Meia Alma
24 Capítulo 23 - Arquitetando
Lembro muito bem de que quando era criança, meu pai e meus tios falavam algo como “Numa discussão com a sua avó, sempre haverá dois lados. O errado, e a sua avó.”.
Agora, eu estava na floresta, com as coisas nas minhas costas, Raiden e Maurice me encarando enquanto eu falava para Anita para avisar que havíamos um espaço maior... Mesmo eu sendo contra a ideia, eu não a tirei da cabeça da minha avó, então simplesmente desisti e decidi que vou rezar para que a Ordem não descubra a localização da fazenda.
–... Você está dizendo que... É para irmos para a fazenda dos seus avós?! – Anita questionou com uma voz incrédula.
– Bem, sim... – suspirei. – Para começar, sequer foi ideia minha ou de Raquel...
– Hideo, eu acho que estaríamos...
– É, eu também acho, mas minha avó insistiu. Quanto ao espaço, ela tem razão, espaço não falta, mas tenho medo por eles. Embora realmente talvez seja um dos últimos lugares que a Ordem procuraria. – falei, praticamente roendo as palavras finais. – Pergunte ao Alec, que ele sabe onde procurar.
– Não acho que seja a melhor das ideias, mas se você diz... – ela suspirou audivelmente do outro lado da linha. – Mas Alec não está aqui.
– Não?
– Não, ele está em missão. Só não pude mandá-lo com Nina. – Ela soltou um suspiro tão teatral de desapontamento que Raquel, Raiden e Maurice acabaram rindo. Sendo que eles só estavam confiando na própria audição para escutar. – Mas ele provavelmente voltará logo, então...
– Onde ele está?
– Pietro surtou e disse que tínhamos que encontrar um renegado na Terra. – juro que quase vi Anita franzindo o cenho. – Ele disse que era um... Lionel? Enfim, só sei que é um antigo número 3.
– Lionel?! Conheço ele! – exclamei.
– Sério? Enfim, Pietro praticamente saiu correndo para um portal dimensional, então pedi para Alec ir atrás, e Paola foi junto.
– Bom... Eu liguei apenas para te avisar isso, e estamos com Maurice e Raiden. Vamos continuar o caminho até a cidade onde os testes ocorrerão.
– Tudo bem.
– Vamos ficar aqui depois, então? – Maurice questionou assim que a ligação acabou.
– Pelo visto... – Suspirei. – E quanto aos caminhos fantasmas? Acha que eles nos levarão a algum lugar?
– Sim, deixe-me ver... – Raiden fechou os olhos e algo me disse que ele vasculhava a terra. – Ah sim, estamos bem encima de um, a questão é que temos que achar a entrada.
– E como vemos isso? – Raquel questionou.
– Ninguém percebe, mas tem um símbolo numa pedra. É sempre assim. – Disse, indo para a esquerda, indo em direção a uma pedra plana. – Procurem uma pedra plana, se tiver um símbolo como o de um guerreiro, é essa a entrada. – Ele a puxou para cima e tinha uma entrada de concreto. – Não falei? Entrem.
Maurice saltou dentro do buraco circular, e Raquel o circulou. Olhei envolta, vendo se não havia alguém por perto, então saltei.
Pousei agachado no chão de terra fofa, e dei espaço para Raiden pousar, para só então verificar o local onde acabei caindo.
Acho que a melhor maneira de descrever o lugar era como se fosse uma mina subterrânea. As paredes e o teto eram mantidos por vigas de madeira maciça, com luzes brancas no teto. E havia túneis abrindo para todos os lados, mas talvez para impedir confusões entre os Aparições, havia placas de ferro com nomes gravados em cada local.
– Cidade de Teste L-15. – Raiden leu num túnel que dava para a esquerda. – É essa.
– Sério? – perguntei hesitante, meus sentidos ficando malucos debaixo da terra. Eu estava com a paranoia de estar ouvindo passos constantemente.
– Tenho quase certeza, porque aqui está dizendo que é após a cordilheira de Almura, e a única cidade após a cordilheira de Almura é a que estamos procurando.
Assenti, e ele foi na frente, então decidi cuidar da retaguarda, apesar de estar nervoso. Nunca me considerei claustrofóbico, tanto que passei anos vivendo em uma rede de cavernas e galerias. Mas tinha alguma coisa nesse lugar que me deixava doido. Era como se um Aparição fosse sair de uma esquina e...
Foi só eu pensar isso e o Aparição que quase explodira Raiden, Oito, apareceu no final do corredor por onde entramos. Meu coração quase parou, mas ele pareceu que ia passar direto, mas no final, ele deu de ré. Quando olhei para trás, percebi que os três já estavam correndo, então fiz o mesmo, afinal, não estava em condições em enfrentá-lo no momento, então alcancei-os corredores depois, Raiden esperava visivelmente nervoso, então subi a escada praticamente saltando e senti-o abaixo de mim. Logo ele fechou a entrada e praticamente soldou a pedra contra a terra, e ela tremeu algumas vezes, para parar.
Soltei o ar aliviado e reparei que estávamos do lado de fora da imensa cúpula que rodeava a simulação de uma cidade em ruínas.
– Legal, devemos tentar entrar? – Maurice questionou ofegante.
– Normalmente tem várias saídas, mas acho melhor não tentarmos entrar agora. Precisamos tentar ver como está a segurança no local para vermos como podemos burlá-la. – Raquel avisou.
– Não tem Auras lá dentro, ou seja, provavelmente são apenas soldados da Ordem. – falei. – Se for assim no dia, podemos entrar por uma das saídas, apagar os soldados, pegar os aprendizes e sair.
– Podemos explodir isso aqui? – Maurice questionou.
– Quê?!
– Seria legal...
– Maurice, estou lhe estranhando.
– Olhem, nestes poucos dias, tenho quase certeza de que ele é um piromaníaco. – Raiden comentou.
Estendi minha mente por todos os arredores e por sobre a própria cidade. Não sentia Aura alguma, nem mesmo a Aura de Oito que há pouco tempo encontrava-se sob nós, mas referindo-se ao breve momento em que fui contra ele, eu duvidava que ele houvesse deixado que fugíssemos tão facilmente. Devido a isso, me sentia impelido a continuar com tudo aquilo para terminar o mais rapidamente quanto o possível.
– Nenhuma Aura por perto, apenas uns soldados humanos da Ordem. – anunciei, e percebi que Maurice começava a circundar a cidade por entre as árvores. – Temos que achar um meio de burlar o sistema.
– Vocês acham que as portas detectam coisas que não venham em veículos? – Raquel questionou.
– Temos que descobrir. – Raiden murmurou. – Podemos fazer algo simples, como... Não sei, jogar uma pedra dentro? Parece idiota, mas às vezes sistemas de segurança detectam até isso.
– Depois tentar passar correndo?
– Acha que eles detectariam nossa velocidade?
– Não faço a mínima ideia. – comentei. – Por mais idiota que a ideia de Raiden pareça – ele me lançou um olhar indignado. – vamos tentá-la. Só não me voluntario a jogar a pedra.
– Raiden deu a ideia, ele faz isso. – Maurice disse.
Ele suspirou e revirou os olhos, mas desviamos da entrada e fomos em direção a uma das saídas. Eu estava ainda nervoso quanto ao fato de Oito estar por perto, portanto não baixava a guarda um mínimo segundo, temendo que ele aparecesse do nada.
Só acordei quando os sinalizadores da Ordem apitaram, e só então percebi que Raiden já havia jogado a pedra, mas então algo que eu simplesmente não esperava aconteceu.
Ela foi pulverizada em pleno ar.
Droga, claro que não iria ser tão fácil.
Corremos para outra entrada quando os soldados começaram a se aproximar numa confusão com armas de fogo em mãos, prontos para verem o que tentara transpassar as barreiras.
– Acho que não é seguro nenhum de nós tentar entrar aí. – Raquel murmurou. – Acho que só dá para usar isso com segurança de dentro para fora.
Encarei a saída a minha frente, vendo todos os orifícios provavelmente usados para detectar movimentos e pulverizar inimigos. Uma pedra virara pó contra isso. Isso pegaria um híbrido em movimento? Havia muitos prós e contras, e com certeza tentar era a coisa mais arriscada no momento. Ainda não havia monstros ali dentro, mas em breve estaria cheio, e mais, haveria crianças e adolescentes.
– Eu vou. – falei depois de um tempo e os três me olharam como se eu houvesse enlouquecido.
– Hideo, essa coisa pulverizou uma pedra, carne deve ser a coisa mais...
– Eu corro a toda velocidade. – falei.
– A-ainda assim... – Raiden começou.
– Você ainda não se recuperou totalmente Hideo. – Raquel lembrou-me, preocupada.
– Mas... Eu tenho que tentar, não é? Quando vamos ter outra oportunidade como essa?
– Eu vou. – Maurice disse e foi minha vez de me assustar. – Não adianta dizer nada Hideo, porque você está realmente debilitado. Você pode ser o mais rápido do nosso tempo, não sei se ainda é, mas eu sou um pouco mais rápido que a maioria por ser pequeno e leve. Eu tento, se alguma coisa der errada comigo, vocês dão meia volta e falam para a Anita, certo?
Deuses, era loucura por todas as partes, mas antes que qualquer um de nós dissesse algo, Maurice saltou e disparou em direção à saída. Quase mordi minha língua quando ele saltou em direção a ela e juro que esperei ouvir o som da eletricidade junto ao cheiro de carne queimando, mas...
Maurice disparou como um raio para o outro lado, e quase vi o alívio se mostrando em seu rosto ligeiramente infantil. Ele olhou para os soldados por cima dos ombros, que não perceberam sua presença, e retornou até nós.
– Parece que não...
– Quando quiser me enfartar, me avisa. – Raiden comentou carrancudo.
– Claro... – Maurice rebateu sarcástico.
– Ei, mas temos o plano perfeito. – continuou. – Podemos usar uma pedra para distrair os soldados, alguém entra, adultera os sistemas de segurança e o veículo entra sem problema algum.
Olhei-o surpreso com a velocidade de pensamento.
– Sim, é uma boa ideia, mas como achamos o centro de controle?
Raiden apontou para uma torre alta com um satélite de vidro.
– Você não acha muito estranho se preocuparem de por um satélite numa cidade em ruínas? Deve ser lá com toda a certeza.
– Maurice, volta lá e verifica. – falei.
– Não faço isso de novo nem sob tortura. – rebateu. – Acho que ele está certo... Afinal, eu lembro que tinha uma torre parecida na cidade em que foi meu teste.
– Você prestou atenção nisso? Eu estava mais preocupado em matar monstros e quem mais quisesse me matar. – falei num tom sem graça.
– Hideo, você lembra que eu tinha o pior número da Ordem? Eu praticamente passei no teste apenas me escondendo e fugindo.
– Ah...
Eu realmente tinha esquecido que Maurice tinha o número 68, sei lá... Sua explicação era deveras convincente, então decidi me confiar nela.
– Então... Já temos um plano? – Raquel questionou.
– Pelo visto...
– Aparição! – ela sibilou, fazendo-me olhar para a frente, e vi que havia realmente um próximo a nós.
Mas não era o Oito. O capacete dele era estranhamente triangular. Como não o percebera antes?! A armadura era diferente também, estranhamente pontiaguda, e sua pele era bastante morena. Ele murmurava algo quase que raivosamente, e havia atrás dele um híbrido normal, andando quase que com medo. Ele era um tanto quanto baixinho, com cabelos tão amassados que chegavam a ser ondulados, e ele estava pálido. De longe via suas olheiras e os olhos puxados, claramente nortistas.
De onde ele parecia familiar...?
– Raiden? – Raquel chamou baixinho. Percebi que ele parecia rígido.
– É o meu irmão. – sibilou de volta, fazendo-me olhar para o baixinho com mais atenção na região de seu pescoço, e lá estava a maldita coleira.
Era um tanto que cruel deixá-lo nesse estado, mas o Aparição estava próximo demais dele para que eu fizesse algo. Virei para Raiden.
– Rápido, crie uma distração para esse Aparição, que eu tento tirar a coleira do seu irmão.
Ele me olhou inicialmente assustado, então assentiu. Logo escutei o som de mais choques provindos devido a praticamente um monte de terra que se jogou do outro lado da cidade, e o Aparição praguejou alto, correndo até lá. O irmão de Raiden pareceu preparar-se para segui-lo, mas com a Aura que possuía no momento agarrei aquela coleira e a puxei.
Como não estava muito bem, o máximo que consegui fazer foi arrastá-lo até onde estávamos enquanto o pobre engasgava e era arrastado pelo vento.
– Ah, façamos do método antigo. – bufei irritado e fui romper aquela coisa idiota com as mãos, atirando-a contra a barreira de proteção da cidade, e ela explodiu.
– Hadraian? – Raiden chamou. Hadraian. Mas que raios de nome era esse?
O baixinho olhou confuso envolta até que seu olhar recaísse em Raiden, e sua expressão era de quem estava dividido entre cair no choro ou ter um ataque de ódio assassino. Talvez estivesse aliviado por ver Raiden vivo, mas estivesse com raiva por ele tê-lo feito acreditar que estava morto durante todo esse tempo.
– Olhem, se quiserem ter um reencontro cheio de flores, purpurina, lágrimas e coisas do tipo, deixem pra depois, porque no momento temos que sair daqui. – Maurice murmurou, fazendo-me acordar – de novo. – e perceber que o Aparição retornava, e isso não era bom sinal.
– Ele tem razão, vamos embora. – Raquel disse, tive quase que vontade de apagar o irmão do Raiden para que sua Aura se tornasse menos visível, mas isso era crueldade com o coitado, então relevei. Para minha sorte, Maurice tirou um Supressor sabem os deuses de onde e praticamente enfiou na garganta do pobre.
Começamos já correndo para a direção oposta, Raiden chutou uma pedra que eu nem subia que era uma entrada. Maurice pulou dentro, Raiden jogou seu irmão dentro, Raquel saltou atrás e entrei por último.
–... Seu... Idiota, pensamos que estava morto! – grunhiu.
– E não foi por falta de vontade. – Maurice bufou.
– Não foi exatamente culpa minha! Ei, onde está a minhoca gigante?
– Minhoca gigante? – questionei.
– Não sei, logo depois que você “morreu” – ele falou a palavra com raiva, me ignorando. – eles nos separaram. Nem sei se ele ainda está vivo.
– Por que minhoca gigante? – Raquel questionou.
– Apelidos “carinhosos”. – Raiden murmurou depressivo.
– Você é o frango, não se esqueça. – Hadraian comentou, fazendo seu irmão fuzilá-lo com os olhos.
– Deixando isso de lado... Voltamos para onde? Para Sacraelum ou para a fazenda? – Maurice questionou.
Parei para pensar um segundo. Havia falado para Anita que poderíamos arranjar um espaço maior, então era quase que óbvio que era para lá que ela se dirigia. Acho.
– Fazenda. – falei.
– Eles recebem ajuda de Sacraelum? – Hadraian perguntou baixinho.
– É...
Não me lembrava muito bem dos caminhos que havíamos tomado, afinal, não prestara a mínima atenção. Maurice passou para frente, lendo as placas de sinalização. Passamos acho que uns trinta minutos completamente perdidos, antes de encontrarmos um caminho mais ou menos próximo ao rio. De lá, era só procurar o caminho de volta, o que foi mais rápido.
Achei um tanto quanto óbvio ninguém ter ido – ou chegado – até lá, só sei que minha avó estava alimentando as galinhas e praticamente pulou sobre mim de novo, fazendo com que milho voasse para todos os lados. Talvez ela não tivesse acreditado que aceitei ficar por aqui.
Quase neste momento, o phoma tocou e tive de ir atender. Era Ygor.
– O que foi?
– Nossa, obrigado pela educação. – a voz sarcástica que falou com certeza não era a de Ygor.
– Altri?
– É, seu amigo praticamente jogou essa phoma para mim.
– Dê para ele, então.
– Agora, falando sério. Se o pessoal vai se mudar para... Uma fazenda, sério? Enfim, você sabe se aí tem algum sinalizador de veículo?
– Para quê?
– Ora para quê? Se você por o código do veículo e lançar o sinal, posso fazer com que apenas o veículo que Ygor pegou rastreie o sinal e vá para aí sem muitos problemas.
– Altri?
– O que é?
– Você sabe dirigir?
– Se eu não soubesse, não estaria pedindo, cabeção. Faça o favor e pergunte aí se tem.
Suspirei, rolando os olhos e mordendo minha língua para me impedir de dar uma resposta muito mal educada, virando-me para minha avó e tapando o detector de voz com o dedo.
– Vó, aqui tem sinalizador de veículos?
– Claro que tem, está precisando? – assenti. – Tudo certo, vou buscar.
Ela correu para dentro da casa principal e virei para os quatro que estavam atrás de mim.
– O que eu fiz para merecer trabalhar com o Altri?
– Eu escutei isso! – Ouvi a voz abafada dele do outro lado da linha. Dane-se, dane-se, dane-se.
– Não sei, e nem quero saber. – Maurice respondeu, fazendo-me revirar os olhos.
Minha avó voltou, com o objeto em mãos. Ele era basicamente prateado e retangular, com um visor negro e uma abertura em sua parte superior. Ela me entregou e voltei ao martírio de ter de falar com Altri.
– Tá aqui, o que é para fazer?
– Que demora. Enfim, liga a coisa, anota o código e manda o sinal.
– Enfim – continuei, ligando o sinalizador. – diga logo qual é o código.
Ele o recitou uma longa frase cheia de letras e números, fazendo-me amaldiçoar aqueles códigos enquanto os digitava, tentando manter a frase na memória para não pedir ajuda, e sim, consegui, logo pressionando o botão. Uma auréola amarelada surgiu na abertura superior do sinalizador e disparou em direção ao céu, abrindo-se novamente e sumindo de vista.
– Pronto, já chegou.
Desliguei na cara dele e olhei para o sinalizador.
– Não acredito que a senhora me convenceu a ficar aqui.
– Pois é, eu também não. – Maurice murmurou tão baixo que tenho certeza de que ela não escutou.
– Pois sim, vocês ficarão.
– E eu não lembro de ter sinalizadores aqui.
– Compramos depois daquele ataque de asma do seu irmão. – ela deu um sorriso sem graça. – Mas vocês foram... Logo depois. Mas é bastante útil, como quando Yume entrou em trabalho de parto...
– Ela entrou em trabalho de parto aqui?! – Raquel perguntou.
– Bem, sim, o bebê nasceu prematuro de sete meses. – informou. – Vão ficar aí fora? Acho que irão demorar um pouco, não?
– Hã... Acho melhor não... – Maurice murmurou e minha avó olhou-o com estranheza. Provavelmente por ele não aparentar ter mais que uns treze anos. E ele percebeu. – O que foi?
– Ele é um garoto? – ela fez um sinal, representando uma criança.
– Ah, não vó...
– Eu só parei de crescer antes do tempo. Eu sou mais velho que o Hideo.
– Sério?! – Eu, Raiden, Raquel e Hadraian exclamamos ao mesmo tempo, fazendo-o revirar os olhos.
– Depois dessa eu me senti velho. – murmurei, mas para minha infelicidade, dessa vez todos ouviram.
Demorou umas duas horas até que o veículo aparecesse. A essa altura, minha avó, sempre com seu complexo de achar que todos são seus netos, já havia entupido todos nós com tanta comida que eu pensei que Maurice e Raiden iam passar mal.
Senti uma Aura que ainda não estava acostumado, mas me era familiar. Tinha um breve cheiro de mar, e rapidamente descobri que aquela era Aura de Lionel. Então Pietro havia o encontrado...? Era meio óbvio.
O primeiro que saiu foi Alec. Ele olhou envolta, e se aproximou.
– Eu pensei que você era louco quando falou que era para virmos para cá. Mas isso aqui não mudou nada!
– É, eu sei. E saiba que não foi ideia minha, e sim da nossa avó.
– Cadê ela? – questionou, parecendo ligeiramente nervoso.
– Lá dentro, entupindo todo mundo de comida. Acho que alguém a essa altura já deve ter vomitado.
– Até ela não muda...
Acabei rindo, e Pietro largou da mão de Paola e foi correndo até o cercado onde meu avô criava seus carneiros, e eles apenas o fitaram tediosamente antes de voltarem a comer. Provavelmente não se assustavam mais porque haviam se acostumado com a minha presença e a de Raquel.
– Minha nossa, aqui é enorme! – Alma exclamou, olhando envolta.
– Pois é, eu avisei. Se vocês não quiseram acreditar, problema de vocês.
– Nossa, raivosinho. – zombou, mas ignorei. Nina desceu, assim como Anita e Diego, e logo atrás veio quem logo presumi ser Lionel.
Ele estava diferente do que eu lembrava, óbvio. Foram doze anos. Sei lá porque, mas imaginava ele aparecendo vestido de Theodore Harrys. Ele não estava mais com o cabelo completamente repicado na nuca. Estava bastante liso, sim, ainda ligeiramente repicado, mas não bagunçado, e algumas mechas caíam pelo rosto. Ele simplesmente olhou envolta, então eu fui até ele.
– E aí.
Ele me encarou de cima a baixo, e então franziu o cenho.
–Você... É um dos gêmeos?
– Sim, o Hideo. – respondi.
– Minha nossa, quanto tempo. Você... Está bem diferente.
– Você também, vou logo adiantando.
Ele sorriu, mas logo o sorriso se desfez.
– E Yudai.
– Morto. – falei em voz baixa depois de um tempo em silêncio. – Faz sete anos.
Lionel franziu o cenho.
– Que pena, eu gostava dele. Era um bom rapaz.
– Ele era o número um. – comentei e Lionel ergueu uma sobrancelha.
– Sério? Mas... E esse cabelo ruivo? Algo me diz que não tem nada a ver com Transfiguradores.
– Não, é uma longa história. – murmurei. – Acho que devo lhe explicar depois.
Anita estava olhando envolta também, provavelmente impressionada com o tamanho do lugar também. E atrás dela veio um cara que nunca tinha visto antes. Ele tinha o cabelo comprido, amarrado em um rabo de cavalo que ia-lhe até quase a cintura e duas mechas soltas ao redor do rosto fino. Ele analisou o lugar durante um tempo, então falou algo para Anita, e simplesmente deu as costas, entrando na floresta e sumindo.
– Quem era ele? – perguntei a ela quando me aproximei.
– Aeon, líder de um grupo de renegados que Diego encontrou. Ele gostaria de ver como era o espaço que... Bem, você arranjou.
– Ah, fiquei sabendo disso. Ele irá se juntar?
Ela me olhou, e então assentiu.
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