Meine Shuld

22 Capítulo 22 - A Calmaria.


Sentadas na cozinha o clima estava estranho porém confortável, eram três jovens moças que estavam tentando se conhecer melhor ou se reconhecer nesse caso, o almoço estava muito bom, Evaline já havia elogiado a culinária das duas enquanto pegava seus pequenos palitinhos, ela tinha aprendido como se usá-los, afinal se ela fosse para um País diferente, era melhor que ela conhecesse os costumes de lá, não? Pensando nisso ela pegou um peixe da tábua, havia uma boa porção ali, e como elas realmente não comiam muito, tudo bem ela pegar um bem suculento.

— Isso está muito bom. — elogiou Asuka sobre a salada que Harumi havia preparado, não esperava que a garota pudesse cozinhar algo tão bom assim. — Você também é boa na cozinha. — ela apontou terminando de comer a parte mais saudável da refeição, se voltando para o peixe na mesa, as três estavam distribuídas uma em cada lado, e Harumi na ponta. Quatro panelas pequenas e duas tábuas e dois potes as acompanhavam, era uma pena Shinji não poder acompanhá-las por agora.

— Obrigada! — disse Harumi contente por ter as habilidades reconhecidas, era bom ser elogiada. — Queria que Shinji pudesse dizer seu veredito, seria bom a opinião de alguém tão bem formado no forno pra opinar. — ela pensou alto, não era de conhecimento secreto que o garoto cozinhava bom, isso estava em sua descrição afinal de contas. — Evaline me passa os tomates, meu prato está muito marrom, só tem carne e peixe.

Evaline soltou sua porção de arroz no pequeno prato e estendeu o pote de tomates frescos e ainda molhados, estava bom. Parecia quase um almoço de família, ela não podia dizer que não gostava da sensação. Mas ainda sim a pessoa que ela mais queria ali estava agora tendo seu merecido descanso e ela torcia para que o sono lhe deixasse acordar melhor. Pensando nisso ela não notou que Asuka a estava chamando.

— Você ainda se encontra nesse mundo? — zombou a ruiva. — Você não deve ter ouvido nada, eu imagino. — silêncio. — Enfim, eu estava perguntando o que você vai fazer em relação ao físico dele? — ela apontou com o nariz para o quarto de Shinji. — Ele não consegue se mover muito bem, e o corpo dolorido não ajuda, vai começar com o quê?

— Como eu havia dito antes... — ela largou os pequenos palitos, hachis. — Eu vou mudar um pouco sua alimentação, já tenho noção como fazer isso, para que ele absorva os nutrientes que ele precisa, depois que eu tiver certeza que está bem com essa parte, vou começar com uma sessão de fisioterapia para que ele pelo menos tenha o costume de esticar o próprio corpo.

— Bom, no que nós pudermos ajudar, ajudaremos. — disse Harumi com um alface nos dentes, as duas olharam para ela e ela notou que tinha algo de errado. — Ok, o que foi?

— Comida nos dentes. — disse Evaline terminando seu prato, foi até a pia e começou a lavar sua parte, guardar no armário de cima, olhar para as duas e decidir se ela ficaria com elas ou se ela iria até o quarto de Shinji... Ele estava completamente apagado, isso era certo, talvez não fosse tão ruim ela ainda se manter ali, ela voltou para a mesa, as duas estavam terminando também. — Asuka, sei que já te perguntei isso, mas vou perguntar de novo...

Asuka já sabia o que viria dessa vez. — Eu vou conversar com Akagi sobre isso, mas se for para que Shinji não precise nunca mais botar os pés em um Eva, eu aceito voltar para o meu status de piloto. — ela disse por fim, se levantando, Harumi e ela limparam a mesa, Evaline pegou um pano e limpou qualquer coisa que ainda restasse, após limpar o pano e deixar de molho, e vendo que as duas haviam guardado tudo, as três se olharam e foram para o sofá. Olhar alguma coisa que fosse pelo menos não antiga como fóssil.

Elas não obtiveram tanta sorte. Só estava passando gravações, e novamente estava passando uma gravação que Asuka já havia assistido sobre um homem que havia sido recebido em casa por uma mulher dona de casa com vestido florais e cabelos claros. Como estava diferente da realidade do mundo de hoje em dia. O trabalho era pouco e as mulheres estavam mais ocupadas tentando sobreviver do que ficando em casa. Tempos difíceis eram esses, pelo menos eles tiveram a chance de escolher, e a pessoas responsável por isso dormia tranquilamente.

O silêncio se instaurou por alguns minutos mais, até que Harumi começou a bufar, a garota se entediava muito facilmente, tomando o controle das mãos de Asuka, ela desligou a TV, a ruiva a olhou confusa, Evaline já não estava mais surpresa pelas ações da rosada, era normal ela agir no modo espontâneo.

— Essa programação realmente não é das melhores. — Harumi disse tirando um pirulito de um lugar que ninguém nunca saberia. — Podemos fazer coisas mais interessantes do que ver... Uma dona de casa dos anos 60? Porra, nem meus pais eram vivos nesse tempo.

Não que as duas estivessem satisfeitas, mas a vida não era tão justa. — O que você sugere para passar o tempo? — perguntou Evaline, sentada na beira do sofá, Asuka estava na outra ponta, com os pés bem esticados para frente, quase deitada.

— Sei lá, podemos nos conhecer melhor, deitar no sofá sem roupas, explorar os cantos nunca tocados por nenhum homem uma da outra e ver no que dá, Shinji não ouviria nada. — ela disse sem nenhuma vergonha, Evaline não se importou, Asuka demonstrou que ela havia sido pega desprevenida. — Ohh, surpresa por essa abordagem direta? — Harumi brincou. — Evaline nem se importa mais com isso, parece que já se acostumou comigo em poucas semanas.

— Bom, se eu não me acostumasse com você eu iria quebrar seu pescoço, você falava muito no meu ouvido. — ela disse simplesmente, olhando as unhas. — Vai, podemos conversar um pouco então, qual o assunto? — perguntou a loira.

Na realidade os únicos assuntos em comum que as três tinham, estavam no trabalho delas, que era pilotar robôs gigantes com músculos humanos replicados milhões de vezes maior, e a preocupação sincera por um rapaz que estava dormindo agora, elas notaram que não tinha tantos tópicos que já haviam sido explorados.

— Hmmmm, que tal sexo? — propôs Harumi com os olhos totalmente focados nas duas ali. — Como vocês já devem ter percebido eu tenho um gosto peculiar sobre mulheres.

Asuka riu sem humor. — Acho que você vai gostar de conversar com uma amiga minha. — ela lembrou de Mari agora, a mesma provavelmente estava comendo um bom pão integral e deixando sobre os dentes. — E sim, nós notamos os seus gostos, nada contra você, eu só não tenho nenhum gosto por mulheres mesmo, não é comigo, e eu duvido que Evaline tenha esse lado também.

Evaline ficou uns segundos em silêncio antes de responder.

— Quando eu fui transferida de base, após nós duas terminarmos nosso treinamento militar. — ela apontou para Asuka. — Eu fui deslocada para uma base na sibéria, para um treino extensivo, em uma das poucas bases que restaram aos ataques dos anjos, eu estava curiosa por um tempo como era o relacionamento lésbico, então eu arranjei uma companhia para noites frias.

— Uou, por que você nunca me disse isso antes? — apontou Harumi realmente surpresa, com os foras silenciosos que ela levava, ela realmente pensava que Evaline jamais iria para esse lado da vida.

— Bom, isso é uma surpresa. — disse Asuka. — Não esperava que você fosse bissexual, não que tenha problemas, eu só não imaginava.

Evaline teve que concordar. — Eu também não me imaginava, pra mim eu realmente gostava unicamente de homens, e de um único tipo inclusive, mas eu tive uma colega de quarto, ou cela, como era realmente o lugar, e nós nos conhecemos melhor conforme os anos passaram, foi uma coisa rápida, noites experimentais, não posso dizer que foi ruim, porque não foi.

— Hmmmmm, informações novas e valiosas de nossa companheira. — disse Harumi feliz por isso. — Ok, decidido que essa será uma conversa quase normal entre mulheres. — ela respirou. — Eu tenho uma tara sexual absurda sobre qualquer mulher que eu tenha visto nos últimos cinco anos, do tipo de memorizar qualquer mulher que me cause alguma impressão e fantasiar sobre ela.

— Isso explicar algumas coisas. — disse Evaline com um humor honesto.

— Muitas coisas na realidade. — apontou Asuka. — Eu não sei o que devo dizer, eu acho, eu também já tive experiências assim com uma amiga, mas foi há muito tempo.

— Hora hora hora, será que existe um padrão aqui? — se interessou Harumi. — Todas as pessoas mais bonitas que eu convivo atualmente já tiveram uma experiência assim? Que afortunada que eu sou.

— Como Evaline disse, noites experimentais. — Asuka disse rindo. — Nada que me faça voltar a isso com tanta facilidade.

— Qual é, eu sou boa com isso. — ela ergueu suas mãos. — Só uma noite '' experimental ''.

As três trocaram umas risadas educadas sobre isso, não fazia mal se conhecer melhor com assuntos estranhos.

— Ok, continuando. — disse Harumi. — Eu nunca tive nenhum relacionamento com homens, de qualquer tipo, seja afeto ou mais carnal, resumindo quando se trata de pênis, só tenho contato com os vídeos dos namorados antigos da minha irmã mais velha.

O que causou alguns embaraços em Evaline, não que ela fosse admitir em voz alta, mas ela também não tinha noção nenhuma sobre isso.

— Eu também não, mas como a vida me ensinou. '' As oportunidades aparecem assim que a primeira delas surge. '' — disse Evaline.

— Duvido muito que um bom samaritano como Shinji fosse chegar nesse ponto tão rápido. — disse Harumi sabiamente. — Mas como você disse, oportunidades sempre aparecem depois da primeira. — ela apontou e ficou pensativa por um segundo. — Será que ele é virgem? — se questionou alto demais a rosada, ambas ouviram, de imediato as duas olharam para Asuka.

— Por que estão me olhando? — disse a ruiva evasivamente. Evaline apertou os olhos levemente, hesitação demais de alguém como ela? Ali tinha algo errado. — Não é como se eu soubesse de tudo, até mesmo ele saia de vez em quando.

— Não imagino ele tendo a iniciativa nisso, por mais que eu queira. — comentou Harumi. — Ou seja, ele foi seduzido por uma mulher mais velha, uma Misato desconhecida e cruel que deve ter feito todo o tipo de coisa com ele, imagine só, as experiências que ele deve ter passado, cruzes, as experiências com brinquedos eróticos, algo que vale a pena entrar no assunto quando ele acordar.

— Não acho que ele vá falar sobre a primeira vez dele se ela for assim. — disse Evaline avaliando um pouco a possibilidade disso ter realmente acontecido, embora ela achasse que fosse conhecer todas as ações dela, ela foi ingênua por pensar que ele não mudaria também. — Asuka qual a chance disso ser real?

— Não muita alta, porém existente. — disse ela depois de alguns segundos refletindo. — Depois de algumas coisas ele mudou, então eu não tenho mais tanta noção assim.

Evaline ficou em silêncio por um tempo até pensar um pouco. — Isso tem relação com o quê as pessoas sempre me dizem? Para respeitar as vontades dele e não obrigá-lo a fazer nada que ele não queira? — ela olhou para Asuka. — Eu imagino que tenha, porque do jeito que as pessoas colocam essa frase alguém fez algo que não devia.

— Eu não tenho mais a abertura pra perguntar algo tão pessoal. — disse a ruiva com um pesar real, mas pelo motivo diferente. — Misato muito menos, as únicas pessoas que poderiam tirar algo dele, seriam Rei e bom... O último anjo.

— Eu li os relatórios, eles eram amigos, não? — disse Harumi depois de ouvir a conversa entre elas. — Rei e Nagisa, Shinji gostava deles?

— Gostava? — zombou levemente. — Eles eram as únicas pessoas que conseguiram fazer ele comer algo ou abrir a boca depois que todos foram pra um mundo de sonhos, os únicos que ficaram durante todo o tempo com ele, e ele nunca me disse quanto tempo ele ficou sozinho, eu sei que ambos não estavam com ele naquela praia, era apenas algo da cabeça dele inventando coisas, mas por essa ilusão ele foi capaz de se manter vivo até eu voltar. — ela pensou naqueles tempos sombrios. — Ficamos durante alguns meses somente eu e ele, nós nos aproximamos muito, mas nos distanciamos também em outras partes, Shinji mudou, mudou de maneiras estranhas e quase imperceptíveis, mas mudou.

— Eu já notei que ele não está o mesmo. — disse Evaline depois de pensar nas atitudes que ele teve mais cedo. — Eu só queria saber o porquê disso, mas é melhor eu dar o tempo ao tempo, não?

— Isso seria bom. — disse Asuka um pouco contente por Evaline ser muito mais gentil do que ela era, isso era bom. — Muito bom...

— Falando neles. — comentou Harumi com seu pirulito nas mãos. — Onde eles estão? Quer dizer, Nagisa com certeza está bem morto, mas Rei, ela não está viva em algum lugar?

Asuka estalou os olhos pra isso, olhando para o quarto, Evaline olhou para ela, já imaginando a preocupação dela.

— Asuka, Shinji está nos sonhos dele, não vai acordar por um bom tempo. — assegurou a mais velha. — Pode dizer.

— Vocês com certeza não sabem disso, e era melhor assim, mas já que vocês vão fazer parte da vida dele, vai ser melhor saberem para que não toquem num assunto assim sem cuidado. — ela suspirou com pesar. — Rei Ayanami não está mais entre nós há muito tempo, na realidade, ela nunca realmente esteve conosco.

— Como assim? — quem perguntou foi Evaline, interessada.

— Vocês sabem quem é a mãe biológica de Shinji, certo? — perguntou retoricamente para ambas, a resposta veio em seguida. — Pois bem, Rei Ayanami é uma cópia da mãe de Shinji, a mando de seu próprio pai, Gendo Ikari...

O pirulito de Harumi quase passou de sua garganta e a mesma teve que jogar para o chão e tossir. — O quê? — ela exclamou surpresa, surpresa demais. Evaline estava com os olhos menores do que uma clica.

— Eu sei, é difícil acreditar, imaginem como foi para Shinji, Akagi disse que ela nunca tinha visto um surto tão forte quanto aquele dia. — ela lamentou. — Rei Ayanami nunca foi realmente uma existência humana, ela sempre foi algo diferente, algo criado para seguir ordens e pilotar, nunca foi compreendida ou amada, até que Shinji a conheceu...

'' Não posso dizer com exatidão como eles se juntaram para se tornarem amigos, mas não tardou muito para que Shinji também descobrisse que além de um clone, ela era um arma, uma arma para suportar todo o poder de Lilith e trazer o mundo a sua queda, e dito e feito, Rei morreu frente a Gendo, seu criador para que o mundo fosse destruído, quando eu me fui, derrotada e humilhada pelas EVAS série, Shinji foi ao loucura quando recebeu a notícia por Misato, que havia descoberto tudo. Fim do mundo foi em dez minutos depois.

'' Shinji nunca descobriu quem era Rei, mas ele descobriu uma parte dela, que foi o suficiente para deixá-lo em colapso quando descobriu o passado obscuro da garota, as respostas para os comportamentos estranhos dela tiveram um resultado muito forte nele, ele ficou desacreditado, e com Nagisa com certeza foi pior ainda...

'' Nagisa veio depois que Rei havia morrido, eu não sei os detalhes, apenas Shinji sabe, e sua boca é um túmulo de segredos, mas do pouco que sabemos por tudo, Nagisa se tornou um amigo querido pra ele, e o ensinou a tocar piano, eu somente por isso diria que Nagisa é um bom charme, mas a triste realidade é que ele era um ultimo anjo, que a missão dada era entender Shinji Ikari e determinar se a raça humana merecia perecer, eu sei que ele se matou na frente de Shinji em sua forma humana, e em sua forma original, ele se deixou ser morto por Shinji. E o resto, bom, quando eu cheguei a praia Shinji conversava com seus espíritos.

Um silêncio educado pela morte daqueles que eram queridos pelo mais querido entre as três, pessoas dignas de respeito, mas o silêncio também era de choque, Evaline não sabia realmente nada do que havia acontecido, poucas pessoas sabiam algo, e o que sabiam era muito pouco, ela precisava saber, precisava conhecer sua história, não queria deixar isso acontecer novamente.

— Você pode dizer algo além disso? — perguntou Evaline numa voz baixa, o coração em frangalhos, porém sua máscara ainda de pé. — Algo que nós deveríamos saber para não trazer para a mesa de conversa?

Asuka ficou pensando, existiam tantas coisas que ela poderia dizer, mas e a coragem para tal? Irreal.

— Shinji perdeu o único presente que havia recebido de sua mãe, foi encontrado quebrado, um reprodutor de músicas de fitas. — ela ponderou. — Acho que isso não é uma informação muito relevante eu acho...

Não era realmente, mas que informação teria mais impacto do que a anterior? Não sabiam dizer. O fato principal é que ninguém realmente sabia dizer o que havia acontecido, se ao menos Rei pudesse de alguma forma voltar para o Mundo e dizer, mas isso era apenas pensamentos que dificilmente iriam se tornar realidade.

— A vida é complicada, não? — disse Evaline depois de tentar absorver as novas informações, o que havia acontecido com Shinji? O choque de realidade o havia mudado tanto assim? — Eu queria ter estado aqui quando as coisas começaram a sair de controle.

— Bom, o mesmo pensamento aqui. — disse Harumi concordando com a mais velha. — Nem que fosse só pra conhecer essa sua amiga de noites experimentais. — comentou a rosada com um sorriso mais malicioso do que antes. — Eu aposto que ela era alguém da NERV.

— Você está certa. — respondeu a ruiva. — Ela em breve estará aqui, por meu pedido ela também era cuidar de Shinji.

— Bom, se é você que está dizendo isso, essa mulher com certeza deve ser de confiança. — replicou Evaline saindo de seus pensamentos. — Que seja, quanto mais pessoas perto dele zelando por ele, melhor pra mim, até ele poder andar por ele mesmo.

— Quanto tempo você acha que irá demorar pra ele se recuperar? — Harumi se virou para Asuka que estava realmente deitada no sofá agora. -

— Shinji sempre foi um garoto forte, apesar dele sempre agir como se não fosse, não importasse o que você joga-se nele, ele iria resistir, e isso não será diferente. — ela analisou. — Em um mês, com a senhorita Home Care cuidando dele como diz que vai, acredito que ele possa se mover, mesmo com dor.

— Bom, eu não tenho como negar que isso seria um nome apropriado pro jeito que eu irei tratá-lo, então vou ficar com isso por hora. — Evaline disse com um meio sorriso no rosto. — Esse lugar provavelmente ficará cheio em breve. — ela disse ouvindo o barulho de homens subindo as escadas e gritando para não deixar nada cair. — Aquele garoto irritante se mudou para cá.

— Garoto irritante? — questionou Asuka. — É algum garoto com uma moto chamativa?

— Exatamente ele. — disse Harumi se livrando do pirulito e brincando com o palito branco. — Ele é muito prepotente e honestamente, é uma visão infernal aos olhos, as roupas fazem ele parecer um neon vivo.

— Eu não consigo me sentir nem um pouco a vontade com ele ao redor. — comentou Evaline. — E é desnecessário dizer que aquele maluco com certeza tem algum problema mental, no mínimo, eu não vou deixar ele entrar aqui nem com a ordem de Misato.

— Ele não entrará nesse lugar. — assegurou Asuka. — Se ele entrar, ele não sai inteiro, garanto a você, mas por quê tamanha hostilidade? Você normalmente não se incomoda com pessoas chatas, você as ignora.

— Ele me passa uma sensação ruim, como se fosse um presságio de problemas. — Evaline recitou. — Não sei por quê, mas eu só não quero ele perto de Shinji.

— Intuição de mulher, então? — disse Harumi. — Bom, Home Care eu confio em você e nos seus instintos, agora ligue essa TV, pode ser uma porcaria enlatada Americana, mas vamos tentar assistir algo. O dia é longo...

Não vendo motivos para negar, a ruiva ligou a TV e se arrependeu prontamente, uma tentativa falha de documentários de fauna perdida, de no mínimo 40 anos atrás, tudo o que ela queria....

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Entrando em um beco escuro com suas roupas escondidas por um véu negro e surrado, o sujeito entra por uma fenda nas grades, segurando papéis por de baixo do braço, entrando em porta de ferro enferrujada, ele fez o melhor para olhar ao redor para evitar ser notado. Fechou a tranca por dentro, ele olhou ao redor, ninguém havia entrado ali a não ser ele, era bom o suficiente.

Era uma antiga loja de... Alguma coisa, não era importante de qualquer jeito, era sua casa agora e isso era tudo o que ele precisava saber, ele adentrou naquela antiga loja e pendurou seu véu em um bidê e se permitiu rumar em direção a sua cama improvisada, um sofá com alguns panos e travesseiros amarelados pelo tempo, ele ainda possuía algumas rações enlatadas pra passar o tempo antes de ter que roubar novamente, a vida era dura porém era pra um bem muito maior.

Ele tirou de seu bolso um pequeno celular, com apenas uma tela de botão de interface, emitindo o mesmo sinal todos os dias para que seu governo soubesse que ele havia se infiltrado com sucesso, por mais que aquele lugar estivesse de fato recuperado do que lhe aconteceu não muito tempo atrás, sempre algumas camadas do passado se mantinham inteiras, e nelas ele habita. Ele viveria e honraria o passado, pois o presente não lhe reservou nada. Tudo lhe foi tirado por seres que ele não considerava nem ao menos humano.

Ele pegou o mesmo retrato odioso, o mesmo rosto naquela foto que ele sempre olhava para se lembrar do motivo de suportar todo esse inferno, sua vingança. Ele a teria, ele o mataria e faria ele ser exposto em praça pública, o mundo enfim seria vingado por ele ter feito o fim do mundo ter acontecido, ele era o culpado por sua família estar dentro de um mar vermelho que nunca mais seria azul, a culpa de sua mulher e seus filhos não voltarem era dele, e somente dele...

Então ele ficaria ali, até a hora prometida chegar, e quando o momento o chamasse, ele atacaria e acabaria com todo o sofrimento daqueles que perderam suas famílias também, ele olhou para o retrato que tinha do garoto que lhe roubou tudo.

Tão simples, um rosto tão triste e obviamente abatido, uma camiseta branca simples, calças comuns, e apenas uma mochila, os olhos castanhos tão vazios e cheios de vontade ao mesmo tempo, os cabelos castanhos por fazer... Uma criança triste fez com o que todos se sentissem tristes. Ele não permitira isso.

— Eu nunca descansarei, eu não cessarei, eu não conhecerei a fadiga e nem o descaso enquanto eu viver... — ele se recitou novamente, para nunca deixar seu objetivo fugir de vista, ele o perseguiria. — Eu o matarei por vocês, para que possam voltar para mim, o inferno há de cessar quando o último suspiro do messias do mal fugir de seu peito.

Ele soltou a foto ao chão, e se permitiu deitar em sua cama, os pensamentos indo e vindo como ondas, outrora saudosos outrora odiosos, como ele amava o jeito complexo que sua mente funcionava, era incrível como ele poderia pensar em tantas coisas boas ou ruins ao mesmo tempo, isso era o preço de estar vivo? Remoer o bom e o ruim? Ele não sabia dizer, mas o seu ódio lhe responderia eventualmente, ele tinha certeza.

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— Têm certeza que quer fazer isso? — lhe perguntou a loira, sentada em uma das poltronas perto de sua cadeira, já era tarde da noite, ela logo voltaria para casa. — Misato, eu sei que você está realmente com a sua cabeça no lugar agora que você é a Chefe de todo mundo aqui, mas eu devo lhe lembrar adequadamente, você não pode pensar somente no seu filho, ou protegido, o que quer que seja você o considere.

Misato estava com os braços cruzados em frente ao seu rosto. — O que você quer que eu te diga? Que eu não me preocupo até o último átomo do meu corpo quando eu deixo Asuka com ele sozinho depois do que ela fez pra ele? Shinji não escolheu se defender nem mesmo quando podia, e o que ele pode fazer quanto mais agora que ele é literalmente incapaz de ir ao banheiro sozinho?

— Então por quê? Você deixou ele em sua casa, você poderia tê-lo deixado aqui, em uma ala especial, eu faria isso pra você com o maior prazer, se isso significasse que você... Se focasse nas pessoas que estão ao seu lado também. — comentou Akagi abatida.

Misato voltou seu rosto para a sua amiga, a única. — Akagi eu não me sinto dessa forma. — ela sabia quando recebia olhares desejosos, mesmo que fosse de outra mulher, mesmo que fosse de sua amiga, que Akagi gostava dela não era segredo algum, mas ela estava trazendo isso a tona agora, então não seria ela que recuaria.

— Eu sei, você em algum lugar escondido e trancafiado você ainda ama um homem que achava que tinha uma cruzada com o mundo e que deveria salvá-lo enquanto fumava mais que uma chaminé. — Akagi disse em um fiapo de voz. — Não estou pedindo pra tirar meu jaleco e me fazer delícias com seu corpo, estou pedindo pra você me notar, se não como amiga, apenas como uma funcionária competente, alguém que você pudesse ligar... E perguntar como eu estou, nem que fosse por educação.

Misato se levantou de sua cadeira em um suspiro resignado e foi em direção a sua única amiga em passos firmes, ela se aproximou perto o suficiente do seu rosto com a mão erguida, Akagi por um momento realmente pensou que ela apanharia, mas Misato segurou seu rosto com as mãos com delicadeza e o puxou para perto, quase chocando seus rostos.

— Eu o amo, mesmo que ele tenha morrido há tempo, mesmo que suas memórias não sejam todas agradáveis, ele tem um lugar no meu coração, assim como Shinji tem, e assim como você... Também tem um lugar nele, talvez eu esteja me preocupando com coisas demais, você está certa, eu negligenciei você e não me mantive por perto mesmo quando você abandonava seu trabalho apenas pra tomar café comigo. — ela a saltou com calma e a fez ficar em silêncio com os olhos. — Você está certa Akagi, eu errei, e prometo compensar...

— Então sairemos na sua próxima folga, ir em algum bar, beber até sentirmos que perderemos para os desejos de vossos corações. — ela pediu suplicante. — Eu sinto falta disso mais do que você imagina.

Misato deu um sorriso composto. — Eu também sinto falta do álcool, mas fiz uma promessa há muito tempo que eu iria parar, embora eu a quebre algumas coisas com uma cerveja, eu ainda irei pensar se iremos a um bar, nós poderíamos em ir tantos outros lugares e aproveitar a companhia uma da outra.

O rosto de Akagi se avermelhou por um momento, mas ela sabia que Misato não queria dizer nada do que ela queria com essa frase, os males do coração são principalmente não saber quando desistir, e não saber escolher quem amar...

— Então combinado... — completou Misato, voltando para a sua cadeira e voltando a olhar para a sua papelada. — Existem ainda muitos pedidos que eu devo analisar, eu não possuo uma estrutura boa o suficiente pra agregar mais... Dez pilotos de diversas nações.

— Você não pode recusar no entanto, pois uma boa quantia de dinheiro que está fazendo esse país girar é o dinheiro das demais nações. — apontou Akagi sabiamente para a amiga depois de se recompor. — E a pressão para que Shinji volte para o mundo é gigantesca, e obviamente isso não vai acontecer tão cedo, e nem sei se um dia irá tendo em vista de como ele é reservado.

— Se eu pudesse mantê-lo em uma cidade fantasma que somente nós pudéssemos ir e visitá-lo, eu sem dúvida faria, se eu pudesse construir um lugar inteiro pra ele e mandar o resto do mundo esquecê-lo, não tenha dúvidas Akagi... Eu faria. — ela disse seria, se importava com o garoto. — Mas agora isso é apenas um sonho distante meu, quando eu me tornar poderosa o suficiente pra mandar o mundo a merda e fazer o Japão ser um país independente, você estará ao meu lado.

Shinji tem muito peso nas ações que o mundo toma não tem? — ela comentou depois de alguns segundos em silêncio.

— Ele é o alicerce do mundo, já explicamos em diversas conferências que ele foi de fato o responsável pelo fim do mundo, mas também foi o responsável por nos dar a escolha de voltar de nossa bolha de sonhos, nos deu a chance de vivermos o melhor de nós, eu sei que alguns figurões poderosos realmente tem uma gratidão por isso, enquanto outros querem a morte dele, eu sei de tudo, e eu me armarei para proteger aquele que me salvou...

Akagi riu da resposta de sua amiga. — Você seria uma mãe maravilhosa, do seu próprio jeito é claro, porém maravilhosa.

Misato sorriu pra isso. — Você acha que eu e Kaji teríamos uma menina ou menino?

Akagi não demorou um segundo pra responder. — Você seria mãe de um casal de gêmeos, sem a menor dúvida, seu corpo é abençoado demais pra gerar apenas uma vida. — ela se levantou de sua poltrona para ir para casa, e Misato fez o mesmo depois de vê-la saindo, era momentos como esse que faziam a vida valer a pena.

— Eu tenho a certeza que você sempre soube disso, para nos dar a chance de voltar Shinji. — ela olhou para o teto refletindo. — Se é por isso que você tomou suas escolhas, o quão gratos devemos ser por isso?

Ela não sabia se responder. Ela saiu de sua sala, passou pelos corredores e saudou seus funcionários que passavam por ela, todos ao seu comando, todos ao seu poder, todos se movendo conforme ela desejava, ela não pode evitar de sorrir com o acaso da vida, com todos os maldosos antes no poder agora mortos, agora ela tinha controle de tudo, ela poderia parar qualquer conspiração contra o mundo pois ela estava em tal posto agora, ela foi grata mais uma vez.

Foi em direção ao seu estimado carro, o mesmo que ela conheceu o garoto abatido que mudou a sua vida, ela ordenou uma réplica exata do modelo e pagou muito por ele, se despedindo de seus seguranças da guarita ela rumou para sua casa, queria tomar um bom banho, verificar seu menino e no mínimo dizer para Asuka ir dormir.

No seu caminho de volta ela rumou em memórias e desejos como sempre faria, pensando no que havia terminado e pensando no que havia surgido. Ela era grata pelo trânsito agora não ser tão intenso quanto era a tempos atrás. Se deslocou para a sua casa, passando por construções e aumentos da sua amada cidade, que ela mesma havia pagado e ordenado.

O orgulho era nítido para ela, ela ter condições de fazer isso lhe fazia bem. Tendo isso em vista ela observou as poucas pessoa a essa hora na rua, todos mesmo com a saudade gritando nos seus rostos, ainda estavam ali, no mesmo lugar que um dia ela amaldiçoou. Ela foi para o estacionamento do condomínio do seu amado e reconstruído prédio, dava para ver de longe luzes do seu apartamento ligado, Asuka estava acordada ainda.

Ela saiu do carro e deu seus comprimentos ao guarda que ela havia pago agora para tomar conta dos pilotos, esse era apenas um dos cinco que ela havia chamado, os outros estavam todos ao redor do prédio, como funcionários de outros lugares, disfarçados.

Ela rumou em direção a portaria sendo recebia com educação pelo zelador e rumou para dentro do elevador interno do prédio. Terceiro andar... Ela esperou chegar, as portas se abriram e ela encontrou o mesmo corredor que um dia ela odiou passar quando recebeu uma ligação odiosa de Asuka dizendo que havia machucado Shinji... Seu menino.

As lembranças ruins a acompanhariam, ela não tinha dúvida, mas isso não a derrotaria. Ela foi até sua porta, estava trancada, ela ficou grata por isso. Ela pegou suas chaves e abriu para se deparar com alguma surpresa em seu rosto por ver duas de suas novas pilotas dividindo o sofá de sua sala com Asuka.

As três não demoraram para notar ela ali. Um silêncio surgiu durante algum tempo até que Misato suspirou por um momento, retirou seu jaleco e colocou em uma cadeira da cozinha. — Posso saber por que as moças estão tão juntas ultimamente?

— Shinji... — uma resposta em uníssono surgiu. Misato não ficou surpresa, ele podia unir as pessoas nos momentos mais estranhos.

— Não vou julgá-las, apenas devo alertá-las de que está tarde da noite. — ela foi em direção a geladeira. — Se forem ficar aqui mais um tempo é bom me darem um espaço no meu sofá, é quase hora da minha novela '' Prestígios de uma dona de casa ''.

Harumi suspirou pesadamente. — Agora eu entendo porque isso ainda passa na nossa rede de televisão.... A dona do País pediu pra isso.

Evaline concordou com isso. — Comandante Misato, gosta realmente desse programa?

Misato apenas tremeu os ombros enquanto mexia ovos e servia um copo de leite, não estava particularmente atrás de um jantar, ela só queria algo no estômago, ela rumou em direção ao sofá, agora Evaline se levantou e foi para o outro que Harumi ostentava pra si, deixando as quatros mulheres na sala olhando uma programação muito antiga.

Misato estava particularmente tranquila com o silêncio, os olhos voltados para televisão. Mas talvez fosse bom ela falar algo?

— E então meninas? Se comportaram enquanto meu ninho estava desprotegido dos meus cuidados de adulto? — ela perguntou voltando brevemente seus olhos para as moças. — Vocês entendem o que quero dizer quando eu pergunto isso.

— Shinji conseguiu dormir maravilhosamente bem. — comentou Asuka olhando as unhas. — E nós ficamos apenas conversando, tentando nos conhecer melhor.

— Você irá dormir aqui de novo Evaline? — perguntou Misato para a loira depois de agradecer pela informação. — Shinji acorda a noite para tomar aquela maldita pílula azul? Ou é de manhã?

— É toda a manhã que ele deve tomar todos seus remédios. — respondeu a loira. — E eu acredito que eu deva dormir com ele de novo, me sinto melhor com ele de fato... Se você não se incomodar.

— Shinji não se incomoda com você. — os olhos de Misato se tornaram frios por um momento, Evaline engoliu em seco a contra gosto. — Isso é o bastante pra mim. — ela olhou para Harumi. — E você Harumi? O que está achando do Japão e das pessoas?

— Acho que é o país é abençoado por ter uma mulher tão maravilhosamente feita quanto você, comandante. — ela falou olhando em seus olhos.

Misato suspirou. — Era o que me faltava... Uma Akagi mais nova e de cabelo rosa.

Harumi lhe sorriu de canto. — Estou apenas brincando comandante, embora você ser maravilhosa não seja parte da brincadeira.

Isso gerou um suspiro ainda maior da mais velha. — Você ainda vai me atormentar com suas piadas, Mari é exatamente assim, e isso me preocupa, vocês duas juntas... Asuka talvez devêssemos repensar colocar todos os pilotos juntos.

Asuka riu com isso. — Você sabe que está bem com sua escolha, e qual o problema? O máximo que pode acontecer é as duas começarem a flertar loucamente entre elas e arrastarem todos nós pra isso, Shinji incluso.

— Devo alertar que eu irei proteger a inocência dele contra os desejos de Harumi de introduzir um vibrador nele. — comentou Evaline repentinamente.

Vendo que de certa forma ela havia falado algo estranho, ela se levantou em silêncio e foi em direção ao quarto de Shinji. E ele de fato estava acordado... Mas estava em silêncio, não havia chamado por nenhuma delas. Ela se aproximou dele, seus olhos estavam abertos... Mas ele não estava ali, estava em seus sonhos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.