Notas iniciais
Dois capítulos em um só dia, que progresso hein? Hahaha. Como de praxe, espero que gostem, se gostarem comentem, abraços!!

Capítulo 6

Uma Vivian inchada e machucada me pedia silêncio com o dedo em frente aos lábios:

— Venha, vamos subir. – Abriu a porta atrás dela me guiando até seu quarto no segundo andar. Segui ela atônita, meu corpo se mexia sistematicamente, me levando a sentar na beirada de sua cama com o pote de sopa ainda em mãos, como foi que eu não deixei isso cair?

— Vivian, o que houve com você? – Despertei de meus pensamentos deixando a sopa, que agora não ajudaria muito, de lado. Caminhei até ela, tocando seu rosto com cuidado, com medo de causar mais algum dano. Seu rosto estava inchado, principalmente o olho esquerdo que contava com hematomas num tom púrpura, um corte acima da pálpebra, e outros contornavam sua boca que se via repleta de pequenas feridas, algumas preenchidas de sangue e outras de pus, uma lesão no seu nariz de fora a fora, ainda aberta com sangue seco bordejavam a fissura. Sem contar nos diversos arranhões e escoriações que circundavam o seu corpo, ao menos o que estava nu e eu podia ver.

— Eu disse aos meus pais, eu fui assaltada, não vi quem eram – Respondeu trocando olhares entre o chão e a porta, estava claramente assustada. – Já dei queixa.

— Te assaltaram? O que levaram? – Pergunto, e logo depois me arrependo, ela estava praticamente desmantelada bem na minha frente e eu me preocupo com seus pertences? Que insensibilidade da minha parte. – Desculpe, Viv, o mais importante é você e seu bem-estar, é claro.

— A polícia vai encontrá-los, isso não vai ficar assim – Segurei suas mãos tentando confortá-la. Ela sentou ao meu lado com o olhar caído. – O que o xerife disse a você?

Como que numa reação à minha pergunta, Vivian arregala os olhos e viaja com eles pelo cômodo. Eu não sabia dizer se ela estava tentando se lembrar do que ele disse ou procurando uma resposta para me deixar menos nervosa, talvez uma resposta para que eu me contentasse e ficasse quieta. Silêncio, ela me olhava com as sobrancelhas juntas e o queixo vacilante.

— Ei, está tudo bem? – Que pergunta tola – Bem, sabe o que eu quero dizer, foi só isso mesmo que aconteceu? – Sustento seu olhar evitando que ele se desvie novamente para pensar em sei lá o quê, alguma coisa não está bem. Posso ver que ela tem algo mais a dizer, seus olhos estão úmidos e os lábios trêmulos, não demora muito para as primeiras lágrimas rolarem bochechas abaixo, eu a puxo para um abraço, o rosto quente e cheiro metálico decorrente do sangue entram em contato com os meus sentidos.

— Ah, Jess, eu não queria fazer isso, eu juro que não, mas minha avó precisa de remédios e eles são caros, era para ser apenas uma ou duas vezes – A coloco de volta na posição que estava antes segurando seus ombros que desciam e subiam conforme ela puxava o ar para logo depois soltar outro soluço desesperado.

— O que você fez, querida? – Indago com a voz tranquila no empenho de acalmá-la.

Vivian me conta que o cara do bar que “vendeu remédios naturais” a ela, é na verdade um fornecedor de drogas. Ela fez algumas entregas para ele em troca de grana para conseguir comprar os remédios da avó que sua mãe não estava dando conta, viu que era dinheiro fácil e continuou pensando que poderia se inserir nesse mundo e dar conta de todo o resto, então começou a pegar pequenas quantidades e vender para alguns alunos da cidade, até que um deles não pagou como prometeu e quem teve que prestar contas foi ela, podemos ver que custou caro:

— Eles falaram que se eu não pagar, eles vão voltar. – Soluça novamente – Eles sabem onde eu moro, Jessica, minha avó fica o dia inteiro em casa, você não sabe do que eles são capazes. – Esconde o rosto entre as mãos que ficam ligeiramente úmidas devido suas lágrimas incessantes, confesso que eu também estava a ponto de começar a chorar, mas de raiva. Aquele cretino desgraçado, então deve ser por isso que ele sabia tanto sobre mim, o que ele pretendia fazer? Me tornar um exemplo de castigo a Vivian caso ela pagasse o que devia? Por um momento permiti que o medo invadisse meu peito e me senti indefesa, ele sabia, meu nome, minha idade, quem era meu pai e meu irmão, ele já devia saber onde eu morava e sabe-se lá mais o que. Eu tinha que tomar cuidado.

Ao olhar para Vivian novamente me compadeci, ela não merecia aquilo, ela errou em ter se envolvido nisso, mas estava apenas tentando ajudar sua família, tudo ficara muito mais difícil depois que seu pai se foi. Ela é minha amiga e ninguém vai ameaçar a ela ou a mim.

— Vivian – Olho no fundo de seus olhos tentando parecer o mais convincente possível – Eu vou resolver isso. – E era verdade, dito isso, entrego a sopa em suas mãos, que me olha abismada sem entender nada, levanto, desço as escadas e saio pela porta da frente rumo ao banco da cidade.

Eu trabalhei duro por aquele dinheiro, cada dia depois da escola, cada final de semana para ir juntando aos poucos o valor das mensalidades da faculdade, e tudo isso valerá a pena porque vai ser um dinheiro bem gasto ajudando alguém que eu amo e é importante para mim, dinheiro é produzido todos os dias, mas as vidas de quem amamos não. Saco o valor, sem nem saber o total da dívida, mas acredito que não deva passar de três mil.

Entro no meu carro, largo a bolsa no banco do carona e com as mãos firmes no volante encaro o espelho antes de ligar a chave. Meu Deus. Eu estou indo mesmo até a casa de um traficante sozinha negociar uma dívida alheia? Sim, estou, ok. O único problema nessa sentença (palavra curiosa para eu pensar logo agora) são as palavras ‘traficante’ e ‘sozinha’. Será que ele tem alguma arma em casa? No dia em que estive lá eu não vi nenhuma, mas também não vi nenhum vizinho, e se ele me atacar? Ou pior? Eu preciso ficar tranquila, mas apesar do receio de ir até lá tem tanta raiva dentro de mim, quem esse tipo de gente pensa que é para ameaçar a minha amiga, pesquisar sobre a minha vida só para depois provavelmente saber onde me encontrar na hora da minha execução, hein?

O temor que fazia morada em minha até tão pouco, é substituído por fúria estrondosa me deixando parcialmente cega por justiça, isso não vai ficar assim mesmo.

Ligo o carro e sigo caminho pela estrada até o prédio de tijolos com grandiosas janelas brancas.