Me deixe amar você
5 Chicletes
Notas iniciais
Capítulo 5
Nossa noite de filme foi maravilhosa, ainda mais depois do, repentino, mas nada agradável, aparecimento de Nate na minha porta, nos divertimos muito, assistimos ao filme Titanic (de novo), o que rendeu umas boas lágrimas e algumas risadas também, talvez porque tenhamos decorado algumas falas ao decorrer desses anos assistindo incontáveis vezes a história de amor de Rose e Jack, mas ainda sem entender porque eles não dividiram a tábua.... Enfim, uma morte heróica, devo admitir.
Está tarde, e amanhã trabalho cedo, me preparo para dormir e vou logo para a cama, Deus sabe o quanto eu detesto atrasos.
Limpar, limpar e limpar. Essa era a rotina no Gere’s, na lista também existia servir, sorrir e nada de gorjeta.
Por que as pessoas colam tanto chiclete embaixo das mesas? Existia diversas lixeiras espalhadas pelo local. Eu me encontrava agachada em frente a copa raspando os tais chicletes, nojento.
— Hobbies interessantes esses seus. Ajudar desconhecidos e raspar chicletes de mesas, você tem um lugarzinho garantido no céu.
Viro pensando conhecer aquela voz e sarcasmo. Michael.
— Você? O que está fazendo aqui? – Pergunto, ainda agachada com minha espátula amarela na mão, quase não acreditando que ele estava ali na minha frente e que aquele dia no estacionamento tinha sido um delírio criado pela minha mente para que eu não tivesse que lidar com o meu término de imediato.
— Vocês têm cerveja aqui? – Questiona olhando ao redor.
— Bem, isso aqui é um bar. – Falo cuidadosamente acompanhando seu olhar pelo espaço, Michael não parece exatamente uma pessoa paciente.
— Então eu vim beber. – Responde me encarando como se fosse óbvio desde o começo. Eu finalmente me levanto batendo a cabeça na tampa da copa. Ai.
Michael solta uma risada alta.
— Entretenimento gratuito, gostei desse lugar. – Desponta tomando um dos banquinhos em frente ao balcão. Quem disse que é gratuito?
Mas que humilhação. Levanto novamente, dessa vez tomando cuidado com minha preciosa cabeça que guarda todas as minhas lembranças e que mais tarde, aposto, me culparia por ter nos feito passar essa vergonha. Dou a volta no balcão, tiro minhas luvas e sirvo uma caneca de cerveja bem gelada, passo-a para ele pelo balcão.
— Então você trabalha aqui? – Indagou novamente analisando o bar enquanto bebericava sua cerveja.
— Não, é que eu gosto de invadir bares para ficar catando chicletes e servir clientes que eu não conheço, como você disse, hobbies interessantes. – Digo numa tentativa de devolver seu sarcasmo e parecer mais descontraída do que eu realmente estava.
— Mas nós nos conhecemos, lembra?
— Eu só sei o seu nome e onde você mora, mais nada, não diria que eu conheço você. – Respondo limpando o balcão das bebidas de costas para ele.
— Então pergunte alguma coisa – Me desafia com a voz provocadora.
Fico de frente para ele com as mãos apoiadas no balcão pensando no que quero saber, ou se quero mesmo saber:
— Com o que você trabalha?
— Vendas. – Termina sua cerveja e empurra a caneca de volta pedindo mais.
— O que você vende? – Encho sua caneca novamente.
— Coisas.
— Isso não vale, você não pode ser evasivo nas respostas.
— Posso sim, sou eu que respondo, não você. – Dá outro grande gole na cerveja.
— Quantos anos tem? – Questiono mais na intenção de fazer referência a sua infantilidade.
— Tenho vinte e um. E você dezessete, Jéssica Parker, filha do advogado Parker, no último ano do ensino médio, com um irmão no primeiro, aspirante a medicina e com talento, me arrisco a dizer. – Afirmou, levantando a barra de sua camisa cinza, me fazendo relembrar o dia em que o ajudei.
— Como você sabe? – Pergunto incrédula, mas o que?!
— Alguns de nós fazem a lição de casa, Jéssica. – Com isso termina sua cerveja, joga sobre o balcão algumas notas e vai de encontro a saída.
— Ei, espera aí! – Digo me inclinando sobre o balcão quase virando o copo que sobre ele estava.
Michael segue até minha colega Vivian que tinha saído do banheiro, no mesmo instante em que o vê ela fica tensa e pega um pacote que ele tirou de seu bolso, ele sussurra algo no seu ouvido e ela assente, então ele atravessa o marco da porta de entrada e some abruptamente me deixando com aquelas palavras que rodeavam minha mente me impedindo de manter a concentração em mais alguma coisa pelo resto do dia. Pelo menos ele tinha deixado gorjeta.
Caminhei até Vivian que agora varria o chão:
— Ei Viv, quem era aquele cara? – Pergunto apontando para a porta em que ele saiu.
— Que cara? – Me encara como se não soubesse do que estou falando.
— Qual é?! Você sabe de quem estou falando, ele te entregou um pacote, o que é? – Cruzo os braços.
— Ah, é só um remédio natural que encomendei, ele produz algumas ervas medicinais, coisas para dor e tal, sabe? – Segue varrendo sem me olhar nos olhos.
— Você está com dor? Onde? – Preocupo-me.
— Não é para mim, é para minha avó. – Responde rindo. Acompanho sua risada apenas por educação.
Que cara mais estranho, como é possível ele saber tantas coisas sobre mim? Eu sei onde ele mora, de repente passa pela minha cabeça visitar o local e questioná-lo, mas isso, além de ser perigoso, me tornaria mais esquisitona do que ele, varro essa ideia da minha mente, o que não impede que eu passe o resto do domingo pensando nisso.
Quinta-feira, último período. Avisto meu irmão saindo do banheiro masculino:
— Ei, onde é que você se meteu essa manhã, hein? – Pergunto encostando suavemente em seu ombro numa tentativa fracassada de conseguir sua atenção. – Papai e eu te esperamos para falar sobre o estágio de verão.
— Eu saí mais cedo, estou trabalhando num projeto com uns colegas da aula de culinária. – Entrega meio sonolento, deve ter saído bem cedo mesmo.
— Hm, tudo bem, mas vê se dorme um pouco, sua aparência está péssima. – Brinco, mas com um fundo verdadeiro.
— Não me esperem para jantar. – Ajeita sua mochila no ombro e com isso segue pelo corredor.
Mas que mau-humor, credo!
Checo o horário no meu celular, termino de guardar meus livros e sigo para o Gere’s.
Chegando lá, Vivian novamente faltou ao trabalho, então eu cubro a copa, admito que é melhor que limpar os banheiros, principalmente os fraldários. O gerente me avisa que Vivian está doente e não virá o resto da semana, pergunto a ele o que ela tem e ele apenas responde que tem atestado médico para permanecer em repouso. Decido visitá-la após meu turno acabar.
Havia comprado uma sopa no caminho para a casa dela pois imaginei ser um resfriado ou algo assim, mas com certeza eu não imaginei o que vi quando ela abriu a porta:
— Mas que droga aconteceu com você, Vivian???? – Pergunto claramente chocada.
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