Math For Love
50 B+
Notas iniciais
Ela sentia que seus cabelos provavelmente estavam mais bagunçados que nunca. A velocidade na qual havia chegado ao hospital era impressionante. Respirou fundo e encarou os corredores familiares, sentindo aquela nostalgia arrepiante que a fazia relembrar cada momento dos seus dias de universidade.
– Katie! — Gritou logo ao encontrar sua prima na recepção e pondo para fora parte do nervosismo que a consumia.
– Mary, finalmente você chegou! — Exclamou sua prima, a segurando pelo braço e arrastando pelos corredores. — Vem comigo!
– Espera! O que está acontecendo? Você disse ser urgente, achei que alguma catástrofe teria acontecido!
Katie parou, controlando a respiração ofegante que a dominava.
– Foi a Jhennifer. Ela sofreu um acidente na estrada de New Jersey.
– O quê? — Mary sentiu sua voz sair como num sussurro, inacreditando naquelas palavras. — Como ela está? Já está tudo bem, não é?
Katie balançou negativamente a cabeça, cruzando os braços.
– Por isso eu te liguei. Ela precisa de sangue, e, de alguma forma, o Sr. Willis disse que você tinha o tipo B positivo. Isso é verdade?
Mary arregalou os olhos, balançando afirmativamente a cabeça.
– Como ele soube disso?
Esfregando os olhos com os dedos da mão direita, Katie balançou os ombros, confusa.
– Eu não faço idéia, Mary. Só diz que vai poder ajudar a Jhenni, por favor!
– Onde ela está?
...
Quantos planos haviam feito juntos? Quantos sonhos ainda estavam por se realizar? Quase seis anos de relacionamento e paixão pela mulher mais linda e encantadora que já conhecera o fez duvidar do desastroso poder do tempo. A efemeridade das coisas sempre foi ignorada, até porque, era muito mais facil aproveitar cada um daqueles momentos sem pensar no que poderia acontecer no dia seguinte. Agora, a possibilidade de a perder para sempre parecia lhe rondar naquele momento.
Ele sempre a amou. Sempre compartilhou o sonho de um casamento maravilhoso no outono, uma família com crianças trazendo alegria, toda uma vida atrelada ao companheirismo. Como deveria agir naquela situação? Não haviam palavras ou gestos que expressassem o seu medo crescente.
Estático, na sala de espera do Lower Manhattan Hospital, em New York, Dylan Patterson via cada um dos momentos maravilhosos que tivera com Jhennifer Willis passarem diante dos seus olhos, como uma amostra assustadora da grande perda que se aproximava.
...
Samantha Stubs parecia resmungar enquanto dormia. Debruçada sobre o ombro esquerdo de Daniel Harris, o sono a alcançava progressivamente a medida que os minutos no Lower Manhattan Hospital se passavam. Em seu assento, Daniel fitava as costas de seu amigo sentado na fileira à sua frente, imaginando o tamanho da dor que o invadia e tentando encontrar um meio de amenizá-la.
Ainda com anos de distanciamento, Jhennifer Willis continuava sendo alguém importante para a sua vida e sua historia. Se aquele acidente lhe partia o coração, a dor de Dylan deveria ser assustadoramente maior.
No centro da sala, Doug Willis caminhava de um lado a outro, com a expressão de cansaço e apreensão em seus olhos. Todos eles sofriam naquele momento, mas sofriam separados, e, toda aquela segregação só tornava a dor cada vez maior.
...
Mary acompanhou o caminhar de sua prima até uma das salas daquele corredor. Olhou para trás e certificou-se de que Alex Schuester ainda a esperava do lado de fora do hospital, mesmo depois de um gentil ato de a levar até lá.
Um homem com um jaleco branco e um prancheta acrílica em uma das mãos saiu de dentro de uma sala e Katie pareceu pular ao o encontrar.
– Doutor! — Acenou desesperadamente. — Encontramos um doador compatível.
O homem, visivelmente jovem, franziu a testa ao encontrar o rosto de Mary Monroe e deu um pequeno riso.
Ignorando a atitude do médico, Mary estendeu uma das mãos em sua direção.
– Meu nome é Mary Monroe. Eu tenho uma ficha nesse hospital, pode conferir o meu tipo sanguíneo.
O homem pareceu surpreso com as palavras da jovem, mas suspirou, a cumprimentando.
– Vou solicitar sua ficha... — Ele sussurrou, enfatizando seu nome. — Srta. Monroe.
O médico caminhou até a recepção, deixando as duas a sós.
– Você tem uma ficha aqui? Desde quando?
Mary respirou fundo.
– É uma longa historia.
Os passos do médico invadiram o silencio antes estabelecido.
– Srta. Monroe, por favor, me acompanhe. — Ele anunciou, observando a pasta azul em sua mão com os dados de Mary Monroe. — Você pode esperar na sala de espera, por favor? — Perguntou, se direcionando a Katie.
Ela afirmou, voltando à caminhar na direção contrária.
Ao passar pela recepção e encontrar a angustiante sala de espera, logo foi atacada pelas perguntas de Doug Willis.
– E então? Sua prima veio?
– Sim. — Respondeu. — Já deve estar fazendo a transfusão nesse momento.
Doug respirou fundo, mais aliviado.
– Como o senhor sabia o tipo sanguíneo da Mary?
Ele cruzou os braços.
– É uma longa historia.
Katie revirou os olhos.
– Claro. Essa virou a desculpa para todas as perguntas hoje.
Ela caminhou até a primeira fileira das cadeiras, se sentando ao lado de seu amigo.
– Dylan, vai ficar tudo bem! Ela está passando por uma transfusão agora, ela vai melhorar, acredite!
...
– Ainda não consigo acreditar no que você acabou de fazer, não achei que fosse tão cínica. — Ele comentou enquanto amarrava a fita de borracha de coloração amarela no braço esquerdo de Mary Monroe.
Ela suspirou.
– Paul, não é cinismo. Você não imagina o quanto as coisas estão confusas hoje.
Ele deu um pequeno riso.
– E isso é motivo para fingir que não me conhece?
– Se eu dissesse que nos conhecemos seria apenas mais uma longa historia para contar.
– Sei. — Resmungou. — Feche a mão, por favor.
– Odeio isso. — Sussurrou Mary, fechando a mão e os olhos a fim de não ver a agulha entrando em sua veia.
Ele riu.
– Você continua a mesma.
– O que você esperava? Não nos vemos há o quê? Dois anos?
– Talvez menos. Você parou de vir aqui no hospital.
Mary abriu os olhos, encontrando o olhar conhecido daquele homem.
– Não tinha mais porquê continuar sendo sua cobaia.
Sorrindo e exibindo os dentes perfeitamente alinhados, ele colocou as mãos nos bolsos do jaleco branco.
– Você a conhece? A garota que vai receber sua doação?
Mary balançou a cabeça afirmativamente.
– É sua amiga?
– Não exatamente. Acho que ela nem gosta muito de mim.
– Então como soube do acidente, já que vocês não se dão tão bem?
Mary sorriu.
– Ela é minha irmã.
Ele arregalou os olhos.
– Você nunca me contou que tinha uma irmã...
– Eu sei. — Ela respondeu. — A descoberta é nova para mim também. Te conto qualquer dia.
Ele se aproximou, retirando a agulha e ponto um pequeno curativo no seu braço.
– Isso quer dizer que você vem aqui outra vez?
Mary deu um pequeno riso.
– Seu tipo sanguíneo é raro. Se puder, vai ser ótimo se voltar a ser uma doadora regular. Além disso... gostaria de te ver de novo.
Sorrindo, Mary se levantou e ignorou o comentário.
– Até lá... — Ele acrescentou. — Vá para casa descansar. Você perdeu uma quantidade razoável de sangue, precisa beber bastante água. Vai ficar tudo bem com a garota. Eu prometo.
...
A tentativa de colocar a cabeça de sua secretária apoiada na cadeira deu certo. Ele se levantou, aproximando-se de seu amigo na fileira da frente da sala de espera.
– Dylan, como você está?
Ele não respondeu, apenas balançou a cabeça negativamente
– Dylan, fica calmo, vai dar tudo certo! — Katie afirmou do outro lado. — Daniel, vai pegar uma água para ele beber, ele precisa se acalmar.
Daniel assentiu, levantando-se da cadeira e caminhando até a recepção, rumo a uma máquina de bebidas ali posicionada.
Enquanto caminhava pelo corredor, visualizou uma mulher encostada na máquina, tentando se equilibrar em saltos altos. Daniel riu ao ver que ela tropeçava com os próprios pés, e uma sensação de dejavu o invadiu.
A mulher, de costas para ele, que tinha os cabelos despenteados e a roupa amassada como quem acabara de sair de um exercício físico, apertava um dos botões da máquina com força, esperando o objeto cair.
– Você quer ajuda? — Perguntou sem obter respostas, se aproximando da maquina e dando um pequeno tapa na mesma, ouvindo o som de batidas.
Ele se abaixou, pegando a garrafa de água mineral e entregando a mulher.
– Obrigada. — Ela agradeceu, ainda parada e fitando o homem ao seu lado.
Ao ouvir a voz claramente familiar, ele se levantou e arregalou os olhos, perplexo.
Era surreal. Cinco anos depois, finalmente a encontrara. Mary Monroe tinha a mesma voz ao mesmo tempo doce e autoritária de quando adolescente. Seus cabelos, agora compridos até a cintura, desenhavam ainda mais o seu corpo mais desenvolvido. Ela estava linda, como sempre foi, mas, agora, estava diferente. Ela era uma mulher. E, fazendo todo o seu corpo fervilhar de emoção, o simples fato de ver aquela mulher lhe despertou o sentimento mais escasso nos últimos anos: ela lhe despertou felicidade.
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