Notas iniciais
Um simples review pode incentivar e até mesmo determinar a continuação da história. Faça um autor feliz, comente!

Sair da sala no meio da aula... Ela sabia que teria muitas explicações para dar a muitos de seus colegas e professores. Encostou-se no seu armário, sentando no chão lentamente, ofegante, tentando reprimir as lembranças e pensamentos que invadiam sua mente naquele momento. Fechou os olhos, respirou fundo, mas não conseguiu evitar que uma lágrima rolasse por seu rosto. Era inevitável, isso provavelmente aconteceria toda vez que aquele assunto fosse mencionado.

Katie sentou-se ao seu lado, abraçando-a, ainda sem entender o que acontecia.

– Você quer conversar? — Perguntou sua amiga. Balançou a cabeça negativamente, aumentando a preocupação de Katie. — Tem certeza, Jhenni? Às vezes é bom colocar algumas coisas pra fora!

Jhennifer soltou-se do abraço, limpando o rosto.

– Minha mãe... — Sussurrou.

– Eu sei, Jhenni, sua mãe está bem agora, ela está num lugar melhor... — Katie sorriu, a acalmando, embora ainda confusa por aquele assunto repentino.

– A crise levou a minha mãe...

Katie arregalou os olhos. Do que ela está falando?

A recessão econômica de 2008 trouxe consequências imensuráveis para todo o mundo, em especial, os Estados Unidos da América. É claro que você, caro leitor, nunca deve ter sido atingido diretamente por uma crise, mas acredito que se colocando no lugar das pessoas possa ter uma noção do impacto sofrido. Diante de crises econômicas, o estilo de vida da maioria da população é alterado. Muitas famílias perdem propriedades, empregos, passam fome, e encaram a inflação da economia a todo o tempo. É incrível o número de pessoas que passam a morar em móteis, comer duas vezes ao dia, e racionar todo seu cotidiano. Consegue imaginar o quanto é difícil encarar tudo isso? Pois então, é muito pior.

A Willis foi, por muito tempo, uma famosa empresa imobiliária, o que deu à respectiva família proprietária uma vida maravilhosamente luxuosa. Entretanto, muitos de seus clientes financiavam as residências através do Banco Lehman Brothers, cuja falência desencadeou a crise. Os prejuízos econômicos que a Willis sofrera foram devastadores para toda a companhia e seus clientes. As propriedades perderam seu valor, e as ações da empresa despencaram, mudando completamente a vida da família Willis. Não perderam tudo, claro, mas perderam toda a vida antiga.

Mudaram-se para uma casa pobre, simples. Uma típica casa de baixa renda, sem luxo, sem dinheiro, sem nenhum diferencial entre os vizinhos. Definitivamente, não era a rotineira vida daquela família. Você pode até falar que a situação não era de tão grande alarde diante das pessoas que viviam nas ruas, mas para alguém que passou toda uma vida em determinadas condições, uma mudança repentina pode acarretar muitos problemas psicológicos, e foi o que aconteceu com a mãe de Jhennifer.

Trish Willis, a mãe de Jhennifer Willis, pertencia a uma das mais ricas familias de Trenton. Sua única filha herdara dela toda sua personalidade consumista e altamente exigente, que foi alimentada por sua condição econômica. Após a crise de 2008, teve de mudar seus hábitos, o que a apavorou extremamente e a colocou numa situação de baixa confiança e autoestima, desencadeando uma depressão sem tamanho. Foram terríveis os dias em que a família Willis teve de enfrentar as crises psicológias de Trish. Agonizava durante a noite, passava a ter alucinações, e criou dependência por drogas e sedativos. Jhennifer chorava todas as noites, ao lado de sua mãe paralizada em sua cama, enquanto seu pai tentava recuperar os últimos centavos da empresa. Não demorou muito até que Trish morresse, em decorrência de uma overdose de medicamentos. Nesse terrível período de sua vida, enquanto seu pai se isolava na falida empresa, Daniel foi a pessoa que mais lhe apoiara. Até hoje se pergunta se o pedido de namoro naquela época foi apenas um ato de piedade, apesar foi muito importante para sua vida e recuperação. Entretanto, essa recuperação não aconteceu totalmente, afinal, até hoje é afetada quando o assunto da crise é retomado.

– Jhenni, vai ficar tudo bem! Sua mãe está bem, você não precisa passar por isso, ela está feliz agora, por você ter se tornado o que se tornou! — Katie sorriu, tentando ecorajar a amiga que respirava fundo, a fim de conter o choro.

Que pessoa eu me tornei?" Perguntou-se, lembrando de todas as coisas que tem feito por sua família.

– Que pessoa eu me tornei, Katie? — Perguntou finalmente, em busca de uma interpretação da sua amiga.

– Ah, Jhenni, você sabe, todo mundo sabe. — Sorriu. — Você é uma pessoa gentil, que está sempre ajudando todos nós quando precisamos! Todos gostam de você, Jhenni! Todas as pessoas sabem que você sempre pensa no bem de todos, sua mãe deve estar orgulhosa agora!

Jhennifer abaixou o seu olhar, triste.

– Eu tenho sérias dúvidas sobre isso... — Respirou fundo mais uma vez.

– Como assim? Do que você está falando? — Katie segurou suas mãos, olhando-a nos olhos. — Tem alguma coisa além de tudo isso?

– Katie, se eu te contar um segredo, você promete que vai ficar entre nós? Eu preciso desabafar com alguém.

– Claro! Você sabe que tem liberdade para falar o que quiser comigo!

É hora de contar isso para alguém.

– Meu namoro com Daniel envolve muito mais do que sentimento. Na verdade, eu nem sei se ainda tem sentimentos nisso... Eu só estou com ele por interessea, Katie.

– O quê? — Katie arregalou os olhos. — Como assim?

Após o pedido de namoro de Daniel, o pai de Jhennifer, Doug Willis, recusou completamente a possibilidade de sua filha, tão nova, ter um relacionamento, ainda mais depois do choque emocional que sofrera ao perder a mãe. Porém, a família Harris o procurara, com uma proposta que deu possibilidade ao namoro. Conhecendo a situação economica da família Willis, Daniel procurou por seu pai, pedindo que interferisse de alguma forma na vida da garota por quem não sabia se sentia paixão ou piedade. Ernest Harris, orgulhoso pelas boas intenções do filho, propôs um financiamento da empresa Willis, que até hoje se recupera aos poucos do choque sofrido. Claro que não voltara à mesma condição de antes, mas a situação da família de Jhennifer melhorou bastante. Entretanto, até hoje esse negócio mantém o casal preso um ao outro, já que todo o investimento e financiamento surgiram com base nessa relação.

– Eu não sei se estou fazendo o certo continuando com ele, Katie...

– Você ainda gosta dele? É isso o que vale, não pode levar em conta sempre a pressão de seu pai!

– Mas ele sempre joga isso na minha cara! Toda a nossa vida depende disso, não posso abandonar tudo do nada.

– Então você não gosta dele, não é? — Katie entortou a cabeça, compreendendo-a.

– Eu acho que não, Katie... Não é mais a mesma coisa... Nossa relação anda muito fria, de verdade.

– Mas vocês parecem o casal mais lindo do mundo, Jhenni. Estão sempre juntos, abraçados, como pode isso ser frio?

– O Daniel gosta muito de mascarar as coisas... Você sabe, por mais que pareça ser um namoro bom, não é. Caímos na rotina, eu nem lembro a última vez em que nos beijamos... De verdade, sabe? — Jhennifer sorriu — Eu sinto tanta falta de um beijo de verdade...

– Não fica assim. Veja pelo lado bom, ele é uma boa pessoa, ele é lindo, é popular...

Jhennifer riu, ironica.

– Isso é lado bom pra você? Popularidade e beleza? — Incrível, a Katie não muda nunca...

Katie revirou os olhos.

– Então vamos fazer o seguinte: Prometa que vai tentar esquentar as coisas entre vocês? Tenta fazer algo diferente, chame-o pra sair, quebrem a rotina! Basta unir o útil ao agradável, ele é uma ótima pessoa!

Jhennifer sorriu, divertindo-se com o otimismo de sua amiga.

– Tudo bem, vou tentar!

– Ótimo! Agora vamos, é quase hora do almoço.

Notas finais
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