Notas iniciais
Quem é vivo sempre aparece, com frequência ou não. Boa leitura!

Capítulo 8

Não imagino como possa ser aguentar tudo isso, a perda da pessoa amada, claro que eu e Jake sentíamos imensamente a morte dela também, mas ainda tínhamos ele. Ele, por sua vez, perdeu ela e ficou conosco para alimentar, vestir, educar, amar e todo resto. Não é como se fôssemos um fardo para ele, não, claro que não. Mas sua responsabilidade aumentou, parte do motivo de eu trabalhar é este, não quero que fique sobrecarregado, eu o amo.

— Tudo bem, pai. – O consolo com a mão em seu ombro esquerdo. – Sei que ele está envolvido em projeto de culinária com os colegas, mas não se preocupe, falarei com ele sobre isso, prometo a você. – Dou um beijo no topo de sua cabeça grisalha. – Agora vou subir e tomar um banho, te amo!

— Também amo você, querida. – Dito isso, abre seu notebook que estava posicionado em sua frente. Provavelmente mais uma longa noite de processos atrasados.

Fecho a porta do meu quarto e sento na cama afim de checar minhas mensagens, visualizo o nome de Scott no topo delas:

Ei, tudo bem? Vamos fazer outra coisa qualquer dia, estou com uma vontade enorme daquele hambúrguer que vendem naquela lojinha velha atrás do posto de gasolina.

Sorrio. Até que seria bom sair um pouquinho para espairecer e esquecer do estresse de hoje.

Não sei como aquela loja ainda não foi fechada pela vigilância sanitária. – Brinco – Mas faço esse sacrifício por você.

Alguns minutos depois recebo a resposta:

Estou indo aí para a frente.

Dito isto, apanho minha jaqueta, prendo minha cabeleira loira num rabo de cavalo e desço as escadas. Despeço-me rapidamente do meu pai com uma breve explicação. Claro que ao ouvir o nome de Scott não precisa saber de muito mais, é como se ele fosse da família, bem, para mim era.

Entro na camionete C-10 com um sorriso como cumprimento:

— Vai me pagar um sorvete depois?

— Eu hein, quem trabalha aqui é você. – Responde entre risos ligando o carro e seguindo caminho até aquela espelunca imunda. Mas que realmente tem ótimos hambúrgueres, devo admitir.

Esperava encostada no carro enquanto Scott fazia os pedidos dentro do estabelecimento, vez ou outra ele me observava e eu acenava de volta como um sinal de que ainda estava ali o esperando. O que ele achava? Que eu iria embora sem o meu, delicioso, mas nada confiável, hambúrguer? Não mesmo.

De relance, posso ver um carro estacionando atrás do posto de gasolina, próximo o suficiente da loja para eu poder perceber meu irmão no banco carona. Estreito os olhos para conseguir ver com quem ele estava, tarefa difícil para alguém que saiu sem os óculos, decido me aproximar para dar um oi. Ao chegar mais perto posso dizer, pela linguagem corporal de ambos, meu irmão e um homem, que estavam impassíveis um para o outro, talvez até mesmo agressivos. E é quando eu vejo Jake com um pacote nas mãos, logo todas as peças vão querendo formar uma linha de raciocínio no interior da minha mente, mas varro elas de lá, pelo menos até ter absoluta certeza. Bato no vidro do carro do lado do carona, onde Jake estava. Ele se assusta e deixa o pacote cair no chão do carro, como o vidro não é escuro eu pude ver os comprimidos no tapete. A decepção se estampa em meu rosto imediatamente. Ele abre a porta, mas ao fazer isso eu já não estou mais lá. Me encontro parada ao lado da porta do motorista, exigindo que o mesmo abra a porta. Ainda que contrariado, ele o faz e desce do automóvel:

— Olha, se você for tira, vou querer ver o distintivo. – Desponta com as mãos levemente ao alto.

— Eu sou a irmã do idiota ali – Digo com os braços cruzados meneando a cabeça na direção do idiota, vulgo Jake. – Para quem você trabalha?

Ele apenas me olha, quase rindo.

— Diga ao babaca do seu chefe que tínhamos um acordo, e que eu espero que ele cumpra se não quiser resolver isso com os tiras de verdade. – O advirto, imaginando estar me dirigindo a um dos capangas de Michael, e logo me arrependo quando sinto o seu antebraço pressionando meu pescoço e me pondo contra a parede dos fundos do posto.

— Acho bom você calar essa boca antes que eu faça isso por você, não é da minha conta se seu irmão é só mais um viciadinho de merda, pagando em dia ou não, eu acabo com ele, deixo você olhando e depois não me incomodarei de fazer o mesmo com você, cadela. – Mesmo sendo difícil admitir, meu irmão havia procurado isso, ninguém o forçou. Num movimento rápido dos olhos pude ver Jake meio atordoado olhando a cena, sem fazer nada. Por um momento me senti a irmã de um covarde, mas depois apenas notei que era irmã de um viciado em seu pico de êxtase, incapaz de qualquer coisa lógica.

Já estava ficando difícil respirar e pelo que eu respondi pareceu que a última coisa que eu queria era respirar:

— Ah, é?! Vou adorar ver você tentar, quem sabe antes de você acabar comigo eu até possa ensinar você a enforcar alguém direito, e então veremos quem acaba com quem. – Realmente não sei como fui capaz de provocá-lo dessa maneira, tanto pela falta de ar que já fazia efeito no meu corpo, quanto pelo medo de realmente ter que passar por essa situação.

Depois da minha fala nada racional levando em conta a situação e a posição na qual eu me encontrava, sinto um chute no meu estômago. Na tentativa de abraçar o local e impedir mais estragos físicos, me agacho grunhindo de dor. Uma mão coberta por uma pele branca, repleta de veias saltadas, creio eu que pela adrenalina ou raiva, puxa meu queixo para altura de seus olhos bem a tempo de acertar meu olho direito em cheio com a outra mão, para logo depois me deixar estirada no chão.

Atônita no chão, com os sentidos bagunçados, reconheço. Ainda assim ouço o carro arrancando do lugar onde estava estacionado. Minha cabeça estava girando quando avistei dois Scott’s atarantados em minha frente pressionando uma camisa contra minha têmpora ensanguentada. A última coisa de que me lembro é dele me carregando em seus braços até o carro e gritando com Jake.

Notas finais
Se você, que está lendo, gostar do capítulo, história, palavra, vírgula, ou qualquer outra coisa que eu tenha escrito, comente, favorite. Vai estar me incentivando e alegrando muito o meu dia, acredite. De qualquer maneira, obrigada por ler até aqui.