Meia Alma
22 Capítulo 21 - Cadê a coragem?
Notas iniciais
Entreabri meus olhos, percebendo que estava em um local escuro. A primeira coisa que meus olhos identificaram foi que estava deitado, a segunda foi a janela aberta ao meu lado, deixando a brisa noturna adentrar lentamente.
A terceira foi Raquel me fitando ansiosamente.
Quase dei graças aos deuses, ela estava bem. Acho que nunca me senti tão aliviado na minha vida. Tentei me sentar, mas meu corpo inteiro doía. Raquel pousou suas mãos em meu peito, me fazendo deitar novamente, e aceitei com desistência.
– O que... – minha voz saía horrível. – Aconteceu...
– Você ficou apagado uma semana. – falou e quase arregalei os olhos. – Não sei o que você fez, mas se sobrecarregou completamente. – ela baixou o olhar. – Desculpe.
– Por que está... – pigarreei. – Se desculpando?
– Eu... Fui acertada muito fácil. Não pude nem ao menos ver o que me atacou, e aí você...
– Era Lúcio. – engoli o seco e ela me olhou sem entender. – Ele que me treinou, junto com o Yudai... Ele... Ele era tão forte que logo que passou ao teste de guerreiros, o elevaram a “candidato” de número um. Mas ele Despertou. Ele Despertado era a coisa mais horrível que vi. A Aura dele não tinha fim, era aterrorizante só de vê-lo.
Ela manteve-se em silêncio, então tossi de novo para ver se minha voz saía menos... Arranhada?
– Ele... A missão em que ele Despertou foi a Caçada de Sophia. Você provavelmente ouviu falar.
– Sim, uma número um que sem motivos aparentes, matou humanos. Ela foi caçada e no fim, ela foi morta, mas matou os números dois, três, quatro e cinco. Mas... Lúcio a matou e morreu logo após.
Balancei a cabeça.
– Ele Despertou, matou ela e todo o resto. Eu... E Yudai tínhamos fugido do alojamento de aprendizes, e acompanhávamos Sophia, mais ou menos como você fazia, mas ela nos treinava também. Lúcio Despertou, e estávamos lá, mas por algum motivo, ele nos deixou vivo.
Olhei para ela e ergui uma mão para acariciar seu rosto.
– Raquel, acho que ele te atacou porque você é idêntica a Sophia.
Ela pareceu ficar chocada com isso, devido ao modo que seu corpo se moveu, mas me mantive quieto, me forçando a sentar. Meu corpo estava pesado e meus ossos estalaram dolorosamente.
– C-como? Você tem...
– Absoluta. – disse, e então me passou que Raquel era filha de Sophia. Cogitei realmente seriamente em dizer isso a ela. Mas desisti, pois não tive coragem. Teria de explicar muita coisa para ela, e acho que nem eu estava preparado para isso. – Ele... Não sei porque, mas ele deve ter pensado que você era ela... E ah, não quero nem pensar o que poderia ter acontecido.
Ela se manteve em silêncio, então peguei seu braço, puxando-a gentilmente para meu colo e a abracei com força. Precisava dela perto de mim, para ter certeza de que estava bem, que estava viva. Eu fiquei tão desesperado com a possibilidade de ela morrer que parecia que esse medo ainda não me abandonara.
Raquel ficou quieta, aninhada ao meu peito, e percebi que não escutava seu coração batendo. Na verdade, só escutava os grilos grilando do lado de fora devido a janela aberta e alguns estalos ocasionais da madeira.
Raquel pareceu notar minha confusão, pois se afastou ligeiramente, me observando, antes de dizer:
– Talvez você tenha se sobrecarregado demais mesmo.
Assenti, suspirando, e ela beijou meu rosto. Não dava para ver muito bem no escuro, mas senti seu rosto quente e sorri. Só então percebi algo.
– Raquel, onde estamos?
– Estamos numa fazenda... Admito que não saí muito para ver onde. – ouvi pela sua voz que estava sem graça. – Acho que só saí duas vezes para agradecer a senhora que parece estar preocupada também e ao filho dela que é médico e... Bem, nos ajudou.
–... Tudo bem. – olhei pela janela. – Deve estar quase amanhecendo, então vamos esperar um pouco, e assim nos localizarmos.
Mudei um pouco de posição para poder me deitar, e Raquel continuou deitada contra meu peito. Ela está bem agora, era o que eu estava me repetindo, mas nem ao menos estender minha Aura para ver se Lúcio continuava por perto eu podia.
– Hideo. – ela me chamou após alguns minutos.
– Hm?
– Você também me assustou... Como sempre. – dei uma risada reprimida. – Odeio quando você desmaia, porque você só desmaia quando se machuca demais, e... Por causa do seu cabelo, sempre fico nervosa porque não sei se é apenas um desmaio ou se há algo mais grave acontecendo.
Mantive-me em silêncio.
– Foi por isso que não saí quase daqui, porque um dos meus defeitos é que quando alguém que eu amo está mal, fico doente de preocupação. E você parece ter um imã para se meter em confusão.
–... Também me pergunto o que há de errado comigo. É incrível.
– Não que seja exatamente um defeito. – Raquel disse. – Mas acho que um dos motivos é que você é muito leal. Se alguém está em perigo, você não hesita em dar o máximo de si para salvá-la, ou... Até vingá-la.
Eu sabia exatamente o que ela estava pensando.
– É...
– Mas – ela se levantou brevemente, para me encarar, mas provavelmente só ela me via, pois não conseguia enxergar no breu. – Essa é uma das suas maiores qualidades.
– Mesmo que eu faça uma grande burrada e aconteça algo sem volta?
– Mesmo assim Hideo. Não podemos salvar a todos, mas o fato de se esforçar para tentar proteger aqueles que estão em volta de si é algo muito bonito. Eu só... – Ela se interrompeu, e é óbvio que fiquei curioso para saber o que ela ia dizer.
– Só...
– Acho que é egoísta e impossível pedir isso, mas eu só gostaria que você se arriscasse menos. Eu... É difícil admitir isso, mas já me apaixonei uma vez, acho que... Você sabe muito bem disso. Foi horrível também para mim quando ele morreu, e agora eu estou me envolvendo com você, e eu fico com medo de que tudo aconteça de novo. Além do modo que me preocupo normalmente, acho que vivo com esse medo também...
Suspirei, voltando a me sentar, e quase senti seu olhar de dúvida. Pus minha mão em sua nuca e a puxei para um beijo, calmo e rápido, e falei:
– Não se preocupe, eu vou tentar tomar mais cuidado. – acariciei seu rosto com a minha outra mão. – Deve ser um pesadelo ter algum relacionamento comigo, um ser aparentemente sem amor próprio.
Ela riu baixinho e nos beijamos mais uma vez, só que um pouco mais demorado e quente. A mão que estava em sua nuca desceu até sua cintura, acariciando-a com leveza e as mãos de Raquel estavam comprimidas contra meu peito.
Voltei a me deitar e pouco depois escutei a respiração de Raquel se tornar mais lenta, até que ela dormiu, mas continuei a acariciar seus cabelos macios e encarando o nada. Certamente eu devo ser o tipo de pessoa que é um pesadelo para se manter um relacionamento.
O medo que Lúcio me causara ainda mantinha-se presente.
Suspirei, abraçando mais o corpo de Raquel contra mim. Poderia se considerar que eu estava bem, afinal, da última vez que vira Lúcio me mantivera sem falar durante semanas.
Fechei meus olhos, mas não adormeci. Passei um tempo desse modo, minutos aliás, mas não tinha sono algum para poder dormir. Quando abri meus olhos, já estava claro o suficiente para ver melhor o quarto onde eu estava.
Olhei para o teto, e somente então percebi uma coisa: Era familiar. Familiar demais. Aquele quarto era familiar. Baixei meu olhar e vi as paredes três paredes de gesso pintadas de azul claro e uma parede lateral feita de madeira com uma outra cama ali, e uma imagem quase que imediatamente se formou em minha mente.
Familiar demais mesmo.
Sentei quando escutei o som de panelas batendo na cozinha, e dei mais uma bela olhada em volta.
Seria muita coincidência se houvéssemos caído na fazenda do meu avô.
Com muito cuidado me levantei. Aquele parecia o quarto que eu e Yudai normalmente ficávamos quando éramos crianças – já aconteceu de pegarmos o quarto do primeiro andar -, mas fazia tanto tempo que eu não tinha certeza alguma. Percebi que meus pés estavam enfaixados, e só quando pisei no chão senti o quanto doía. Impedi um arquejo e fui até a porta, abrindo-a silenciosamente.
Meu coração deu um salto ao ver aquele corredor. Era muito simples, mas era claro. Era familiar.
Eu estava nervoso. Tinha quase certeza que essa era casa de fazenda do meu avô, e acho que não estava psicologicamente preparado para reencontrar minha família, mas respirei fundo e com cuidado – mais devido ao machucado dos meus pés mesmo. – desci as escadas, e dessa vez eu andava e fazia barulho, pois a madeira fazia os sons secos de meus passos.
Cheguei ao primeiro andar, e... Parei a uns dois degraus para reabsorver aquela imagem. Sim, reabsorver, pois qualquer dúvida que eu possuía fora sanada. Havia a sala com sofás marrons e duas cadeiras de balanço próximas à lareira, com fotos espalhadas sobre ela, e as estantes encostadas ao lado. Pelos deuses, eu pensei que nunca mais veria isso...
Respirei fundo e desci de vez. Olhei para o lado e vi a enorme mesa de madeira da cozinha e... Minha avó estava lá, mexendo no fogão com a maior concentração do mundo.
Ela estava do jeito que eu lembrava, só que, obviamente, mais velha, mas seu cabelo grisalho estava preso a um coque – como sempre -, e usava um vestido de algodão amarelo desbotado com pequenas flores vermelhas.
Fiquei a encarando durante uns cinco minutos, até que ela percebeu minha presença e se assustou, deixando algumas das panelas que segurava, fazendo um estardalhaço. Fui até lá e ela disse:
– Não, não, deixa que eu pego, está tudo bem.
Ela não muda mesmo.
Peguei as panelas rapidamente, pondo-as sobre a bancada e ela suspirou.
– Ai ai, meus ossos não são mais os mesmos... – murmurou, pegando as panelas. – Sinto muito por isso, você me assustou.
– Tudo bem... – comentei em voz baixa.
– Mas, enfim, você acordou! – ela bateu as mãos. – Depois de um belo de um susto, inclusive.
– Desculpe.
– Não precisa se desculpar, pelo seu estado, provavelmente algo sério aconteceu.
– Ah, a senhora nem imagina. – falei num tom quase amargo e ela me olhou brevemente, antes de retornar aos temperos. Ela sempre era assim, começava os preparativos do almoço às seis da manhã.
–... Qual o seu nome rapaz?
Não fiquei nem um pouco assustado quando ela me perguntou isso, afinal, quando ela me vira pela última vez, eu era um menino de 1,40 m de altura e que pesava, o quê? Trinta quilos?
– Hideo. – respondi. Ela parou por um momento, e eu fiquei nervoso, então ela voltou a cortar o que estava cortando, mas eu quase via seus lábios repuxados.
– Pois bem Hideo, aquela moça, Raquel o nome dela, não é? Ela quase não saiu do seu lado enquanto você estava desacordado. – pelo seu tom de voz era visível que ela apreciara o gesto. – É difícil encontrar pessoas assim hoje em dia.
– É, agora ela está dormindo. – comentei e ela pareceu que ia responder algo, mas escutei passos – muito mais barulhentos que os meus. -, e alguém pareceu descer.
– Mãe, eu já falei pra senhora que não precisa começar a fazer o almoço tão cedo.
Fiz quase o meu máximo para não congelar quando ouvi a voz do meu pai, e acho – isso mesmo, não tenho certeza — de que consegui. É meio assustador pensar que normalmente consigo encarar monstros com dezenas de metros de altura às vezes, e agora estou tendo surtos porque estou revendo minha família, muito embora talvez fosse porque não os visse há anos e talvez também da maneira traumática que fui separado deles.
Olhei para trás para vê-lo e, dessa vez é sério, eu tomei um susto.
A última vez que eu vira meu pai fora há dezessete anos, e eu juro, por Daichi – tudo bem que o meu vínculo com ele era de pau mandado, do jeito que as coisas estavam se tornando, porque ele mandava e eu fazia. Dava um medo dos infernos só de imaginá-lo irritado. – ele não mudou nada. Minha avó parecia mais velha, mas o meu pai parecia um cara ainda nos vinte anos. E ele hoje deve ter... Espera, deixe-me fazer as contas.
Uns quarenta e quatro anos. No mínimo.
E ele tá com cara de o quê? Uns vinte e poucos anos. E eu achando que só híbridos não envelhecem aqui.
Como eu disse, ele estava do mesmo jeito. Agora tínhamos a mesma altura – antes eu era gritantemente mais baixo. -, mas ele tinha o mesmo cabelo ondulado meio comprido – talvez do comprimento que eu usava antes, ou um pouquinho mais comprido -, os mesmos olhos castanhos quase dourados. Ele ficou mergulhado em formol durante todos esses anos?!
– Algum problema? – ele perguntou, de cenho franzido. Claro que fiquei encarando-o como o mais repleto retardado.
– Não. – respondi, me afastando o mais rápido que meus pés que ardiam como o diabo permitiam, indo em direção à mesa. E ele ficou me encarando como resposta.
– Mas é melhor fazer muito cedo e depois apenas esquentar para o almoço do que deixar os outros esperando na hora.
– Olha, eu não acho...
– Mas eu sim!
– Vamos ajudar a senhora depois, então não precisa pressa.
Se minha memória não me falta, normalmente ele que ganha essas discussões, mas como acho que comecei a sobrar – não que não fosse minha intenção -, subi novamente as escadas, amaldiçoando aos meus pés, retornando ao quarto. Escutei os dois conversando, mas não dava para ver claramente, então entrei novamente no quarto e deitei com cuidado – apesar da cama vaga logo ali, do outro lado do quarto. – para não acordar Raquel
Deuses, sério, o que eu faço? Finjo que não os conheço, que sou apenas um híbrido avulso – ruivo – que caiu no terreno deles totalmente ensanguentado, ou falo quem eu sou, ou eu falo quem eu realmente sou? Mas se eu falar, provavelmente vão perguntar o que aconteceu com Yudai, e, ah... Esse não é o tipo de assunto que eu gostaria de entrar com eles.
Fiquei pensando nos prós e contras durante muito tempo, realmente muito tempo. Só percebi isso quando Raquel se remexeu e eu percebi que o sol já entrava forte pela janela. Ela provavelmente percebeu que havia algo errado só de me olhar.
– O que foi?
– Essa é a fazenda da minha família. – falei simplesmente e suspirei. Como ela não respondeu, continuei. –Desci um instante e encontrei minha avó e meu pai. Não os vejo há tanto tempo, e... Sabe, eles podem não ter me reconhecido ainda, mas...
– Você não sabe o que fazer?
– Basicamente. Principalmente depois do modo triunfal que caímos aqui.
Ela ficou quieta e eu esperei uma alternativa durante algum tempo, até que ela disse:
– Acho que depende de você, porque é você. Se acha que eles te reconheceram ou tem alguma suspeita de quem você é, vá em frente.
– Esse é o problema também. Se eu estiver aqui...
– Eles vão querer saber o que aconteceu com Yudai e Alec.
– Ah é, tem o Alec também, não é? Só tinha pensado no Yudai mesmo.
– Você esqueceu seu próprio primo?!
– Admita, o maior problema seria o Yudai. No momento, Alec só está provavelmente tendo problemas amorosos.
Ela manteve-se calada, mas dava para escutá-la reprimindo o riso. Mas o pior era que realmente, ele só estava tendo problemas amorosos.
Eis que lembrar de Alec fez algo vir à minha mente.
– Raquel, você entrou em contato com Anita?
– Sim, liguei para ela com o phoma. – respondeu. – Ela ficou bem preocupada, aliás, e eu não sabia o que tinha me atacado...
– Tudo bem, vou ligar para ela, e nesse meio tempo, decido o que eu faço. – sentei e olhei envolta, vendo o phoma na mesinha do lado. Óbvio. Como não havia visto isso antes?
Raquel se levantou e foi até o banheiro, enquanto eu via o código do aparelho de Anita e discava. Acho que não demorou nem cinco segundos e ela atendeu.
– Raquel?
– Hideo. – respondi mecanicamente.
– Hideo?! Graças aos deuses, o que aconteceu?!
– Fomos atacados.
– Isso eu já sei. Você sabe pelo quê?
– Sim, Lúcio.
– Lúcio?
– É... – cocei a cabeça. Será que o arquivo de Lúcio seria daqueles que nem Anita conseguira entrar? – Ele é o assassino de Sophia, sabe? A Caçada de Sophia e tudo mais? Por favor, todos já ouviram falar sobre a caçada de Sophia.
– Claro que já Hideo, você mesmo falou que todos já ouviram falar, porque é um dos maiores exemplos “De quem desrespeita a regra máxima da Ordem”. Mas ele não tinha morrido?
– Não, ele Despertou, matou Sophia e os outros números e fugiu.
– Pelos deuses, então, como ele era um candidato a número um, ele é como um abissal?
– Pior que um abissal.
Tudo se fez silêncio do outro lado da linha, e levantei. Foi uma péssima ideia, porque meus pés arderam como o inferno, mas mantive-me firme, esperando uma resposta.
–... Pior que um abissal?
– Sério Anita. Quando você sente a Aura de um abissal, você tenta pensar nas alternativas. Correr, se esconder, essas coisas. Quando você sente a de Lúcio, você fica paralisado, porque parece que não acaba. E quando ele aparece, aí que a coisa ferra. Dessa vez, eu ao menos tive a decência de tentar fugir.
– Você fala como se não fosse a primeira vez que o viu.
– E não foi. Eu estava lá quando ele Despertou.
– Mas o q...
– Enfim, Anita. Conseguimos fugir, e Raquel está bem. Só que eu meio que... Bem, eu me sobrecarreguei e no momento não estou sequer conseguindo sentir Auras.
– Tudo bem... Raquel disse que vocês foram parar numa espécie de fazenda, estou certa?
– Sim.
– Então descanse o tempo que precisar, porque você realmente se sobrecarregou muito para estar nesse estado.
– Foi mal.
– Não precisa se desculpar, se vocês dois estão vivos, está tudo bem.
– Vou ver se me recupero rápido para ver se conseguimos chegar na cidade logo, senão lhe aviso.
– Tudo bem.
Desliguei e Raquel saiu do banheiro, penteando o cabelo comprido.
– Hideo?
– Sim?
– Você acredita que você conseguiu quebrar seu equipamento?
Olhei-a surpreso.
– Sério?!
– Sim, aquelas botas, ainda bem que você estava usando a que você pegou no Norte, não sobrou nada delas.
– Eu estava desesperado.
– Sim, mas... Eu já vi você correndo, e isso nunca aconteceu.
É, acho que vou ter que contar para ela que cheguei ao limite do Despertar. E isso não é exatamente a melhor coisa para se contar depois da experiência traumática de sete anos atrás.
Mas eu não precisei dizer nada, porque ela viu pela minha expressão.
– Ah, Hideo... Você não chegou perto do Despertar de novo, não?!
– Não, não cheguei. – suspirei. – Mas usei setenta e seis por cento de Aura, por assim dizer. – Vi a expressão que ela fez. – Eu estava desesperado! Além de estar preocupado com você, eu, sério, tenho um trauma de Lúcio. Só de sentir a Aura dele eu queria estar o mais distante o possível. Sei que não é a melhor explicação do mundo, mas é a única que tenho.
Ela suspirou, então disse:
– Tome cuidado, Hideo. Você sabe que... É um pouco perigoso, por causa do que aconteceu em Legoi.
– É, eu sei. Foram atos desesperados que eu sei que podiam dar besteira.
– E quanto ao que você ia pensar, já se decidiu?
Pois é, nem pensei nisso.
– Não, — respondi e respirei fundo. – Mas se é para eles descobrirem quem eu sou, então vamos logo.
Ela sorriu, e manquei até a porta, abrindo-a com um rangido. Infelizmente, escutava mais vozes no andar de baixo, o som da TV, as panelas fumegando e os passos que a madeira fazia.
– Quer desistir?
– Não. – falei e inspirei mais um pouco de ar para tentar expirar um pouco de meu nervosismo. Comecei a descer as escadas, meus pés obviamente reclamando com todas as suas forças contra isso, e então cheguei novamente à cozinha. Havia lá apenas minha avó, meu avô, baixinho de cabelos brancos – sim, meu avô é baixinho – e o meu pai, que estava pegando algo da geladeira.
Deuses, como eu começo?
– Oh, olá de novo. – Minha avó disse. Ela não parecia se assustar tanto assim com híbridos, mas meu avô – que agora vi que estava fazendo palavras cruzadas. – deu um salto, o que fez meu pai começar a se engasgar com a água na tentativa de não rir. Até eu na verdade tive de tentar não rir.
– Olá. – Raquel disse e quase senti a cotovelada mental quando ela disse isso.
– Oi. – comecei, e como se sentissem que eu estava nervoso, meu pai fechou a geladeira e se encostou próximo a ela, meu avô se virou e minha avó abaixou o fogo do fogão. Vocês estão de brincadeira comigo, não estão? – Eu... Queria falar uma coisa.
– Sim? – o meu pai disse.
– Bom, primeiro...
– Então é mais de uma coisa. – meu avô me interrompeu, mas minha avó lhe lançou um olhar tão mortal que ele se calou.
– Bem, é sim mais de uma coisa. – Falei. – Eu primeiro queria agradecer por terem nos ajudado, apesar do modo com certeza nada lindo que chegamos aqui... Er... – A imagem mental de como eu provavelmente estava passou-se pela minha cabeça, então eu a balancei para afastá-la. Nada lindo é pouco. – Só que... Eu estou com uns problemas.
– Sim, quais? – minha avó perguntou.
– Os híbridos, assim como qualquer coisa, tem um limite de exaustão. E eu... Digamos que o ultrapassei, então, no momento, eu estou como vocês. Sem força sobre-humana, nem velocidade, nem nada do tipo.
Todos os três pareceram olhar para mim de sobrancelhas erguidas. Na mente humana, somos apenas monstros que os protegem de outros monstros. Com certeza essa possibilidade nunca se passou na cabeça deles.
– Eu não sabia que isso era possível. – meu pai disse com uma risada sem graça.
– É, muita gente não sabe. – concordei. – E... Tem mais... Uma coisa.
A essa altura, minha voz foi diminuindo. E claro que a atenção deles se voltou completamente para mim dessa vez. Por que quando estamos nervosos as pessoas fazem isso?
– Não sei por que, mas algo me diz que é importante. – meu avô disse e um bebê, na sala de estar começou a chorar. Meu pai olhou para a porta aberta, mas logo deu para ver que havia alguém o acalmando.
Tentei ignorar a dor de meus pés e comecei a, novamente, procurar coragem. Mas que droga, cadê a coragem e frieza que eu tinha quando encarava monstros?!
– Tudo bem, — comecei. – é meio... Estranho.
– Estranho?
– Estar com vocês. De novo.
Minha avó virou-se. Pelo seu olhar, dava para ver que ela já entendera aonde eu queria chegar. Olhei para Raquel e vi o suporte que ela podia dar em seu olhar, então falei:
– Eu sou um dos gêmeos. Eu sou o Hideo.
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