro que vai, prometo que as coisas vão melhorar _enlaçou sua cintura deitando a cabeça no abdômen malhado _me desculpe...
– Ainda estou chateado com você _e contrariando suas palavras, afagou os cabelos macios de Taiga _não temos mais 17 anos para que trate uma situação dessas... desse jeito.
– Achei que confiasse em mim _resmungou.
– Só estou te dizendo como me sinto, posso perfeitamente fazer o mais coerente _se lembrou vagamente das palavras de seu comandante na polícia _infelizmente o que sinto é irrefutável. Pânico, tristeza, amor, vaidade, tudo isso ninguém vai arrancar de dentro de mim. O que aprendemos na academia é ignorar qualquer coisa que nos venha atrapalhar... _ seus lábios se curvaram para cima de repente _mas com Kagami Taiga nenhum treinamento é válido.
– ...resumindo?
– Amo você e isso passa por cima de tudo. Me deixa sem chão, o racional falha; por isso agora mesmo estou chateado apesar de não ser o certo e não consigo deixar guardado.
– Você é só um ser humano como qualquer outro, relaxa. Sabe _se levantou ficando de frente para Daiki, mesmo não podendo ver um palmo a sua frente _não tem problema, vamos concertar isso! A vida é só uma, tão curta, tão vaga! Todos os dias eu saio de casa com medo que alguém tente me matar, no começo foi muito difícil me acostumar a ser o alvo de tudo e de todos. Aprendi o valor da vida com isso e foi... bom, foi por isso que do nada apareci no Japão, dando a cara à tapa. Não ligo se... as pessoas me odeiam eu só vou lá e faço o que acho melhor. Me perdoe por ter te tratado daquela forma, ah... apesar dos pesares, foi só pensando em você. Acredita em mim?
– E como poderia não acreditar?
– Amo você... puta que pariu, como eu amo você! Como essa droga de sentimento é deliciosa. Me deixe ficar ao seu lado, Daiki, mais uma vez. Mesmo que naquela época fosse cego pelo basquete...
– Hey _o cortou _já me rendi, pode me beijar agora.
Eles riram. Eles riram como se não houvesse amanhã – e talvez o sol realmente não nascesse, que sabe? – as intrigas e os sentimentos ruins que se esgueiravam pelas sombras do coração logo foram esquecidos. Perdoar, errar, amar, tudo faz parte de algo maior que devemos conviver eternamente. Aliviados, foram dormir com algo novo dentro do peito, um sentimento de liberdade que apenas uma pequena parte dos seres humanos podem de fato alcançar. Eles tinham um ao outro, eles tinham o amor e agora a liberdade para viverem de acordo com seus desejos.
>>>
Fale com o autor