Medos
3 Capítulo 3 - Tentativas
Notas iniciais

“Um lugar como a campina na canção que cantei para Rue quando ela estava morrendo. Onde o filho de Peeta poderia estar seguro.”
Em Chamas
Capítulo 24 – Página 375
Peeta e eu tentamos ter um filho. Por quanto tempo? Bem, com toda certeza por tempo o suficiente para já ter conseguido. Com onze meses só de tentativas, nós já devíamos ter conseguido alcançar o objetivo.
O que estamos fazendo de errado? Não sei. Mas gostaria de saber. Isto é tão frustrante. Tão decepcionante que estou quase desistindo. Cheguei a visitar um médico que disse estar tudo normal. Até mesmo Peeta foi ao médico mas disseram a mesma coisa, então... Por que não está dando certo?
Quase um ano tentando, já não era para eu estar grávida? Parece que quanto mais queremos algo, mais difícil fica consegui-lo. Tenho certeza que se eu não quisesse este filho, mas me arriscasse a ter, teria engravidado na primeira tentativa.
Peeta continua animado, ou talvez só se mostre assim quando estou por perto. Porque minha animação já se foi há muito.
Delly liga constantemente querendo saber das novidades sobre isto. E eu sempre suspiro e solto um desgostoso “não”. Mas ela continua animada e tenta passar isto para mim.
Haymitch diz para continuar. Continuar pra quê? Pergunto eu. Continuar a ter tentativas fracassadas que nos levam a nada? Bem, isto está sendo bem fácil de fazer.
Acordei esta manhã e a primeira coisa que encontrei foi o rosto de Peeta em um sono sereno. Seus cabelos totalmente bagunçados pela nossa aventura embaixo dos lençóis. Apesar de estar decepcionada, não evitei sorrir ao ver o semblante tranquilo de Peeta junto com sua respiração leve. Se Peeta, que quer isto mais do que eu, parece estar despreocupado, por que eu deveria estar?
Não é algo que eu possa escolher. Eu não escolhi estar preocupada. Não escolhi estar frustrada ou decepcionada. Apenas estou assim.
Deixo Peeta dormir tranquilamente e saio da cama, rumando até o banheiro. Fecho a porta atrás de mim e me desfaço de minhas roupas rapidamente. A água morna logo toma conta do meu corpo e sinto todos os meus músculos relaxarem com este contato.
Onze meses tentando e nada. Deve haver algo errado.
Uma lágrima salgada se mistura com a água do chuveiro. E eu tento me controlar para que outras não acompanhem a primeira. Mas acho que isto é algo incontrolável. Olho para cima, deixando a água cair em meus olhos fechados, como se dissesse para as minhas lágrimas que o lugar delas era dentro dos meus olhos.
Então sinto alguém me abraçar.
Tomo um susto e dou um pulo para frente. Me viro e vejo Peeta dentro do box junto comigo.
– Eu assustei você? – ele pergunta.
– Eu estava distraída. – respondo me virando de costas para ele e ensaboando meu corpo.
Peeta me abraça novamente e desta vez eu deixo. Paro de me ensaboar e suspiro alto.
– Sobre o que estava pensando? – ele pergunta fazendo um carinho em minha barriga.
– Sobre... Não estar dando certo.
Peeta suspira.
– Uma hora vai dar. Você verá.
– Não estou vendo nada por enquanto. – falo irônica.
– Katniss...
– Eu cansei disto, ok? – eu me solto de seus braços e viro-me de frente para Peeta, dando um passo para trás, deixando ele embaixo do chuveiro e eu fora – Eu cansei de todas as tentativas fracassadas. Isto está me deixando maluca. O que há de errado comigo?
– Não há nada de errado com você. – Peeta me consola, acariciando meus braços – Você é perfeita.
– Sim, sou tão perfeita que não consigo nem ter um filho. – reviro os olhos e saio do box, mesmo estando ainda ensaboada. Me enrolo em um roupão e saio do banheiro.
– Katniss, qual é. – Peeta aparece logo em seguida com uma toalha enrolada na cintura. – Não fica assim.
– Assim como? Frustrada? Decepcionada? Triste? Magoada? As opções são infinitas. Sinta-se livre para escolher uma. – paro e me viro de frente para ele.
Ele para na minha frente e segura meus braços.
– Na hora certa vai acontecer. Não precisa ficar ansiosa deste jeito. – ele sussurrou com calma.
– Mas eu quero isto agora. Eu adiei isto por quinze anos e agora estou desesperada. – falo começando a sentir os meus olhos úmidos novamente.
– Vai dar tudo certo. – ele me garante. – É melhor a gente se secar antes que escorregue e caia.
– Certo.
Peeta vai para o banheiro. Eu me seco com o próprio roupão e visto um vestido qualquer que achei dentro do armário.
Descemos e preparamos o café-da-manhã.
– Que tal uma caminhada na campina mais tarde? – pergunta Peeta passando geleia em uma fatia de pão.
– E a padaria? – pergunto.
Ele ia morder o pão, mas para e olha para mim.
– Hoje é domingo, Katniss. – ele fala como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
– O quê? Já?
Ele riu mas não respondeu a minha pergunta.
– E a caminhada?
– Mais tarde. – respondi de boca cheia – Depois do almoço.
Terminamos o café-da-manhã e lavamos a louça. Peeta me abraça enquanto eu lavo as xícaras que usamos.
– Sabe qual é a parte boa de você não estar grávida? – ele perguntou roçando o nariz no meu pescoço.
– Qual? – pergunto sentindo a respiração dele contra a minha pele e segurando a xícara firme em minhas mãos para não cair.
– Temos que continuar tentando. – sinto ele sorrir enquanto beija meu pescoço.
– Peeta, a louça precisa ser lavada. – sussurrei com dificuldade.
– Sei. Mas acho que podemos deixar isto para mais tarde. – ele insiste, puxando meu vestido e passando suas mãos grandes na parte interna das minhas coxas.
Deus! Assim fica difícil...
– Alguém tem que levar o café-da-manhã para o Haymitch. – suspiro.
– Haymitch pode esperar. – ele sussurra na minha orelha – Mas eu não posso.
– Estou atrapalhando? – ouço a voz de Haymitch atrás de nós.
Peeta me solta e viramos para ele, o vendo no outro lado da mesa já sentado. Peeta bufa, sem paciência nenhuma para lidar com ele.
– O que você quer? – pergunta ele.
– Bem, são onze horas. O café-da-manhã não apareceu. E estou com fome. – Haymitch responde com um sorriso satisfeito. – Então eu apareci... E ainda estou com fome.
Peeta revira os olhos e pega uma xícara que acabei de lavar. Enche de café e coloca a frente de Haymitch.
– Satisfeito? – pergunta Peeta.
– Quase... Afinal, não vai deixar este velho aqui só com líquido no estômago, não é?
Peeta pega uma faca, pão e geleia e coloca a frente de Haymitch.
– Melhor assim, Vossa Alteza? – pergunta Peeta ironicamente, mas ainda irritado.
– Muito melhor. – diz Haymitch. – Não deem bola para mim. Continuem o que estavam fazendo. – ele diz mordendo uma fatia de pão.
Peeta bufa novamente.
– Eu vou arrumar a cama. – falo antes que ouça Haymitch e Peeta baterem boca.
Eu amo Peeta. Eu amo o corpo dele. E amo mais ainda quando está em contato com o meu. Mas Peeta tem estado com um fogo incontrolável desde que contei a ele sobre minha decisão. Eu amo fazer amor com Peeta, mas não sou uma máquina de sexo. Uma hora canso.
Mas Peeta parece ser esta máquina. E tenho que admitir que agradeci Haymitch mentalmente por ter nos atrapalhado. Agradeci porque eu iria acabar cedendo de alguma forma. Peeta sabe mexer com a minha mente quando quer. Com a minha mente, com meu corpo... Com tudo!
Subi até o quarto e arrumei a cama. Mal terminei o que estava fazendo e Peeta adentra o quarto.
– O que vai fazer agora? – ele pergunta.
– Haymitch já foi? – pergunto.
– Não. Apenas cansei de discutir com ele.
– Vou lavar as roupas. – respondo a sua primeira pergunta enquanto ajunto as roupas do chão.
– Eu posso fazer isto se você quiser. – ele sorri quando eu me viro com o punhado de roupas nos braços.
Eu rio.
– Você não sabe usar a máquina. – afirmo.
Ele nunca ao menos tentou.
Ele se aproxima e abraça minha cintura, me empurrando até eu bater com as costas na parede.
– Eu dou meu jeito. – ele sussurra puxando as roupas que estavam nos meus braços e as deixando cair no chão.
Ele beija meus lábios com calma enquanto arrasta uma mão para a minha nuca. Ele me puxa para ele com a outra mão em minhas costas, como se quisesse fundir nossos corpos em um só.
Eu interrompo o beijo, ofegante.
– Haymitch está lá embaixo. – sussurro sem fôlego.
– Ele não vai subir até aqui. – Peeta avisa com certeza – Ele é preguiçoso demais para subir as escadas.
Nisto eu tinha que concordar. Haymitch não subia nem as escadas da própria casa. Aposto que ficaria perdido se um dia decidisse se aventurar no segundo andar da própria residência.
Peeta volta a me beijar enquanto passeia suas mãos em meu corpo. Meus pensamentos ficam encobertos por uma névoa invisível e não consigo pensar com coerência.
Este é o efeito que Peeta causa em mim, mesmo após ter se passado quinze anos.
– As roupas... Peeta... – ainda tento inutilmente, mesmo eu não estar mais desejando que ele pare.
– Esqueça elas. – ele sussurra – Apenas esteja comigo.
Ele roça os lábios em minha pele até chegar ao meu pescoço, me causando uma série de arrepios. Escorrega as mãos pelo meu vestido e o puxa até ter contato com as minhas pernas. Peeta as puxa para cima e me vejo obrigada e enroscar minhas pernas em seu quadril. Ele volta a beijar minha boca com mais urgência. Agarro seus cabelos.
– Até mais, casal quente. – ouvimos Haymitch gritar lá de baixo – Não coloquem fogo na casa.
Meus dedos ainda estavam enrolados nos fios louros de Peeta quando ele tira minhas mãos de seus cabelos e junta nossas mãos acima de nossas cabeças, grudadas na parede. Ele me prensa mais contra ele e a parede e aperta minhas mãos enquanto mergulha o rosto no vão do meu pescoço. Sinto e ouço sua respiração difícil.
Então percebo que há algo errado.
Ele não está ofegante por causa dos beijos e de tudo que está acontecendo com nós agora. Ele está ofegante por outro motivo.
– Peeta? – o chamo.
Ele aperta mais minhas mãos a ponto de doer e geme contra meu pescoço.
– Não... – ele sussurra com certa dificuldade – Agora não... Por favor...
Eu solto minhas pernas, mas acabo ficando na ponta dos pés, pois Peeta ainda está com as minhas mãos presas junto às dele.
– Peeta? O que você está vendo? – pergunto tentando manter a voz calma.
Depois de quinze anos aprendi a lidar com os flashbacks de Peeta. Mas não em uma situação como esta. Ele normalmente se agarra a uma cadeira e não as minhas mãos. Ele está me machucando.
Eu apenas deveria ficar em silêncio como sempre fiz com os outros flashbacks e esperar ele passar. Depois perguntaria a ele se está tudo bem e ele diria que sim, mesmo eu sabendo que não estava. E o resto do nosso dia correria da mesma forma, como se aquilo nunca tivesse acontecido antes.
– Não... – ele sussurra novamente, abalado.
Peeta me explicou uma vez que isto era como visões. Como pesadelos e que ele lutava para acordar. Nem sempre são sobre mim. Às vezes é Snow o torturando ou bestantes. Outras vezes são explosões. Ele disse que a grande maioria era de mim fazendo coisas terríveis, mas não absolutamente todas.
Ele apertou mais minhas mãos e tentei segurar o grito trincando os dentes. Mas as lágrimas saíram livremente.
– Peeta... Por favor... – eu implorei sentindo que meus ossos iriam quebrar daqui a pouco.
Como alguém pode ser tão forte assim?
– Eles querem tirar você de mim novamente... Não deixa, Katniss... Não vá. – ele sussurrou e senti suas lágrimas descendo pelo meu pescoço.
– Peeta... Por favor, eu estou aqui. Ninguém vai me tirar de você... Por favor, me solta, está me machucando. – eu choraminguei.
Ele de repente me solta e dá um passo para trás. Eu caio sentada no chão. Não havia notado que os dedos dos meus pés estavam doloridos por ter sustentado o peso do meu corpo com eles. Estava concentrada demais na dor que latejava minhas mãos mesmo após Peeta ter as soltado.
Olhei para as minhas mãos, vendo marcas com o formato dos dedos de Peeta.
Peeta se abaixa, sentando sobre as pernas e puxa minhas mãos com delicadeza para si. Coloca as minhas palmas unidas a dele e passa os polegares pelos lugares marcados.
– Eu machuquei você. – ele sussurra, demonstrando toda a onda de culpa ao ver as marcas que deixou em mim.
Olhei para seu rosto vermelho com algumas lágrimas ainda descendo pelas bochechas.
– Está tudo bem. – falei com a voz falha e embargada – Foi um acidente.
Ele me olhou como se eu tivesse falado algo absurdo.
– Katniss... Eu quase quebrei as suas mãos. Tem noção disto? – ele pergunta – Eu sinto tanto por isso. – ele massageia minhas mãos com calma.
Suas mãos agora, não pareciam as mesmas mãos que estavam me machucando há um minuto atrás.
– Está tudo bem. – falo fazendo ele soltar minhas mãos e segurando o rosto de Peeta.
– Me desculpa. – ele pede cheio de remorso.
– Não foi culpa sua. Eu entendo, Peeta. Vem! – me levantei do chão – Vamos lavar o rosto.
Vamos até o banheiro e lavamos o rosto. Voltamos ao quarto e Peeta continua atordoado.
– Eu não quero machucar você. – ele sussurra.
Eu me aproximo e o abraço, envolvendo meus braços em seu pescoço.
– Está tudo bem. São só algumas marcas. Elas vão sumir. – o consolo com um pequeno sorriso.
– Mas fui eu quem fez estas marcas. São as marcas dos meus dedos. – ele suspira alto – Acho que você estava certa antes.
– Sobre o quê?
– Sobre ter filhos. Talvez você tivesse razão. Talvez não deva acontecer. Não é seguro para ele.
O quê? Como assim? Ele não pode estar falando sério.
Me afasto um passo de Peeta e olho em seus olhos, buscando algum tipo de piada. Mas ele apenas me olha sério.
– O que você quer dizer com isto? – pergunto.
– É melhor pararmos. Olha o que eu fiz com as suas mãos. Já pensou se fosse uma criança? Já pensou se fosse nosso filho?
– Peeta, foi um acidente. Em quinze anos, este foi o único acidente.
– E quem garante que não vai acontecer novamente? E quem garante que eu não machuque nossa criança?
– Você não vai machuca-la. – afirmo.
– Como pode saber?
– Eu não vou deixar, ok? Eu não vou deixar nada de ruim acontecer com ela. Eu prometo. – eu sussurro a última frase.
– Eu tenho medo de ser um monstro. – ele sussurra.
– Você não é. Você é Peeta. Você é o homem que eu amo. Você é meu dente-de-leão e meu garoto com o pão. – eu falo tudo de uma vez.
Não sou acostumada a dizer em voz alta o que sinto, mas precisei. Não posso deixar que este acidente bobo faça com que Peeta desista de tudo. Eu não deixaria nada acontecer com nosso filho. Absolutamente nada.
Peeta se aproxima um passo em minha direção.
– Se nós tivermos este filho, você promete deixar ele longe de mim quando acontecer algum flashback? – ele pergunta com calma.
– Eu... – não terminei a frase.
Minha visão se tornou turva e me segurei na cômoda ao meu lado para não cair. Sacudi a cabeça, tentando fazer com que a visão voltasse ao seu normal.
– Katniss? – Peeta segurou minha cintura, tentando me deixar em equilíbrio novamente – O que foi?
– Só fiquei um pouco tonta. – respondi passando a mão na minha testa.
– O que você está sentindo? – ele pergunta preocupado, procurando algum vestígio ruim no meu rosto.
– Nada. Estou bem. Já pensou. – parei para retomar o ar – Vamos preparar o almoço? Não sei há quanto tempo estamos aqui encima.
– Não. Eu vou preparar o almoço. É melhor você deitar um pouco. – ele ordena, quase me arrastando para a cama.
– Então eu vou lavar as roupas. – o contradigo, tentando me desvencilhar de suas mãos.
– Não. Eu lavo a roupa também. Apenas deita um pouco.
– Peeta, eu estou bem. Não precisa dar seus ataques de preocupação.
– Não estou ouvindo nada do que você está falando. Então deita nesta cama e tira um cochilo. – eu bufo e sento na cama sabendo que não adianta discutir com Peeta. Ele ajunta as roupas e sai do quarto – Durma bem. Eu acordo você quando a comida estiver pronta.
– Ok. – murmurei.
Deitei na cama mesmo não estando com sono. Odeio quando Peeta fica preocupado deste jeito. Quer dizer, eu gosto que ele se preocupe comigo. Mas não precisa ser de um jeito exagerado. Só fiquei um pouco tonta, não é nada demais. Já passou da hora do almoço e isto é apenas o meu corpo dizendo: “Ei, hora de colocar comida no estômago”.
Após me revirar na cama, consigo pegar no sono. Mas os gritos de Peeta me despertam de imediato.
– Ah! Droga!
Saio da cama com os pés descalços e corro escada abaixo. Sigo a voz de Peeta que estava praguejando. Entro na lavanderia e encontro a máquina de lavar cuspindo sabão para fora. Peeta está apertando todos os botões enlouquecidamente.
– Peeta! – eu exclamo vendo a bagunça.
Ele olha para mim, desesperado.
– Como eu desligo isto?
Eu corro até a tomada e puxo o fio, fazendo a máquina ficar silenciosa e parar de vomitar sabão. Olho para o chão todo coberto de sabão. Olho para a máquina e depois para Peeta cheio de espuma. Então começo a gargalhar. A cena é tão hilária que tive vontade de tirar uma foto e guardar. E tenho certeza que iria rir todas as vezes que visse a foto.
Caminho até Peeta, mergulhando meus pés na espuma e me segurando na parede com uma mão e com a outra secando as lágrimas dos meus olhos.
– O que houve aqui? – perguntei ainda rindo.
– A máquina enlouqueceu. – fala Peeta sério o que só me faz rir mais – Para de rir. – ele pede mas ele também está rindo.
– O que você colocou aí dentro? – pergunto abrindo a tampa e vendo apenas espuma e mais espuma.
– As roupas e o sabão em pó.
Caminho até outra mesa e encontro a caixa de sabão em pó... Vazia!
– Peeta, por favor, não me diga que você colocou a caixa inteira de sabão em pó dentro da máquina.
Ele gaguejou e me olhou confuso.
– Não é para colocar tudo? – ele pergunta inocentemente.
– Meu Deus, Peeta! Não! Eu comprei esta caixa ontem, estava cheia! – eu gritei e comecei a rir novamente.
– Pelo menos você não ficou irritada comigo.
– Não tem como ficar irritada vendo você cheio de espuma e olhando com esta cara deslavada para mim.
– Deslavada... Belo momento para usar esta palavra. – ele sussurra, me fazendo rir mais – E agora?
– Agora, você vai limpar a lavanderia e vai enxaguar estas roupas no tanque e depois estender elas na rua. E vai ter que comprar uma caixa de sabão em pó.
– Certo. Acho que mereço este castigo. – ele fala olhando em volta.
– E o almoço? – pergunto, sentindo meu estômago protestar.
– Está no fogão. Eu ia colocar as roupas na máquina e chamar você, mas a máquina resolveu enlouquecer, então...
– A máquina não resolveu enlouquecer. – o corrigi – Você que quase causou uma overdose de sabão em pó nela.
– Ah, sim. A máquina ficou doidona. – ele fala girando os dedos ao lado das orelhas me fazendo rir – É melhor você ir comer enquanto eu arrumo esta bagunça.
Não respondo. Apenas caminho até a porta e antes de sair da lavanderia, seco os pés em uma toalha próxima e vou para a cozinha.
Eu já estava lavando meu prato quando Peeta retornou, com uma roupa seca e sem espuma.
– Tudo certo? – pergunto.
Ele solta um suspiro de alívio antes de responder.
– Sim. Já comeu?
– Já.
Ele pega um prato e abre a tampa da panela.
– Uou! Acho que você comeu mais do que o normal. – ele afirma, olhando para o conteúdo da panela.
– Não tenho culpa se este macarrão com queijo estava incrível. – me defendo secando as mãos em um pano de prato.
Eu teria comido mais, mas meu estômago não permitiu.
– Você está bem? – ele pergunta.
– Sim. Por quê?
– Porque você comeu metade do macarrão sozinha. – ele fala realmente surpreso.
– Não exagera! Não foi tanto assim.
Ele levanta as mãos em sinal de derrota e se serve.
– Vamos dar aquela caminhada? – ele pergunta.
– Sim, nós podemos deixar a comida no Haymitch e ir.
– Certo.
Quando Peeta termina de almoçar, servimos um prato de comida para Haymitch e trocamos de roupa. Visto a roupa de caça, pois pretendo abater algum animal hoje. Saio com meu arco e flechas e Peeta com o prato de Haymitch.
Subimos os poucos degraus da sacada e Peeta abre a porta. Assim que o cheiro repulsivo do álcool atinge meu nariz, sinto vontade de vomitar. Dou um passo para trás e coloco a mão na barriga.
– Eu acho que vou esperar aqui fora. – aviso.
– O que foi? – pergunta Peeta.
– É este cheiro... Está me deixando enjoada.
– Tudo bem. Já volto.
Desço as escadas e espero Peeta que não demora muito a voltar.
– Aposto que ele reclamou pela demora da comida. – aposto enquanto caminhamos na rua.
– Claro. Seria anormal se ele não reclamasse. – Peeta concorda.
Chegamos até a cerca e me abaixo para passar por baixo dela. O movimento brusco me deixa tonta e paro enquanto Peeta repete o que eu fiz.
– Vamos? – Peeta me estende a mão.
Ainda bem que Peeta não notou nada, senão já estaríamos caminhando de volta para casa. Seguro a mão dele.
– Vamos. – respondo.
Adentramos a floresta e caminhamos até chegar a campina. Sentamos embaixo de uma árvore para nos proteger do sol.
– Já parou para imaginar? – pergunta Peeta com o olhar sonhador varrendo a campina.
– Imaginar o quê? – perguntei.
– Nosso filho correndo aqui. – ele diz se encostando na árvore e me puxando para si.
Respondi com um sorriso que ele não poderia ver. Olhei para a campina, imaginando uma criança correndo com os braços abertos enquanto o vento bagunçava seus cabelos.
– Vamos caçar? – proponho já me levantando.
– Claro. – ele levanta também animado.
Peeta consegue caminhar silenciosamente e nos escondemos atrás de uma moita ao ver uma grande lebre de bobeira se alimentando. Puxo a flecha e arrumo no arco, puxo a corda ao máximo e miro bem nos olhos da lebre cinza. Solto a flecha e ela acerta os olhos do animal. Solto um sorriso vitorioso. Fazia algum tempo que não fazia isto.
– Acertei. – sussurro.
– Touché. – diz Peeta.
– Vamos lá pegá-lo. – falo saindo da moita.
Nos aproximamos da lebre e abaixamos.
– Bem nos olhos. Como sempre. – fala Peeta.
Eu olho para os olhos cravados pela flecha e o sangue escorrendo e não me contenho. Me levanto e saio correndo até a árvore mais próxima e vomito o macarrão que comi no almoço.
– Droga! – murmuro.
Peeta logo chega atrás de mim e segura minha cintura, me virando para ele.
– O que foi isso? – ele pergunta com o rosto alarmado.
– Isto... Foi o almoço saindo do meu estômago. – respondo.
– Desde quando você vomita ao ver um animal morto? – ele pergunta com as sobrancelhas arqueadas.
– Desde agora, eu acho.
– Estou preocupado. Primeiro a tontura, depois vômito. É melhor você ir ao médico.
– Não! Não preciso ir ao médico. Preciso ficar longe deste bicho morto. Vamos para casa? Estou meio cansada.
– Tudo bem.
Caminhamos para casa em meio ao silêncio. Antes de chegar em casa, passamos no Haymitch para buscar nosso prato de volta.
Chego em casa e opto por um banho de chuveiro e tento colocar minha mente em ordem para descobrir o que está me causando estas tonturas e enjoos. Deve ser alguma virose. Mas não deve ser nada sério. Não preciso ir ao médico. Só preciso de um banho e dormir um pouco. E quando acordar, vou estar bem novamente.
Saio do banho e visto uma roupa confortável e sento na cama desembaraçando meus cabelos com os dedos.
Peeta entra no quarto e para no meio do caminho.
– O que foi? – pergunto para ele.
– Amanhã, duas e meia da tarde. – ele diz.
– O que tem amanhã às duas e meia da tarde? – pergunto confusa.
– Eu marquei uma consulta para você pelo telefone.
Bufo, irritada e me atiro para trás, caindo de costas no colchão.
– Eu estou bem, Peeta. É só uma virose.
– E se não for? Katniss, para de ser teimosa. Você vai nesta consulta amanhã nem que seja amarrada em uma cadeira.
Sabia que Peeta era preocupado o bastante para fazer isto. Então só passei a mão no rosto enquanto suspirava.
– Tudo bem. – respondi. – Eu vou dormir um pouco.
– Ok. – ele sai e fecha a porta atrás de si.
Caio no sono rapidamente. Quando acordo já está de noite. Me levanto e me espreguiço enquanto desço para a cozinha sendo levada pelo cheiro do macarrão que comi no almoço.
– Macarrão? – pergunto ao entrar.
Peeta está de frente para o fogão e se vira para mim.
– É. Já que você gostou tanto eu decidi esquentar para o jantar. – ele faz uma pausa – Está melhor?
– Estou. – respondo sentando na cadeira e cruzando meus braços.
Peeta dá a volta na mesa e massageia meus ombros.
– Quer que eu vá ao médico com você amanhã?
– Não precisa. Você precisa abrir a padaria. Eu sei me virar. – jogo a cabeça para trás e olho para Peeta.
Ele me dá um leve sorriso e beija meus lábios.
Dormimos tranquilamente. Acordo um pouco mais tarde no outro dia. Peeta já havia saído. Levantei e fiz minha higiene matinal. Tomei o café-da-manhã, lavei a louça, arrumei a cama e recolhi as roupas que Peeta estendeu ontem. Aproveitei o bom tempo e abri todas as janelas e varri um pouco a sala. Peeta volta uma hora antes do normal.
– Um fio elétrico perto da padaria deu curto. Faltou luz no quarteirão inteiro. Mandei todo mundo para suas casas. – ele me explica antes mesmo de eu perguntar.
– Que droga! E agora? – pergunto.
– Agora vamos esperar os eletricistas arrumarem isto. Eu tinha que fazer algumas encomendas, mas isto eu posso fazer aqui em casa mesmo. – ele coça a nuca – Eu vou tomar um banho rápido e fazer o almoço.
– Tudo bem.
Após o almoço, me arrumo para ir na consulta que Peeta havia marcado por telefone.
– Não quer mesmo que eu vá com você? – ele pergunta enquanto eu calço minhas sapatilhas.
– Não precisa. – falo me levantando – Você precisa fazer as encomendas da padaria e eu sei o quanto isto demora. Está tudo bem. – eu me aproximo dele e deixo um rápido beijo em seus lábios. – Eu vejo você mais tarde.
– Ok.
Caminho pela rua sentindo o sol esquentar meu corpo. Mesmo estando um pouco abafado, usei uma blusa que tampava minhas mãos, escondendo as marcas dos dedos de Peeta. Cheguei ao hospital e fui ao setor que Peeta havia anotado para mim em um papel. Me aproximei de um balcão onde possuía uma garota mexendo em um computador.
– Posso ajudar... Katniss? – claro que ela me conhece.
– Oi, eu tenho uma consulta marcada. – falo educadamente.
– Sim, claro. – ele mexe no computador e volta a olhar para mim – É só aguardar.
– Obrigada. – digo e sento-me para esperar.
Espero por uma meia hora até uma médica me chamar. Entro na sala dela e me sento no outro lado da mesa.
– Boa tarde, Katniss. Sou a doutora Rosie. – me diz a mulher de cabelos castanhos e óculos.
– Oi.
– Qual o motivo da consulta? – ela pergunta.
– Eu ando tendo alguns enjoos e tonturas. Bem, meu marido ficou preocupado e marcou esta consulta.
Ela anota tudo o que falo em uma folha.
– Certo. Tonturas e enjoos. Como está sua alimentação?
– Bem. Apesar de eu ter comido metade do macarrão ontem.
– Comeu mais do que deveria. – ela parece falar para si mesma – Hmm, tem sentido dores nos seios?
– Não. – respondo confusa.
– Como está seu ciclo menstrual?
– Ele atrasou este mês... E ainda está atrasado.
– Muito bem. – ela suspira e abre uma gaveta tirando uma pequena caixa, abre a caixa tirando um objeto de dentro e estendendo para mim – Preciso que você faça xixi nisto.
– O quê? – pergunto sem pegar o objeto.
– Preciso que vá até o banheiro e faça xixi nisto e depois volte. – ela detalha mais.
Pego o objeto e faço o que ela pediu. Volto e estendo o objeto para ela, que o coloca sobre a mesa enquanto faz mais algumas anotações.
– O que é isto? – pergunto me referindo ao objeto.
– Um teste. – ela responde e olha para o relógio preso à parede. Ela pega o objeto e o olha dando um sorriso – Foi o que imaginei. Parece que alguém vai ser mamãe.
– O quê? – pergunto surpresa e praticamente arranco o objeto das mãos da doutora e o olho.
Um sinal de positivo está marcado e meu sorriso cresce.
– Você está grávida. – doutora Rosie afirma.
– Oh, meu Deus! Eu preciso ir para casa e contar isto a Peeta. Ele vai surtar. – penso alto.
– Calma, mamãe. Primeiro vamos fazer alguns exames para ter certeza de que você está grávida e de que está tudo bem com você.
Ele me aplica os exames, mas nem noto. A única coisa que consigo focar é neste bebê que está dentro de mim agora. Neste pequeno serzinho. Talvez todas as tentativas tenham valido a pena. Porque nada vai conseguir tirar este sorriso do meu rosto até o final do dia.
Após minha gravidez estar confirmada, saí do hospital com um envelope contendo todo um relatório médico e um grande Positivo no final. Além de uma consulta já marcada para o mês que vem.
Caminho quase flutuando para casa sem notar que já estava escurecendo. Quantas horas passei dentro daquele hospital?
Entro em casa e vejo Peeta vestindo um casaco, ele para no lugar assim que me vê.
– Meu Deus, Katniss! Eu já estava indo até lá. Por que demorou tanto? Achei que você estava em alguma cirurgia e esqueceram de me avisar. – ele fala nervoso.
Eu apenas rio sem me importar e me aproximo dele o abraçando.
– Eu amo você. – falo com o rosto no pescoço dele.
– O que houve lá? – ele pergunta me abraçando de volta – O que disseram?
Eu sorri mais antes de soltá-lo, dou um passo para trás e estendo o envelope para ele.
Ele pega e olha para o envelope confuso e o abre. Acompanho seus olhos lerem o papel até um sorriso começar a formar em seu rosto.
– “Confirmamos a gravidez da prezada paciente...” – ele lê em voz alta. Depois olha para mim com os olhos brilhando – Você está grávida.
Assinto inúmeras vezes com a cabeça antes de responder.
– Estou.
Ele ri e me abraça, me erguendo do chão.
– Vamos ter um filho. Eu não acredito. Isto é real. – ele ri e me beija – Eu amo tanto você.
Talvez tenha demorado mais do que habitual. Talvez precisemos passar por onze meses de fracasso. Mas agora nada nem ninguém vai conseguir tirar esta criança. Ninguém vai amá-la tanto quanto Peeta e eu. Todas as tentativas e meses de frustração tiveram um resultado e, agora, posso dizer que teria feito tudo igual de novo, se no final estivesse com este mesmo sorriso que estampa o meu rosto e o rosto de Peeta. Talvez agora a nossa vida realmente comece.
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