Notas iniciais
Curtinho, mas feito com carinho.

15/01/2013

Ela estava sentada na borda da enorme fonte que adornava a frente do hotel. Admirava o brilho refletido pelas moedas que ali mergulharam. Buscava contar quantos pontos metálicos era capaz de encontrar naquela enorme banheira, imaginando quantos desses desejos já haviam se realizado.

Distraída, não notou o homem ao seu lado até este decidir falar.

– Quantas? — Perguntou o rapaz.

– Mais de cem — Respondeu-lhe.

– Com certeza, devem ter cem só naquele canto. — Retrucou debochado.

Iris olhou em sua direção, surpreendendo-se pela beleza do jovem. Se ele não tivesse aquele sorriso sarcástico nos lábios — que ela acreditava ser constante — devolver-lhe-ia uma explicação detalhada de suas observações, buscando, quem sabe, reconhecimento. Respondeu-lhe sucinta:

– São mais de cem nacionalidades. — Ela lhe sorriu dócil.

– Ah?

– Aquela, — Apontou para uma moeda que descansava sobre uma pedra no centro da fonte — Com certeza não é um dólar. Mas é diferente desta, mergulhou a mão e apontou para uma moeda grande e furada que ali decantava.

– Há quanto tempo está contando?

– Desde cedo. Meu ônibus não passou aqui hoje. Tive bastante tempo.

– É de onde?

– Daqui mesmo, senhor. — Pronunciou a última palavra despreocupadamente, mesmo sabendo que o jovem ao seu lado devia ser algo próximo de sua própria idade. Só queria tirar aquele sorrisinho do rosto dele.

Mas se ele se sentiu afetado pelo vocativo, não demonstrou, se limitando a erguer uma sobrancelha.

Ela sorriu.

– E o que faz, moça, a espera do ônibus de turismo?

– Eu... só pensei que fosse tempo de conhecer o mundo. E tinha que começar em algum lugar, não?

– E seus pais? Qual a sua idade?

– Dezoito. E acho que esta é a maioridade necessária.

Ele pareceu surpreso.

– É mentira. Eu tenho vinte. E um. Você deve ter dezesseis, no máximo.

Ela sorriu, alcançando a bolsa, de onde retirou uma carteira de identidade. Mostrou-lhe a carteira.

– Vê? 14 de janeiro de 1995. Tenho dezoito anos.

– Iris Smith.

– Sim. Mas o senhor? Não acredito que tenha apenas vinte e um. Acho que reduziu uma dúzia de anos, para me impressionar.

– E funcionou? — Aquele sorriso continuava zombeiro, com uma pontada de presunção.

– Não acho que você possa cantar vitória.

– Oras, o que preciso fazer? Mostrar lhe minha identidade? — Ele perguntou em tom debochado.

Iris deu de ombros.

– Então me deixe pensar o que quiser.

Ele suspirou. Retirou do bolso do casaco um cartão pequeno, lhe entregando.

– Um cartão de visitas? Um cartão de visitas?! Céus! A única pessoa que eu conheço e tem um cartão de visitas é meu avô. E, juro, ele tem mais de vinte e um anos.

Ele revirou os olhos e, com uma voz leve, ordenou:

– Leia.

– "Axel Vincent. Engenheiro Químico. Turma de 2012."

– Viu? Formei-me ano passado. Não acha que eu tenha reprovado uma dúzia de vezes, acha?

– Não... acho que não. Meus parabéns. — Ela lhe ofereceu a mão.

– Isso — Ele apontou para a mão dela, que continuava estendida. — É algo que só meu avô fazia. — E a puxou para um abraço.

Iris riu, enquanto se deixava abraçar aquele jovem que já não parecia tão mordaz. Chegava a ser... Agradável?

Ela se desenvecilhou dos braços dele, e lhe beijou a bochecha.

– Tenho que ir. — Apontou para um ônibus enorme e vermelho que estacionara na frente do hotel. Em sua lateral havia imagens de pontos turísticos da cidade.

Estava prestes a correr na direção do mesmo, quando teve uma ideia. Deitou-se na borda da fonte e, molhando a manga de sua camisa, alcançou uma moeda prateada, oferecendo ao seu novo amigo.

– Para se lembrar de mim, Axel.

Ela sorriu, acenando adeus enquanto se empoleirava para dentro do automóvel.

15/01/2014

Axel sentia a moeda pesar em seu bolso, enquanto caminhava, do mesmo modo que seu cartão devia ter pesado no dela, um ano antes. Talvez um pouco mais. Imaginava se ela lembrava-se dele do mesmo modo que se lembrava dela?

Iris... Iris, Iris, Iris. Era a deusa dos Arco-Íris, a senhora das mensagens. Grega.

Tomou a moeda em sua mão, revirado-a. Era antiga. E grega.

Axel estacou. Mas era tão óbvio!

Deu meia volta, sem saber se corria ou chamava um taxi. Resolveu não se apressar. Era só uma ideia.

Chegou em casa e encarou a pilha de papelada que lhe esperava sobre o balcão. Seu trabalho podia esperar. Tudo o que ele precisava era seu cartão de crédito. E um cartão de visitas.

Desembarcou em Atenas na mesma noite, os cabelos cacheados atiçados pelo calor e umidade. Mas se sentia desolado. O que pretendia, agora? Procurar por uma Iris, no país de origem de tal nome? Tolo, Tolo, Tolo.

Sentou- se em um banco, pensativo. De onde estava, podia observar uma fonte. Uma fonte com várias moedas no fundo. Uma fonte dos desejos.

Aproximou-se e pegou sua moeda. Deu lhe uma última olhada, enquanto jogava-a para dentro da fonte, pensando fortemente na moça que lhe dera. Observou a trajetória oblíqua do objeto, que girava e cintilava em direção à água. A moeda encontrou a água com um estalo surdo.

Axel estava prestes a desviar os olhos quando uma mão fina e feminina pescou a moeda, e a jogou em sua direção.

– E como pretende se lembrar de mim sem ela?

– Eu não preciso me lembrar de algo que vejo todos os dias.

– Você não me vê todos os dias.

Ele ergueu a mochila que comprara a caminho do aeroporto. Estava cheia de todo aquele material que seu pai insistira em comprar para ele quando, aos doze anos, decidira tornar-se escoteiro.

– Mas vou ver. A partir de hoje.

Isis sorriu.

– Ótimo.

E se aproximou dele, o abraçando com força.

Axel se afastou, tomando o rosto de Iris em suas mãos, hesitando a fazer algo que estava determinado a fazer desde aquele dia, um ano atrás. Olhou nos olhos de sua Deusa, em busca de consentimento. Quando ela fechou os olhos, ele, avidamente roubou-lhe um beijo. Longo, saudoso. Apaixonado.

Notas finais
Espero que tenha gostado!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.