Notas iniciais
Um simples review pode determinar e incentivar a continuação da história. Faça um autor feliz, comente!

Finalmente era a hora do intervalo. Jhennifer estava sendo sempre escoltada por sua melhor amiga, Katie Monroe, mas, nesse período, aproveitava o momento para fugir de cena por um instante. Gostava de caminhar entre o jardim da escola, que estava sempre vazio por não alcançar o sinal wireless dos celulares dos alunos. Não é que não goste de Katie, pelo contrário, é uma ótima amiga. Mas precisava de um tempo sozinha, longe de toda pressão familiar e responsabilidade de seu status escolar.

Jennifer refletia sobre como andava sua vida. Há três anos conhecera Daniel, por quem se derretera completamente. Era o garoto mais lindo que já vira: simpático e talentoso. Decidiu se aproximar, conhecê-lo, falar de seus sentimentos. Então, logo veio o pedido de namoro. Claro que as coisas não foram tão rápidas assim, mas se sentiu muito bem por conquistar o garoto tão cobiçado. Reconhece que era muito nova, tinha apenas 14 anos, era uma criança, apaixonou-se pelo primeiro rostinho bonito que viu. Afinal, qual garota dessa idade não sonha com um romance?

Após o pedido de namoro, Jhennifer sabia que seria um grande problema para sua família, sempre a proibiram de namorar, talvez por ser a única filha do casal Willis. Mas as coisas mudaram quando seu pai aceitou o pedido. Estava feliz e agradecida pela confiança, até percever que tudo não havia passado de negócios. E esse negócio a mantém presa a Daniel até hoje.

Quão imatura eu fui...

Quanto havia perdido com todo aquele relacionamento? Daniel é uma boa pessoa, ela sabia disso apesar de todas as coisas erradas que cometera. Muitas foram as vezes em que ele a apoiara nos momentos difíceis. No primeiro ano de namoro, sua mãe havia falecido, e ela era completamente grata pela atenção que Daniel lhe dedicara. Mas o namoro não era mais o mesmo: os beijos, os abraços, as demonstrações de carinho esfriaram completamente ao decorrer dos anos, tornando o relacionamento monótono e cansativo. Não sabia porque ele ainda insistia no relacionamento. Só ela sabia quantas vezes esperou por um rompimento, mas seu namorado nunca demonstrou interesse em terminar. Embora fosse tão disputada entre os garotos da escola, com ele, sentia-se bem, valorizada. Por mais que seu interesse por ele houvesse mudado, Daniel ainda era muito importante para ela.

Seu telefone tocou. Viu a foto de Katie sorrindo no identificador de chamadas e atendeu.

– Oi Katie!

– Jhenni, onde você está? Esqueceu que prometeu me ajudar a entregar os convites? — Ela falava com um tom de voz desapontado.

– Ah, não esqueci, pensei que você fosse entregar durante o almoço.

– É, mas são muitos. Melhor eu começar logo, vem aqui pra frente da sala de química, vou te esperar.

– Certo, estou indo. — Desligou o telefone, caminhando na direção contrária.

Deu alguns passos, até que sentiu um respingo de terra em sua blusa. Olhou para trás e lá estava ele, com luvas de borracha e o rosto sujo de lama.

– O que você tá fazendo aqui, loira oxigenada? — Ele disse sorrindo e vindo em sua direção.

– Quantas vezes vou ter que dizer que não gosto dessas brincadeiras? Olha pra isso, Dylan, você sujou minha roupa!

– Calma, não precisa se irritar! — Ele riu.

– Como não? Quem você acha que não se irritaria com esse tipo de brincadeira?

– Eu sei, Jhenni. Foi por isso que eu fiz. Você fica ilária quando está irritada. — Ele sorriu de lado.

Droga, aquele sorriso– pensou, sentindo sua pulsação aumentar.

– Você não respondeu minha pergunta. O que está fazendo aqui?

– Você fala como se fosse dono do jardim. — Ela revirou os olhos e deu as costas, caminhando lentamente.

Dylan caminhava atrás, tirando as luvas de borracha.

– Eu faço parte do clube de jardinagem. O que você queria? Não é comum ver alunos aqui. — Ele respondeu, alcançando-a, caminhando os dois lado a lado.

– Gosto de vir aqui. — Ela sorriu. — Todo aquele movimento do refeitório me deixa louca. Sem falar que sou apaixonada por hortências, as desse jardim são lindas, queria poder levar algumas.

– Quem diria, a loira oxigenada tem um lado romântico. — Ele colocou as mãos nos bolsos.

– Para de me chamar assim! — Ela o empurrou, dando umas gargalhadas enquanto ele cambaleava para o lado.

Ficaram em silêncio. Ela fixava seu olhar no corredor a sua frente, estava prestes a entrar na escola.

– Jhenni, posso te pedir uma coisa? — Dylan falou num tom sério, parecia que a brincadeira acabou.

– O que você quer, idiota?

– Conversa com o Daniel hoje. Ele está mal, acho que precisa de mais alguém além de mim para desabafar.

Daniel. Claro, sempre o Daniel, é nosso único ponto em comum.

– O que aconteceu com ele? — Franziu a testa, intrigada.

– Problemas com o Sr. Harris, como sempre. Ele fica com aquela pose de inatingível, mas no fundo eu sei que ele não está bem.

– Claro, eu falo com ele. Obrigada! — Ela sorriu.

– Relaxa, vai lá fazer o seu papel de namorada! — Dylan sorriu de volta e virou na direção oposta.

Jhennifer continuou andando, subindo as escadas para a entrada da escola. Preocupava-se com Daniel, e fazia de tudo para retribuir tudo o que ele lhe dera algum dia. Também sabia que tinha um papel muito além de namorada para cumprir. Imaginava o que seus pais fariam se soubessem que pensava no rompimento. Talvez a pressionariam para que insista nesse relacionamento até que as coisas estejam estáveis, até que o que foi perdido retorne para a família.

Parecia coisa de filmes, como aqueles casamentos arranjados, obrigados, mas não chegava a tanto. Sabia que tudo era pelo bem da sua familia, por uma causa maior. Já perdera sua mãe, não podia perder o seu pai, o único parente próximo que lhe restara. Era incrível o quanto o dinheiro ou poder podem afetar na vida de um ser humano. As vezes se pergunta se sua vida não seria melhor se não houvesse nascido nessa condição, se não tivesse todo esse luxo, todos os privilégios que sempre teve, como apenas uma garota normal, que precise trabalhar, que realmente se esforce para conseguir o que quer. Provavelmente ainda teria sua mãe, ainda teria sua família estável, ainda teria confiança, valor próprio. Era uma pena que tivesse de apostar sua felicidade para essa estabilidade. Afinal, o seu relacionamento valia muito mais do que qualquer um poderia imaginar: Era o preço da sua família, da sua condição de vida.