Medos
4 Capítulo 4 - Willow
Notas iniciais

“A menina com cabelos escuros e olhos azuis dança.”
A Esperança
Epílogo – Página 418
– Willow! – a chamo de longe, mas ela rapidamente se vira para a minha direção – Vamos!
Ela corre em minha direção, seus cabelos escuros voando junto com o vento. Ela para no meio do caminho e pega algo do chão e depois continua a correr. Chega até mim ofegante, mas com um sorriso no rosto.
– Olhe, mamãe. – ela me estende a pequena flor de cor amarela – Não é linda?
Eu sorrio e pego a flor.
– É sim. – respondo ajeitando a flor atrás de sua orelha – Nós precisamos ir agora.
– Mas já? – ela me olha triste.
Willow sempre gostou da campina. Ela corre em meio à grama verde e rola nela como se fosse sua cama.
– Sim, papai está nos esperando. – falo pegando sua pequena mão com a minha.
Minha filha está com três anos. Seus cabelos são escuros como os meus, mas seus olhos trazem o mesmo azul dos de Peeta.
Delly surtou quando liguei para ela no mesmo dia que descobri que estava grávida. E ela realmente tinha razão: um pânico remoto me atingiu ao cair a ficha de que uma criança iria se desenvolver dentro de mim. Peeta levou um par de dias para conseguir me tranquilizar novamente.
Segurá-la pela primeira vez foi algo complicado. Eu era uma mãe totalmente inexperiente, e Willow parecia tão frágil que achava que poderia quebra-la só de olhar para ela.
Peeta agiu com mais tranquilidade. Como se já fizesse isto há muito tempo. Talvez fosse um extinto paternal que ele precisou guardar por tanto tempo.
Os primeiros meses foram difíceis. Choros ao meio da noite que poderiam ser por qualquer motivo. Desde uma simples fralda suja até cólicas. Cansei de passar noites em claro e acordar indisposta em vários dias. Mas foi apenas ela abrir um sorriso, que todo o sofrimento e cansaço pareciam valer a pena.
Perdi um pouco da liberdade que tinha. Mas trocar caças na floresta por horas com minha filha, me parecia uma troca bem justa e desejável.
Chegamos em casa antes de anoitecer e sinto o cheiro da comida antes mesmo de entrar.
– Papai! – Willow corre até a cozinha, sabendo que Peeta estaria lá.
Chego lá, logo após ela, quando Peeta se vira e sorri para Willow.
– Minha flor. – ele diz a pegando no colo – Se divertiu com a mamãe?
– Sim. – ela responde animada – Mas mamãe disse que precisávamos voltar porque você iria ficar com saudade da gente.
– Ah! Isto é verdade. Já estava morrendo de saudades de vocês. – concorda Peeta, fazendo cócegas no pescoço de Willow com a boca.
Ela ri enquanto se contorce no colo de Peeta.
– Cuidado... – aviso preocupada com o jeito que Willow se contorce no colo do pai.
Peeta me olha como se fosse impossível ele deixar algo de ruim acontecer com nossa filha. Bem, sei que é. Mas nunca consigo deixar de me preocupar.
– Sabe o que o papai fez enquanto você e a mamãe estavam na campina? – pergunta Peeta para Willow.
– Não.
– Um bolo de chocolate. – ele diz sussurrando como se fosse um segredo.
– Bolo... – sussurra Willow com os olhos brilhando de ansiedade – Eu quero comer.
– Só depois do jantar. – afirma Peeta e a coloca sentada no balcão. Ele pesca uma bacia com uma espátula dentro – Mas você pode terminar com o pote da massa agora.
Willow logo abre um sorriso e pega a bacia das mãos de Peeta. Ele a solta no chão e Willow senta à mesa com sua bacia com resto de massa de bolo. Ela ignora a espátula e usa os dedinhos para limpar a bacia.
Faço uma trança rápida para ela não sujar os cabelos.
– Vou subir e tomar um banho. – aviso após terminar a trança.
– Tudo bem. – Peeta afirma voltando sua atenção para as panelas no fogão.
Chego ao banheiro e me livro das roupas. Tomo um banho e saio vestindo um roupão. Estava a frente do espelho, penteando os cabelos, quando a vontade chegou sem avisar. Larguei rapidamente a escova na pia e me debrucei sobre o vaso para vomitar.
Sentei escorada na parede e fechei os olhos. Estou com estes enjoos há uma semana. E acho que sei o que isto significa. Mas resolvi não contar nada a Peeta. Na próxima semana é seu aniversário e quero fazer uma surpresa. Quer dizer, se estes enjoos forem o que eu acho que é, então poderei fazer a surpresa. Marquei uma consulta com o médico amanhã. Por sorte, Peeta ainda não me flagrou debruçada no vaso vomitando.
Enxaguo a boca e termino de pentear os cabelos. Visto uma roupa e desço. Ouço a pequena discussão na cozinha.
– Mas eu quero. – ouço a voz insistente de Willow antes mesmo de atravessar a porta da cozinha.
– Mas você não vai ganhar agora. Só depois do jantar. – Peeta rebate. Willow cruza os braços com a cara demostrando toda sua raiva – Meu Deus! Olha para isso! Está igualzinha a sua mãe.
– O que está acontecendo aqui? – pergunto.
– Ela quer comer o bolo agora. – explica Peeta me olhando com uma cara que pedia socorro.
Realmente é assim. Talvez todo casal seja assim com seus filhos. Um que permita demais e o outro que fica responsável por dar os limites que o primeiro não dá. Peeta faz o papel do pai bonzinho que permite tudo, por isso que quando vai impedir Willow de fazer algo ela protesta. Eu acabei ficando com a parte de dar limites. Viro-me para Willow.
– Bolo só depois do jantar. – afirmo com convicção. Willow bate o pé no chão – Ei! Bata o pé mais uma vez neste chão e você vai para a cama sem comer o jantar e muito menos o bolo. – aviso com voz autoritária.
Ela desvia os olhos e descruza os braços. Senta à mesa sem emitir mais nenhum pio... Ou bater o pé no chão.
O jantar já está pronto e Peeta serve Willow. Comemos com Willow falando sobre o que gosta de fazer na campina.
– Preciso que você leve Willow com você amanhã para a padaria. – falo quando Willow decide comer ao invés de falar.
– Tudo bem. O que vai fazer amanhã? – ele pergunta despreocupado.
– Tenho que ir ao médico.
Peeta me olha surpreso.
– Tem algo errado com você? – ele pergunta preocupado.
– Não. Apenas exames rotineiros. Nada demais.
Ele não parece muito convencido, mas não insiste em arrancar nada de mim.
– Terminei. – fala Willow empurrando o prato – Bolo!
Quando terminamos de comer, cortamos o bolo de chocolate e Willow finalmente sorriu satisfeita.
– Hora de dormir. – falo quando termino de lavar a louça.
– Ahhh! – Willow reclama – Só mais um pouquinho.
– Nem mais um minuto. Já passou do seu horário, mocinha. – estendo a mão para ela – Vem tomar um banho.
Após tomar um banho rápido e vestir seu pijama cheio de desenhos de flores, ela corre para seu quarto. Peeta já está lá, arrumando a cama para ela.
Ela se aconchega embaixo dos cobertores e abraça seu gato de pelúcia.
– Eu não vi o Billy hoje. – se lamenta Willow.
Billy. O gato horrível que falei para Peeta não trazer para casa. Acho que não nasci para gostar de gatos. E acho que talvez os gatos não nasçam para gostar de mim. Aquele bicho desprezível já me arranhou tantas vezes que perdi a conta. Mas ao menos tem uma paciência incrível com Willow. Acho que até gosta dela.
Peeta me olha com um olhar suspeito. Eu apenas arqueio as sobrancelhas para ele.
– Não fui eu. Eu ainda não o afoguei em um balde. – me defendo.
Peeta se vira de volta para Willow.
– Ele dever estar caçando ratos por aí. Amanhã ele vai estar com a gente de novo. – consola Peeta.
Espero que ele não volte nunca.
– Conta uma história? – pede Willow.
– Tudo bem.
Peeta inventa alguma história e em questão de minutos Willow já está dormindo tranquilamente.
Saímos do quarto sem fazer nenhum barulho.
– Eu vou dormir. – aviso assim que ele fecha a porta.
– Eu também. Mas preciso de um banho antes.
Não consigo esperar Peeta sair do seu banho, acabo dormindo antes. Mas sou acordada com o barulho da porta sendo aberta.
A pequena sombra de Willow surge perto da cama.
– O que houve? – pergunto meio grogue.
– Eu tive um pesadelo. Posso dormir aqui? – ela pergunta.
– Tudo bem. Venha cá. – ouço a voz de Peeta atrás de mim. Não notei que ele havia acordado.
Willow passa por cima de mim e deita em nosso meio.
– Quer contar sobre o que foi o seu sonho ruim? – pergunto acariciando os cabelos dela.
– Sonhei que o Billy havia morrido. – ela diz visivelmente triste com esta possibilidade.
Peeta me olha.
– Tem certeza que você não matou o gato? – ele pergunta.
– Mas é claro que não matei. Eu não gosto muito dele, mas não faria isto com ela. – afirmo.
– Não se preocupe. Tenho certeza que o Billy vai aparecer amanhã. Afinal, ele ama você. – consola Peeta.
Willow acaba adormecendo e eu durmo novamente, pensando que era melhor este maldito gato aparecer amanhã ou estaríamos com problemas.
Acordo sozinha na cama de manhã. Faço minha higiene matinal e desço vendo Willow e Peeta já comendo o mesmo bolo de ontem. Me sento com eles e como também. Arrumo Willow para que ela vá à padaria com Peeta.
– Já está pronta? – Peeta adentra o quarto.
– Eu quero fazer bolo! – exige Willow enquanto eu termino de fazer as tranças.
– Claro. Vamos fazer muitos bolos hoje. – concorda Peeta.
– Prontinho! – afirmo a virando de frente para mim – Nada de brincar perto dos fornos. É perigoso.
– Eu sei. – diz ela e logo me dá um beijo na bochecha – Tchau, mamãe.
Ela corre para Peeta que a pega no colo. Ele se aproxima de mim e me dá um rápido beijo.
– Até mais. – ele diz.
– Tchau.
Observo eles saírem da Vila e entro para me arrumar.
Chego ao hospital e sou rapidamente atendida.
– Então, Katniss? Qual o problema? – pergunta a médica.
– Acho que estou grávida. Quero saber se estou mesmo ou se é coisa da minha cabeça. – explico.
– Tudo bem. – ela pega um teste da gaveta e me estende. – Acho que você já sabe o que fazer.
Eu faço o teste e depois devolvo para ela. Ela olha meio decepcionada para o teste.
– O que foi? – pergunto apreensiva.
– Seu teste deu negativo.
– O quê? – pergunto sem acreditar – Mas e estes enjoos que tenho tido a semana toda?
– Calma, Katniss. Os testes apresentam erros às vezes. Vou precisar de um pouco de sangue para confirmar de verdade.
Eu a deixo tirar meu sangue e aguardo na sala pelo resultado. Eu tenho certeza de que estou grávida. Eu posso sentir isto.
Ela volta com um envelope em mãos.
– E então? – pergunto nervosa.
– Parece que você está certa. Parabéns. Você está de seis semanas. – ela confirma alegre e eu não consigo evitar sorrir com a notícia.
Depois de alguns exames e uma breve conversa, sou liberada. Antes de voltar para casa, decido passar em uma loja e comprar um presente para Peeta. Coloco em uma caixa azul escura com uma fita encima. Escondo embaixo da cama e o envelope contendo a confirmação da minha gravidez escondi no fundo de uma gaveta.
Desço e procuro na agenda pelo número de Delly. Assim que encontro, disco os números e aguardo alguém me atender.
– Alô! – ouço sua voz no outro lado da linha.
– Oi, Delly. É a Katniss.
– Katniss! Como vai?
– Eu só liguei porque tenho uma novidade.
– E o que é? – ela pergunta curiosa.
– Estou grávida.
– De novo? Mas o padeiro não perde tempo, hein! Isto é incrível, Katniss. De quanto tempo?
– Seis semanas.
– Ai, meu Deus! O Peeta já sabe? Como ele reagiu?
– Ele não sabe ainda. Peeta vai fazer aniversário semana que vem e o bebê vai ser o presente.
– Duvido que consiga segurar a novidade até lá.
– Eu consigo.
– Se você diz... E a festa? Vamos fazer uma para ele? – ela pergunta com aquela voz de quem já está tramando algo.
– Não. Nada de festa. Peeta não gosta muito disto. – logo descarto a ideia.
– E você também não. – conclui Delly.
– Isso mesmo. Bem, só liguei para contar a novidade.
– Estou muito feliz mesmo por vocês.
Ouço o barulho da porta se abrir acompanhado do choro de Willow.
– Delly, preciso desligar. Tchau.
– Até mais. Beijo.
Coloco o telefone de volta no gancho e vou rapidamente ao encontro de Peeta e Willow. Minha filha estava no colo do pai enquanto chorava em alto e bom som com um pedaço de pano enrolado em uma das mãos. Peeta tentava a acalmar de alguma forma.
– O que aconteceu? – perguntei alarmada.
Peeta olhou para mim mostrando um sentimento de culpa.
– Foi tão rápido, Katniss. – ele começou nervoso – Eu me virei por um segundo e... Então ela já estava chorando.
– Mas o que aconteceu? – pergunto ainda sem entender.
– Ela queimou os dedinhos no forno.
Meu sangue gelou. Talvez eu seja meio neurótica com Willow. E sei que faço um escândalo com um mínimo arranhão que ela tenha. Por isso, uma queimadura de primeiro grau, para mim é algo além do terceiro grau.
Por instinto, praticamente arranco ela do colo de Peeta e minha filha aperta a mão não machucada em volta do meu pescoço sem parar de chorar.
– Como conseguiu deixar ela se queimar?! – pergunto irritada indo para a cozinha.
– Desculpa... Eu sinto muito mesmo. – Peeta se lamenta.
Eu a coloco sentada no balcão da cozinha e saio em busca da caixa de primeiros socorros. Volto com a pequena maleta e abro pegando uma pomada própria para queimaduras.
– Não adianta sentir muito agora que ela já queimou os dedos. – afirmo irritada e nervosa.
Desenrolo o pano da mãozinha dela e vejo quatro de seus pequenos dedos queimados junto com uma parte da mão. Não era tão ruim, mas mesmo assim ela sentia dor.
– Foi muito rápido... – Peeta continuava.
Passei a pomada na mão de Willow e ela puxou a mão para si.
– Dói... – ela reclama com as lágrimas escorrendo pelos olhos.
– Eu sei, mas já vai passar. – falo puxando sua mão de volta e passando a pomada. – Vai ficar tudo bem.
Ela olha para a própria mão lambuzada de pomada enquanto eu guardava a pomada de volta na maleta. Ela me olhou com algumas lágrimas ainda caindo de seus olhos. Eu sorri e enxuguei as lágrimas dela com meus dedos. Pego ela no colo e ela apoia a cabeça no meu ombro. Já ia passar direto por Peeta, mas ele segura meu braço.
– Katniss...
– Você é o pai dela e deveria cuidar para que coisas como estas não acontecessem com ela. – o interrompo.
Ele me olha triste e concorda com a cabeça.
– Eu sei. – sussurra Peeta.
Eu saio da cozinha com Willow no meu colo e subo até o quarto dela, pego um livro de sua pequena estante e deito na cama, a aconchegando comigo.
– Não briga com o papai, mamãe. – ela sussurra.
– O quê? – pergunto.
– Não briga com ele. Fui eu que brinquei perto do forno, não ele. Não briga com o papai.
Acabei largando o livro na cômoda ao lado da cama. Ela estava certa. Como Peeta poderia prever que aquilo aconteceria? Willow sempre nos surpreende.
– Eu falei para você não brincar perto dos fornos. Se você tivesse me obedecido, não teria queimado os dedos. – afirmo.
– Eu sei. – ela sussurra quase dormindo – Desculpa.
Beijo o alto da cabeça dela e ela dorme. Peeta entra no quarto e para perto da cama com as mãos nos bolsos frontais da calça. Ele olha para Willow dormindo tranquilamente com a cabeça apoiada no meu peito.
– Desculpa ter gritado com você. – sussurro.
Ele olha para mim.
– Eu deveria ter ficado de olho nela... – ele se lamenta.
– Você não poderia imaginar que ela iria queimar os dedos. Willow nunca para quieta.
Ele concorda com um aceno de cabeça.
– Eu vou fazer o almoço. – ele avisa.
– Eu vou ficar aqui mais um tempinho.
– Tudo bem. Eu chamo você quando tudo estiver pronto.
Ele sai do quarto e eu fico com Willow aconchegada na cama. Ela ainda estava dormindo quando Peeta subiu novamente para almoçar. Dei um jeito de sair da cama sem acordá-la. Desci e comemos em silêncio. Willow aparece um pouco depois.
– Estou com fome. – ela reclama.
– Claro que está. — sorrio – Vamos tirar esta meleca da sua mão.
Eu lavo as mãos dela enquanto Peeta serve um prato de comida para ela.
– O Billy apareceu, mamãe? – Willow pergunta antes de começar a comer.
Ela me olha esperando uma resposta. Eu sabia que ela gostava do gato o suficiente para ficar realmente preocupada se ele não aparecesse. Peeta me olha e levanta as sobrancelhas como sinal de que eu deveria responder logo.
– Quer saber? Ele veio até aqui, eu o alimentei com um pouco de leite e depois ele foi passear. – respondi com bom humor.
– Ele foi passear? – Willow pergunta.
– Sim. Eu disse para ele ficar porque você estava com saudades dele, mas ele nem me ouviu e pulou por aquela janela. – apontei para a janela.
Willow, por sorte, não fez mais nenhuma pergunta sobre o bendito gato e apenas comeu a comida. Ela gosta tanto de animais que chega a me lembrar Prim em certos momentos. Principalmente quando estamos caminhando pela rua e ela avista algum gato ou cachorro abandonado perambulando por aí. Ela insiste até não poder mais em levar ele para casa, pois ele deve estar com fome. Para poupar os sentimentos dela, nunca caço quando ela vai comigo para a floresta.
Lavo a louça e depois vamos todos para o pátio atrás de casa. Peeta estava me ajudando a recolher as roupas e Willow estava correndo em nossa volta colhendo todas as flores que encontrava pelo caminho, quando ouvimos um miado de gato. Parei tudo o que estava fazendo e olhei para Peeta que também olhou para mim.
– Ouviu isto? – pergunta ele.
– Ouvi. – largamos as roupas na cesta e seguimos os miados aflitos do gato. Encontramos ele encima de uma árvore com um olhar apavorado – Mas como diabos você foi para aí encima, seu gato estúpido?
Bufei enquanto escalei a árvore até chegar ao gato. Ele se agarrou em mim como se eu fosse o motivo de ele não morrer. Desci com ele pendurado na minha roupa.
– Billy! – Willow sorriu assim que o viu.
Ele desgrudou as unhas de mim e caminhou até Willow se arrastando nas pernas dela. Ela prontamente se abaixou e o pegou no colo, feliz por ter o gato de volta.
– Eu disse para você não trazer este gato para casa. – falo para Peeta a frase que falo constantemente a ele desde que trouxe aquele bicho para dentro de casa.
Peeta riu e revirou os olhos, parou no meu lado e me abraçou.
– Mas olhe como ela está feliz com ele. – ele apontou para Willow que estava sentada no gramado acariciando o gato.
– Este é o único motivo de ele ainda não ter feito parte do jantar. – sussurrei para mim mesma.
Peeta riu novamente e beijou minha bochecha.
– Eu amo você, sabia? – ele sussurrou no meu ouvido.
– Eu também amo você. – sorri e fechei os olhos.
– Eu preciso voltar para a padaria. – ele falou me soltando – Até mais tarde.
Ele beijou meus lábios suavemente e depois se virou para Willow caminhando até ela.
– Filha! Papai já vai. – ele gritou ainda à distância.
Willow se levantou e correu em direção a Peeta.
– Eu quero ir junto. – ela gritou antes de se aproximar.
Peeta pega ela no colo e dá um beijo na bochecha dela. Diz algo a ela e Willow responde com algo que fez ambos rirem e resultou em cócegas na barriga de Willow. Peeta a deitou na grama e continuou com as cócegas a fazendo se contorcer.
Eu apenas ri, assistindo a tudo debaixo da árvore. Me pergunto o tempo todo como pude negar ter filhos antes. Como passei quinze anos sem ter Willow? Ela é a colinha que faltava para juntar mais ainda Peeta e eu. Ela é o alicerce que nos sustenta em dias de pesadelos horríveis e flashbacks. E eu passei quinze anos sem isto. Quinze anos abominando por completo a ideia de ter um bebê.
Coloquei a mão na minha barriga ainda lisa, lembrando que mais um está a caminho. Que ganharíamos mais uma colinha. Mais um alicerce. Mais um pouco de felicidade.
Peeta deixou Willow se recuperando das cócegas no chão e foi embora depois de deixar um beijo na testa dela. Ela se levantou enquanto eu caminhava até as roupas que deixei na cesta e no varal.
– Papai disse que vai trazer um cupcake para mim. – ela me contou animada.
– Que bom. – respondi recolhendo a última roupa.
Peguei a cesta enquanto Willow pegou Billy, que descansava ao sol. Entramos e eu dobrei as roupas e guardei no armário. Quando desço, encontro Haymitch entrando na minha casa.
– Vovô! – grita Willow e abraça as pernas dele.
– Já disse que não quero que ela me chame de “vovô”. – Haymitch reclama tirando os braços de Willow de volta de suas pernas e a empurrando de leve.
Willow apenas ri, achando ser algum tipo de brincadeira.
Haymitch sempre se afastou de Willow. Não sei bem o motivo. Talvez não goste de crianças, ou seja o trauma de ver crianças morrerem todos os anos nos Jogos. Ele nunca aceita os abraços que Willow oferece. Minha filha não suspeita de nada, apenas acha que a rejeição dele é uma brincadeira. Mas sei que haverá um dia que ela notará que não se trata de uma brincadeira. É por isso que precisamos saber o que Haymitch tem contra Willow.
– O que veio fazer aqui, Haymitch? – pergunto enquanto Willow sobe as escadas, provavelmente vai brincar no seu quarto.
– Estou com fome. – é a resposta do velho mentor.
Revirei os olhos e fui até a cozinha esquentar um pouco do almoço para Haymitch. Sentei no outro lado da mesa, o vendo comer.
– Por que não gosta de Willow? – pergunto, sem conseguir segurar mais a pergunta.
Haymitch bufa, como o velho rabugento que sempre foi.
– Não é exatamente um “não gostar”. – ele diz.
– Então o que é? – pergunto sem entender.
– É complicado demais. Você não entenderia.
– Eu passei por tanta coisa que acho que poderia entender.
Haymitch me olha perplexo. Ele esperava que eu abandonasse o assunto como sempre fiz nas outras vezes que ele mandava este tipo de indireta. Ele não esperava que eu insistisse tanto neste assunto.
Haymitch empurra o prato vazio para o centro da mesa e suspira se afundando mais na cadeira.
– Já que você insiste... O que eu tenho é uma mistura de inveja com remorso.
– Como assim?
Ele suspira alto novamente.
– Antes de eu ser sorteado para participar dos Jogos, havia conhecido uma garota. O nome dela era Lizy. Eu me apaixonei por ela e, para a minha sorte, ela também havia se apaixonado por mim. Começamos a namorar. Mas no mês seguinte, fui parar no Massacre Quaternário. Prometi que voltaria pela Lizy. E realmente voltei. Ela me disse que estava grávida e, apesar de ser jovem demais para ser pai, fiquei muito feliz com a notícia. Acontece que os Jogos não haviam terminado. Snow foi me ver e queria que eu vendesse meu corpo. E ainda disse que era melhor eu fazer isto, em prol da vida das pessoas que eu amava. Eu apenas ri e neguei, achando que ele não seria tão cruel assim. Bem, eu estava enganado. Meu filho nasceu saudável e ele havia se tornado tudo para mim. As ameaças de Snow continuaram, mas como nada havia acontecido, achei que nunca aconteceria. Isto até o dia que voltei do mercado e descobri que minha namorada e meu filho de apenas um ano e meio haviam sido atropelados por um carro dos pacificadores. Achei uma rosa em minha casa com um bilhete feito com uma letra caprichosa: você foi avisado.
– Oh... Haymitch... – não sabia o que dizer.
Após anos, fiquei orgulhosa de mim mesma. Fiquei feliz por ter acabado com o governo terrível de Snow. Se aquilo não tivesse acontecido, tudo estaria igual mesmo após quase vinte anos. E Peeta e eu estaríamos sendo mentor de um menino e uma menina do Distrito 12, que provavelmente seriam mortos nos primeiros minutos. E ainda poderia haver a chance da menina ser Willow. Filhos dos tributos nos Jogos sempre geravam uma aposta alta entre as pessoas da Capital, então não era raro haver filhos de tributos dentro de uma arena.
– Afundei na bebida desde então. E é por isso que não me aproximo de Willow. Não entenda mal, Katniss. Ela é uma garotinha adorável, mas eu queria ter vivido mais do que vocês estão vivendo agora. E sempre que eu a vejo correndo por aí, lembro do meu pequeno garoto. Ficar à distância me parece ser o mais seguro e menos doloroso por enquanto.
Ele não espera eu dar uma resposta, apenas se levanta e vai embora. Eu continuo sentada, tentando absorver a história de Haymitch. Notei que aquilo poderia ter acontecido comigo. Eu poderia ser forçada a vender meu próprio corpo. Mas não fui. E o motivo? Peeta. Peeta foi o motivo de Snow não me forçar a fazer isto.
Fecho os olhos e tento imaginar um garoto parecido com Haymitch, mas não consigo. Não consigo imaginar Haymitch como um pai, da mesma forma que não conseguia me imaginar como uma mãe.
Eu devo ter passado muito tempo sentada ali, pois quando Willow me chama e sacode meu braço, já está escuro lá fora.
– Estou com fome. – ela reclama com uma voz dengosa.
– Eu vou preparar algo para você.
Me levanto e preparo um copo de leite com alguns biscoitos que Peeta havia trazido ontem da padaria. Me apoio na pia e observo Willow saborear seu lanche.
Peeta chega em casa e passa na cozinha para tomar um copo de água.
– Cupcake! – grita Willow eufórica.
– Eu esqueci. – diz ele colocando o copo na pia e saindo da cozinha.
Há algo errado. A primeira coisa que Peeta faz quando chega em casa é brincar com Willow. Pega ela no colo, a beija, abraça... Depois me dá um beijo. E tem mais, Peeta não responde a Willow de forma tão rápida e direta. Ele responderia com algo como: “Papai esqueceu.” E desde quando Peeta se esquece de mimar Willow com guloseimas da padaria?
Deixo mina filha na cozinha e subo em direção ao quarto. Ele estava procurando por algo no armário.
– O que houve? – pergunto com calma.
Ele bate a porta do armário com tanta força que ela fecha e depois abre sozinha.
– Você ainda o ama, não é? – ele pergunta demostrando raiva na voz.
– Quem? – pergunto ainda calma, mas confusa.
– Gale! Você ainda o ama?
– Acho que nunca cheguei a amá-lo.
– Não minta! – ele grita.
– Ei, o que eu fiz? Por que está tão irritado? – pergunto perdendo a paciência.
– Você o beijou! Você o beijou sem se importar em como eu ficaria com isto. – ele acusa.
– Eu não vejo Gale faz quase vinte anos, Peeta!
Willow entra no quarto.
– Papai!
– Quê? – ele grita tão alto com ela que até eu fiquei com medo.
Willow dá alguns passos para trás com medo e começa a chorar. Eu pego ela no colo a consolando e olho para Peeta que pareceu ter consciência do que acabou de fazer e olha para nossa filha que ainda chora.
– Qual é a droga do seu problema? – pergunto antes de sair do quarto.
Vou até o quarto de Willow. Demorei algum tempo para acalmá-la e ela realmente só se acalmou porque acabou dormindo.
Peeta estava tão feliz quando foi para a padaria. Por que ele voltou assim? Só há uma explicação: aconteceu algo com ele quando estava na padaria. Desço e procuro na agenda o telefone de um dos funcionários da padaria. Disco e por sorte, alguém me atende.
– Alô.
– Oi, é a Katniss. Só queria saber se houve algo com Peeta na padaria.
– Ah! Que bom que ligou. Sim, ele teve um daqueles surtos... Como vocês chamam mesmo? Ah, sim! Flashback.
– Ele teve um?
– Sim. Está tudo bem?
– Está sim. Ele só voltou um pouco estressado. Então eu fiquei preocupada. Bem, obrigada. Boa noite.
– Igualmente.
Subo novamente ao meu quarto e encontro Peeta sentado na cama com os cotovelos apoiados nas pernas.
– Desculpa. – ele sussurrou olhando para o chão. – Ela está bem?
Demorei um pouco para notar que ele estava se referindo a Willow.
– Sim, está dormindo. – respondo e me abaixo, pegando as mãos dele – Por que não me disse que teve um flashback?
– Eu não queria preocupar você. – ele suspira – Eu quebrei tudo o que tinha no escritório.
– Você sabe que eu amo você. Ninguém além de você. – esclareço.
– Eu sei. Eu ainda estava transtornado. Desculpa.
O tom de voz dele demonstrava o quanto estava arrependido. Suas mãos estavam tremendo e a respiração estava pesada. Ele estava parecendo muito mal. Mas eu sabia o que faria ele esquecer disto tudo.
Eu sei que seria uma surpresa para o aniversário dele, mas vou precisar adiantar. Eu sorri e puxei a caixa que escondi embaixo da cama. E coloquei no colo dele.
– Feliz aniversário adiantado. – sussurrei me levantando.
Ele sorriu e se levantou. Abriu a tampa da caixa e tirou uma camisa que – sim, é ridícula – estava escrito “Sou do papai!”, ela era amarela e as bordas eram vermelhas.
– Tudo bem. Este presente deve ser de Willow. – ele fala.
Eu apenas rio, porque ele está entendendo tudo errado.
– Talvez não. – advirto. – O que mais tem dentro da caixa?
Então ele tira o par de sapatinhos de bebê amarela e sorri para eles o calçando nos dedos.
– É um pouco pequeno para mim, não acha? – ele semicerra os olhos.
– Mas vai servir direitinho nele. – falo colocando a mão na barriga.
Peeta passa por uma série de transformações de expressões. Primeiro ele me olha confuso. Depois volta a olhar para os pequenos sapatinhos que ainda estavam nos dedos. Depois arregala os olhos e abre a boca sem acreditar. E finalmente sorri.
– Meu presente é um bebê? – ele perguntou.
– Bingo!
– Não acredito! – ele me abraça me tirando do chão e me fazendo rir – Isto é incrível! Incrível! Espera... Você foi ao médico para...
– Isto mesmo. Já estou de seis semanas.
– Eu não acredito nisto, Katniss. – ele me abraça com mais força e ri – Eu vou ser pai de novo.
– Nós dois vamos ser pais de novo.
Nossa vida sempre passou por altos e baixos. Tem dias que começam alegres e terminam alegres. Outros terminam tristes. E tem aqueles dias que terminam de forma inesperada, como hoje.
Aprendemos a conviver com nossos traumas e fantasmas. Aprendemos a viver de verdade.
Vimos que sempre pode haver uma esperança. Sempre haverá uma, em qualquer canto do planeta.
Sempre.
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