Melífluo
4 Sherine
Notas iniciais
Sherine entrou no ônibus de cara amarrada. Com as mãos em punho, desejava seriamente não estar com o tornozelo enfaixado, a fim de poder pisar forte e estrondosamente, como uma criança raivosa.
Estava atrasada, com um trabalho incompleto e um tornozelo torcido. Tudo porque algum apressado não conseguiu enxergar sua bicicleta amarelo canário, atropelando-a. Qual a vantagem de gastar cinquenta reais a mais em uma cor tão berrante se o propósito inicial — manter-se o mais segura e longe de acidentes possível — não ocorria?
Estava de péssimo humor.
Com os olhos azuis faiscantes, vasculhou as cadeiras em busca de um assento vago. A porta já havia se fechado e o transporte público se encontrava em movimento novamente. O mais firme e menos cambaleante que pôde, dirigiu-se ao único lugar vago no fundo do ônibus.
Havia um homem no lugar ao lado, na janela, com a cabeça virada para fora e os cachos escuros escondendo-lhe o rosto. Sherine podia diferenciar um fino fio branco que partia do celular nas mãos do jovem e afundava em meio às madeixas abundantes.
Sentou-se e, com um suspiro prolongado, tirou um de seus cadernos da mochila que carregava e abriu-o sobre o colo. Levaria no mínimo uma hora para chegar à universidade, quase no limite da cidade, e tinha muito que fazer nesse intervalo.
Se havia algo pior que ser atropelada em plena segunda feira era o fato de possuir duas páginas de cálculos para acabar antes da primeira aula do dia em questão. Chegaria atrasada, mas o professor sequer notaria, contanto que ela entregasse o trabalho. Completo. Terminado por ela, e apenas ela, naqueles sessenta minutos agonizantes. Sem a calculadora humana que ela tinha o orgulho de chamar de melhor amigo.
Leo, seu colega de classe que, se não faltasse quase todas as aulas já estaria formado há dois semestres, era o mestre do cálculo avançado, a única classe que se dava o trabalho de comparecer. Na maior parte das vezes, ele a auxiliava nos trabalhos de casa, dando-lhe as respostas necessárias mais rápido do que ela conseguia digitar na calculadora eletrônica. Calculadora que, se por um acaso ela tivesse esquecido, jogaria todas aquelas quinze folhas para o alto e dançaria frevo em cima, pareando o senhor sentado na cadeira da frente.
Vasculhou sua bolsa, com o desespero crescente. Óculos, lápis, canetas, mais dois cadernos coloridos, o livro de sociologia, uma barra de cereal e uma toalha de rosto. Perfeito, pensou. Esqueci a calculadora e o celular em casa. Não que aquilo de fato a surpreendesse. Sentia-se grata por conseguir achar as chaves de casa na maior parte dos dias. Lembrar-se de trancá-la era o problema maior. Mais de uma vez chegara à sua casa assustada, sem saber se a porta estava aberta por ação do vento, de ladrões, de algum vândalo qualquer ou do maior de todos: sua mente desordenada.
Balançou a cabeça, descrente com a própria falta de sorte.
Suspirou. Abriu o segundo caderno em uma folha em branco, o lápis apontado pronto a ser gasto em cálculos enormes. Cálculos enormes que poderiam ser evitado se Sherine tivesse a mente clara e lembrasse-se de tudo o que precisava antes de sair de casa. Ou se não deixasse tudo para o último momento. Literalmente.
"Vamos calcular na raça, então." Citou seu professor de matemática do fundamental, que dizia inaceitáveis crianças de dez anos suplicarem para usar calculadora na resolução de divisão decimal.
Estava calculando penosamente a quarta linha daquela equação exponencial quando notou os olhos do jovem ao seu lado voarem de seus cadernos ao celular que tinha em mãos. O celular, que parecia de última geração, estava apoiado sobre um livro cujo título deixou Sherine receosa. O Andar do Bêbado. Por um breve segundo, pensou ter lido errado, convencendo-se que era um título demasiadamente bizarro. Então se lembrou de títulos piores, que encontrara certa vez em um site duvidoso na internet. E tentou afastar-se de ideias sobre o que se tratava a obra ao seu lado. Como prever o número de quedas e como evitá-las passou pela sua mente.
Seu vizinho, cujos olhos de um verde cristalino continuavam a alternar entre seus cálculos incompletos e o celular em mãos de maneira indiscreta levaram Sherine a formular duas teorias: ou a rotina do olhos-de-peridoto-líquido era tediosa demais e ele recorria a falhos cálculos alheios como novidade a ser enviada por mensagem de texto; ou ele estava sendo extremamente gentil e calculando por ela. Apostaria todo o dinheiro que tinha nos bolsos, o que era muito pouco, na segunda alternativa.
Arqueou uma das sobrancelhas em um questionamento mudo, mas o jovem não olhou para ela. Engolindo em seco, voltou ao cálculo manual, pensando que perdera a aposta. Felizmente, apostara consigo mesma e não envolvera o senhor que roncava em sua frente. Felizmente, não perdera oitenta e cinco centavos por uma conjectura estúpida.
Ainda tinha os olhos pregados nos números arredondados quando sentira a mão do rapaz em seu ombro. Relutante, virou o rosto.
Surpreendeu-se com o sorriso que a encarava. Percebeu que aquele gesto fazia pequenos sulcos nos cantos dos olhos, mas não o tornava mais velho. Somente mais belo. Percebeu também que ele guardara o livro do bêbado, e tinha um lápis na mão. Seu lápis. Reconheceu a borracha verde mordida, e corou com a ideia de ter deixado cair ao vê-lo sorrir. Somente então notou que seu lápis continuava em sua mão, escrevendo linhas desconexas no caderno de rascunho. Forçou-a parar.
"Posso te ajudar, se quiser." Disse-lhe olhos-de-peridoto-líquido. Sherine supôs que deveria perguntar o nome do jovem, mas gostava do apelido que lhe dera internamente. Combinava perfeitamente. Peridoto era a pedra presa no anel de noivado de sua mãe, que lhe prometera dar-lhe a joia quando fosse mais velha se decorasse o nome da rocha preciosa. A cor, de uma verde oliva, era inesquecível. Sua mãe queria que o nome, estranho, mas pronunciável, não se perdesse.
"Adoraria" Foi sua resposta.
Olhos-de-peridoto-líquido tomou delicadamente o caderno de cálculo em suas mãos e começou a escrever, olhando ocasionalmente a tela do celular. Sherine apenas observava, surpresa com o fato de que a maior parte do que havia calculado estar correto. Também estava surpresa com a letra do olhos-de-peridoto-líquido, estranhamente parecida com a sua. Os, números, pelo menos.
O lápis finalmente parou de correr quinze minutos depois. Ambas as páginas originalmente vazias estavam totalmente cobertas por cálculos aparentemente infindáveis, mas que convergiam para um único número. Enorme. Sherine não imaginou que o resultado fosse tão longo. Imaginara algo entre três e quatro dígitos. Não oito. Olhos-de-peridoto-líquido também parecia desconcertado, mas Sherine sabia que seu ponto era o próximo. Tentou parecer otimista:
"Muito obrigada. Salvou minha pele. Mesmo se estiver errado, ele vai considerar. Acho que foi o maior cálculo que eu não fiz!"
Ele sorriu.
"Claro que fez..." Ele leu o nome na capa do trabalho "Sherine. Só espero que não tenha errado nada no meio do caminho. É um número... suspeito." ele pareceu pensar por mais um instante, então murmurou "Deve ser coincidência".
Sherine guardou tudo apressada. Despediu-se e pôs-se de pé, esforçadamente, a esperar a porta se abrir.
O ônibus parou na frente do campus, e ela desceu cuidadosamente.
Estava vazio, mas um jovem a esperava parado na porta, impaciente.
"Leo!"
O amigo sorriu. Ligara para ele do hospital, enquanto era enfaixada, e ouvira suas palavras reconfortantes de como ele faria tudo dar certo, fazendo o resto do trabalho dela durante a aula.
"Sher, está vinte e três minutos atrasada. Se conseguir pular rápido acho que chegamos a tempo de terminar seu trabalho. Faltam somente duas páginas, não é?"
A jovem sorriu, enquanto mancava o mais rápido que conseguia em direção à classe de aula. Entregou suas folhas do trabalho para Leo, dizendo:
"Está feito. Pode conferir, por favor?".
Leo parecia surpreso. Ela esclareceu.
"Vim fazendo dentro do ônibus. Mais ou menos. Tive ajuda".
Seu amigo apenas folheava, olhando por cima em busca de números que parecessem demasiadamente destoantes. Depois de um tempo, um pouco antes de entrarem na sala com mais de trinta minutos de atraso, Leo estacou.
"Esse resultado não bate com o meu." Era o número de oito dígitos que a intrigara também. "Mas os cálculos parecem todos corretos e..." Leo começou a rir. "Ah, deuses, Sher! Copiou a expressão errado!" Ele tomou fôlego, como se fosse dizer algo importante, mas desistiu por conta da intensidade dos espasmos que percorriam seu corpo.
Aos poucos, a estranha gargalhada foi tomada por um sorriso autêntico.
"O pior que é o resultado está certo. Resposta certa à pergunta errada."
Sherine deu-lhe um tapa leve. Estava prestes a atingi-lo novamente quando ele ergueu um livro para defender-se. Ela franziu o cenho.
"O Andar do Bêbado? Você, Leo?"
Ele pareceu confuso por um momento, mas recuperou-se sorrindo novamente.
"Não é sobre o que se deve ou não beber. Ou como manter-se em postura. Ou não cair, ou o que quer que passe em sua mente. É sobre estatística."
Estatística?
"Estatística?"
"Exatamente. Você devia ler, na verdade. Para semana que vem."
Ela tomou o livro em suas mãos.
Sob o título, estava escrito em curvas: Como o acaso determina nossas vidas.
"É sobre o aleatório. Às vezes, as coisas acontecem não por esforço ou por planejamento. Só... por acaso." Leo explicou. "Por exemplo: talvez, se não tivesse sido atropelada, não teria ligado para mim, e eu não teria chego no horário, e você não completaria o trabalho, pois não estaria no ônibus. E tenho certeza que ser atropelada não estava em seus planos."
Ela assentiu.
Se não tivesse sido atropelada, não estaria naquele ônibus. Se não tivesse esquecido a calculadora, olhos-de-peridoto-líquido não teria ajudado, e o trabalho estaria incompleto, ela estaria ainda de muito mau humor e não teria visto os olhos mais lindos que já olhara até então.
Encarou o último resultado de seu trabalho.
Acaso?
"Leo? Empresta-me o celular?"
Ele o fez e Sherine, rapidamente, digitou aquela resposta equivocada. Apertou o botão chamar. Tocara uma, duas, três vezes. Estava prestes a desligar quando um jovem saiu de dentro da sala de aula com o telefone em mãos. Ele atendeu, os cachos escuros balançando em torno do aparelho. Ela reconheceu sua voz, de alguns minutos atrás. Reconheceu também os olhos verdes que a encaravam através do corredor, enquanto ouvia pelo telefone e ao vivo, a mesma voz melodiosa de sobrepondo:
"Oi. De novo".
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