Meet the Huntar'z
13 Interregno L U C I T H
— Eu não acredito que ela–… — é o que eu ia dizendo a Luksifer quando Regulus chega, passinhos suaves, mãozinhas animadas, pedindo para entrar no quarto.
Estávamos no meio de uma sessão de desabafo anteriormente e meu coração estava apertado com a sensação da ansiedade. Não havia nada em relação a mim para me fazer ansiosa, mas a situação que Luksi colocava com suas palavras subiu ao meu cérebro como se nada mais ao meu redor importasse, apenas isso. Ele havia me chamado, desesperado, pedindo por ajuda em algo que eu verdadeiramente não podia ajudá-lo, mas estendi a mão mesmo assim e estávamos ali, compartilhando da mesma raiva e da mesma angústia.
Durante a conversa com ele, senti uma fúria crescente por meu corpo, uma que perturbou minha calmaria e tirou o monstrinho da maldade de dentro de mim. Eu nunca fui capaz de pensar em fazer atrocidades sobre outras pessoas, mas naquele momento, tudo o que eu queria era poder pegar a mulher que o fazia sofria pelos cabelos e arrastá-la pelo chão para aprender a parar de mexer com que não devia.
Mesmo que já tivéssemos acabado com a sessão de hipóteses sobre o acontecido — que acredito que não entre no caso a ser narrado —, meu cérebro não havia parado até aquele momento. De alguma forma, a culpa começara a se infiltrar na minha raiva. Algo dentro de mim dizia que era minha responsabilidade não ter acabado com essa pessoa antes, quando eu tinha a chance. Uma voz insistente na minha mente me falava que se a minha parte Destruidora tivesse seguido o plano inicial, nada daquilo estaria acontecendo.
Eu sabia que se Destruição tivesse escolhido continuar com o plano, eu provavelmente não seria eu naquele instante, mas não importaria não ser eu muito se pudesse evitar o sofrimento dele; se eu pudesse evitar todas as situações horríveis que aquela pessoa o fazia passar. De qualquer forma, depois dessa escolha, tinha minhas mãos atadas e não me sobrava muito a não ser sentir muito e estar ali para ouvi-lo e ajudá-lo a fazer o mesmo.
Quando vejo a energia suave de Regulus adentrando o recinto, após sua permissão concedida, meu corpo está há um passo de me fazer entrar em uma crise de ansiedade e culpa. Ao percebê-lo, meus sentimentos passam da culpa silenciosa e da raiva expansiva, para a curiosidade. Porque ele está brilhando de uma forma alegre e carrega nas mãos um objeto que não possui energia mágica alguma, impedindo-me de enxergá-la. Em sua silhueta, bem acima de suas mãos, há uma mancha de escuridão. Sei então que está carregando uma de suas invenções.
Conseguindo tirar todo meu foco da situação anterior, ele cumprimenta a mim e a Luksifer. O procedimento de cumprimento é o habitual: sorrio quando ele me chama de mamãe, porque, mesmo que eu realmente o tenha parido, ainda é muito gostoso ouvir qualquer um me chamando de mãe; peço por um abraço e um beijinho no rosto; me abaixo para que ele o faça, visto que não está vestindo sua armadura tecnológica e está apenas no seu corpinho de criança de cinco anos de idade. Então ele me conta de algumas coisas que está fazendo, citando sua Inteligência Artificial, Fiora, e como tem trabalhado com ela nos últimos dias. E me pergunta como estou.
As perguntas sobre como estou me sentindo sempre são as que mais fazem meu interior tremer, porque eu verdadeiramente nunca sei o que responder. Mesmo que eu esteja bem, sempre parece faltar algo. Não digo a ele que estava a ponto de entrar em crise naquele momento, mas lanço um olhar de soslaio para Luksifer antes de responder nosso filho, porque sei que ele havia percebido. Então respondo que estou bem e sorrio, aproveitando a felicidade de ter Reg ali do meu ladinho naquele instante como a oportunidade perfeita para fingir que nada havia acontecido.
Depois de um tempinho de conversa, porém, meu pequeno inventor, essa criança genial, o anti-mago da família, estende o objeto que tinha em mãos em minha direção. A mancha de escuridão na energia dele se movimenta para longe dele e eu sei que o que ele tem em mãos é alguma peça tecnológica de alguma forma, por isso a falta de rastro. Então diz, as mãozinhas esticadas, esperando que eu pegasse o objeto:
— Ó, mamãe. Eu terminei! Tó!
Não tenho escolha a não ser derreter. Eu não sei o que é que pego das mãos dele, mas ao toque parece uma pequena caixa com uma tira de suporte. Derreto porque, mesmo não sabendo o que é, ainda me sinto lisonjeada por ter recebido um presente. Por alguma razão, a sensação que passa é a de um óculos de realidade virtual, como os que vemos na Terra, com a parte principal um pouco maior. Enquanto tateio o objeto, percebo que há um botão grande na lateral esquerda.
Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, percebo a energia tons de vinho de Andynne se aproximando de uma vez, quando ela então diz, muito animada:
— Surpresa!!! — e dessa vez minha reação é pura confusão.
Andy e Reg trabalhando juntos? Essa é de verdade uma união que eu não havia considerado até esse momento. Sorrio imaginando o processo deles de construir esse objeto, seja lá o que ele for.
— É um óculos mesmo, mãe. — diz a mulher-aranha, respondendo meus pensamentos. — Coloca para a gente ver se fica confortável.
Seguro a risada, mas sigo o comando. Coloco-o como colocaria um óculos de realidade virtual, arrumando a tira na parte de trás da minha cabeça. Sinto o peso imediato de algo totalmente novo no meu rosto, mas não é tão pesado quanto imaginei que seria. A sensação é de ter um óculos novo e mais pesado que o anterior, um desconforto comum quando se troca de armação assim.
— Eu não acredito que estão dando um óculos para uma cega. — digo, em tom de piada, enquanto termino de ajeitá-lo em meu rosto.
A minha deficiência visual, por alguma razão mágica e energética, havia diminuído com o tempo, mas ainda é severa. Havia aprendido o suficiente sobre energia durante a minha vida para poder enxergá-la em cores, as partículas se movimentando aos poucos em tudo que contém vida. De qualquer forma, nunca pude ver mais do que isso.
A não ser pela ilusão de Andynne na sua entrevista, eu nunca havia visto o rosto de meus filhos ou de meus amados, não sabia como eram. Por vezes, fico triste com a perspectiva de nunca conseguir conhecer todas as suas feições, saber defini-las em palavras sem auxílio ou sem ter de tocá-los bem de perto para reconhecê-las. Mas, na maior parte das vezes, me dou bem com a aceitação de que não vai acontecer. Afinal, minha deficiência permaneceu comigo a minha vida inteira e não é uma ilusão provisório que vai mudar isso.
De qualquer forma… se eu pudesse vê-los… pelo menos uma vez…
E novamente a aranha entra em minha mente, porque, sem que eu diga mais nada, ela me responde:
— É exatamente por isso que tivemos a ideia dos óculos. É para que possa nos enxergar! — há animação no seu tom de voz e eu respondo com um leve choque, uma grande descrença. — Não tá acreditando? — ela questiona, então virando-se para o irmão mais novo. — Conta para ela como funciona, então, Reg. Conta.
— Eu e a Andy queríamos que você pudesse ver todo mundo pelo menos uma vez. Mas… sabemos que não quer fazer o procedimento como o Alec fez, para ter o olho mecânico e tals… Então fizemos os óculos. Com a mesma tecnologia. — ele se embola em algumas palavras, sua vozinha de criança ativando algo muito puro dentro de mim. Por alguma razão, enquanto ele fala, quero espremê-lo e enchê-lo de beijinhos, mas permaneço quieta, prestando atenção. — Os óculos tem uns robozinhos, como no olho do Alec, e eu pedi para a Aranha me ajudar a programar eles para te fazer ver!
Eu me arrepio com o pensamento. Enxergá-los tal como eram, não apenas como silhuetas de energia colorida, não apenas como partículas de vida em movimento. É como se meu silencioso desejo tivesse se concretizado.
Faço força para segurar as lágrimas quando penso que Andy podia ouvir de verdade meus silenciosos desejos, entrar na minha mente e simplesmente se movimentar para tentar realizá-los. Seguro o choro apenas porque não quero estragar o presente que eles haviam pensado com tanto carinho sobre uma coisa que não me lembro de ter um dia admitido em voz alta. Não sei como as gotas de água que sairiam de meus olhos reagiriam com os robôs.
— É um óculos normal, só te ajuda a enxergar melhor. Eu o programo por comando de voz. — Regulus chega mais perto enquanto explica, então diz: — Link start. — e eu consigo ouvir, visto que estou com a máquina no meu rosto, o leve som de pecinhas nanoscópicas se conectando lá dentro.
Outro arrepio percorre por minha espinha dorsal e a primeira lágrima cai, sem que eu tenha muito controle sobre isso. Sei que é a antecipação. Não sei como reagir, mas sorrio como se fosse uma criança recebendo todos os presentes que havia pedido no Natal; como se tivesse acabado de receber a melhor bênção da minha vida.
Andynne ri da minha felicidade e eu sei que Regulus está sorrindo orgulhoso, apenas de sentir a energia que ele passa ao me fitar, o calor do seu amor vindo em ondas na minha direção. Luksifer se mantém calado, observando atento, esperando por sua vez de falar, e provavelmente por sua vez de ser visto.
— Já tem três pessoas lá fora esperando por você. Elas queriam ser as primeiras a você ver. Não é, Katerina? — ela grita para a porta do quarto, que estava entreaberta desde a chegada de Regulus.
Ao citar a Katerina, consigo imaginar seu ponto de vista. Não apenas imaginar, mas senti-lo a partir da nossa conexão de protegida e Segunda Guardiã. Sei que ela estava tentando esconder de mim esse segredo, que já sabia que eu receberia um presente como esses e que estava esperando ansiosamente pelo momento em que eu poderia finalmente vê-la, não apenas supor como ela era por fotos de pessoas famosas do mundo terreno.
Mas, antes que eu pudesse reagir a qualquer coisa; antes que eu pudesse pensar em dar um passo para fora do quarto e ver minha filhas, minha Segunda Guardiã, e suas companheiras — supus que seriam Merlin e Georgine junto com ela, esperando tão ansiosas quanto para que eu pudesse vê-las —; antes que eu pudesse ao menos pensar em como seria vê-las, uma energia enorme e roxa entra do nada no quarto, como se estivesse ali desde o início.
— Na-ah, eu sou a primeira. — declara a dona dessa energia.
O arrepio que percorrera por meu corpo antes, com a perspectiva de ver minhas crianças, não se compara de forma alguma ao arrepio que perpassa toda minha alma e todo meu ser quando ouço sua voz. Agora não consigo mais segurar as lágrimas.
É difícil descrever a sensação que tenho quando Lucith chega. É como se todas as minhas emoções se misturassem e emergissem. Como se toda a saudade, o amor, a felicidade, a paz, a dor, a tristeza, a raiva, a vontade se juntassem em um só, uma fusão de sentimentos que só transborda. O meu choro é sinal de como transbordo.
Dessa vez, transbordo rindo, porque estou com um óculos diferente no rosto, com o pensamento de que poderei finalmente ver as feições das pessoas que amo, pelo menos uma vez na vida, para ao menos ter a lembrança de quão belos são seus rostos, e ela está aqui. Ela está aqui e quer ser a primeira, como sempre o foi.
Ela havia saído de perto de nós já há muito tempo, na procura por um corpo que pudesse conviver com os nossos corpos físicos na Terra enquanto ainda estivesse apto a conviver conosco no astral. Cada visita era uma emoção diferente, um aperto diferente no meu coração, uma nova sensação borbulhante que vinha com a falta dela.
Nessa vez em específico, sinto todas as emoções ao mesmo tempo e toda a antecipação do mundo. Um nervosismo gostoso se espalha por mim e tudo o que eu desejo, por um instante, é beijá-la, mesmo com as mãos tremendo sem saber o que fazer; mesmo com a alma vibrando, sem saber exatamente como expressar todas as emoções daquele momento. Então choro, choro e rio ao mesmo tempo.
A minha risada aumenta quando, pela primeira vez desde o começo da conversa, Luksifer abre a boca para dizer alguma coisa, em uma reação revoltada contra a irmã gêmea que aparecera do nada e agora queria ser a primeira a ser vista:
— Por que você tem que ser a primeira? — ele questiona e eu rio muito, me deliciando com a sensação da energia dela ali, entrando em um pequeno êxtase em vê-los interagindo com aquela camadinha de intriga amorosa que sempre os cobriu.
Ver a energia laranja dele junto com a energia roxa dela já seria o suficiente para me fazer entrar em um estado de amor tão profundo que me deixaria bamba. Mas agora, para além disso, eu também poderei vê-los. Vê-los de verdade, não apenas a energia. Vê-los por pelo menos uma vez com esse aparato mágico que eu provavelmente usaria pouco — mesmo não querendo admitir isso na frente de Regulus ou de Andynne, que o fizeram com tanto carinho.
— Porque sim, seu bode. Eu sou eu. — ela responde a ele, simplesmente, e eu caio na risada de novo, sem conseguir de forma alguma segurar o choro.
Nesse curto diálogo entre os dois, percebo o quanto sinto falta de tê-los juntos. De vê-los sendo eles mesmos entre si. Percebo, para além disso, o quanto ela faz falta e o quanto meu mundo obviamente seria mais colorido com ela, mesmo que fosse só a cor roxa de sua energia.
Tento não me deixar levar pelos pensamentos da saudade, porque ela está aqui. E porque, daqui alguns instantes, vou poder ao menos ver seu rosto para deixá-lo marcado para sempre no fundo dos meus olhos esbranquiçados, guardado num lugarzinho muito especial da minha mente. Não consigo controlar meu choro.
Todavia, antes que o choro se transformasse em algo mais do que a silenciosa e gostosa sensação da presença dela, transmutando-se para o desespero de saber que terei de vê-la partindo de novo, ela vira para mim, com um sorriso que pode me derreter apenas com seu calor, e diz:
— Oi, gatinha, você vem sempre aqui? — sei que ela dá uma piscadinha, para fazer seu charminho, e eu sinto minhas mãos tremerem ainda mais. Questiono-me em silêncio se haverá um dia em que ela só sendo ela não terá esse efeito em mim.
— Eu venho de vez em quando na esperança de encontrar alguém como você. — respondo, estancando as lágrimas para encontrar a coragem certa para flertar com a minha própria esposa. E rio em seguida, porque é uma delícia tê-la ali para me fazer sentir de novo como se estivesse vivendo amores adolescentes, como ela sempre fazia.
— Ah, que bom que me encontrou, então! — ela graceja e então pega a minha mão, me levando em direção à saída do quarto de Luksi, onde estávamos desde o começo, sem falar nada com ninguém ali.
Eu poderia muito bem ligar os óculos e ver todo mundo que está nesse cômodo, mas ela aparentemente quer privacidade; quer ser a primeira e a única a ser vista nessa primeira vez. Não reclamo. Porque essa é a minha chance de encher minha vista com apenas ela; minha chance de aproveitá-la um pouco depois de tanto tempo longe, com ela na sua jornada para chegar até nós, na Terra.
Estou tão boba nesse momento que nem percebo que não me deram as instruções de como ligar o aparelho, mas enquanto saímos, Andy se lembra de gritar, colocando uma das mãos na boca para aumentar o som, um lembrete de como fazer:
— Não esquece de apertar o botão pra ver! — e eu escuto a informação e a compreendo, mas minha mente está ocupada por completo com a gostosa sensação da mão de Luci na minha e com como eu gostaria que ela nunca mais me soltasse.
— — — — — — —
Entramos no meu quarto pouco tempo depois, visto que os quartos individuais de cada um dos membros do trisal ficam próximos uns dos outros. Temos espaços individuais porque acreditamos que há a necessidade de um lugar só para nós, um local para nos expressar da forma como acharmos melhor, mesmo que cada um dos lugarzinhos guardasse um pouquinho de nós três.
Nós nos sentimos confortáveis — quando estamos bem uns com os outros, é claro — em qualquer um dos espaços. E isso é claro quando Luci entra no quarto, solta minha mão e sobe na minha enorme cama redonda, indo diretamente para o fundo da cama, sentando-se na montanha de travesseiros encostados na cabeceira. Seu ato é de uma normalidade que aquece meu peito, porque se for para esse ser meu normal todos os dias, a minha vida seria a melhor de todas só por tê-la ali.
Eu a sigo e vou para a cama também, me sentando de frente para ela na outra ponta da cama, sem encosto nenhum. Sei que enquanto me sento e me deixo confortável, ela se posiciona com as pernas cruzadas em lótus e abre um sorriso enorme, talvez tão alegre por antecipação quanto eu.
Terminado o meu posicionamento, que faço devagar para me preparar emocionalmente, respiro fundo uma vez e expiro de forma lenta. É agora.
Então eu aperto o botão.
E o mundo escuro com pontos de energia de vida, com partículas coloridas e dançantes de seres vivos ao meu redor, vira luz e imagem. E a primeira imagem que tenho é a de Lucith, olhando para mim com seus olhos castanhos enormes e o sorriso que me derretia só de sentir, mas que me preenche e me transborda ao enxergar.
Eu perco o ar. É como se, de uma hora para a outra, eu desaprendesse a respirar. Solto um suspiro para tentar fazer meu organismo voltar a funcionar, mas meu coração bate tão forte no meu peito que sinto que vai explodir. Talvez ele exploda algum dia, eu tenho certeza que sim. E tenho certeza, nesse momento, que meu amor por ela será o motivo para isso.
Ela permanece em silêncio, o sorriso crescente e permanente, os olhos brilhando com emoção e amor. Eu não consigo dizer nada. Apenas a observar. Assim, de longe mesmo, por enquanto. Observar seu rosto de formatinho mais ovalado, sua pele negra reluzindo com aquele lindo tom de marrom, seu cabelo crespo enorme moldando sua face, as voltinhas pequeninas dele descendo em curvinhas que eu adoraria tocar. Observar sua postura, seu corpo magro e sem tantas curvas, a forma como suas mãos tocam inquietas suas pernas, o jeito que cada partezinha dela parece estar se segurando para não me puxar para mais perto, para eu vê-la coladinha em mim.
Eu apenas a olho, enxergando-a por completo pela primeira vez, tentando guardar cada detalhezinho visível dela para me lembrar mais tarde. Tentando gravar cada partícula daquela visão, tatuando a imagem no meu cérebro. E ela espera até que eu me acostume com vê-la, sorrindo com uma felicidade contagiante, que parece me dizer que a única coisa importante nesse momento é eu vê-la.
Então a vejo. A vejo e sinto todo meu corpo tremer de uma emoção inenarrável, algo que eu poderia por anos tentar descrever, mas nunca conseguiria com precisão. Porque é quente, mas é frio, pois não estou colada a ela. Porque é tudo, mas ao mesmo tempo é nada, pois ela não está colada em mim. E a questão não é sobre sexo, nesse sentido, a questão é sobre como minha alma parece chamá-la e gritar por ela; gritar tão alto que mexe com todas as partículas do meu ser e as desmancha até sobrar apenas amor. A vejo e sinto minha alma inteira se desmanchar em amor.
Enquanto isso, minha mente também se desmancha em amor. E me encaminha até as memórias mais antigas que tenho dela, até os dias obscuros em que tudo era escuridão, dor e sofrimento e ela era meu único pontinho de cor, meu único ponto de felicidade, a única pessoa a conseguir me fazer sorrir.
Lembro-me então, com perfeição, da primeira vez que tive um lapso de visão, como se todas as partículas do Universo tivessem se unido apenas para fazer minha vontade naquele instante. Lembro-me de como tentei juntar ainda mais os pontinhos de energia, como eu implorava mentalmente para que eles me deixassem vê-la, que me deixassem ver o desenho que ela fizera e que queria tanto me mostrar, e que eu não poderia ver, por conta da cegueira. Lembro-me de como ela foi até meu quarto, animada por ter desenhado um orc, e queria muito me mostrar, com aquela sua alegria contagiante que muitos simplesmente chamavam de infantil.
Naquele dia, eu gritei tanto com a minha própria voz dentro da minha própria mente, saindo de todos os ensinamentos de Sammael, saindo de todas as paranóias que ele colocara em mim, apenas porque queria muito vê-la. E consegui, pela metade de um segundo, um piscar de olhos, para não vê-la mais. Esse mísero tempinho foi o suficiente para me deixar exausta, sem nenhum pingo de força, mas com uma felicidade inabalável por pelo menos dois dias. Vê-la naquela metade de segundo foi o suficiente para me dar forças emocionais para aguentar pelo menos mais dois dias da tortura que era viver com meu tutor, meu abusador.
Pensando nisso enquanto a vejo, não consigo mais controlar a emoção. Não que um dia eu tenha conseguido controlar, mas me deixo chorar, transbordando com um amor inexplicável porque ela novamente havia sido a primeira. Tinha feito questão de ser a primeira, como sempre fora.
Lucith fora a primeira a me fazer acreditar que eu poderia de verdade ser alguma coisa que não aquela menina que se encolhia diante Sammael, aquela menina que chorava — e ainda chora — por não ser perfeita. A primeira a me olhar e me ver e agir em relação ao que via. A primeira a me mostrar que eu poderia sentir coisas para além do vazio, da culpa e da tristeza. A primeira a me mostrar o que era amor de verdade, para além das palavras venenosas que meu tutor sussurrava no meu ouvido enquanto abusava de mim de todas as formas possíveis. A primeira a me mostrar que eu era capaz de ser feliz. A primeira a me mostrar que existia felicidade no mundo e que eu merecia senti-la.
Dessa forma, nada melhor do que ela ser a primeira que eu consigo enxergar.
Ficamos mais um tempo em silêncio e separadas, porque preciso guardá-la bem, guardar bem a sensação de relembrar tudo isso e conectar cada coisa na outra. Preciso observá-la com cuidado e sentir a grande significância desse momento na minha história. Então guardo-a.
Quando dou-me por satisfeita, limpo minhas lágrimas enfiando as mãos por baixo da caixinha do óculos e passando os dedos por meus olhos. Respiro fundo, limpo as mãos no vestido e inicio a conversa:
— Como você está? — meu tom é suave, porque acho que se disser alto demais pode atrapalhar a sintonia do momento.
— Eu estou bem, meu amor. Você está linda. — ela me responde.
— Você é linda. — eu declaro, como já havia feito antes, mas com muito mais certeza agora, porque para além de sempre ter sido lindíssima por dentro, na forma como sua energia e sua alma brilham, ela também é lindíssima por fora. Eu não conseguia parar de olhar.
— Obrigada, meu bem. Você também é linda. — não respondo essa, embora queira muito dizer que não sou, porque também acho que minha baixa autoestima pode estragar o momento; melhor deixar essa passar. Mas ela me conhece bem, então não espera uma resposta, só continua: — Como você está?
— Extremamente feliz que está aqui.
— Eu também estou extremamente feliz de estar aqui. — o sorriso dela se abre ainda mais e eu sinto todos os meus pontinhos energéticos se derreterem de novo. Novamente, a sensação indescritível que citei antes.
— E como estão as coisas? — indago, curiosa, porque faz muito tempo que não nos vemos e eu não consigo ter a mínima ideia de como funciona o processo de escolha de um corpo já encarnado para se fundir. Por vezes, meu cérebro me diz que é impossível. Que para tê-la, ela teria que reencarnar num corpo próprio, mas que aí já seria tarde demais para ficarmos juntas, visto a grande diferença de idade.
— Ah, amor… — ela começa, murchando um pouquinho e eu me arrependo de ter feito essa pergunta de imediato. — Está muito difícil. É meio complicado… Eu sinto muita saudade. Eu tenho tentado muito, mas tá difícil achar alguém com compatibilidade por agora. — por um instante penso que vai ser impossível achar alguém com a compatibilidade perfeita, porque teria de ser literalmente a pessoa perfeita e isso não existe. — É o jogo mais complicado que eu já joguei. Mais difícil do que Dark Souls.
Eu seguro a risadinha, mas a solto na minha mente. Até quando ela está triste, ela consegue ser inexplicavelmente fofa. Dói vê-la assim e eu poderia fazer qualquer coisa para que ela não se entristecesse, mas podendo vê-la encher um tanto das bochechas e fazer um biquinho de forma instintiva, até vê-la reagindo de forma triste me enche de amor. É tanto que meu coração se expande e então se aperta.
Faço bastante força para não ficar triste com ela. Para não ficar ainda mais triste que ela e desistir da perspectiva de que um dia eu poderei tocá-la fisicamente no planeta Terra, tê-la ao meu lado, vê-la sorrindo quando feliz e fazendo biquinho quando chateada. Para não me deixar cair na paranóia de que eu havia perdido a cabeça quando a deixei ir sem implorar para que ela ficasse, quando achei que essa seria uma boa ideia, quando achei que isso ia funcionar de verdade.
Antes que a paranóia possa se infiltrar na minha cabeça, volto a focar em como é bom vê-la e engatinho na cama até ela, devagarzinho. Aproximo-me tentando pegar cada detalhe do rostinho dela, tentando me agarrar na presença dela ali naquele momento, para eu poder me contar que eu pelo menos a vi ali, naquele dia, se ela porventura nunca mais voltar. Se nunca desse certo, eu ainda teria aquele momento e ainda estaria feliz de tê-la tido ali, comigo, sendo minha eterna primeira.
Agora bem próxima, paro na frente dela e sorrio, tentando transformar o biquinho em um sorriso tão brilhante quanto o meu. Coloco um dedo em seu queixo e levanto seu rosto, para que me olhe, e então roubo-lhe um beijo, muito suave, me negando a fechar os olhos, porque preciso vê-la. Preciso guardar o detalhe dos seus cílios, a forma como as bochechas dela são macias, como seu narizinho é um tanto empinadinho, o jeito que ela deixa os olhos dela fecharem em símbolo de prazer quando me beija.
Ela me beija de volta e é um dos primeiros beijos naquelas visitas esporádicas que não têm gosto de fome. Esse tem gosto apenas de amor e saudade, um carinho muito mais íntimo do entendimento real da importância daquele momento. Porque enquanto a beijo, e ela passa a mão pela minha nuca, e faz uma carícia suave nos cabelinhos da região, eu sei o quanto ela entende.
Eu faço força para não fechar os olhos, mas não consigo segurar por muito tempo. Realmente me surpreendo quando a imagem não some, mesmo com os olhos fechados. Penso que é por causa do fator de ilusão, mas então me dou conta que a enxergaria como energia mesmo de olhos fechados; que ainda a veria brilhar roxo se minhas pálpebras estivessem cerradas; que ainda conseguiria ver cada pontinho de vida de sua alma, brilhando ali. Com certeza a máquina funciona da mesma forma.
Nos separamos com selinhos, finalizando o beijo. Então me ajeito do lado dela, deitando sobre os travesseiros, e a puxo para deitar a cabeça no meu peito, enquanto acaricio seus braços. Ela sempre disse que sua parte favorita para se deitar em mim são minhas coxas, enquanto os peitos são do Luksifer, mas aqui em cima, tão pertinho, eu posso me afundar em seu cabelo crespo e sentir seu cheiro de lírios.
Não conversamos muito. Conversar dói nessas pequenas visitas que ela faz de vez em nunca. Dói em mim pela falta de compreensão do que estava acontecendo com ela, a falta de detalhes, a impossibilidade dela me contar tudo por às vezes nem se lembrar do que viveu enquanto junto dos corpos que testava. Dói nela pela vontade de estar junto, estar em casa, estar convivendo conosco e com as crianças. Então não falamos. Em qualquer outro dia, ao menos tentaríamos, mas hoje precisamos apenas da paz desse carinho, desse momento juntinho.
Olho para baixo e consigo ver nossos corpos colados. É uma das primeiras vezes que vejo meu próprio corpo sem ser em sonhos, mas parece irreal. Não entro em detalhes sobre mim mesma, porque não era momento de pensar em como eu potencialmente odiaria ficar me olhando. Porém admiro o jeito que ela enrosca a perna na minha, sua pele preta em contraste com a minha branca, a minha coxa grossa junto com a dela, mais fina. Admiro a forma como ela, a minha heroína, a primeira que me mostrou o que era rebeldia, parece tão pequena e vulnerável ali comigo.
Faz tanto tempo que não a tenho, que não me importo com o fogo da saudade, ou com a necessidade de tê-la, possuí-la, beijá-la até toda minha fome dela passar. Aqui, nesse momento glorioso em que meus olhos se preenchem com ela e ela respira suave no meu peito, abraçada comigo como se só isso importasse, admito que só isso importa. Estar deitada com ela enquanto todos os meus seis sentidos a compreendem por completo é a sensação mais gostosa que eu poderia ter.
Em algum ponto, ela dorme. Não sei dizer ao certo quando acontece, mas percebo que sua respiração está bem mais leve e vejo seus olhinhos fechados, um sorrisinho singelo em seus lábios, como se ela realmente precisasse desse momento de paz e não tivesse coragem o suficiente para admiti-lo. Fico brincando com os cachinhos de seu cabelo enquanto ela descansa, elétrica e repleta de felicidade demais para conseguir dormir. Passo de leve a mão por seu rosto antes de deitar a cabeça nos travesseiros e tentar relaxar, enquanto ainda a tocava com carinho.
Olho para o teto e tudo gira. Parece-me muito claro que isso de usar os óculos não vai dar muito certo, ainda mais se minha ideia fosse usar constantemente. Afinal, estamos aqui há menos de duas horas e minha cabeça já está latejando com uma dor crescente, mais do que doera na ilusão de Andynne na entrevista que fiz com ela. Penso que pode ser por conta de quão vívido tudo está, mas talvez tenha a ver com o peso emocional de tudo o que aconteceu.
De qualquer forma, dando certo ou não, depois disso, eu poderia nunca mais ligar esses óculos e já estaria muito mais do que satisfeita. Porque eu tive esse momento e tenho ela em meus braços para ser a primeira.
Parte de mim sabe com muita força que logo ela terá de ir novamente. Que antes mesmo que eu veja, muito mais cedo do que eu gostaria, ela seria puxada para sabe-se lá qual corpo ela estava conectada naquele momento, e eu não a veria por sabe-se lá quanto tempo mais.
Mas enquanto isso não acontece, eu vou simplesmente ficar aqui, abraçada nela, sentindo seu cheiro e o calor do seu corpo enroscado no meu, como se, para além de ser a primeira, ela fosse para sempre a última.
Fale com o autor