Meia Alma
23 Capítulo 22 - Sou eu?
Notas iniciais
O silêncio que se fez na cozinha depois era o suficiente para que normalmente eu me arrependesse, mas, bem... Eu falei. Admito que não esperava algo como me receberem de braços abertos ou essas coisas clichês. Só não queria, sei lá, aquele período de negação, “Você não é meu filho/neto”, essas coisas. Isso também é demais para uma pessoa.
Admito que só não esperava que minha avó literalmente jogasse a concha pro alto e praticamente se jogasse em cima de mim. Eu me assustei, sério, mas ao menos tive o reflexo de segurá-la, e Raquel foi pegar a panela e a concha antes que caíssem no chão
Ei, ela estava chorando?
– Eu estava suspeitando de algo... Quando você desceu e estava todo estranho... Eu comecei a suspeitar! — ela soluçou enquanto eu ainda me encontrava sem reação, então percebi que ela estava tentando me abraçar, então me repreendi mentalmente antes de começar a retribuir o abraço. Acho que fiquei um pouquinho fora do ar com a surpresa.
– Não... Você não pode ser o Hideo... – Meu avô começou lá de trás, quase me fazendo olhá-lo nervoso. – Você é alto demais.
Quase escutei Raquel prendendo o riso. Eu sei que ela está prendendo o riso, mesmo de costas pra mim. Tudo bem, pode rir, eu sei que era muito pequeno, mesmo você nunca tendo visto. Minha avó me soltou e voltou-se para ele com mais um de seus olhares mortais e ele pareceu se intimidar, mas meu pai voltado para o outro lado também, e eu sabia que ele estava talvez tentando não rir ou fazendo alguma expressão de que não acreditava que o meu avô falara aquilo.
–... Desculpa, mas, agora, é sério mesmo? É você mesmo Hideo?
– Sim. Bem... Tive uns momentos de procrastinação lá encima por não saber como dizer isso, mas sou eu mesmo. – suspirei. – É um tanto difícil por que... Eu não vejo vocês há tanto tempo e o jeito que nós fomos... Ah, vocês sabem.
– Também acho, quando os vi, vocês eram menores que eu. – meu avô falou num tom depressivo. – Agora até Yume é mais alta que eu...
– Yume? Ela está aqui?
– Bem, sim... – Meu pai disse. – Ela se casou e tem um bebê.
Isso foi surpresa, acho que foi a primeira vez na minha vida em que...
– Se sente velho? Imagine eu.
– O almoço! – a minha avó voltou praticamente correndo para as panelas e Raquel me olhou meio que em dúvida enquanto voltava para perto de mim novamente.
– Ah... Esses dois são meus avós, e esse é o meu pai. – falei para ela que pareceu estranhar a aparência estranhamente jovem dele.
– Pai...?
Meu pai parecia nervoso por algum motivo. Percebi que minha avó o encarava com uma expressão de quem gostaria de falar com ele depois. Que diabos...
– Também acho isso estranho. – meu avô pôs a mão no queixo, encarando-o de cima a abaixo. – Filho, você dorme em formol ou algo do tipo?
– Não... Ah, desisto. – disse do nada e começou a voltar para a sala, mas minha avó interveio.
– Helder, fique aqui, precisamos conversar. Mas vocês podem ir pra sala.
A expressão de “ferrou” do meu pai foi tão engraçada que eu quase ri, mas meu avô levantou, pôs a revista embaixo do braço e praticamente empurrou a mim e a Raquel para a sala, e eu não consegui escutar o que minha avó e o meu pai começaram a falar.
A sala estava basicamente do mesmo jeito, e Yume estava sentada assistindo televisão.
Era óbvio que ela estava maior, já que deve ter a idade de Raquel, seu cabelo encaracolado estava cortado curto, um pouco acima dos ombros, e tinha um berço desmontável no meio da sala, e realmente tinha um bebê de talvez uns dois meses dormindo lá dentro, com uma roupinha verde claro e bege. E, acho que é meio claro, ele era ruivo. Todo mundo da família praticamente é ruivo, só quem é de fora que não é, por assim dizer.
– Yume, olha aqui. – Meu avô chamou num tom bem humorado, ignorando completamente a mim que ainda estava tentando absolver a ideia de que a minha irmã já era casada e tinha filhos. Tá, só um, mas ainda assim. Meu avô me tirou completamente de meu mundo praticamente espetando um dedo na minha cara. – Ele é o Hideo, acredita?! Aliás filho, o que você faz além de matar monstros? Tá tão branco que parece que não pega sol há anos!
–... Quase isso. – Tirei o dedo dele da minha cara. – Sete anos no Norte fazem mal para ninguém, sabe?
– Por que você...
– Hideo! – Yume se levantou num salto e me abraçou com força o suficiente para que eu cambaleasse para trás e minhas costelas doessem. Com um estalo percebi que ela deveria ter quase a altura de Raquel também, um pouquinho mais baixa também. – Por que seu cabelo tá vermelho? Eu lembro dele branco... Mas tanto faz, é bom te ver de novo! Você está ainda mais alto!
– De novo? – meu avô perguntou como se estivesse boiando completamente. E com certeza estava.
– Hã... É, eu encontrei Yume uma vez, mas faz muito tempo. Muito tempo... – Olhei para o bebê e meu avô fez uma expressão de quem entendeu.
– Ah sim, eu também ia perguntar se... Bem, você é um hibrido agora, então porquê seu cabelo é ruivo...
– Vovô, o senhor esqueceu e só quer pegar a conversa. – Yume acusou, me soltando então.
– C-claro que não... – Nós dois o encaramos ceticamente. – É, talvez sim.
– Bem... – olhei nervosamente para Raquel. – Foi um acidente, não tem muita explicação não...
– Tinta?
– Não, foi um acidente, só isso...
Eles não pareceram muito convencidos, mas me deixaram em paz ao menos com isso. O bebê começou a se mover no berço, e pelos sons baixinhos que começou a soltar, ele estava prestes a chorar. Dito e certo, logo Yume acabou tendo de ir acudi-lo.
– Seu... Marido está aqui? – perguntei, me sentando no sofá e, sim, meus pés agradeciam a isso.
– Sim, mas...
– Ele saiu com Gage. – meu avô interrompeu. — Você lembra de Gage, não é? Você já viu ele uma vez e...
– Vô, ele realmente só viu Gage uma vez, não é como se ele fosse lembrar.
– Gage? – questionei, forçando a memória. Nem sabia que isso era nome...
– Sim, sim! Seu primo!
Eu sei tenho tanto primo que parece que eles brotam do chão, e você realmente acha que eu vou lembrar de um que só vi uma vez na vida?!
– Irmão do Hank...
É, ele acha.
– Irmão do Nicholas! – exclamou. – O pequeno Nick ficou famoso, lembra?
–... Nicholas? – Raquel perguntou. O único Nicholas que me lembrava era do psicopata doido que tentou matar Yudai.
– Sim, era um outro neto meu... Ele, primeiro, não era ruivo, era loiro! Segundo, pensei que era uma neta minha, não um neto! – meu avô deu uma risada sem graça.
– Era? – perguntei.
– Era, não lembra?
– Não, Nicholas só me lembra de um híbrido que não gosto de me lembrar muito...
– Pois é, eu também... – Raquel comentou ao meu lado. Ah sim, ela estava com Yudai quando encontrou Nicholas, não era? Deve ter sido traumatizante.
– Vô, ele não lembra.
– Que pena... Mas, falando em relacionamentos, essa moça, Raquel, não é? Ela é sua namorada?
Acho que eu e Raquel nos olhamos com um olhar sem graça. Tecnicamente, nunca oficializamos nada, certo? Bem, não que precise...
– Pelos deuses Hideo, você tem vergonha de assumir a moça? Ainda mais, uma moça bonita, sabe?
– É... Eu sei... É que... Bem... Só faz uns dez dias e... Desses dez dias, eu passei uma semana desacordado...
Meu avô soltou um bufo de desaprovação e Yume parecia prestes a expelir o cérebro pelas orelhas na tentativa de não rir. Olhei para Raquel desesperado por ajuda, mas ela parecia tão sem graça quanto eu.
– Hideo, você é tão romântico que me dá câncer. – Meu avô soltou e Yume deu uma gargalhada tão alta que o bebê que já voltara a dormir acordou novamente. – Homem que é homem assume com cinco minutos!
Raquel parecia estar prendendo o riso também e tenho certeza que a essa altura meu rosto estava tão vermelho que estava monocromático. Yume estava totalmente voltada ao bebê, portanto não veio me socorrer dessa vez.
– Estou esperando uma resposta.
– O senhor reclama de mim, mas nunca viu o Alec. – dessa vez Raquel não aguentou e acabou rindo.
– Alec! Ele está bem?!
– Sim, e está numa situação bem enrolada com uma garota há uns quinze anos...
–... Preciso conversar com ele. – falou depois de um longo momento de silêncio. Consegui tirar a atenção de mim, viva!
Bem, depois disso... Achei bem estranho a quase falta de medo de alguns, como meu pai, avós e Yume. Os outros meio que ficaram meio com estranhamento, mas não exatamente medo, sendo que esse estranhamento sumiu com o tempo. Acho que além de mim e Raquel, tinha umas dezesseis pessoas naquela casa, contando com crianças que nunca vira na vida que obviamente nasceram depois de minha ida à Ordem. Acho que o que mais chamou a minha atenção foi Shiv, filho de uma tia minha que eu nem lembrava da existência, Tia Nera. Foi por causa de uma coisa que ele comentou durante um almoço...
– Na minha escola dizem que híbridos comem carne humana. – disse enquanto espetava um pedaço de carne. Acho que ele tem no máximo uns doze anos. Ele me assustou com esse comentário, afinal, isso era coisa de... Bem, monstro!
– Shiv! – Minha tia exclamou mortificada, puxando uma de suas orelhas com tanta força que ficou da cor de seus cabelos.
– Mas é o que eles dizem! – reclamou, esfregando a orelha vermelha.
– Então isso não nos tornaria muito diferente de monstros. – falei, tentando manter alguma neutralidade. Acho que Raquel se assustou também.
– Então o que vocês comem?
– Shiv, está...
– Eu já vi Hideo comer três pacotes de biscoito e ainda roubar comida de crianças.
– Eu não roubei! Elas deixaram lá encima e disseram que eu podia pegar se quisesse.
Ela sorriu e olhei-a com uma expressão quase que traída, “em que lado você está?”. A essa altura muita gente na mesa estava rindo de mim, mas ignorei.
Depois de mais ou menos uns cinco dias minha percepção de Auras voltou, mas minha força e velocidade continuavam um lixo. Foram mais uns dez dias para eles começarem a voltar, e estava cogitando a ligar para Anita para que mandasse outra pessoa no meu lugar, mas admito que também fui egoísta o suficiente para pedir que Raquel ficasse comigo, porque tenho certeza de que ela, mesmo preocupada comigo, já teria voltado.
Foi mais ou menos uns três dias depois que senti duas Auras perto da fazenda. Elas eram parecidas, tinham um cheiro que lembrava uma mistura de menta e abacaxi. Elas davam voltas na fazenda como se tentassem encontrar um alvo. E algo me dizia que era eu.
Era de madrugada, umas duas da manhã, eu acordara devido a um pesadelo – algo bem normal que deixara meu peito doendo como o inferno e falta de ar. – quando as senti. Estavam muito distantes, a ponto de que mesmo eu mal as sentia.
Olhei para o lado e Raquel ainda dormia na outra cama. Era muito incomum alguém sentir Auras aquela distância, mas eu as sentia, obviamente. Mas ela não, por isso continuava dormindo.
Levantei o mais silenciosamente que consegui, e fiquei satisfeito ao perceber que a madeira não rangeu sob meu peso, e fui quieto até a porta, descendo as escadas e saí da casa. O ar noturno soprou em meu rosto, e pisei na grama alta, indo em direção à floresta que estava quase que a quilômetros de distância.
Assim que me embrenhei na floresta, percebi-as se voltando para mim. Corri até um lugar mais aberto que achei e esperei que os donos das duas Auras chegassem. Na verdade, eram donas. Eram gêmeas idênticas.
Ambas eram bem altas e... Bem, curvilíneas, já que faziam questão de estarem usando roupas bem colantes, mas com uma armadura leve por cima, tanto que me perguntei como elas entraram nelas. Os cabelos de ambas eram curtos e retos num corte degradé, por assim dizer. De uma chegava quase até ombro direito de um lado e ia encurtando até chegar mais ou menos na altura da orelha do lado esquerdo, e o da outra era o contrário.
Lembrava-me vagamente de Elizabeth tê-las mencionado...
– As novas número 1 e número 2, não é? – perguntei. – Adeline e Aagje?
– Nossos nomes não interessam a quem está prestes a morrer. – a primeira disse.
– Você é claramente um renegado. – a segunda continuou. – Traição à Ordem é punida com a morte.
– Ah, nossa, é sério? Depois de tanto tempo, pensei que estava apenas brincando de esconde-esconde com ela. – ironizei. Sério que vocês acham que eu estou fazendo isso sem saber que estou traindo a Ordem?! – E... Vocês acham realmente que eu vou morrer?
A primeira saltou sobre mim com uma enorme velocidade, mas bloqueei sua espada com até facilidade. O modo que esta era decorada entregava completamente sua posição de número 1. Admito que apesar de estar talvez com uns 30% de minha força normal, eu esperava muito mais de uma número um. Talvez um golpe que na tentativa de bloquear partisse meu braço...
Então me lembrei que eu tinha ficado com a força de Yudai além das habilidades. Aí explica muita coisa.
A segunda saltou sobre minhas costas, mas rolei para o lado, levantei num salto e quase acertei um chute no ombro desta, mas ela se abaixou e tentou atacar minha perna que ainda se encontrava no chão, então saltei, girando, e a primeira – acho que Adeline – tentou me atacar. Ainda de cabeça para baixo a bloqueei, mas o impacto dos golpes me empurrou para trás.
Pisei imediatamente no chão, girando e por pouco a espada da segunda quase não atingiu meu ombro, mas dei-lhe uma rasteira, agarrei sua cabeça e bati-a com toda a força no chão ao ponto de escutar a pedra se partindo e o sangue escorrer entre meus dedos. A primeira imediatamente avançou sobre mim, mas bloqueei-a novamente. Girei as espadas e atirei-a para o lado, mas ela saltou já de frente para mim, e aconteceu algo que eu não esperava.
Ela Despertou.
Foi meio óbvia a sincronização de Auras, e sua forma Despertada era humanoide, ainda com um corpo feminino e azulado, só que mais alto e esguio. Seus membros pareciam montados em seu corpo, unidos por finos músculos prateados, e o rosto parecia ser esculpido numa carapaça, com o que me pareceram tentáculos servindo de cabelo. Não sei porque, mas me lembrou um pouquinho a forma Despertada de Yudai...
Minha reação foi bem... Cruel até. Pisei nas costas da que estava no chão com tanta força que os ossos cederam aos meus pés descalços. Ela gritou e a outra arquejou, caindo de joelhos e voltando a forma humana.
– Você acha que eu sou idiota? – questionei e ela me olhou com incredulidade. – Uma Desperta e a outra controla, é óbvio que o ponto fraco é a que fica com a mente humana. – revirei os olhos. Alguma coisa me deixava com raiva de tudo aquilo. – Se quisesse me pegar, Despertada, deveria ter deixado sua irmã muito mais longe.
Ela permaneceu em silêncio, me olhando acho que com ódio e arfando. Suas pupilas encontravam-se felinas.
– Sabe, acho que a Ordem teve o maior orgulho de vocês, por serem a primeira experiência do tipo a dar certo, mas... Você é uma número um bem medíocre. Eu era o número nove e você sequer fez um arranhão em mim. Você está de armadura, e eu estou descalço, com moletom e camiseta e menos que minha força total. – tirei meu pé de cima da que estava jogada no chão. – Sumam daqui, ou eu vou me certificar que vocês não vão ir para a Ordem com a língua entre os dentes.
Ela se levantou, com a espada em riste.
– Sabe, eu acabei de acordar de um jeito não muito agradável... Então acho que estou meio mal humorado.
Ela avançou contra mim, e eu tive um reflexo que até mesmo me chocou. Empurrei sua espada para o lado e simplesmente cravei minha própria mão direita contra ela. Errei por pouco seu coração, mas sentia-o batendo contra meu braço, e minha mão saía de suas costas. Ela ofegou, e eu fiquei acho que num estado rápido de choque, sentindo o sangue escorrer e espirrar para todos os lados, e então o corpo dela somente cedeu. Tirei minha mão de... Bem, dentro dela, e tentei pegá-la, mas a outra saltou sobre mim quase com um rugido, pegou a irmã e disparou floresta adentro.
Pisquei chocado e olhei para meu braço. Era vermelho no branco, e ele escorria pegajoso e quente.
Senti só então uma Aura cedendo não muito distante, apenas algumas dezenas de metros, e eis que encontro o corpo de um Despertado ao chão, Raquel, ainda com sua espada, Raiden e Maurice. Os três me olharam e pararam um segundo.
– Hideo... Quanto sangue... – Maurice comentou chocado. Percebi que tinha sangue até no meu rosto.
– Ah... Tudo bem... Acho. Não é meu. – respondi. A camisa que eu estava usando emprestada de meu pai estava completamente empapada também, e escorria até a calça.
– O que aconteceu? – Raquel perguntou.
– As número 1 e 2 estavam aí e me atacaram.
– Adeline e Aagje? A Ordem vive dizendo que são provavelmente as mais fortes de todos os tempos... – Raiden comentou.
– Fortes? Não tenho o costume de me achar, mas foi tão fácil que chegou a ser estúpido. Você me deu mais trabalho que elas. E eu... Quase matei a número 1 sem querer...
– Adeline, sério?! Por isso o sangue?!
– Foi sem querer... – balancei a cabeça. – Acho que tenho que tentar dar um jeito ao menos nessa camisa e no meu braço. Vou lá para o rio.
Eles foram atrás de mim de qualquer jeito. Quando cheguei ao trapiche, simplesmente saltei na água. Sabia que os peixes carnívoros iriam se manter distantes como qualquer outro animal, por isso não tinha medo. Quando emergi, Raquel tinha sentado num dos degraus de madeira, mas os outros dois se mantinham de pé, então simplesmente subi no tablado submerso e fiquei sentado dentro da água.
– Então, o que aconteceu?
– Eu acordei e senti as Auras, então fui para a floresta e encontrei as duas, elas me disseram que tinham ordens de me matar, aquela conversa toda, mas elas são absurdamente fracas. Não estou mentindo. Acho que a Ordem a treinou mais para uma ser um Despertado forte do que uma guerreira forte. E vocês?
– Viemos atrás de um Despertado que estava aqui, mas quando chegamos, Raquel já tinha acabado com ele. E então você apareceu.
– Ah... E os... Túneis fantasmas que vocês estavam procurando?
– Nós achamos! – Raiden disse. – É bem útil, mas tem que ter cuidado que ele não tem absolutamente nada, então se um Aparição chegar, normalmente a alternativa é correr desesperadamente...
– Normalmente?
– Sim, por que... – ele apontou pra Maurice. – Dá pra enganar eles, tanto com ele quanto com a afinidade com terra.
– Que não é muito agradável. – Maurice acusou e Raiden coçou a nuca.
– Mas dá certo, é o que importa.
Suspirei, passando a mão por meu cabelo.
– Aconteceu mais alguma coisa?
– Diego encontrou alguns grupos de renegados no sul. Chamaram-nos de loucos, mas dois... Demonstraram interesse a nossa causa, por assim dizer. – Maurice disse. – Um é gigante, tem umas trinta pessoas, nem faço ideia como eles se escondem, o outro tem dezessete. O líder do maior foi falar com Anita, apesar de ter se recusado a entrar na cidade, e disse que talvez se aproxime caso arranjemos um espaço maior.
–... Nossa.
– Problema é que encontramos no caminho umas coisas...
– Experiências da Ordem com os mortos da Guerra do Norte?
– Como você sabe?!
– Encontramos com eles uma vez. – Raquel disse e estremeceu.
– Pois é. Mas mesmo que o grupo maior se junte a nós, tanto Ygor e Altri afirmaram que provavelmente a Ordem tem muito mais que sessenta e oito guerreiros.
– Temos oito Aparições... – Raiden disse. – Experiências e ainda temos os guerreiros que foram criados dentro da Ordem. E esses guerreiros podem ser centenas.
– É uma situação delicada. – murmurei. – Precisamos de espaço logo.
– Eu sei... Mas é difícil, precisamos de um ponto cego pra Ordem.
– Um lugar que eles nem imaginem... – Raquel murmurou.
Assenti, e ficamos mais algumas horas conversando. Só saí quando estava me tornando algo muito próximo a uma uva-passa e estava começando a amanhecer. Raiden foi atrás de alguma coisa, então me virei para Raquel.
– Acho... Que é melhor sairmos daqui.
– Você ainda não se recuperou muito...
– Sim, mas a Ordem já veio aqui. Não atrás de nós, mas veio.
– Não poderiam estar atrás do rastro de Lúcio?
– Provável, mas estou preocupado de eles mandarem alguma coisa atacar a minha família, caso aquelas duas deem com as línguas entre os dentes. – bufei, e então ela assentiu.
– Adeline e Aagje? – Raiden apareceu do nada. – Elas são conhecidas por serem extremamente vingativas. Provavelmente elas vão atrás de você por conta própria.
– Ainda assim, acho que é melhor pegarmos nossas coisas e irmos embora. – falei.
– Voltamos logo, então.
Olhei para Raquel novamente enquanto andávamos em direção a casa, completamente molhado. Ela me encarou de volta durante um tempo sem pararmos de nos mover, antes de perguntar:
– Você não queria ir embora?
Dei de ombros.
– Eu sei que não posso ficar aqui para sempre. Sinto-me bem deslocado depois de tanto tempo.
Ela simplesmente pegou a minha mão e a apertei com força. É estranho que Raquel me entenda tão facilmente, mesmo que eu minta.
– O que aconteceu? Você está parecendo um pinto molhado! – minha avó exclamou no momento em que passamos pela porta.
– Vó!
– Tem razão, eu estaria chamando sua mãe de galinha... – ela murmurou pensativa, e só então me olhou com mais atenção. – Hideo, isso... É sangue?!
Olhei novamente para Raquel, antes de falar:
– Vó, nós... Vamos embora.
– O quê?! Por quê?! – exclamou indignada.
–... Antes que a senhora pergunte, não, não tem nada a ver com nada que disseram nessa casa. Tudo bem, eu até ri depois das perguntas de Shiv, mas... – suspirei. – É que nós não somos da Ordem.
Ela franziu o cenho, sem entender. Preparei-me mentalmente para explicá-la rapidamente.
– A... A Ordem, ela só usa os híbridos enquanto eles forem convenientes para ela. Se eles trouxerem problemas, eles serão eliminados... Há sete anos, metade da Ordem foi eliminada na Guerra do Norte, sabe, que evacuaram o norte?
Ela assentiu fracamente.
– N-nós – argh, por que eu fico gaguejando?! – sobrevivemos. Alguns. Onze, na verdade. Eu e a Raquel fazemos parte deles. – estava tudo saindo confuso. Respirei fundo. Acho que é difícil até pra mim explicar isso pra pobre da minha avó. – Então passamos a agir contra os superiores da Ordem, e eles provavelmente vêm atrás de nós. Ontem encontrei, longe daqui, mas encontrei, duas híbridas, e elas tentaram me atacar, mas as fiz debandar. Então estamos saindo daqui, porque além da segurança de vocês, precisamos encontrar um espaço maior para nosso grupo, já que aparentemente, ele vai aumentar e... – desisti. – É isso.
Minha avó apenas ficou nos encarando com uma expressão indecifrável, um misto de preocupação e algo que não pude identificar, mas era o suficiente para me deixar nervoso. Quando cogitei a possibilidade de ir logo pegar nossas coisas no quarto – só pensei mesmo. – ela falou:
– Fique aqui mocinho.
Esse é um dos motivos pelos quais eu tenho medo da minha avó. Acho que ela lê mentes.
– Você disse... Seu irmão morreu, não foi?
Um bolo formou-se imediatamente em minha garganta com a pergunta direta e repentina, então me limitei a assentir. Durante todos esses dias eu a evitara, mas todos pareciam alheios ao que realmente houvera acontecido. Ela suspirou, puxando alguns fios grisalhos que escapavam do cabelo preso.
– Hm... Acho que percebi na primeira vez em que te perguntamos: “Ele deve estar bem”. Hideo, você nunca respondeu as coisas sem ter certeza quanto ao seu irmão, mas admito que você não está tão mal quanto eu pensarei que estaria...
– Ele não está mal agora, senhora. – Raquel disse e tive de concordar. Há algum tempo atrás mesmo eu estava péssimo.
– Tem algo a ver com você? – ela reparou no modo como eu a encarei. – Tudo bem, deixemos isso para outra hora. Só uma coisa Hideo.
– O quê?
– Por que esse seu grupo não fica aqui?
– Hein?! – exclamei imediatamente.
– Por que não ficam aqui? Com certeza tem espaço, você lembra daquele festival de música que teve aqui...
– Não é questão de espaço vó, é questão de periculosidade! É com a Ordem que estamos lidando e...
– Você acha mesmo que a Ordem suspeitaria que vocês iriam se esconder numa pacata fazenda do interior do interior do continente, ainda mais, numa fazenda de humanos?
Pisquei, tentando entender qual fora a lógica da minha avó para pensar isso, e vendo que nem eu e Raquel respondíamos, ela apenas disse:
– Ótimo, já irei mandar os caseiros darem um jeito no mato alto.
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