Me deixe amar você
9 Ventilador
Notas iniciais
Capítulo 9
Posso ouvir o ventilador de teto funcionando em perfeito estado. Abro os olhos, ou melhor, um olho e meio, e consigo vê-lo funcionando em perfeito estado. Que bom para ele. Minha cabeça lateja de dor implorando para que eu feche ambos os olhos. Tento me sentar na cama para reconhecer o ambiente em que me encontro, mas sou interrompida por uma dor excruciante no abdome que me obriga a guinchar de dor. Por um momento sinto inveja do ventilador funcionando em seu perfeito estado.
— Você acordou! Como está se sentindo? – Pergunta preocupado, mas ainda sonolento esfregando os olhos, que estão bons, diferente dos meus.
Posso ver Scott deitado num amontoado de cobertores no chão de seu quarto, enquanto eu estou em sua cama.
— Com muita dor, por que estou aqui? – Levo a mão à minha têmpora. Não é como se eu tivesse tido amnésia, claro que não. Lembro-me perfeitamente dos hambúrgueres, não de comê-los, apenas de ir em sua busca. Lembro-me também de ter visto Jake no carro e do traficante me batendo. Claro, eu o provoquei segundos antes disso, mas não justifica. Droga, Jake. – Cadê o meu irmão? – Tiro a mão da cabeça e imediatamente ignoro a dor na barriga, levanto da cama ainda tonta e tudo gira.
Scott se senta ao meu lado e segura meus ombros:
— Ei, calma aí, você não vai levantar da cama agora não. Seu irmão está bem, está em casa, disse ao seu pai que você dormiria na casa da sua amiga. – Explica me virando para olhá-lo. – Jess, isso é sério, um cara bateu em você, você podia ter colidido com a cabeça e ter tido ferimentos graves. Primeiro, você descansa, vamos ao hospital e depois resolve isso com seu irmão.
Depois de mais um pouco de conversa pude ver que ele estava impassível, eu realmente não ia dobrá-lo, mas precisava sair dali agora. Tive uma ideia.
— Você tem razão, e vou explicar tudo a você, juro. Mas estou com muita fome agora. – Anuncio já sabendo sua próxima reação.
— Claro, você fica deitada aí e eu vou preparar alguma coisa para você, bem melhor que os hambúrgueres. – Anuncia com uma risadinha. Posso ver que ele tenta ser descontraído mas sei que ele está preocupado, afinal embora um dos meus olhos esteja inchado demais para poder fazer um teste de visão, eu ainda tenho outro que funciona muito bem, e sei ler suas feições. Ele deixa o quarto.
Olho o relógio de cabeceira, oito horas passadas, nada de escola para mim hoje. Isso torna ainda mais fácil o que vou fazer. Levanto da cama contendo qualquer gemido que minha boca possa emitir, saio pela porta do quarto e desço as escadas fazendo o mínimo de barulho possível. No fim dela, viro a cabeça afim de vigiar a posição de Scott na cozinha, felizmente, ela não me deixa numa condição comprometedora e tenho quase certeza de que ele não me verá sair pela porta da frente.
Muito bem, digo a mim mesma já no jardim. Sigo caminho até minha casa sabendo que não terá ninguém nela. Troco de roupa e faço um rápido curativo no rosto. Saco as chaves do meu carro e entro nele ciente do destino.
***
Bato à porta e é necessário mais que um toque para ser atendida, mas ela logo é escancarada revelando um Michael de cabelo bagunçado sem camisa e, aparentemente, muito surpreso em me ver, me arrisco a dizer que mais pelo estado em que apareci do que pela minha presença física de fato.
— Mas que diabos aconteceu com você? – Questiona, me olhando de cima a baixo com uma xícara de café na mão oposta à que encostava na porta aberta.
— Esperava que você pudesse me dizer. – Respondo com certa cautela, não estava afim de levar outra surra, parece que não assisti filmes de lutas suficientes.
Desvencilha sua mão da porta, segura meu pulso e me puxa para dentro do apartamento fechando a porta atrás de si, admito que entrei apenas em razão do puxão que foi tão abrupto que nem tive tempo de resistir. Não que fosse fazer muita diferença.
— Como assim eu? – Pergunta me encarando seriamente.
— Bem, você havia prometido que ficaria longe de mim e de qualquer um que seja próximo a mim. – Falo tentando acreditar que estou fazendo a coisa certa, essa cidade não é exatamente uma metrópole, só poderia ser um do pessoal dele. Não é?!
— Olha, “qualquer um” seria difícil quando você conhece muita gente, mas dos mais próximos sim, foi o que prometi e costumo cumprir com a minha palavra.
— Meu irmão não é próximo o suficiente para você? – Indago cruzando os braços. Minha cabeça está me matando lentamente. Droga de briga. Nem sei se posso chamar de briga, numa briga duas pessoas lutam, eu apenas apanhei, e apanhei feio.
— Jessica, vá direto ao ponto, o que houve? – Pergunta imitando meu movimento de cruzar os braços. Nesta briga aqui ninguém ia ceder.
— Peguei seu vendedor fornecendo para o meu irmão, e quando me pus no seu caminho.... Bem, o resultado está bem aqui na sua frente. – Expliquei estendendo minha mão em frente ao meu próprio rosto num movimento de vai e vem.
Ele parecia surpreso de verdade, será que era fingimento? Se era, estava muito convincente.
Minha visão começou a ficar turva, se colocassem dois dedos na minha frente é bem provável que eu enxergasse mais de dois. Pude ouvi-lo murmurar alguma coisa, mas não conseguia me concentrar, minha testa latejava e o suor tomou conta dela. De repente senti meus ombros cederem e vi Michael franzir a testa estendendo as mãos no ar, na altura da cintura. Com isso, meus olhos ficaram pesados demais para ser capaz de mantê-los abertos e fui de encontro ao chão.
Fale com o autor