Math For Love
36 Entre Família.
Notas iniciais
Tudo parecia que acabaria a qualquer momento. Sabe, aquela sensação de que algo está tão bom que você não consegue aproveitar completamente, com medo de acabar? Então, era mais ou menos assim que ele se sentia.
Conhecer Mary Monroe não parecia algo tão importante no início. Ela era só mais uma garota estranha, deslocada. Mas, ela era diferente dos demais, pelo simples fato de ser sincera, honesta. Não se importava com quem ela era, ou com quem ela estava. Mas, após senti-se tão ameaçado por aquele encontro com um cara mais velho e, aparentemente mais simpático, era como querer segurar algo que nunca teve. Algo que, a partir daquele momento, quis ter.
Seria apenas egoísmo? Seria apenas seus caprichos ansiando por serem realizados? Seria apenas uma maluquice por querer conquistar alguém tão difícil? Não importava, cada palpitar de seu peito queria tê-la. Independente do que fosse aquele sentimento, estar com Mary, pensar em Mary, falar de Mary, tudo isso o fazia feliz.
- Daniel, podemos conversar? — A voz de seu pai interrompeu seus pensamentos, fazendo-o levantar e sentar-se na cama.
Ernest Harris estava com uma expressão diferente naquela manhã. Aquela expressão que ele só usa nos dias em que suas ações estão lá em cima na bolsa de valores, ou quando consegue um bom cliente para financiamentos. Aquela expressão fez Daniel perguntar-se qual seria o motivo de comemoração daquela vez.
- Oi, pai. — Respondeu, dobrando os joelhos sobre a cama.
Ernest desabotoou seu terno, tirado de dentro do bolso interno um folha de papel branca dobrada.
- Passei na sua escola hoje pela manhã. — Sorriu Ernest, desdobrando em quatro partes o papel. — Quero dizer que fico muito feliz com seus resultados!
Daniel arqueou uma sobrancelha quando seu pai estendeu o papel já amassado em sua direção. Pegou-o, surpreendendo-se com seu próprio desempenho.
A prova de matemática da semana passada havia sido, pela primeira vez em seu ensino médio, completa por cálculos. Como se Mary soubesse de todos os possíveis assuntos, a facilidade com que Daniel desenvolvera as questões havia sido absurda.
- Eu tirei 90% da nota? — Perguntou, com um sorriso cheio de desconfiança em seus lábios.
Ernest aumentou seu sorriso, balançado a cabeça e confirmando a pergunta de seu filho.
- Liguei para a Mary Monroe hoje, comentei que finalmente alguém conseguiu colocar você no caminho certo.
Daniel fitou sua caligrafia nos números complexos à sua frente, ainda não acreditando que Mary conseguira mudá-lo tanto. Muito além disso, mudar sua forma de pensar.
- A Mary é brilhante. — Sussurrou, sorrindo consigo mesmo. — Vou levá-la para sair na sexta. — Comentou, olhando diretamente para seu pai.
Ernest suspirou, colocando as mãos na cintura e folgando o nó de sua gravata.
- Não era pra menos. Pelo que ela está recebendo, era o mínimo que eu deveria fazer.
Daniel franziu o cenho, dobrando o papel novamente.
- Do que está falando?
Ernest arregalou os olhos, arrependendo-se de ter falado aquilo. Respirou fundo, colocando as mãos nos bolsos de sua calça social e fitando o carpete marrom do quarto de seu filho.
- Nada, deixa pra lá. — Sorriu, caminhando para fora do quarto. — Aproveite seu encontro.
...
Giulia Harris era uma mulher, particularmente, muito bonita. Com longos fios negros que desenhavam cachos perfeitos até sua cintura e um corpo aparentemente nunca passado por um parto, a vida de Giulia se resumia a aproveitar todas as vantagens que o trabalho e recompensa do marido lhe propiciavam. Seu filho, Daniel Harris, com quem nunca teve uma real relação de mãe e flho, era um orgulho em questão de beleza. Hedara o tom negro de seus cabelos e os olhos perfeitamente azuis de seu pai, aparencia pela qual sempre o exibiu entre as amigas e demais damas da alta sociedade de Trenton.
Apaixonada por viagens e roupas de diferentes países e culturas, Giulia sempre demonstrou o amor que tinha por seu marido e filho, mesmo que Nora, sua empregada, tenha feito mais o papel de mãe do que ela própria.
- Mãe, eu quero te perguntar uma coisa. — Daniel abriu a porta do quarto de sua mãe, interrompendo a leitura que a mesma fazia de uma de suas revistas mensais.
Giulia fechou a revista, marcando com o dedo médio a página em que parara. Sorriu para seu filho que caminhava até sua cama.
- Fale, querido.
Daniel aproximou-se da grande cama do casal Harris, forrada por uma confotável e macia coberta de veludo.
- Na verdade, é mais um favor. — Daniel parecia desconfortável, nervoso. — Você sabe que não sei comprar presente para mulher nenhuma. Até nos aniversários de namoro era você quem comprava os presentes da Jhenni...
Giulia fixou seu filho, tentando entender a expressão nervosa em seu rosto.
- Pensei que vocês tivessem terminado, Dan.
- Mas, terminamos! Eu vou sair com uma pessoa na sexta, e queria levar umas flores... Mas não tenho a mínima noção de como comprar um buquê.
Arregalando os olhos, Giulia abandonou a revista sobre a cama, não dando a mínima para a página perdida. Aproximou-se de seu filho e olhou-o nos olhos, atônita.
- Você? Comprando flores para uma garota? — Perguntou, sorrindo e debochando de seu filho ao mesmo tempo.
Daniel revirou os olhos, visivelmente irritado com a ironia de sua mãe.
- Só diz se pode me ajudar... — Sussurrou, evitando olhar nos olhos divertidos de sua genitora.
- Claro que posso, Dan! Só achei estranho, é a primeira vez que vejo você tão nervoso e dedicado a uma garota. Você sabe, todos esses anos e você nunca foi assim com a Jhennifer.
Daniel sorriu consigo mesmo, reconhecendo a a veracidade nas palavras de sua mãe.
- Eu sei. Ela é diferente...
Giulia sorriu, passando as mãos por entre os cabelos negros de Daniel.
- E posso saber quem é ela?
- Mary. Você não a conhece.
Giulia soltou os fios de seu filho franzindo o cenho e desfazendo o sorriso em sua face.
- Mary, a Monroe? A garota das aulas particulares?
Daniel arregalou os olhos, surpreso pelo conhecimento repentino de sua mãe sobre aquele aspecto de sua vida.
- É sim. Como a conhece? Pensei que você e o papai nunca tivessem a conhecido!
Giulia juntou as mãos, cruzando os dedos entre si e franzindo os lábios.
- Na verdade, a conhecemos sim. — Sussurrou, desviando o olhar para suas mãos. — Nos encontramos e acertamos as coisas das suas aulas.
Daniel sentiu-se confuso. Até onde sabia, a negociação das suas aulas havia sido intermediada apenas pelo Diretor Simon, sem um contato direto entre Mary e seus pais. Mas, como pode ter acontecido uma reunião entre eles da qual ele não ficou sabendo?
- Daniel.. — Sua mãe interrompeu seus pensamentos. — Você está mesmo gostando dessa garota?
Daniel arqueou as sobrancelhas, confuso pela pergunta.
- Estou, mãe... porque?
Giulia respirou fundo, segurando fortemente as mãos de seu filho.
- Não vá a esse encontro. Por favor.
Recuando instantaneamente ao toque de sua mãe, Daniel afastou-se, olhando-a nos olhos.
- Porque? Porque está me pedindo isso?
Escondendo o rosto com suas mãos, Giulia esfregou os olhos, arrependida de suas palavras.
- Não quero que se machuque com isso. Essa garota não é quem você pensa. Não é alguém para você.
Assustado, Daniel levantou-se da cama, irritado com sua mãe. Caminhou até a porta, mas parou, colocando para fora seu estresse momentâneo.
- Não pode me pedir isso! Eu gosto dela, mãe, será que não vê? Não entendo! Como pode dizer algo assim de alguém como a Mary? Você nem a conhece! Ela é diferente!
Ao levantar-se, Giulia aproximou-se de seu filho, evitando seu olhar.
- Eu a conheço sim. E foi tudo armado, Daniel. Tudo isso foi planejado.
- Do que está falando?
Giulia expirou, finalmente olhando para seu filho.
- Não sabíamos que você se apaixonaria por ela de verdade. Pensamos que seria só algo superficial, algo sem sentimentos. Mas foi tudo planejado. Eu e seu pai dissemos que ela deveria fazer o que fosse preciso para convencer você a se dedicar nos estudos. E isso incluía todos esses sentimentos... ela não gosta de você de verdade. Fazia parte do acordo...
Daniel não sentia suas pernas. Na verdade, não sentia quase nenhuma pulsação em seu corpo. Se não balançasse a cabeça rapidamente, a imagem de sua mãe seria embaçada por sua mente confusa. Ela só poderia estar brincando. Não, nada daquilo era verdade.
- Você vai me contar tudo...
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