Me Traga à Vida
13 Outra Vida

“Respire
Eu acho que você finalmente está quebrado
Se nós não morrermos aqui, seremos assombrados para sempre
Eu sinto o pânico e todos que estão assistindo mentem para mim
Todos nós fomos usados e nos venderam a verdade por uma fantasia doentia
Estou me apegando a uma ideia
Eu vou te ver em outra vida
Me salve dessa dor e preencha o buraco interior
Você se pergunta por que não tenho mais lágrimas para chorar
Hoje, eu não tenho medo de morrer”
(Evanescence Afterlife)
Bonnie
Eu estava em um sono profundo, quando despertei sentindo meu quarto tremer e o barulho de coisas se quebrando. Me sentei na cama um pouco tonta e me perguntando o que estava acontecendo. Depois me levantei com dificuldade, sentindo minhas pernas trêmulas, me forçando a se apoiar nas paredes para não cair. Tudo só piora porque percebo que o chão sob os meus pés também treme demais, daí me dou conta que toda a casa agora está balançando, furiosamente, como se um terremoto tivesse nos atingido.
Eu tento escapar para o andar de baixo, ainda caminhando com dificuldade para me manter em pé e quase caio da escada. Quando chego na sala, vejo que a TV está ligada numa cena do filme O Guarda-Costas. No minuto seguinte, a tela explode me fazendo soltar um grito de susto.
— Não! O que está acontecendo?! — Tudo está revirado, há um porta-retrato com uma foto minha e da vovó caído no chão. Tento pegar a foto, porém de repente ela pega fogo e aquele fogo vai se alastrando pela casa. Estou assustada ao perceber que aquele Mundo; onde eu estava presa sozinha há muito tempo; está desmoronando inexplicavelmente. Esse Mundo que eu chamava de Meu Inferno Particular, onde tenho sido punida repetidas vezes com as piores memórias da minha vida. Punida pelas escolhas erradas que eu fiz.
Quando eu morri, acreditei que encontraria a minha paz, porém ao invés disso, acordei presa neste Inferno Particular, onde tudo é uma zona cinza, fria, melancólica e depressiva. Tudo o que eu mais queria era que essa punição acabasse. E parece que o meu desejo, finalmente, se realizou.
— Bonnie! — Me virei na direção daquela voz e, imediatamente, fiquei chocada ao avistar aquele vampiro egocêntrico e covarde surgir, assim, tão de repente do outro lado da sala. E não consigo entender o porquê ele estava ali, pois aquele cara era a última pessoa que eu gostaria de ver.
— Isso não pode ser real. — Murmuro para mim mesma, desviando os olhos para observar a sala pegando fogo. O estranho é que continuo sentindo um frio congelante.
— Bonnie! — Ele me chama de novo e tenta se aproximar de mim, entretanto, um tremor violento faz o chão da sala se partir em duas partes, formando um buraco enorme que nos separa. Um sentimento de urgência e adrenalina me dominam, então, eu fujo para fora da casa. Eu fujo para longe de Damon Salvatore.
Lá fora tudo continua um caos. Eu continuo correndo, freneticamente, fugindo do passado, daqueles olhos azuis e tentando sobreviver em um mundo que está se autodestruindo. Posso até ouvir a contagem regressiva para o fim. Todavia, no meio da fuga, eu tropeço e caio em frente da Mansão Salvatore.
Todo esse tempo em que estive presa nesse inferno, não ousei nem por um minuto, pisar naquele lugar, porque ali estavam trancadas todas as minhas lembranças dolorosas. E, a ironia de tudo, era que eu estava agora num caminho sem volta, pois se olhasse para trás, encontraria somente destruição, o que me forçava a seguir em frente e abrir aquela porta.
Eu abro aquela porta, sentindo-me nervosa, com o coração batendo, incessantemente. A primeira coisa com que me deparo, é a cozinha com aquelas panquecas com chantily e carinha de vampiro. Até o cheiro é fresco como se tivesse acabado de ser feito. Aquilo, imediatamente, me enche de memórias dolorosas. Tento recuar, dando dois passos para trás, até que sinto minhas costas baterem em um peito firme e forte, suas mãos tentam me tocar.
— Não! — Eu grito e me esquivo dele.
— Bonnie, sou eu... Damon, o seu melhor amigo. — Ele está parado na minha frente, me impedindo de fugir.
— Não, você... Você veio aqui para... para me matar. — Digo trêmula, aterrorizada com a ideia de estar vivendo o meu pior pesadelo.
— Bon-Bon, para com isso! — Ele continua a tentar se aproximar, me forçando a recuar para o outro canto da cozinha. — Tudo bem, eu já quis te matar algumas vezes, quando éramos inimigos e você também me odiava. Mas isso ficou no passado.
— Bem, isso já não faz mais diferença. — Murmuro mal-humorada, percebendo que se aquele era o meu pior pesadelo, talvez, chegou a hora de enfrentá-lo. — Você chegou tarde demais, Damon. — Pronuncio aquele nome com desdém. — Porque eu já estou morta. — Seus olhos azuis, por um instante, se arregalam perplexos.
— Não, Bon-Bon, você tá errada! — Aquele apelido idiota faz meu coração acelerar e a situação só piora, porque ele ainda me dá aquele famoso sorriso torto de Damon Salvatore. — Você tá bem viva aqui na minha frente. Só tá confusa, assustada e esperando que eu te leve para a casa.
— Eu não acredito em você! — Eu grito sentindo um ódio tão grande, ao mesmo tempo em que o terremoto atinge a Mansão, fazendo a janela explodir e todos os objetos começaram a flutuar e, depois cair por toda parte.
— Bonnie, vamos sair daqui. Você não pertence a esse lugar. — Nessa hora, somos atingidos por um vendaval e sinto meu corpo ser arrastado para longe dele. Contudo, Damon não desiste, ele corre, insanamente, atrás de mim enquanto eu sinto que estou sendo puxada para dentro de um abismo.
— Vamos Bonnie, segure a minha mão! — Damon estende a sua mão. Eu olho para os seus olhos azuis que parecem, genuinamente, desesperados, mas sou teimosa demais, não quero confiar nele, estou cansada de me decepcionar e ter o meu coração partido. Acima de tudo, estou cansada de lutar.
— Vamos, Bonnie… Não desista! — Ele exprimiu como se tivesse lido a minha mente. — Você é uma sobrevivente. Você sempre lutou para salvar os seus amigos. E, principalmente, lutou pela sua vida. Você é a Bonnie Bennett que sempre voltou todas às vezes. E toda vez você volta mais forte. Sabe o quanto isso é incrível? E o quanto eu invejo isso, Bonnie?
“Damon parecia tão empenhado em me salvar. Mas, por quê?” Nesse exato momento, sinto uma de suas mãos agarrarem a minha.
— Deixe-me ir, Damon! Me solta! — Por um instante, sinto que minha mão vai escorregar.
— Eu não posso! — Encaro aqueles azuis e, pela primeira vez, percebo que ele está em lágrimas. — Porque se esse é o nosso último momento juntos, eu preciso que me escute...
A única vez que vi aquele vampiro chorar, foi quando ele estava preso na Pedra da Fênix, num momento tão vulnerável, lutando contra os seus próprios demônios. E agora Damon estava aqui, praticamente, abrindo o seu coração e me deixando, completamente, desnorteada.
— Eu admiro você, eu acredito em você e eu…eu… — Suas próximas palavras me pegaram de surpresa. — Eu amo você.
— O quê?! — Meu coração martelava no peito.
— Eu te amo, Bon-Bon. — Senti como se o tempo tivesse parado e estávamos somente nós dois ali se encarando à beira de um abismo que ameaçava nos engolir.
— É mentira sua. — Eu me debato contra as suas palavras, acho que tudo é uma ilusão. Afinal, Damon Salvatore era egoista, manipulador, às vezes, sádico. E, acima de tudo, Damon era, loucamente, apaixonado por Elena. Ele deixou isso bem claro, quando resolveu se trancar dentro de um Caixão, até que a sua namorada acordasse quando eu morresse. Isso significava…
— Para o verdadeiro Damon, eu não passava de um obstáculo, que o impedia de ficar com a Elena. — Minha voz ecoa cheia de rancor. — Por isso eu sei que você não é real!
— Eu sou real, sim. E eu tô bem aqui. Eu voltei por você Bonnie... — Esperei algum sarcasmo, mas só encontrei sinceridade em sua voz e em seu olhar. — E, dessa vez, eu não vou te deixar. Eu prometo que nunca mais vou te deixar. — Ele segura a minha mão com mais força e, então, consegue me puxar para os seus braços. E quando me abraça forte, sinto um calor aconchegante me invadir. — Só por favor, me perdoe. Me perdoe por todas às vezes que eu te magoei. Me perdoe por ter ido embora sem se despedir. Me perdoe por ter sido um covarde e não ter lhe dito antes... que eu te amava. — Então, Damon beija as minhas lágrimas e depois, beija os meus lábios. Um beijo desesperado, cheio de saudade, que me tira o fôlego e me deixa tonta.
Enquanto isso tudo ao nosso redor continua sendo engolido pelo abismo. E eu permaneço ali nos braços dele, inabalável. Minha mente está confusa, não sabe definir se tudo aquilo era real. Se Ele era real. No fim, passei acreditar que, talvez, fosse tudo um sonho. E, nesse sonho, Damon apareceu para me salvar dessa escuridão que ameaçava dominar a minha alma.
De repente eu desejei que esse sonho não acabasse. Queria continuar ali nos braços de Damon, me sentindo segura, amada e, finalmente, livre.
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