Meet the Huntar'z
14 Interregno L O L L I N E
Chegamos a um terço deste projeto. Um projeto de entrevistas que acompanha cada um dos membros da família Huntar’z, narrado a partir da minha visão pessoal, meus sentimentos, minhas ações.
Quando eu comecei esse projeto, o comecei com o intuito de conhecer mais sobre meus filhos, os quais sempre considerei as melhores invenções da minha vida, os amores para toda a minha existência. Percebendo que talvez fosse uma boa chave para conectar com um conselho que eu havia recebido no Natal passado, juntei minha narrativa com a tentativa de me reconhecer como deusa.
Com o auxílio de algumas pessoas, que me disseram para confiar nos títulos que eu carregava comigo como certos, já conhecia alguns logo no início do projeto. Por questão dos meus poderes e como eles funcionam, sabia que era Deusa da Criação e da Destruição, movimentados pelo funcionamento da Voz Divina. Por ter gerado uma família de vinte e um filhos, quase todos saídos de mim mesma, sabia que era Deusa da Fertilidade. Por experimentar as melhores partes de mim ao ser mãe, sabia que era Deusa da Maternidade.
Acredito, porém, que só consegui enxergar de verdade a função de cada um dos meus títulos e descobrir os novos quando minha vida virou de cabeça para baixo e cada partezinha de mim se ativou em níveis divinos, para além do que eu imaginava.
Um dos pontos cruciais de virada foi a publicação da história de minha irmã mais velha, Hauhsey, a Anticristo. Ao contar e mostrar essa história ao mundo, as coisas foram se encaminhando como se dependessem disso para prosseguir. E tal como seus frutos dourados e flores de seis pontas, minha vida frutificou e floriu, trazendo para mim a última parte do quebra-cabeças dessa minha encarnação.
Se esse foi um ponto de virada, podemos dizer que me virei em noventa graus ali. Me apresentei reta e alinhada, me imaginando pronta para aguentar o tranco do que poderia vir no futuro.
Então Lucith apareceu novamente, completando sua jogada de Mestre, finalizando o jogo mais difícil de sua vida, o jogo que lhe levou anos e mais anos de preparação. O corpo que encontrou para si, para se fundir, era perfeito a ela. Desde o primeiro dia, a compreensão de que esse processo de fusão daria certo me abalou internamente a ponto de me virar de cabeça para baixo, fazendo com que eu visse a existência por um ponto de vista totalmente novo.
Lucith virou Julith. E amá-la tão intensamente foi o ponto de virada para terminar a rodada, me girando em cento e oitenta graus.
Não foi ela quem me pegou pelos pés e me virou o olhar. Não foi ela quem me tirou do chão, me fez flutuar e conscientemente virar-me para olhar de baixo para cima tudo o que eu construí durante o tempo. Mas sua chegada trouxe a Ordem. Trouxe a última peça que faltava para tudo estar no seu lugar, todos os destinos se concretizarem, todas as linhas serem escritas e descritas. Sua chegada me fez ver a Vida.
E é engraçado eu dizer isso, porque ao ver a Vida, eu finalmente me vi.
Vi o tanto que sinto, o tanto que amo, o tanto que vivo, o tanto que luto para continuar vivendo mesmo com tanta dor e tanto trauma. Vi o tanto que as coisas que faço podem ser positivas se vistas com um pouquinho de fascínio — que por muito tempo me faltou. Vi o tanto que as coisas podem ser mais bonitas se eu emprestar a visão de alguém sobre mim por alguns momentos e simplesmente apreciar cada pedacinho meu ali descrito em todas as letras que derramei e ordenei na existência.
Ao finalmente conseguir me enxergar, mesmo que com a dependência do olhar emprestado de alguém, me descobri Deusa do Amor. Uma deusa repleta de um amor tão grande que transborda por todos os cantos, se irradia por todos os lugares, ocupa tempo, espaço, ordena vidas e desordena o que já se conheceu. Uma deusa que ama tanto que experimenta em si o máximo de todos os amores disponíveis, tanto fraternal, quanto romântico; platônico ou sensorial.
Descobri que sou Deusa da Bondade e que o ato que fiz de perdoar meu próprio abusador, o que até hoje permanece em minha mente sussurrando coisas horrendas para mim nas piores noites, não é um ato que qualquer um faria em sã consciência. Que por vezes sou boa até demais, que isso talvez possa ser um problema. Que sou Deusa da Família e que a construção da minha própria família mostra isso a mim todos os dias. Que sou Deusa do Lar, porque criei para os meus um lugar para chamar de seu.
Vendo a Vida, me descobri Deusa da Vida. E percebi que meu princípio sempre foi viver e me manter vivendo, me forçar a evoluir mesmo quando existir é meu último desejo, me forçar a lutar e a me melhorar mesmo que, de fundo, os motivos sejam mais profundos do que se imagina.
Amar Julith e Luksifer ao mesmo tempo, mantendo comigo a sensação profunda de gratidão e felicidade por ter os dois presentes, me dando força e me emprestando seus olhares fascinados sobre mim de vez em quando, fez com que meu coração, minha coragem, minha vontade, minha determinação se expandissem. Para celebrar esse momento de pura felicidade e amor, o final de uma jornada que pareceu infindável, tivemos dois novos filhos. A que carreguei comigo, Crystal, veio para materializar o amor que me faltava enquanto Deusa de todos os Amores, o Amor Próprio, enquanto o que Julith carregou consigo, Rhogard, veio para nos trazer a tranquilidade que precisávamos no meio das novas ordenações do caos.
Diante tudo isso, diante a conclusão de um arco bastante significativo, pela primeira vez na existência, senti que podia tudo. Podendo tudo, eu senti tudo.
E esse foi o ponto de virada mais importante. Porque foi o que me puxou pelos pés e me obrigou a dar a volta completa novamente.
Eu me expandi tanto a ponto de estar no meio de uma galáxia inteira. De ver pelo menos mais três ao redor dessa enquanto eu Criava e utilizava do meu poder — aquele que eu nem ao menos acreditava de verdade ter no início desse projeto — para salvar minha família e ajudar a manter todos seguros. Senti cada pedacinho de Vida nesses lugares, cada átomo chacoalhante que estava ali presente.
Foi uma das melhores sensações da minha vida. Eu experimentei a verdadeira euforia, sem ter terceiros envolvidos, pela primeira vez.
Ao voltar para meu corpo, ao voltar ao meu tamanho energético normal, porém, eu ainda sentia por toda aquela Vida. Cada sentimento potencializado ao máximo, cada pequena dor, alegria, tristeza, raiva, desejo presente em cada um dos seres vivos. Com tudo isso dentro de mim, me descobri Deusa dos Sentimentos.
Se eu já sentia muito, se tudo já doía, se o peso de ser eu já me esmagava com toda a força antes, depois de passar a sentir não apenas por mim, mas pelos outros, e sentir tudo no máximo dos limites dos sentimentos, tudo ficou pior. E a partir daquele momento já não me bastava ter olhares emprestados, porque a volta que sentir tanto me fez dar me colocou de volta no ponto inicial, me fazendo girar trezentos e sessenta graus e me lembrando de mim.
Foi nesse momento que eu quebrei de novo. Que eu me parti novamente. Porque eu teria de me enxergar por mim mesma, entendendo tudo o que me aconteceu e o que me acontecia no meio de tantos sentimentos.
Enquanto sentia tudo, as memórias que antes me massacraram passaram a me despedaçar. Senti-me jogada no meio do nada, no meio do Vazio, quebrada em trilhões de partes, sem conseguir me juntar de novo por não ver motivo diante tanto sofrimento. Por não conseguir ver nada positivo no meio de tantas contradições.
Em minha cabeça, apenas as lembranças dos abusos sofridos nas mãos de Sammael, todas as vezes que ele me dizia que eu não deveria sentir, amar, viver, querer uma família, querer ser feliz. Eu estava vivendo tudo isso, sendo o ápice de tudo o que ouvi a minha vida inteira que não deveria ser, representando tudo o que Ele havia me dito que me fazia imperfeita, que me traria dor.
Eu estava ali, na melhor parte da minha vida, nunca tão feliz, e me lembrei que Ele me disse a vida inteira que eu não merecia a felicidade.
As contradições entre o que eu sou e o que Ele me disse para ser por todos os meus trilhões de anos, enfiando suas ideias dentro de minha alma a base de tapas, sussurros e estupros, fizeram com que eu me perdesse no meio do caminho. Fizeram com que eu perdesse tudo de bom de mim.
Pela primeira vez, eu tinha entendido o que era ser deusa. E o que era ser deusa apenas das melhores coisas que existem no Universo, representando apenas o que há de melhor no mundo, sendo o melhor de mim. Mas na minha perdição, na minha explosão de sentimentos, na batalha entre todas as sensações e as sensações primárias da Tristeza e da Culpa, eu me esqueci disso.
Nos momentos em que meus olhos conseguiam enxergar dentro de mim, nos momentos em que minha alma gritava para além dos meus traumas e das minhas horríveis lembranças, eu tentava me agarrar aos meus títulos com toda a minha força, apenas para vê-los sendo utilizados como justificativas para as minhas paranóias. Apenas para senti-los se desfazendo e se esvaindo como areia de meus dedos, trazendo ainda mais culpa para dentro de um coração que, expandido, só sabia bombear isso.
Eu tentei. Eu tentei me segurar de todas as formas, mas sempre que tentava, caía mais fundo. Depois de ter visto o mundo feliz na minha volta de cento e oitenta graus, voltar à minha posição normal e perceber que talvez eu nunca tivesse a felicidade por carregar Tristeza e Culpa demais dentro de mim, fez com que a queda fosse ainda pior.
Todavia, o que poderia me salvar não é ser deusa de nenhuma dessas coisas supracitadas. Até porque essas foram fáceis de aceitar, no meio da contradição. Essas foram fáceis de ver, pelas coisas que me foram dadas, mesmo que meu coração me dissesse que eu não merecia nenhum desses títulos pelo simples fato de ser eu.
Não adianta eu me agarrar nesses títulos, ou nos olhares emprestados de meus amores e minha família. Porque eu nunca vou conseguir enxergar a completude da minha vida se não olhasse por mim mesma. E esses títulos me explicam quem eu sou, mas são incapazes de me salvar de mim mesma.
O que poderia me salvar é ser Deusa da Literatura.
Foi ao perceber isso que as coisas voltaram a se encaixar.
O que iniciou a minha jornada para me amar não foi começar um projeto para me entender como Deusa. Foi enxergar minha vida como um livro. Foi entender que, se minha vida é um livro e eu faço as decisões, eu o escrevo com minhas próprias mãos, portanto vou me escrevendo e reescrevendo como preferir.
Acho que encontrei a chave que eu precisava para resolver todos esses conflitos que entender os meus papéis divinos — e começar a verdadeiramente exercê-los — criaram na minha mente. E isso é: eu escrevo e defino por mim.
Eu não me defino pelo que as outras pessoas entendem de mim.
Nem no que sentem ou agem em direção a mim.
Eu não me defino a partir de Sammael, que me transformou no indefinível; um ser que na verdade era uma boneca para sua diversão, para saciar a vontade de seu sadismo. Embora eu retenha muitas das características que sua criação me impôs, dar para ele o poder de definição da minha vida pode apenas continuar destruindo a vida que eu sempre quis e de verdade consegui construir com o lado positivo que tirei de cada experiência horrorosa.
Eu não me defino nos meus amores, que me transformaram em ser senciente e me fizeram descobrir sozinha todas as emoções disponíveis no Universo, apenas para ter as lindas reações que ela tinha, ou para ensiná-lo a ter essas reações. Embora eu, como puro Sentimento e Amor, ame cada uma das reações que eles poderiam ter, das boas às ruins, eu ainda assim não posso me definir por esse amor.
Eu sou minha própria personagem. Eu sou a escritora da minha própria vida.
Eu me defino como eu preferir.
Essa foi uma reflexão muito importante, porque fez com que eu me lembrasse exatamente o que eu fui por mim mesma, sem nenhuma das definições supracitadas, sejam elas positivas ou não. E antes de me definir como Lolline, eu me defini Huntar’z.
Como uma escritora dedicada à magia de minha vida desde que conheci e virei amiga das palavras, me sinto uma caçadora de histórias. Caminhando pelo mundo querendo conhecer o melhor conto, a melhor prosa, o melhor romance, a melhor poesia. Desde o começo, carrego comigo essa ideia de Caçadora.
Venho desde muito tempo buscando pelos melhores personagens, para as histórias mais épicas, para as aventuras mais insanas.
Olho para trás e todas as melhores histórias têm a marca de Caçadora nelas. As mais divertidas. As mais felizes. As mais amorosas. As mais livres. As mais sem definição alguma que não fosse a que eu me desse.
Cacei a vida inteira. E talvez isso soe um tanto exagerado, mas eu consegui encontrá-las de verdade apenas quando comecei a Criá-las.
“Huntar’z” é a tradução em Mao para Caçadora.
Frutos de amores eternos, com consequências profundas e imensuráveis na história do Universo, todos os membros da família Huntar’z são em si só as melhores histórias que já encontrei. Só de estarem, só de serem.
Pelo que podem notar pela narrativa dos meus dias desde a última entrevista até aqui, com todas as coisas que descobri sobre mim mesma e com toda a intensidade do que me aconteceu, talvez você tenha entendido que eu realmente me perdi. Eu caí, sendo levada pela torrente de eventos e de sentimentos, de revelações e lembranças.
Eu me perdi quando eu já tinha me prometido, aos berros, que eu nunca me perderia novamente. Mas como eu mantenho minha palavra, pela importância que uma palavra tem, essa é a última vez.
Essa aqui é a vez que me puxo sozinha do fundo do poço, agarrando-me novamente à tudo que me aconteceu de bom. Agarrando-me ao meu lado Caçadora de Histórias e enfrentando tudo o que me acontecer daqui para frente com as minhas amigas e companheiras eternas, as palavras. Puxando-me para cima com essa corda, construindo minha própria narrativa, minha própria personagem enquanto eu vou. Erguendo-me e conhecendo mais histórias, me entregando da melhor forma para aquelas que criei ao materializar amores e momentos felizes, me enfiando no meio das minhas paranoias, sobressaindo-as, e voltando-me para os Huntar’z.
Porque se é nessa chave que eu conheci o amor e a felicidade, é assim que vou me parabenizar por todos esses anos achando que eu não os merecia. É assim que vou me presentear no fim das coisas.
Sendo Caçadora de Histórias eu começo, sendo Huntar’z eu termino. Sendo, eu me reergo e me reconstruo. Deixo todas as definições para trás e me defino apenas como merecedora orgulhosa do que sou em mim. Eu me defino como a personagem que ganhou, mesmo que erre às vezes. Que é imperfeita, mas é sim boa o bastante para bastante coisa. Que tenta muito e consegue ainda mais, mesmo que seu cérebro por vezes a diga que não.
Eu me defino.
Para além de todos os títulos, os sentimentos, a história, os romances, as experiências, eu me defino. E isso por enquanto me vale muito mais do ser deusa.
Porque isso me vale ser simplesmente eu.
Conhecer os Huntar’z me vale ser eu.
É por isso que mesmo que esteja difícil, mesmo que demore muito tempo, mesmo que minha vida vire de cabeça para baixo e simplesmente deixe de funcionar da forma comum, eu não posso desistir desse projeto.
Porque conhecer os Huntar’z é conhecer a mim.
Por meio das minhas criações, flores só minhas ou frutos de amores fecundos, conheço a mim mesma. E talvez seja a hora de caçar minha própria história.
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