Meine Shuld

9 Capítulo 9 - Pesadelo 9 - Honestidade.


As vezes, voltar ao passado é o único modo de se ter um futuro.

(...)

Francesca e Harumi desceram do carro, e passaram dirigindo pelo caminhão de mudanças, provavelmente agora elas teriam que desempacotar todas as caixas no seu apartamento, foi um inferno ter que passar pela imensa quantidade de caixas que estava em frente a sua porta, eles morariam no último andar, dos cinco que tinham. Em um bloco lateral, era bom, a porta deles era de frente com o elevador. A mudança já havia sido feita.

Harumi pegou as chaves da mão de sua irmã e abriu o apartamento, para a sua surpresa, o apartamento havia sido reformado, mas logo pensaram, que esse era o lugar onde a Comandante morava agora, não era de se esperar também, ela iria mandar fazer uma reforma geral mesmo. O apartamento era bom, para sua simplicidade de fora, três quartos, uma cozinha em peça única com a sala, com janelas, uma varanda e um banheiro grande. Não era ruim. Pelo menos Harumi havia aprovado.

— É mais ou menos nisso que todos os pilotos irão morar a partir de agora. — disse Francesca imaginando o que a irmã estava pensando enquanto levava suas caixas para dentro. — Enfim, não temos mobília por hora, amanhã iremos comprar tudo o que precisarmos. — explicou a mais velha, abrindo uma enorme caixa, contendo seus cobertores e travesseiros, e fazendo uma cama improvisada no meio da sala e puxando sua irmã num abraço apertado.

— GRUDENTA! — disse Harumi alta demais para ser ouvida só pela irmã, ela odiava quando a irmã se tornava carente. — Vá atrás de um homem mulher! Está calor e eu não quero ficar com seu suor no meu corpo. — mesmo que a garota ainda estivesse irritada, o sorriso ainda permanecia, uma característica dela era sempre esboçar um sorriso.

Francesca parecia se importar menos, ambas apenas trocaram de roupa para algo mais leve e se permitiram dormir, amanhã elas iriam para o centro da cidade e comprariam tudo o que precisassem.

Sono era necessário, depois de um dia de viagem por avião elas queriam descansar, a rotina das duas se tornaria bem intensa, agora que Harumi seria uma piloto. Um andar a baixo, onde seria uma das colegas pilotos de Harumi, se encontrava Evaline, dentro do seu próprio apartamento junto com seu guardião, a mesma não havia falado muita coisa com Himura desde que voltou do hospital, após ter visitado Shinji.

Himura tinha sua preocupação com a garota, mesmo que Evaline dissesse que não se importava muito com isso, Himura dava valor para a garota. Mas também sabia respeitar o espaço da menina, ela sempre foi tão compreensiva com ele também.

Himura estava sem seus óculos costumeiros, seus olhos castanhos tombaram o olhar sobre Evaline enquanto ela passava pelo corredor, com uma toalha na cabeça e indo para o seu próprio quarto, Himura se esquecia que Evaline não se importava de ficar nua em sua frente, ele sempre pensou que desde que ele se assumiu homossexual Evaline não o encarava como ameaça, ou algo do tipo, era divertido de certa forma. Não demorou muito tempo, e Evaline apareceu em sua frente indo em direção a mesa onde ele tomava café, vestindo nada menos do que uma camiseta solta e um short branco, ela nem havia secado o cabelo direito, ela puxou a cadeira e se sentou em sua frente, respirando fundo.

— Desculpa. — disse a loira repentina. — Sei que eu não falei com você direito, eu estava com muitas coisas na minha cabeça, e eu não sentia vontade de compartilhar com você naquele momento, então, sinto muito.

Himura apenas deu uma risada com isso, bom, Evaline nunca se desculpava em vão.

— Sem problemas, mas se me permite perguntar, por que você estava tão estranha ontem? — perguntou Himura, era raro a garota ficar abatida com alguma coisa, e a carranca raivosa dela não passou despercebido por ele. — É sobre Shinji? — ele perguntou talvez tentando arrancar uma reação da garota, Evaline sempre lhe contou a importância do garoto em sua vida.

— Sim. — respondeu Evaline, roubando para ela o restante do café passado de Himura, que não se importava com isso. — Eu fui visitá-lo, mas ele estava com pesadelos, e eu não conseguia fazê-lo acordar, estava me sentindo péssima, de certa forma.

— Então era por isso que você parecia abatida quando voltou pra cá? — perguntou o guardião, se levantando e indo em direção a pia, pegando outra caneca e fazendo outro café enquanto a ouvia. — Ele fez alguma coisa pra te irritar? Embora eu não ache que ele nem esteja em condições de fazer nada.

— Shinji nunca conseguiria me irritar Himura. — explicou a loira, colocando a caneca de lado e erguendo os braços, estralando os ossos. — O problema, dessa vez é que ele começou a ter um ataque, começou a gritar, como se o corpo dele estivesse queimando, isso com sua garganta ainda em recuperação. E eu não sabia o que fazer. Então, Asuka fez algo que eu deveria ter pensando em fazer muito antes.

Himura estranhou isso, o que ela queria dizer, ele instigou por mais.

— Explique o que ela fez pra te irritar, pelo o que eu lembro do que me contou, ela era umas suas únicas colegas que não me parecia ser uma pessoa ruim. — disse o guardião.

— Ela não é uma pessoa ruim. — Evaline dizia isso puramente lembrando dos tempos de treinamento. — Mas, ela confortou Shinji, ela se deitou com ele, de início eu pensei em matá-la por ter feito isso com Shinji sem que ele deixa-se, mas ele começou... A se acalmar lentamente, e provavelmente ela ainda está lá com ele, e eu estou aqui, reclamando pra você... — Himura sempre teve a noção dos sentimentos que a sua protegida tinha pelo garoto, mesmo quando crianças, ela sempre fez questão de se manter perto do rapaz. — E eu não consegui fazer nada, talvez se eu tivesse pensado em fazer isso, talvez eu pudesse tê-lo ajudado de alguma forma...

Himura a tirou dos seus pensamentos quando o celular dele tocou, ele viu a chamada, era Tobio. — Desculpa Eva, é o Tobio. — ela apenas assentiu, não fazia mais sentido falar disso de qualquer maneira. — Oi, quando você vai vir pra cá? — perguntou Himura para o namorado. — Semana que vem? Tudo bem, tem um quarto vago de qualquer maneira, mas você não prefere dormir junto comigo? — a voz de Himura parecia um pouco chateada, Evaline se esqueceu que Himura tinha um namorado quando chegaram, e então ele iria morar com Himura, consequentemente com ela.

Ela apenas deu uma boa noite para o guardião, a conversa entre os dois seria bem, bem longa. E ela não estava com cabeça para mais uma discussão calorosa dos dois. Seria mais fácil se os dois simplesmente admitissem que sentem falta um do outro. Ao invés de simplesmente se dizerem que o trabalho os separa.

Ela nunca deixou de pensar em Shinji, não importava o tempo e nem a distância. Himura também poderia fazer isso, se ele assim quisesse. Ela foi em direção ao seu quarto, que era de frente para o banheiro da casa. Ela pegou um edredom do armário, que era ao lado da cama, não queria assistir nada, ela só queria poder descansar um pouco, e organizar seus próprios pensamentos, ela tinha um teste em conjunto amanhã, ela não sabia com quem. Himura foi informado que agora Evaline teria testes com outras pessoas também.

Não que ela se importa-se, seria mais fácil mostrar quem era o melhor.

Ela tratou de ignorar isso, e se permitiu dormir, sem nenhum sonho ao menos.

Seus pensamentos foram direto, no entanto, ao rapaz que se encontrava agora um pouco sonolento em sua cama de hospital.

Shinji havia dormido quase um dia inteiro, com alguns tempos de consciência apenas, ele acordou pela manhã, Asuka estava com ele, ele conseguiu dormir, e quando acordou, Asuka ainda estava com ele. E agora pela noite, ele acordou mais uma vez, e Asuka agora estava praticamente usando seu peito como travesseiro.

Asuka, quando notou um mínimo de movimento por parte de Shinji, abriu os olhos, totalmente sonolenta.

— Shinji? — perguntou Asuka, se espreguiçando ao lado do rapaz. — Acordou de novo? — ela perguntou para ele, feliz por ele ter conseguido descansar ao menos, sem pesadelos. — Você está bem? Teve algum sonho ruim?

Shinji apenas negou com a cabeça, ele se inclinou um pouco para baixo. Para melhorar a posição de suas costas, estava cansado de ficar com a barriga para cima. Mas ele logo percebeu que ele não poderia virar ainda, suas costelas estavam com aquela massa preta ainda. Ele fez menção de erguer sua camiseta um pouco, para poder ver as ataduras.

Asuka arregalou seus olhos quando viu uma densa camada escura na lateral do corpo do rapaz, ela não tinha visto ainda.

— O que é isso? — perguntou Asuka, hesitante em tocar nas ataduras, não queria causar desconforto. — Isso é um tipo de pomada?

Shinji apenas negou novamente com a cabeça, sua voz ainda não estava boa o suficiente, mas ele conseguiu sussurrar as respostas.

— Akagi fez um teste, na minha cirurgia. — começou o mais novo. — Ela descobriu que a pele de um anjo, tem propriedades curandeiras, então é pra acelerar o processo de crescimento dos meus osso... Algo assim... Não vou fingir que entendo. — ele colocou a mão no ferimento.

A amargura na expressão de Asuka ficou muito clara pra ele quando ele tentou se mover, e fez uma expressão de dor quando tentou se virar.

— Shinji. — disse Asuka numa voz baixa. — Eu sei que você quer mudar de posição, mas não dá agora, por favor entenda. — ela sabia que era muito ruim ficar de um jeito muitas horas, era como se todo o sistema de circulação se redesenhasse e toda a córrego sanguíneo se mantivesse nessa linha, e quando fosse mudada, causaria um certo enjoo temporário, ou uma fadiga longa. — Você quer que eu busque alguma coisa pra você? Quer que eu chame as enfermeiras pra te ajudar?

Shinji apenas a olhou e deu um leve sorriso, ele não podia dizer que não gostava de preocupação honesta da garota, mas infelizmente ela veio por algo ruim, ele não sabia se devia aceitar ou não a gentileza.

— Então... Eu quero um pouco de suco natural, eu pedi para Akagi guardar uma jarra na cantina do hospital, é do lado da recepção. — explicou pra ruiva, a mesma apenas assentiu, e com todo o cuidado se desprendeu do corpo, e alisou o rosto dele uma última vez e saiu do quarto, Shinji suspirou cansado. — Eu esqueci de fazer qualquer coisa... Acho que deitar estava bom demais.

— É? Será que era porque eu estava aqui? — perguntou Asuka sem pensar, se arrependendo no segundo depois de dizer isso, mas Shinji parecia nem ter ouvido. — Eu já volto. — a ruiva se levantou e pegou suas sandálias em baixo da cama do garoto e saiu.

Asuka fez menção de olhar para os corredores, vendo se não encontrava alguma pessoa. Vendo que parecia deserto, ela desceu o elevador e foi em direção a recepção, bem como Shinji havia visto. Ela abriu a cantina, a chave estava na maçaneta de qualquer forma, era estranho, geralmente as chaves ficavam no depósito, controlado por pelo menos uma pessoa, mas vendo agora, ela olhou para o relógio, eram duas e meia da manhã...

— E Akagi ainda pensou adiante, imaginando que Shinji pudesse pedir alguma coisa para que eu fizesse. — disse a ruiva para si mesma, não havia ninguém ouvindo de qualquer jeito. — Francamente, ela previamente assumiu que eu me tornaria uma escrava em tempo integral.

Asuka abriu a geladeira, e tinha uma jarra de um suco de uva, intocável ali, ela serviu-se um copo e levou a jarra na mão. Essa era a sensação de cuidar de alguém, em algum nível?

— Eu estou me achando útil por buscar um suco. — a ruiva queria poder se matar. — Pelo menos, é uma ação legal, ao contrário das que eu estou acostumada a fazer com ele. — refletiu, e era verdade, era muito difícil pra ela fazer algum favor, ou algum bem pra ele.

Já para Shinji, ele nunca teve problema algum em ajudar o próximo, ele era uma pessoa boa, que não merecia nada do que aconteceu, mas ela foi tola e orgulhosa demais pra perceber isso. E agora ela teria um longo, um longo caminho pra refazer tudo.

E é claro que Shinji um dia, se assim quisesse, poderia pedir para ela ir embora, se isso fosse o desejo dele, se ela tivesse o quebrado de tal forma, que fosse impossível de se manter por perto, ela iria embora, com as mãos nas costas se preciso.

— Mas... Eu não quero ir embora antes te ajudar, pelo menos. — disse Asuka entrando no elevador. — Seria tão mais fácil se eu pudesse... Voltar no tempo, mas eu só estaria fugindo do problema que eu mesma causei, e isso é errado, Asuka! Prometi não fugir...

Ela saiu do elevador e foi em direção ao quarto do rapaz, Shinji havia se arrumado para ficar sentado ao menos.

— Voltei Shinji. — anunciou-se, indo em direção a ele, ela tomou um pequeno espaço da cama do garoto e serviu-lhe o suco. — Você pediu pra fazerem pra você? — perguntou enquanto o garoto sedento terminava, Shinji não havia bebido nada no dia todo, ele desse jeito iria secar a jarra.

— Eu pedi pra senhora da cozinha, quando ela subiu pra recolher os pratos de ensopado... — disse Shinji o mais baixo possível, Asuka estava se acostumado a ouvi-lo melhor. — É uma senhora muito boa, a propósito.

— Interessado em mulheres mais velhas, Shinji? — a questão foi contida com um leve veneno, não maldoso, mas de curiosidade mesmo, ela nunca perguntou realmente os gostos femininos dele.

Shinji ficou em silêncio, quando Asuka iria perguntar novamente ele disse numa voz baixa, quase abatida, o que ela tinha feito pra desencadear? Talvez a pergunta o tenha feito refletir e chegou numa conclusão ruim? Não sabia, mas estava começando a se arrepender de tentar conversar normalmente sem ter cuidado, ela não tinha mais esse direito, com Shinji, tinha que tomar cuidado com cada palavra, com cada frase.

— Eu não consigo nem me dar bem com garotas da minha idade, Asuka.... — ele começou lentamente, a olhando com um sorriso meio abatido. — Imagine com mais velhas, meus defeitos seriam ainda mais aparentes, eu apenas gostei da pequena gentileza que ela me fez, acho...

Uma coisa estalou na mente de Asuka com isso, em parte ela era culpada por esse pensamento triste do rapaz, desde que ela chegou, ela sempre teve a atenção de Shinji voltada para ela. E ela sempre soube que algumas colegas de Shinji tinham um interesse secreto por ele, em realidade, um interesse que Asuka sempre foi contra e sempre ameaçou qualquer harpia que se aproximasse dele, e ela sempre foi uma cadela doente em seu torno, Asuka sabia que ela sempre o desmereceu injustamente.

Shinji era um uma pessoa de muitas qualidades, mesmo que ele tivesse seus defeitos. E ela sabia disso desde aquela época, ela só não queria aceitar que seu coração estava palpitando pelo garoto com um olhar sério e ao mesmo tempo triste, ela sabia que não gostava das interações de Shinji com Rei, isso era apenas um indício de seu ciúmes doentio. E isso era triste para ela pensar agora.

Shinji tinha uma opinião baixa sobre seus relacionamentos, porque ela o desmerecia, e Asuka de uma certa forma era a única relação feminina que Shinji teve, isso lhe doeu, doeu por saber que ela causou coisas ruins para o rapaz, muito além da dor física.

— Não diga isso Shinji... — tentou o mais suavemente chamar a atenção, Shinji provavelmente estava divagando sobre as coisas cruéis que ela havia dito para ele. — Você é um menino bom, muito bom, muitas meninas gostavam de você, sabia? Eu acho que elas... Só não tiveram coragem de falar com você, com medo de você as rejeitar... Ou algo parecido, entende?

Isso levou o rapaz a olhar confuso.

— Asuka... Como você sabe disso? — perguntou Shinji, a curiosidade sendo muito aparente em seu tom de voz, Asuka ficou feliz por fazer isso com ele, significava que pelo menos agora ele não estava pensando em coisas ruins.

— Eu sou uma menina também, querendo ou não, eu fazia parte das conversas de meninas, e você era o único atraente de qualquer forma, e além disso, você era um piloto, era gentil e suave, quase como uma menina, você chamava a atenção delas mesmo não querendo. — em parte era verdade, mas em parte não, elas não chegaram a fazer nada com ele, porque ela as impedia e as ameaçava de morte quando uma finalmente decidia que iria convidá-lo para almoçar junto. — Não se coloque para baixo, certo?

— Eu... Vou tentar Asuka. — disse Shinji, um pouco feliz, ele nunca imaginaria que isso realmente aconteceria com ele, ele pensava que as meninas o odiassem. — Queria que elas falassem comigo pelo menos, se elas tinham uma opinião tão legal sobre mim.

Asuka apertou os lábios, deveria contar o motivo delas não falarem com ele? Não, definitivamente não, Shinji não confiava nela, e com razão, e dizer que ela o impediu de fazer amigas femininas além dela poderia colocar ela em uma posição ainda mais ruim com ele, e a única coisa que Asuka queria fazer era ajudá-lo.

— É como eu disse Shinji. — começou Asuka segurando sua mão agora. — As vezes quando temos sentimentos por alguém, temos medo de ir em direção a essa pessoa, ninguém gosta de ser rejeitado, ou de não ser correspondido.

Shinji apertou os lábios com isso, Asuka encarou isso com preocupação, dissera alguma coisa errada?

— Não minta pra mim, Asuka. — Asuka sentiu a mão de Shinji se afastar da sua e ir para de baixo das cobertas, Asuka o encarou confusa, e um pouco surpresa. — Eu sei que elas nunca conversaram comigo porque você as impedia.

Asuka engasgou com isso, e sentiu uma queimação na garganta, mas teve a coragem de falar.

— Como você soube? — perguntou a ruiva, tentando brincar com seus dedos, agora que não poderia segurar a mão dele.

— Quando eu me tornei o centro da instrumentalidade, eu tive acesso a toda a informação do ser vivo, por alguns instantes, eu vi a história da humanidade... — começou a explicar o rapaz. — Eu passei meus olhos pela história de cada ser vivo que foi para a instrumentalidade, mesmo que eu não tenha conseguido ver todos, a maioria passou por mim, e você não foi exceção Asuka, eu só queria ver se você... Confessaria isso...

Asuka repentinamente começou a se sentir péssima, Shinji deliberadamente estava dando chances para ela ser honesta? Não sabia, mas era claro que Shinji ficou magoado ao ela inventar histórias.

— Eu não queria mentir, Shinji. — começou Asuka dizendo num fiapo de voz. — Eu só não queria que você pensasse que você não era bom o suficiente.

— Então... Por que você fez isso? — perguntou Shinji, fazendo-a a olhar nos olhos, Asuka nunca havia visto olhos tão tristes quando os de menino, toda a fibra do seu corpo lhe dizia para pular e abraça-lo, mas ela se conteve, ele claramente não queria nada além de respostas.

— Eu... Tinha inveja... — começou Asuka, sem espaço para seu orgulho. — Você parecia tão triste, mas você nunca odiou ninguém Shinji, nem ao menos odiou o seu pai, e Deus me faça estar errada, eu penso que você não tem capacidade de odiar ninguém Shinji, e naquela época isso mexeu comigo... De uma maneira estranha.

Shinji se manteve em silêncio, Asuka entendeu que ele queria que ela continuasse. — Eu... Estou querendo dizer que, eu tinha medo de ser abandonada, e quando eu ouvia que elas, elas queriam passar um tempo com você, eu me senti ameaçada, de alguma forma, pensei que você se esqueceria de mim, mesmo não tendo nada comigo, e mesmo que eu nunca tivesse feito nada além de machucar e zombar de você, em algum lugar da minha mente, eu pensei que se você estivesse com outra pessoa, eu não poderia mas ficar perto de você, eu seria esquecida...

Shinji ainda ficava em silêncio, mas Asuka conseguiu perceber que ele teve um entendimento triste do que ela queria dizer.

— Eu sei que agora, você sabe da minha história, e hoje eu sei da sua Shinji. — disse Asuka. — E mesmo depois de você entender que minha mãe me trocou... Por uma boneca de pano, você nunca fez nada de errado para mim, você sempre foi doce, e eu sempre fui estúpida com você. E eu sei que, mesmo que você tivesse amizade com outras pessoas, eu sei que você não se esqueceria de mim, mas eu não entendia isso, ou melhor, eu não queria admitir isso para mim mesma, em algum lugar doentio da minha mente, eu pensei que fosse melhor me afastar de você, eu tinha medo de que você pudesse, se aproveitar das minhas fraquezas, ou algo tão ridículo quanto isso.

— É por isso que você nunca me aceitou? — perguntou Shinji, Asuka ergueu a cabeça para o olhá-lo, era possível ver um trio de lágrimas escorrendo pelos olhos de Shinji com o entendimento súbito. Ela fez menção de tentar fazer alguma coisa, mas Shinji falou novamente. — É por isso que você tentava me afastar de você?

Percebendo que pela primeira vez na vida, ambos estavam sendo honestos um com o outro, não seria ela a quebrar isso, pelo menos uma vez na vida, deixe-se quebrar para alguém.

— Sim, eu te afastei todas as vezes, pois eu tinha medo de que você pudesse usar meu passado, pra me machucar... Mesmo que no fundo eu soubesse que você jamais faria isso, eu ainda sim, tive medo, um medo idiota que me fez fazer coisas horríveis.

Shinji ainda chorava.

— E no final das contas, não importava quantas vezes eu te mandasse embora, não importava a dor que eu te fizesse passar, você ainda sim, mostraria o seu sorriso e ergueria a mão para mim, e eu te puxaria para se afundar em desgraça comigo... E mesmo que você soubesse disso, a cada caída que eu tivesse, você sempre esteve presente, e eu não sabia como lidar com isso. Eu preferi fugir, me afastar de você, você me dava medo Shinji... Eu sentia medo, mas ao mesmo tempo eu admirava você, a sua força de vontade, me manteve viva por muitas vezes. Eu queria poder ser forte como você, queria poder encontrar forças pra viver na época escura da minha vida, por um tempo, eu comecei a me sentir mal por não ser gentil com você, mas aos poucos meu coração começou a te aceitar, mesmo que eu nunca dissesse nada para você, eu sabia que eu estava começando a gostar de você muito mais do que eu achava que gostava.

Ela se levantou e pegou um pouco da cama do garoto, limpando as lágrimas com a ponta dos dedos.

— E quando o décimo quinto anjo apareceu, muitas coisas mudaram para nós dois. — ela disse amargamente, e levantou um pouco de sua blusa, ainda era possível ver, mesmo que com muito esforço, as marcas de mordida que a sua EVA sofreu, que se propagaram para ela. — Eu sempre culpei você, por não ter vindo me salvar, todos os dias depois daquilo, eu odiei você, do fundo do meu coração, eu queria te matar Shinji... Mas o desgosto comigo mesma era maior do que o meu ódio por você na época, e eu tentei me matar... Mas você me achou... E logo eu fui tirada daquela banheira pelos soldados da NERV, e fui colocada no hospital, e então você me visitou Shinji... E você se masturbou por mim... Eu nunca vou esquecer disso...

Desta vez, Shinji fez menção de abrir a boca, mas Asuka o impediu colocando dedos em frente aos lábios dele.

— Eu sei que você vai se desculpar comigo, eu sei que você vai. — começou Asuka. — Mas na instrumentalidade, eu vi o que você fez depois disso, você correu pra longe de mim, com nojo de você mesmo, e você se puniu sozinho, você começou a odiar a si mesmo depois daquele dia, eu sei o que passou pelo seu coração e pela sua mente... Eu vi que você não se importava mais com você mesmo depois disso, eu vi Shinji... Eu vi...

Uma voz resignada se fazia presente em Asuka, ela nunca pensou que fosse tão difícil falar de coisas dolorosas.

— E mesmo assim, quando eu me recuperei, você pediu minha ajuda, e eu não fiz nada pra te ajudar, eu culpei você por não ter me salvado contra a série EVA, mesmo que você não tivesse culpa, na época, você tinha acabado de saber que as nossas mãos estavam dentro de nossas EVAS, e que Rei era sua irmã... Clonada pela sua própria pai, pelo seu próprio mal maluco e doentio... E eu não fiz nada, além de te bater... E o fim do mundo aconteceu. E mesmo com todo o ódio que você teve que enfrentar, você ainda nos deu uma segunda chance...

— Você nos fez ter uma escolha, viver um mundo de ilusão onde tudo era perfeito, viver em um mundo com infinitas realidades e possibilidades diversas, ou voltar para o que sobrou do mundo, somente os fortes tomaram coragem de voltar Shinji... — disse Asuka, ela fez um caminho pelo rosto do garoto. — E quando eu voltei, a primeira coisa que me aconteceu era estar sendo enforcada por você... Mas eu sei que você não queria me enforcar... Você estava tendo ilusões de mim, você estava vendo monstros com a minha forma, eu não sei por quanto tempo você ficou sozinho nesse mundo Shinji, eu realmente não sei... Eu só sei... Que eu perdi o controle de mim mesma.

— Você cuidou dos meus ferimentos, dia após dia, você cuidou de mim, eu queria morrer novamente, mas você se recusou a me abandonar, e você se manteve comigo todos os dias, por meses Shinji, meses. Eu sempre te tratei mal, mesmo estando viva somente pela sua bondade, você me deu abrigo, você me deu seus remédios, e você me deu sua companhia, naquele fim de mundo... E eu não te dei nada em troca... Nada além de dor Shinji... E eu não queria aceitar que em algum lugar do meu coração, eu amava você há muito tempo Shinji. Eu tinha ainda meu ódio guardado por você, mesmo que eu tivesse visto que a sua EVA, não se movia, estava presa, e nem você conseguia chamar ela, e quando conseguiu, eu já estava morta, e o fim do mundo aconteceu de qualquer jeito, e lá estávamos nos Shinji, éramos as únicas pessoas no mundo. E eu odiava você... Com todas as minhas forças...

— Eu queria te causar dor Shinji, muita dor, queria que você sentisse o que eu senti. Mas isso era minha loucura doentia falando na minha cabeça, e o pior de tudo é que eu a ouvi. Eu ignorei meu coração, eu ignorei meus sentimentos e ignorei a minha razão, eu dei ouvidos a um ódio que não era merecido, que nunca foi merecido, e quando a nossa vida voltou ao normal, meses depois de tudo o que você fez para mim, eu comecei a machucar você, muito mais do que antes do fim do mundo... E você nunca tentou revidar... Na minha cabeça, era isso o que você merecia... E eu não conseguia parar depois de você me defender contra Misato, quando ela perguntou o que havia acontecido, eu não consegui... Eu continuei, te machucando, torturando você com palavras que não são verdade... Eu me tornei o seu maior inimigo Shinji, o monstro que te assolava na sua própria casa, eu ignorei tudo, eu só queria te machucar... E eu consegui...

— No final das contas, eu comecei a fazer bem mais do que te machucar Shinji. — Asuka não sentia mais sua voz direito, mas ela tinha que continuar. — Eu comecei a abusar de você, te abusar como mulher, a te usar como um brinquedo para as minhas próprias necessidades carnais... E eu não deixava você se sentir bem, eu não deixava você me tocar, quando tudo o que você queria, era um pouco de conforto, um abraço, uma companhia, eu neguei tudo a você Shinji, por muito tempo isso perdurou... Eu perdi a conta de quantas vezes eu zombei de você... De quantas vezes eu disse coisas horríveis pra você, coisas que me fazem ter pesadelos comigo mesma, por ter coragem de fazer isso com alguém tão bom como você... Eu nunca vou me perdoar Shinji, na minha vida inteira, eu sempre lembrarei do inferno que eu te fiz passar.

— Eu quase te matei, eu quase perdi você, pela minha loucura e pelo meu ódio que não deveria existir... — Asuka chorava como uma criança agora, e Shinji estava olhando para ela, atônico. — Demorou muito tempo para mim aceitar isso Shinji, anos de dor para nós dois, mas eu entendi... — ela se aproximou um pouco do rosto dele. — Eu nunca vou conseguir parar de te amar, seja nesse mundo, ou em outros... Eu vivi todas as minhas realidades, e em todas elas, eu sempre tive sentimentos por você... E em algumas, eu estava com outras pessoas na minha fase adulta, mas eu nunca liguei para elas Shinji, eu sempre pensei em você...

— E eu sei também que, o que eu fiz não tem perdão Shinji. — ela se afastou um pouco. — Não importa o que eu faça, isso não vai sumir, essas cicatrizes que você tem, e todas as memórias, elas não vão sumir, eu fiz isso com você... Eu sou um monstro que deveria morrer Shinji... Mas eu não posso morrer... Eu tenho que concertar o que eu fiz com você... Eu preciso te ajudar a superar toda a dor que eu te fiz passar, se eu fugir, eu serei uma covarde... E eu não quero ser isso... Eu cansei de fugir do que eu quero, e do que eu preciso Shinji...

— Asuka... — disse Shinji, num fiapo de voz, as lágrimas dele haviam voltado. — Por que? Por que? Por que só agora?

Asuka tremia. — Eu não sei Shinji. — sua voz embriagada provava isso. — Eu realmente não sei, eu demorei muito pra me entender, e ainda existem coisas que eu tenho que acertar na minha mente, mas eu quero que você saiba de uma coisa, pelo menos uma coisa boa, eu preciso que você saiba.

Ela pegou o rosto de Shinji, e mesmo que os dois estivessem desabando aos poucos, ela falou determinada. — Eu amo você Shinji, e eu sei que nunca vou deixar de amar, não importa o tempo e a distância, e não importa a realidade, quando eu fechar meus olhos, você vai aparecer nos meus sonhos.

Shinji ficou em silêncio, e aos poucos, ele começou a chorar, chorar como uma criança, e ignorando a sua dor, ele se jogou no colo de Asuka, buscando conforto, buscando um pouco de paz para a própria alma, ele queria poder entender tudo o que havia sido lhe dito, ele esperou anos por isso...

Asuka não se atreveria a negar nada a ele, ela sabia que Shinji sempre esperou por ela dizer isso, e a única desgraça disso, é que ele teve que quase morrer para isso acontecer. Quase morrer pelas mãos dela.

— Eu sei que dói Shinji... — disse Asuka em seu ouvido, numa voz protetora. — Eu sei que eu te causei dor... Chore o quanto quiser Shinji... Quando você acordar novamente, eu ainda estarei aqui... Estarei aqui o tempo que você precisar de mim, deixe fluir tudo... Eu... Eu cuidarei para que nada mais aconteça com você... Eu juro por você Shinji! Eu juro! — Asuka afagava os cabelos do rapaz lentamente, quase como uma mãe, e aos poucos ela só podia sentir as lágrimas dele escorrendo sobre suas pernas, e ele adormeceu ali, no seu colo...

Asuka tomou muito cuidado para virá-lo novamente. E fez um caminho dentro da coberta da cama dele, e lentamente, colocou suas pernas no meio das pernas de Shinji, tomando o seu braço esquerdo colocado ao seu corpo, ela se deitou em seu peito.

— Seu coração é tão forte. — disse Asuka sonolenta, tomada pelos batimentos dele, era como uma canção para dormir. — Eu quase perdi isso... Pela minha tolice, e pelo meu ódio...

Ela se aproximou com cuidado mais dele, deixando nada de espaço entre eles. Ela se permitiu se consumir pelo sono, a única coisa que fazia ela conseguir dormir, era o coração pulsante em seus ouvidos...

Sim, a única coisa que ela podia usar pra dormir, era saber que ele ainda tinha um coração.