Math For Love
37 Acordos.
Notas iniciais
Não sei como as coisas fugiram de controle. A cada momento, sentia como se não fosse eu mesma.
Na mesa sexta em que aceitei a proposta do Diretor Simon, recebi a visita de Ernest Harris, pai de Daniel, em minha casa.
Senti-me intimidada com a sua presença. Todo aquele ar profissional que ele trazia em seu terno visivelmente caro e em seu perfume forte me fez sentir inferior em minha humilde casa.
- Mary Monroe? — Ele perguntou, assim que abri a porta.
Meus olhos percorreram todo seu corpo, senti que arqueei uma sobrancelha, confusa por aquela visita inesperada.
- Sim? Em que posso ajuda? — Perguntei, apoiando as duas mãos na porta entreaberta à minha direita.
- Sou Ernest Harris. — Respondeu, estendendo uma das mãos em minha direção. — Vim para tratar das aulas com meu filho, Daniel.
Apertei sua mão, balançando-a levemente.
- Não esperava por essa visita. — Comentei, soltando sua mão e abrindo espaço para que ele entrasse na casa. — Se quiser saber dos assuntos que pretendo ensinar, eu estava fazendo uma lista ali agora.- Disse, apontando para a mesa na sala de jantar.
Sr. Harris caminhou até a sala de estar, mostrando não estar nem um pouco desconfortável em minha casa. O segui, sentando no sofá à sua frente.
- Na verdade... — Ele suspirou. — Vim aqui para falar um pouco do Daniel. Sobre como você deve agir com ele.
Franzi o cenho, encostando no encosto acolchoado do sofá.
- Não entendo.
Sr. Harris levantou-se, colocando as mãos nos bolsos de seu terno escuro. Abaixou a cabeça e começou a caminhar pela sala, olhando fixamente para seus sapatos. Por um momento, segui seu olhar e reconheci o quão ridículo são aqueles sapatos de bico fino que brilhavam a qualquer reflexo.
- Vai ser complicado lidar com o Daniel. — Disse, olhando para mim. — Quero dizer, eu tenho certeza que ele não vai estar nem um pouco receptivo à essas aulas.
- Então porque insistir nisso? — Perguntei, confusa por todo aquele drama familiar. — Vai gastar seu dinheiro sendo que ele não vai colaborar?
Visivelmente estressado, ele finalmente se sentou, colocando as mãos nos joelhos.
- Srta. Monroe, já deve saber que dinheiro não é problema. Sei que está passando por dificuldades financeiras com relação à universidade.
Estremeci. Como ele sabia disso? Quem contou?
- Como sabe disso? — Perguntei, tentando manter minha voz o menos trêmula possível.
Sr. Harris deu um sorriso compreensível, e logo respirei fundo, numa tentativa de acalmar meus nervos.
- Eu procurei saber.
Naquele momento, um certo tipo de ódio tomou conta de mim. Não sei explicar, algo forte demais para que pudesse controlar. Provavelmente o Diretor Simon comentou alguma coisa, mas quem ele pensa que é para fazer isso? Minha mãe se sentiu à vontade para falar de nossa vida pessoal para ele, mas olha só, já comentou isso com outra pessoa!
- Mary, o que eu estou tantando dizer... — Começou, se achando íntimo o suficiente para me chamar assim. — É que você deverá fazer tudo o que for possível para convencer o Daniel.
- Convencer?
- Sim. — Respondeu, balançando a cabeça afirmativamente. — Convencê-lo a fazer o curso de Economia. E, para isso, ele vai precisar recuperar os conteúdos.
- Eu pensei que meu papel fosse só de passar os assuntos atrasados. Agora tenho de dar uma de psicológa também? — Perguntei, irritada.
Ernest Harris suspirou, tirando de dentro do paletó um envelope branco e colocando-o sobre a mesa de centro.
- Dê uma olhada.
Abri o envelope, me assustando com o cheiro de dinheiro que logo invadiu minhas narinas. Um grande bolo de cédulas de cem e cinquenta dólares logo caiu entre meus dedos. Acho que nunca peguei em tanto dinheiro de uma única vez. Ainda abismada, coloquei as cédulas novamente dentro do envelope.
- O que é isso? — Perguntei, franzindo os olhos.
Ernest sorriu, levantando seu olhar.
- É só o começo. Sei que vai ajudar muito com seus problemas financeiros, só basta que concorde em me ajudar. Vai estar ajudando ao Daniel também.
Ri ironicamente, jogando novamente o envelope sobre a mesa de centro.
- Não. Eu não sou manipuladora como você, sinto muito. Não deve fazer isso com seu filho, ele com certeza não gostaria disso.
- Na minha opinião, Daniel não se importaria com isso. Não quando percebesse que o curso de Economia é o melhor para ele. Para seu futuro.
Só poderia ser brincadeira. Conhecia Daniel há pouco menos de uma semana, e, não conseguia se imaginar dentro de toda essa manipulação.
- O que você quer dizer com fazer o possível? — Perguntei, me referindo ao que Ernest havia dito.
Ele mordeu os lábios, olhando para as cortinas da janela atrás de mim.
- Mostrar o quanto as áreas de exatas são boas, demonstrar que se importa com ele, construir uma amizade, conquistá-lo... Só depende de você.
- Que tipo de pessoa acha que sou, Sr. Harris? — Perguntei, pasma por aquela proposta. — Quero dizer, conquistar alguém só para convencê-lo? Isso é um absurdo.
Ele suspirou.
- Pense pelo lado bom, Monroe. Ele terá uma vida melhor, um futuro! Coisa que o basquete não iria oferecer.
- Não. — Respondi, balançando a cabeça. — Não vou fazer isso, não sou esse tipo de pessoa.
Levantei, empurrando o envelope em sua direção.
- Eu pago metade dos semestres de sua universidade.
Parei, arregalando os olhos. A proposta de Ernest Harris, por mais imprópria que fosse, me atraiu. Não, não sou esse tipo de pessoa que faz parte de uma fraude. Definitivamente, nunca quis ser. Mas, era uma escolha que tinha a fazer, era meu futuro! Se eu soubesse do seguro de vida de meu pai naquela época... com certeza não teria aceitado. Mas, infelizmente aceitei. E me arrependo muito disso.
Nas primeiras aulas, eu conheci o verdadeiro Daniel. Aquele que se mostrou disposto a melhorar sem que eu precisasse fazer nada que Ernest me propôs a fazer. Ernest não conhecia seu filho. Não sabia que ele era aquele garoto dedicado e comprometido. Alguem que usou uma máscara por muito, muito tempo. Nunca quis que nada falso acontecesse. Mas, quanto mais eu construía uma amizade e via que Daniel estava ao meu lado e me apoiando nos meus momentos mais difícil, pior eu me sentia. Me sentia falsa, suja, mentirosa. Porque, por mais que as coisas entre nós tenham surgido sem falsidade, por mais que eu tenha sido eu mesma durante todo esse tempo, por mais que ele tenha sido a melhor pessoa do mundo, por mais que tudo tenha sido verdadeiro, o acordo que fiz com Ernest fazia eu me sentir mentirosa. Eu não menti, mas o acordo me fez sentir assim.
Mas eu me apaixonei por Daniel. E, por causa de toda essa farsa, eu não queria estragar as coisas. Não queria estragar nada durante aquele nosso momento em frente a minha casa, por isso evitei essa conversa por todo esse tempo.
Mas não entendo porque Daniel não falou comigo por toda essa semana. Marcamos de ir ao cinema hoje, e, prometi a mim mesma que contaria toda a verdade. Falaria de tudo, de todo o acordo e contaria que em momento nenhum eu menti ou forjei quem eu realmente sou. Eu fui verdadeira. Disso eu tinha certeza.
Mas estava sozinha. Daniel não apareceu. Passei toda a noite vagando pelo cinema do shopping, olhando a lista de filmes em cartaz. Os funcionários pareciam perceber que havia levado um bolo. Depois de uma semana sem que ele respondesse minhas mensagens ou falasse comigo na escola, ele não apareceu em nosso encontro. E, para acabar de vez com todo o sonho que construí, recebi sua mensagem.
"Você não é quem eu pensava. Não é por quem eu me apaixonei. Eu não conheço você."
Fale com o autor