Math For Love
3 Sala 27
Notas iniciais
– Quando é que vou ter o meu carro de volta? — Entrou no carro de seu pai e cruzou os braços, irritado.
– Quando você perceber o quanto está sendo idiota em resistir a aceitar minha proposta. — Disse seu pai, girando a chave e ligando o motor.
– Enquanto isso vai ficar assim, vou ter que acordar cedo para você me levar para a escola todos os dias?
– Se quiser pode pegar um táxi, mas vai ser por sua conta.
– Existe ônibus escolar, você sabia? E muitos alunos usam, ninguém nunca morreu por isso.
– Meu filho não anda de ônibus, eu tenho uma imagem a zelar. — Pisou no acelerador e saiu da garagem.
Era incrível o quanto Ernest Harris era cabeça dura. Sinal vermelho. Ele já sabia, ali começaria outra discussão.
– Daniel, você sabe o quanto isso é importante! Não só para mim, mas para você, seu futuro! – Ernest tentava mais uma vez, convencer o seu filho.
– Não pai, você não está pensando em mim, só pensa no futuro da sua empresa! — Daniel evitava discussões, olhava para a janela do carro, pensando em quando tudo aquilo acabaria.
– É egoísmo querer deixar uma herança tão grande para você? Não acha que é um presente? Não agradece por ter essa oportunidade?
– Claro que não! — Daniel voltou-se para seu pai. — Eu só queria poder fazer o que gosto, ta bom? Você sempre contrariou minhas escolhas pelo basquete, sempre insistiu para o curso de admininstração, mas agora passou a apoiar só porque as universidades me ofereceram os dois cursos! E sabe que se não fosse minha coragem de não seguir sua vontade e continuar no time, eu não teria nenhuma dessas oportunidades!
– Então do que você está reclamando? Você vai poder fazer os dois, isso é ruim?
Daniel riu, irônico.
– No início vai ser ótimo, pai. Mas eu sei muito bem que esse seu incentivo vai acabar e mais cedo ou mais tarde, você vai me obrigar a largar o basquete.
– O basquete não vai lhe levar a lugar algum, Daniel. Deveria agradecer por ter uma empresa em suas mãos. — Disse o pai, pisando no acelerador novamente.
– Viu, era disso que eu estava falando. — Daniel revirou os olhos, voltando-se novamente para a calçada que passava rapidamente. — Você nunca entende.
– Não, Daniel, você é quem não entende! Sua atitude é imatura, você está dedicando sua vida a coisas superficiais, será que não vê isso? Você está tendo uma chance de recomeçar, esquecer as coisas erradas que fez para chegar até aqui, porque simplesmente não abraça isso? — Disse o Sr.Harris, estacionando o carro na frente da escola.
– Porque eu não quero, pai. Eu não quero fazer admininstração, eu não quero passar a vida administrando a empresa da família, não quero ser obrigado a assistir aulas com uma garota da mesma série que eu, uma garota que nunca nem ouvi falar! Tem idéia do quão humilhante isso vai ser para mim?
– Conversei com o diretor Simon, acertamos que tudo ficaria em sigilo, ninguém saberá das aulas ou dos delitos que você cometeu.
Daniel fechou os olhos e suspirou.
– Eu vou pensar, pai. Depois a gente conversa. — Abriu a porta e saiu, percebendo que sua aula já havia começado.
Que ótimo, mais um dia atrasado. Desse jeito, qual professor não se irrita?– pensou, culpando seu pai completamente. O corredor da escola já estava vazio, a não ser por alguns alunos que saíam do banheiro em direção às salas de aula. Daniel subiu as escadas até o primeiro andar, indo para a sala de matemática, a sala 27.
No corredor, enquanto caminhava rapidamente, ouviu passos acelerados atrás, e virou-se, assustado, encarando uma garota que carregava um sanduíche na mão esquerda.
– Ai! — Gritou, pela pegada que ela deixara em seu pé. -Você não olha por onde anda?
– Perdão, estava apressada, não queria me atrasar. — Ela respondeu, ofegante. — Eu machuquei você?
– Sim, mas deixa pra lá. — Ele a encarou. — Quem é você?
– Você realmente não me conhece? — Ela arqueou as sobrancelhas, incrédula.
– E eu deveria? Seu rosto não me é estranho, mas eu realmente não sei quem é você.
Ela deu um sorriso de canto de boca e balançou a cabeça negativamente.
– Nós temos três aulas juntos, desde o primeiro ano. Mas não se preocupe, já estou acostumada! — Ela sorriu e caminhou apressadamente para as escadas, pelo visto tinha alguma aula no segundo ou terceiro andar.
"Que garota estranha"– Daniel pensou, estranhando por nunca ter a reparado em suas aulas, ou sequer ouvido a sua voz. Ela falava de um jeito estanho, formal. "'Perdão'... Quem é que usa 'perdão' hoje em dia?"
Entrou na sala de matemática, e deu sorte por falta do professor, que, aparentemente havia saído para resolver algum problema. Avistou Dylan, seu melhor amigo, e sentou-se ao seu lado.
– Aconteceu alguma coisa, cara? — Dylan perguntou sem nem tirar os olhos do papel em que resolvia equações complexas.
– Você sabe, meu pai. Ele agora tomou o meu carro. — Daniel colocou o cotovelo direito na bancada e apoiou o rosto na sua mão.
– Sério? Sinceramente, Daniel, acho que ele aos poucos vai te deixar pelado até que você aceite fazer o curso de economia.
– Ele me propôs fazer um curso intensivo de reforço com uma aluna aqui da escola.
– Como assim? Uma estudante te ensinando?
– É, eu não sei quem é, nunca nem ouvi falar. Mas parece que ela é bem conhecida entre os mais velhos por dar aulas de reforço ao ginásio, dizem que ela ensina muito bem, ou algo do tipo. Meu irmão estava se dando muito mal na sétima série, e, por causa dela, quase fechou todas as provas.
– Só se for entre os mais velhos, porque eu não sei de nada sobre isso.
– Agora eu vou ter que aceitar aulas de uma garota da minha turma, já pensou? — Daniel falou, irritado, com o orgulho ferido.
– Foi uma escolha sua, irmão, poderia ter sido diferente! Agora, sinceramente... — Dylan riu — Eu aposto que esse talento todo vai embora na hora em que ela ver esse seu interesse.
– Pode parar, se alguém souber disso, você vai ser ver comigo, tá entendendo?
– Tudo bem, tudo bem! — Dylan suspendeu as mãos em sinal de rendimento — Mas, toma aqui! — Entregou-lhe uma lista de exercício. — O professor pediu para resolver até que volte.
Daniel suspirou.
– Você só pode estar brincando comigo. Não vou nem tentar, sabe que isso é grego para mim. Não dá, nunca vou aprender isso. Pelo visto vou ter que aceitar as aulas.
– Que milagre seu pai não preferiu te pôr num curso particular, ou algo mais caro?
– Minha ficha... Poucas pessoas sabem, mas a minha ficha ficou suja depois do flagrante do diretor enquanto eu roubava os gabaritos dos primeiros testes... Nenhum curso ou escola quer me aceitar. Acho que eu só continuei aqui por conta do basquete mesmo. Sabe o quanto o diretor é ambicioso…
Daniel sentia-se incomodado. Não sabia se ficava feliz por permanecer na escola, ou se ficava triste por estar sendo tratado como um objeto econômico.
– Pode copiar. — Dylan passou-lhe a sua folha de respostas — Mas, vamos ter que mudar isso quando você começar suas aulas, tá entendendo?
– Valeu, cara. — Respondeu, anotando as respostas.
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