Meia Alma
25 Capítulo 24 - Destruição
Notas iniciais
Certamente o outro grupo era bem grande. Gigantesco, e somado mais com o nosso, havia muito mais pessoas do que eu estava acostumado a lidar, afinal, era mais ou menos quarenta e poucas pessoas. Eles apareceram mais tarde daquele mesmo dia em que o líder deles, Aeon, simplesmente foi embora.
Agora deixarei registrada minha surpresa de que um antigo amigo meu, que eu achava que tinha morrido há anos, estava entre eles. Era Sebastian. Ele era negro, de cabelo bastante curto com uma faixa vermelha na testa.
Havia também alguém que fiquei surpreso em ver no grupo, um louco bizarro que não era híbrido.
Ele... Bom, era alto, ligeiramente andrógino, bastante magro. Seu cabelo ia até um pouco acima de seus ombros, repicado porém mal cortado, e podia-se ver claramente que ele tentara cortar uma franja – mal cortada como o resto de seu cabelo – repicada na altura de seus olhos, mas vários fios eram mais longos, chegando a altura de suas bochechas. E... Seu cabelo era cada metade de uma cor, o lado direito era loiro e o lado esquerdo era preto, mas a sobrancelha direita era negra e esquerda loira. Seu olho direito era azul e o esquerdo era de um psicótico tom de verde, ambos grandes – chegavam a ser arregalados. – com olheiras profundas sob eles, contrastando com a pele pálida. Ele usava uma camisa suja polo azul escuro com um logo em vermelho – claramente um uniforme de loja. — sob um sobretudo aberto até os joelhos cujo o lado direito era preto e o lado esquerdo era branco e a faixa da cintura aberta. A calça era preta e usava sapatos de amarrar marrons.
Ele era absurdamente louco. Falava consigo mesmo, socava a si mesmo como se fossem duas pessoas. Mas ele também era absurdamente rápido e forte, tanto quanto um híbrido. Os membros do outro grupo o chamavam pelo completamente normal e mundano nome de Gerarvan. Normalmente o deixavam isolado com suas neuras num canto.
Bem, a convivência não foi tão difícil, apesar de uma garota chamada Blinna ser considerada insuportável até entre os membros de seu próprio grupo. Eles eram do tipo que se escondia e só, enquanto o nosso seguira o tipo “se esconde e continua treinando.”. Foi bem fácil perceber isso ao analisar as Auras. Todos os sobreviventes da Guerra do Norte eram capazes de matar um Despertado sozinho. Os do outro grupo não eram todos, pelas Auras percebi que havia apenas três. Aeon, o líder, uma garota de cabelo incrivelmente comprido, que batia em seus joelhos, que nunca aprendi o nome, e... Shadow.
Esse cara merece um prêmio porque ele era ameaçador o suficiente para me deixar com medo.
Ele era uns cinco centímetros mais alto que eu, com o cabelo simplesmente para baixo e completamente liso, caindo pelos olhos. A partir da altura do nariz ele usava uma bandana negra cobrindo seu rosto até a altura do pescoço, não falava com absolutamente ninguém, se isolava, e ele tinha aquele olhar de quem estava analisando as melhores maneiras de te estripar.
Infelizmente, quando o grupo chegou, acho que ele passou, sem brincadeiras, umas três horas me encarando. E isso foi completamente desagradável. Nos dias depois disso, ele passou a me ignorar, graças aos deuses.
Foi entre treinos, algumas tensões, que o dia do teste para guerreiros dos aprendizes chegou.
Anita aprimorou ligeiramente a ideia de Raiden. Ygor ficaria sobrevoando a cidade no veículo, enquanto eu, ela e Nina usaríamos os caminhos fantasmas, e dois rastreadores do outro grupo, Ernie e Faris, se voluntariaram para verificar se nenhum híbrido se aproximaria das redondezas enquanto faríamos tudo.
E acabou assim. Já estávamos escondidos próximos à cidade. Ainda nem havia amanhecido, mas estávamos apenas esperando o veículo da Ordem chegar junto com os aprendizes.
Ernie, que tinha o cabelo tão ralo quanto uma penugem, baixinho mas extremamente musculoso contava alguma história quanto como ele desertou a Ordem com algumas farpas de Faris, que tinha o cabelo comprido e era literalmente comprido em tudo, cabelo comprido, rosto comprido, enfim. Ele parecia um poste.
Mas eu não estava prestando atenção, apenas ficava olhando para a cidade, verificando se não havia nada com que deveríamos nos preocupar enquanto comia um pedaço de carne de carneiro – sim, eu estava comendo carne no café da manhã. -, mas não conseguia ver absolutamente nada. Não havia nada aparentemente perigoso além dos soldados, que não eram exatamente perigosos. As armas que eles usavam eram perigosas, o que era bem diferente.
–... E foi assim que ele saiu correndo com o rabinho entre as pernas! – Faris exclamou em algum momento e recebeu um belo soco de direita de Ernie, que pelo estalo audível deslocou seu maxilar, e ouvi Nina prendendo o riso baixinho.
Falando nisso, nem me lembrei de perguntar que fim ela e Alec tinham tido...
Fiquei um tempo roendo uns pedaços de carne num osso, observando aquela cidade, sentindo as ocasionais Auras de monstros andando por ela, presos dentro da própria de modo a não sair e atacar os soldados. Olhei para cima, o céu já começava a ficar azul.
Dito e feito, senti umas trinta Auras se aproximando pelo céu.
Ernie e Faris levantaram num salto e cada um disparou para uma direção oposta. Levantei-me, mas mantive-me agachado, apenas observando.
O veículo parou brevemente na entrada, antes de prosseguir sem grandes problemas. Ele pousou, e os curadores da Ordem saltaram primeiramente, e depois um grupo de pré-adolescentes e adolescentes começaram a descer.
Chegou a hora.
Os trinta aprendizes reuniram-se num grupo em frente aos soldados e aos curadores, e quando começaram a falar, atirei uma pedra contra a saída. O som elétrico retornou e todos se voltaram para o som. Anita e Nina dispararam para sobre as árvores e disparei para outra saída, antes de correr direto para ela.
Senti calafrios diante as pequenas correntes elétricas que se passaram diante meu corpo, mas não parei de correr, apesar de ter jurado ver fumaça deixando meu corpo, e disparei para a torre do satélite, rezando para que realmente fosse lá o local onde deveria estar o painel de controle.
Arrombei a porta e continuei subindo correndo, até chegar numa imensa sala de teto baixo. Era realmente lá. Havia apenas um soldado em frente à tela holográfica, mexendo em coisas que eu sequer imaginava o que era. Peguei-o pela cabeça sem que percebesse e bati com força o suficiente para que ele desmaiasse.
Agora, vamos para o básico. Destruir isso.
– Ora, ora...
Essa voz me deu arrepios.
Apenas comecei a me virar, mas Oito me agarrou pelo pescoço, arremessando-me para cima. Bati num dispositivo no teto e água começou a espirrar para todos os lados. Me debati e ele continuou apertando meu pescoço, impedindo-me cada vez mais de respirar.
Mordi minha própria língua, e tentei lhe acertar um chute no rosto, mas ele desviou. Em compensação, a força em seus braços diminuiu e usei-me disso para me livrar.
Finquei meus dedos dentro do vidro daquele capacete, puxando-o e lhe dei uma joelhada em seu rosto. Ele grunhiu, o sangue escapando de sua boca, acertando um soco em meu estômago. Arfei e o soltei, então Oito me agarrou pelos cabelos e arrancou minha mão esquerda, me fazendo gritar, mas bateu minha cabeça contra um painel próximo. Senti o sangue escorrendo por minha cabeça, e me debati com mais força, tentando desesperadamente usar minha Aura, e consegui lança-lo do outro lado da sala, batendo contra um painel. Corri em sua direção, meus passos ressoando na água e saltei sobre Oito, agarrando seu pescoço, mas ele fincou os dedos em meu rosto.
Praticamente rolamos sobre o painel como dois animais e ele conseguiu quebrar minha perna, mas quebrei-lhe um braço e duas costelas. Escutei o som, e consegui passá-lo para baixo de mim no momento em que o curto circuito elétrico aconteceu.
O corpo de Oito começou a fumegar e cedeu, mas eu mesmo senti o choque, e caí desorientado no chão. Pisquei, cuspindo sangue, e percebi que tudo estava escuro. O sistema de segurança já era.
Bem, não foi como o planejado, mas deu certo.
Fiz meu osso voltar ao lugar e refixei meu braço, cambaleando pelas escadas antes que Oito acordasse. Escutei o som de tiros, mas eles se tornaram menos ocasionais, até que cessaram.
Quando saí, havia soldados desmaiados para todos os cantos, e as crianças olhavam aquilo tudo com confusão, não com medo.
– Hideo! O que aconteceu?! – Nina exclamou.
– Aparição. – minha voz saiu mais um gorgolejo. – Mas ele me ajudou a destruir os painéis, se é que você me entende.
Ela ficou me encarando, assustada, e percebi que meu corpo exalava o cheiro de carne queimada. Argh. Minha visão oscilava e escurecia nos cantos, meu corpo formigando intensamente.
– Hideo...?
– Ei Anita, aquele não é o Ygor? – questionei antes de desmaiar.
Acordei com o som de conversas. Estava deitado numa cama.
Claro, já deveria ter retornado à fazenda.
– E aí. – Alec disse assim que abri os olhos.
– Me sinto péssimo.
– Imagino. Encontrou com um Aparição. – bufou. – Deu um belo de um susto nas crianças.
– Ah, sim! Tudo bem com elas? – questionei me sentando.
– Sim, sim. Elas simplesmente adoraram o fato de que, no presente momento, não terem que matar umas às outras.
Acabei sorrindo. Essa perspectiva sempre era assustadora, portanto, se ver livre disso é um alívio.
– Há quanto tempo fiquei apagado?
– Tempo o suficiente para nossa avó pegar um álbum de fotos nossas, crianças, e está mostrando para as garotas e quem mais quiser ver. – olhei-o quase aterrorizado. – Por que você acha que vim me refugiar aqui encima?!
Sentei com algum esforço, já levantando. De uma maneira ou outra, teria de descer. Fui até a porta, abrindo-a e descendo aqueles degraus mais alguma vez, escutando o burburinho assustador vindo da sala.
– Hideo! – Alma chamou. – Você tinha uma cueca de sapinhos?
Senti meu rosto esquentando.
– Não, não, a dele era de raposinhas, a do Yudai era de patinhos. A do Alec que era de sapinhos.
– Vó, pelo amor de todos os deuses, Hakpisa, Zachnakpon, qualquer um, para com isso... – Alec gemeu atrás de mim.
– Ah, mas era tão bonitinho... Vocês tinham uns quatro anos...
– Vó, sério...
– Isso me lembra quando o Hideo quebrou o passarinho de plástico do Alec. Ele ficou chorando o dia todo, e só apontava pro Hideo e pro pai dele, como se quisesse que Helder descesse a chinela.
–... Disso eu não lembro. – Alec murmurou.
– Nem eu.
– Ah, que fofinho. – Susana disse prendendo o riso. Percebi que até Anita estava com um álbum em mãos, folheando-os.
Dei um suspiro de desistência, e me joguei no sofá mais próximo. Raquel olhou para mim e sorriu.
– O que é isso? – Larry perguntou, aparecendo do nada sobre o ombro de Susana.
– Yudai tinha ataques de asma muito fortes, então ele teve que usar isso durante um tempo. Era tão bonitinho, o Hideo andava puxando o carrinho com o cilindro de oxigênio para ele.
– Isso eu assumo.
– Ah que fofinho, bebezinhos... Quantos anos vocês tinham aqui? Três?
– Vó, que foto a Alma está vendo? – Perguntei já com medo.
– Ah, uma de você e o Yudai tomando banho.
Alguém me enterre, agora. Neste instante. Já sei que foto ela está vendo. É óbvio que era uma foto de bebês pelados.
– Olha, se tivessem deixado eu teria feito um álbum deles pelados. Tenho de todos os meus filhos.
– Vó, essa foi a coisa mais bizarra que já escutei na minha vida. – Alec comentou mortificado.
– No dia em que você tiver filhos você entenderá meu jovem.
Foi só ela falar isso que todos caíram na risada, menos Alec e Nina. Levantei-me silenciosamente e saí pela porta da frente quando os comentários maldosos e sobrasse para mim. Os aprendizes estavam do outro lado do campo, em frente do curral de cavalos.
– Está melhor? – quase saltei quando Lionel perguntou. Nem percebi ele se aproximando.
– Sim, acho que só desmaiei porque peguei um choque elétrico.
– Choque?
– É, um Aparição apareceu...
– Preciso me atualizar. – bufou. – Faz décadas que não piso em Darneliyan.
Assenti, lembrando-me então de algo. Cartas. Há um bom tempo atrás.
Será que ele sabia? Tinha quase certeza.
– Lionel, posso falar com você?
– Já está falando.
– Longe daqui. – falei num tom cético e apontei pra casa. Ele franziu o cenho, mas assentiu, então começamos a nos afastar, chegando mais próximos a borda da floresta. Olhei para trás, verificando se as garotas – e mais importante, Raquel – não haviam saído da casa, mas nada.
– O que houve?
– Lionel, você... Sabia sobre Raquel ser filha de Raban?
Ele me olhou chocado, e então cerrou os olhos.
– C-como você sabe disso?
– Você sabe ou não? Essa é a pergunta.
Ele suspirou, olhando envolta, claramente para verificar, assim como eu fizera, se havia alguém por perto. Mas não, novamente, nada.
– Sim, sabia. Mas e você. Como você sabe?
Olhei para a coluna negra que se estendia no horizonte. Aquela coisa que crescera do nada.
– Nem eu sei. Só sei que estávamos fugindo de um Despertado, e apaguei. Quando percebi, eu... Estava vendo as memórias de Raban.
– Hideo, isso não faz o mínimo sentido.
– Assim como sou um híbrido ruivo com metade de minha alma, vi Daichi e já falei com um deus? – ele me olhou surpreso. – Acho que porcaria nenhuma faz sentido na minha vida.
– Metade de sua alma? – Lionel questionou confuso.
– Ah, sim, acabei nem te contando. Depois que voltamos para Darneliyan, após termos ferrado sua vida nos Estados Unidos – ele soltou um bufo reprimido. – um Abissal pegou o Yudai para torturá-lo e fazê-lo Despertar. Eu fui atrás junto com o antigo número quatro, Denis, e quando cheguei ele já tinha Despertado. – Rolei os olhos e massageei minhas têmporas. – Ele era teimoso o suficiente para com muito esforço ter deixado sua mente humana, então tentei fazer ele voltar sincronizando nossas Auras.
– Ah, não me diga que...
– Sim, acabamos fazendo a Ligação de Almas, e eu controlei o Yudai Despertado durante um tempo e depois o fiz voltar à forma humana. – bufei. – Tivemos algumas sequelas, como por exemplo, criamos uma telepatia um com o outro, mas nunca reportamos à Ordem, sabe? E então teve a Guerra do Norte... Yudai não simplesmente morreu. Eu... Eu que o matei.
– O quê?! Você não faria isso, te conheci o suficiente para saber disso.
– Eu pensava que ele tinha morrido devido a um Despertado, então me descontrolei para tentar mata-la. Cheguei muito próximo do Despertar, e então Yudai me fez voltar. Eu acabei machucando-o ainda mais e ele acabou morrendo. E por causa da Ligação de Almas, eu perdi metade da minha. Foi isso que aconteceu.
Ele ficou me encarando durante um tempo, como se estivesse absolvendo a informação, então apenas balançou a cabeça. Ele claramente não tinha nada a declarar.
– Quanto a Raban... Quando ele me deu a notícia de que Sophia estava grávida eu quase entrei em estado de choque, sabe? Ninguém imaginava que híbridas pudessem engravidar, ainda mais porque já havíamos visto dezenas de casais, mas... Ah, não sei. Agora Raquel é uma híbrida também, e não faço a mínima ideia de onde o pai desnaturado dela pode estar.
– Nem eu... – olhei de novo para a coluna negra. – Mas agora com certeza a Ordem está em alerta máximo contra nós, afinal, acho que nenhum grupo de renegados fez algo tão direto quanto agora...
– Convenhamos, as crianças estão felizes por terem sido “sequestradas”.
– Sabe, eu também ficaria feliz nesse caso.
– Ei, podemos saber o que vocês estão falando? – assustei-me ao perceber Gerarvan aproximando-se. – Mas Gerard, é falta de educação... Calado Ivan, eu quero escut... SEJA EDUCADO. AH, MAS O QUE DEU EM VOCÊ?!
Eu e Lionel nos entreolhamos sem dizer nada. Eu não estava brincando quando dissera que aquele cara era louco. Aproveitei para sair dali rapidamente enquanto ele se socava.
XXX
Mais cinco meses se passaram.
Foi suficiente para o grupo aumentar ainda mais, com grupos de renegados ou apenas uma pessoa. Não sabia como alguns nos encontravam, outros eram os membros quando saíam em missão topavam com algum e surgia um convite.
O irmão de Raiden era inteligente o suficiente para criar uma bomba de pregos usando uma lata de feijão, açúcar – como assim? — e os ditos pregos e mais algumas coisas extremamente úteis que eu nem sabia que existia – eu não sabia que poderia armar uma fogueira com cadarços. -, e tinha um baixinho no grupo de Aeon, Khalil, que conseguia hackear as coisas com mais facilidade até do que Anita.
Agora tinha umas trezentos e cinquenta a trezentos e setenta pessoas, sem contar os aprendizes. Parece que o tempo nem passou tão rápido. Parece surreal tantos híbridos no mesmo lugar.
Mas como sempre, as coisas tinham que dar errado.
Tudo começou quando a coluna negra que crescera do nada, à quilômetros de distância.
Percebi que havia algo errado quando escutei o som de coisas assoviando contra o vento. E então o som de explosões.
Todos pareceram parar, e só então vimos milhares de estacas gigantescas vindo em nossa direção. Quer dizer...
Indo para todos os lados.
Diego pensou mais rápido que eu.
– Rápido! Peguem todos os humanos daqui e os levem a um lugar!
Ainda tínhamos algum tempo. Agarrei Yume que tinha vindo visitar nossa avó, que fez questão de não largar seu bebê, e gritei enquanto corria.
– O porão! Vai ser o suficiente!
As estacas começaram a ficar cada vez mais próximas, e chutei o estrado do porão, pondo Yume no chão e abrindo a porta de ferro, enquanto Alec chegava com nosso avô, Aeon com as filhas dos caseiros, Alma trouxe minha avó – abraçada aos seus inseparáveis álbuns de fotos — e Lionel com as esposas. Onde estava o resto?!
Eles entraram correndo e os caseiros vieram com Raiden, e fechei a porta de ferro com um puxão, quase no segundo exato que as estacas nublaram o céu de tal forma que ele escureceu como a noite, para tocaram o chão.
Pareciam bombas. Caíam, cravando o chão com força, fazendo terra voar para todos os lados e um estrondo alto, fazendo o chão tremer. Tive de ativar minha visão noturna para enxergar e logo tinha de desviar, mas cada vez tornava-se cada vez mais difícil. Afinal, elas cravavam tudo o que viam pela frente e eram muitas. Demais
Não deu para reprimir. Tinha gente gritando, animais berrando, e o som altíssimo das coisas batendo no chão, junto com o som das construções ruindo. Um dos cavalos que os caseiros usavam, ainda selado, passou correndo à minha frente, relinchando e saltei sobre ele, o conduzindo-o até atrás das ruínas do que até alguns minutos atrás era a casa dos porcos.
Ele resfolegava, os grandes olhos castanhos arregalados e a pelagem dourada estava manchada de sangue, mas ele não parecia machucado. Ele simplesmente ficou parado e decidi deixá-lo lá.
Quando voltei, vi Sebastian conduzindo alguns aprendizes para se esconder. Estavam todos extremamente assustados
– Sebastian, onde estão os outros?!
– Eu não sei, só achei e...
Ele não terminou a frase, simplesmente uma estaca atravessou, certeira, sua cabeça, fazendo com que o sangue espirrasse.
Arregalei os olhos e uma aprendiza gritou.
– Sebastian! – Miriã, uma garota do grupo gritou ao longe, e corri até ele, mas não dava mais.
Estava morto.
Antes que tivesse qualquer reação diante esta constatação, uma estaca atravessou, zunindo, por meu ombro. Grunhi e a arranquei, então arrastando o corpo dele até onde ele havia posto os aprendizes. Os estrondos estavam cada vez mais altos, e um porco passou chiando enfurecidamente com uma estaca presa às suas costas, fazendo as galinhas debandarem e alguns bay cams tentaram fugir voando, mas foram pegos em pleno ar.
Foi então que minha mente voltou-se com urgência para outro fato.
Onde estava Raquel?!
Olhei envolta desesperado com o sangue escorrendo de meu ombro, mas não a via em lugar nenhum em meio à confusão de estacas, escuridão, corpos, pessoas e animais. Estava começando a me desesperar, com medo que ela fosse um dos que já houvesse caído, mas tive de correr, pois um vinha bem em minha direção.
Fui arremessado pelo impacto, dei uma cambalhota e ainda a algumas dezenas de metros do chão, vi com exatidão quando a casa de meus avós explodiu.
Pousei de pé e encarei aquilo chocado. Era a casa onde passara toda minha infância, praticamente. E agora estava sendo consumida pelas chamas, com a fumaça correndo em direção ao céu num imenso rolo. Aquilo deu um grande aperto no meu peito.
Um mugido e vi uma vaca vindo furiosamente em minha direção. Desviei por pouco a tempo de ver Diego ser atingido bem nas costas. Comecei a correr em direção a ele, mas Anita saltou sobre ele e arrancou-lhe aquela coisa de suas costas.
E, então... Parou.
As nuvens do céu estavam acinzentadas e moviam-se num redemoinho, como se premeditasse uma tempestade. Olhei envolta, desnorteado, vendo que alguns que haviam caído levantarem-se, outros parados, assim como eu, como se esperando ver o que aconteceria. Olhei então para uma estaca ao meu lado, vendo a casca negra sobre sua superfície.
Espera, é translúcida?
Dois olhos animalescos se abriram dentro dela.
– Monstros! – berrei. – Dentro das estacas tem monstros!
Um som semelhante a vidro quebrando começou a se espalhar pelo campo. Todos pareceram gelar. Estava tudo absolutamente silencioso, parecia que até os animais haviam se calado, amedrontados. E junto com o som de uma casca se quebrando, veio milhares de rugidos em uníssono.
Cinco seres, ainda com um líquido viscoso cobrindo seus corpos saltaram sobre mim, de direções diferentes. Usei minha Aura quase como um redemoinho ao meu redor, jogando-os para longe e puxei meu símbolo. Mais um saltou sobre mim, e seus dentes atingiram a lâmina com um ruído metálico, então lhe acertei um chute no estômago, fazendo-o cambalear para trás e cortei-o ao meio na altura de sua cintura.
Foi meu erro.
Arregalei os olhos, quando simplesmente pernas cresceram da parte superior e um novo tronco da parte inferior. Agora havia mais dois.
Está de brincadeira com a minha cara, não é?
Saltei para trás quando avançaram. Tinham corpos humanoides e feições felinas, com uma casca negra cobrindo seus corpos. Cortei a cabeça de um e ele caiu, mas o outro se jogou no chão, vindo girando verticalmente como um disco mortal em minha direção.
Fiz a primeira coisa que deu em minha cabeça. Peguei minha espada como se fosse um taco e lhe rebati com tanta força que ele foi girando e matando uns trinta monstros no caminho antes de cair no rio.
– Hideo! – ouvi Raquel gritando e quase fiquei aliviado, quando ela me jogou a sacola que recebera em Sacraelum. – Seus equipamentos!
Três saltaram sobre ela, fazendo-a recuar. Raquel chutou a cabeça de um, que voou metros atrás do corpo, cortou o outro verticalmente ao meio – deu certo porque ele perdeu a cabeça no caminho. – e cortou a cabeça do terceiro ao meio. Algo me diz que talvez eu não deva ficar tão preocupado com ela assim...
Vesti as coisas quase que na velocidade da luz, percebendo que as sacolas que Jahun me dera ainda estavam ali, intactas. Tinha até me esquecido delas.
Antes que eu calçasse as luvas de ferro, um monstro saltou sobre mim, e por reflexo pus minha mão em frente ao rosto, fazendo com que ele a mordesse. Grunhi ao sentir as presas atravessarem a carne, então lhe acertei um chute, mas ele não me largou. Comecei a tatear ao meu lado em busca de minha espada, quando ele simplesmente foi arrancado de cima de mim.
Shadow pegou o monstro pelo pescoço, erguendo-o do chão, e o torceu com tanta força e uma facilidade tão assustadora que pareceu que ele torcia o pescoço de uma galinha. O corpo do monstro caiu mole e morto no chão, e percebi que os olhos de Shadow estavam sinistramente violetas. Não como os de um Despertado, mas com uma sombria chama roxa. Ele olhou para os monstros que se aproximavam e ergueu a mão, com os dedos médio e anelar abaixados enquanto os outros erguidos e fez um movimento vertical.
Uma chama violeta surgiu, e entre as chamas vi um rosto de uma pessoa retorcido em fúria e saltou sobre as criaturas, puxando-as para dentro das chamas enquanto elas se contorciam em agonia.
–... Obrigado.
Shadow soltou apenas algo semelhante a um grunhido e foi embora.
Levantei num salto, e ao olhar para trás vi algo bizarro. O ovo de lobo do fogo estava lá. Mas como ele saiu se estava dentro da sacola que Jahun me deu, dentro da minha sacola.
Peguei minha espada e quando me abaixei para pegá-lo, ele simplesmente rolou furiosamente em direção às chamas da casa de meus avós.
– Mas que porcaria é essa?! – gritei em meio ao som de espadas se chocando, e por algum motivo, corri atrás daquele ovo maldito.
Cheguei um tempo depois de ele ter entrado nas chamas, e não sei por que, simplesmente meti minha mão machucada no fogo, e em meio ao calor infernal senti algo muito semelhante a uma língua lambendo o sangue que escorria.
Logo após isso um rugido ensurdecedor surgiu e simplesmente pareceu que as chamas saltaram sobre mim. Literalmente, pois estavam atrás de mim.
Girei, e logo me perguntei: Se tecnicamente o ovo houvesse chocado, o lobo não deveria ser um filhote minúsculo que sequer conseguiria se por de pé?
Pois havia um lobo cujo pelo eram chamas de uns dois metros e meio atrás de mim.
Ele soltou um uivo saltou sobre os monstros, estraçalhando-os com garras e dentes furiosamente. Isso me fez lembrar que deveria voltar a matá-los também.
Pareceram horas. Monstros e mais monstros, todos empenhados a matá-los, e já sentia meu corpo pesado, quando literalmente fui arremessado pela floresta devido a uma onda furiosa que se lançou sobre nós, e bati minha cabeça, fazendo com que algo batesse em minha cabeça.
Quando abri os olhos, estava na floresta, o sol parecia ofuscar minha visão.
Quanto tempo passei apagado?
Percebi que havia mais três pessoas ali.
– Argh... – Raiden gemeu, esfregando a cabeça. Hadraian estava deitado, meio encolhido e de costas para nós, e percebi Aeon sentado.
– O que foi aquilo?!
– Não faço a mínima ideia. – murmurei, levantando. – E agora? Como estão os outros.
– Não sei. – Raiden murmurou. – Temos que voltar.
– Para começar, em que parte da floresta estamos?
Senti uma sensação horrível. Um frio terrível. Parecia que minha pele estava se arrepiando, com a sensação de que algo muito ruim estava se aproximando. Eu queria sair dali. Girar os calcanhares e sumir entre as árvores. Aquela sensação...
Era quando a coisa negra se aproximava.
Ela nunca se aproximava de mim quando eu estava próximo a outras pessoas, mas por que agora estava com a sensação de que ela estava por perto?!
Um grande felino apareceu entre as árvores, prendendo minha atenção. Ele parecia uma puma, mas sua pelagem era um profundo tom de azul cristal. Quase como os cristais que o corpo de Yudai haviam se tornado. Os olhos azuis fixaram-se em um ponto atrás de mim, e sua cauda moveu-se preguiçosamente, e então ele simplesmente saiu correndo.
E escutei o som de algo engasgando.
– Hadraian?!
Girei imediatamente, e, agora sim, havia algo muito errado.
Hadraian havia claramente atacado Aeon por trás, e agora segurava seu rosto, enquanto claramente mordia seu pescoço com todas as suas forças, como se tivesse a intenção de rasgá-lo. Mas em seu rosto... Estava a coisa preta. As gavinhas escorrendo por seus olhos, descendo pelo pescoço.
Estava o controlando.
– A-aquela coisa preta... – Raiden balbuciou, e os olhos de Hadraian se reviraram. E eu percebi que ele estava lutando contra.
Suas próprias mãos empurraram Aeon, arrancando um naco de seu pescoço, mas sem dúvidas ele continuou vivo, pondo suas mãos instintivamente no ferimento. Hadraian começou a se debater, como se quisesse tirar aquilo de si, e era óbvio que ele precisava de ajuda.
Comecei a me aproximar, quando a coisa negra se pressionou contra sua pele de tal modo que nunca havia visto – nem sentido antes.
Não.
O sangue esguichou com abundância de seu pescoço.
Não.
– Não! – Raiden gritou atrás de mim.
Tarde demais. Hadraian caiu morto aos meus pés, o sangue rubro se espalhando pelo chão.
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