Math For Love
54 A audiência.
Notas iniciais
Ela pode respirar fundo antes de ver aquela face entrar pelo quarto. Ele caminhou em sua direção, esboçando um sorriso acompanhado de lágrimas descontroladas. Era a primeira vez que o via chorar e aquilo lhe deu mais uma certeza do amor que ele tinha.
Ele segurou sua mão, forte o suficiente para que ela se sentisse segura outra vez, mas também fraca o suficiente para não a machucar. Era a medida exata, o carinho perfeito que a fazia acreditar que os dois se completavam como nunca viu antes.
– Estou tão feliz que está bem! — Ele sorriu ainda mais, depositando um beijo em sua testa.
– Senti sua falta... — Ela sussurrou, piscando vagarosamente enquanto sentia a leve pressão do soro invadindo sua circulação através da agulha ao seu lado.
– Eu vim correndo assim que soube que estava acordada. Como está se sentindo?
Ela respirou fundo.
– Só um pouco desnorteada. Não lembro o que aconteceu, só me lembro de estar num táxi enviando um sms para a Katie.
– Está tudo bem agora, meu amor. Você vai ficar bem, é normal que não se lembre.
– O que aconteceu, Dylan? Aconteceu algo grave comigo?
Dylan suspirou, passando os dedos da mão direita pelo cabelo castanho bagunçado de sua noiva.
– O táxi onde você estava se chocou com outro em um cruzamento no caminho de New Jersey para cá. Ao que tudo indica você perdeu bastante sangue, mas já está tudo bem.
– E isso aconteceu há quanto tempo?
– Cerca de três dias.
– Três dias? — Ela arregalou os olhos, perplexa. — Estou desacordada há três dias?
Dylan franziu os lábios, balançando afirmativamente a cabeça.
– Você realizou uma transfusão, meu amor. Os médicos disseram que era normal ter demorado tanto, até porque, como o hospital não tinha o seu tipo sanguíneo, houve todo um processo para a doação. Foi realmente arriscado, e eu agradeço a Deus por você ter saído viva nessa.
Jhennifer franziu o cenho, respirando fundo.
– Que sorte ter encontrado um doador na hora certa...
Dylan concordou.
– É, a Mary foi muito gentil vindo até aqui.
Ela parou, arregalando novamente os olhos.
– Mary? Você fala da minha... da prima da Katie?
Dylan afirmou.
– É, a Mary. Ela foi a doadora, Jhenni. Ela veio correndo quando soube do acidente.
Jhennifer sentiu uma pressão enorme invadir seu corpo. Achava que nunca havia sentido um peso tão grande em sua consciência e era horrível acreditar que Mary teria salvado sua vida mesmo depois de tudo o que ela dissera. É, ela finalmente constatara o que aprendeu em uma das aulas do curso de psicologia. O remorso e o arrependimento são os piores sentimentos que alguém pode ter.
...
Aquela provavelmente era a quinta vez em que ela repetia seus argumentos frente ao espelho. Trajando seu habitual blazer azul, Mary se preparava para a audiência daquela tarde. Finalmente, exerceria sua profissão frente a um juiz e, esperançosamente, venceria seu primeiro caso.
O telefone tocou sobre o criado mudo e ela desviou seu olhar para o identificador de chamadas anunciando a ligação de Alex Schuester.
– Alô?
– Então, Mary, a que horas vamos nos encontrar hoje?
Ela suspirou.
– Pensei que fôssemos nos encontrar na audiência, Sr. Schuester.
– Alex. É Alex, esqueceu? — Ele parecia brincar. — Então tudo bem, nos encontramos no fórum.
A ligação foi encerrada.
Por mais que tentasse se concentrar unicamente no seu papel naquele dia, Mary não conseguia parar de pensar em Daniel Harris. O modo como ele saiu de seu apartamento na última semana a fez sentir uma confusão de sentimentos. A alegria e a esperança ao ouvir ele dizer que não desistiria convivia com a preocupação de ter o tratado exageradamente rude ou sem levar em conta os seus sentimentos.
– Mary! — Katie entrou no quarto, sentando-se na cama.
– Oi, Katie. — Ela respondeu, sentando-se na cadeira frente à escrivaninha para calçar os sapatos pretos sociais.
– Então, hoje é o grande dia, hein? — Ela sorriu, batendo palmas de leve.
– É... — Mary comentou. — Nem me diga.
– Ah, para! — Exclamou. — Tenho certeza que vai ganhar essa. — Ela fez uma pausa, sorrindo. — Eu vim aqui para dizer que a Jhenni acordou.
Mary arqueou as duas sobrancelhas, surpresa.
– Ela acordou? E como ela está?
– Ah, está bem. Se puder, passa lá mais tarde, afinal, foi graças à você que ela melhorou. Aliás, foi muita coincidência vocês terem o mesmo tipo sanguíneo.
Mary se calou, respirando fundo.
– É uma longa...
– História. — Completou Katie, se levantando. — Eu sei, essa é a desculpa para tudo agora. Espero que algum dia eu fique sabendo de todo esse segredo entre vocês.
...
– Sr. Harris, O Sr. Faust está aqui para vê-lo.
Daniel agradeceu ao anuncio de sua assistente Samantha e fitou o homem que sentava-se na mesa à sua frente.
Torsten Faust era o homem mais alto que já conhecera. Alemão de quarenta anos de idade, ele tinha um dos currículos mais completos que já vira e o fez contratá-lo para advogado da D H Sports.
– Bom dia, Sr. Harris.
– Bom dia, Sr. Faust. — Cumprimentou, apertando a mão direita do advogado. — Então, o que temos para hoje?
Torsten Faust se ajeitou na cadeira de couro escuro, cruzando as pernas.
– Hoje será a audiência com Alex Schuester. Gostaria de saber se o senhor irá me acompanhar ou se mandará um representante.
Daniel respirou fundo.
– Não irei, tenho muito a resolver. Você será meu representante e advogado, e espero poder contar com sua eficiência, doutor.
– Já consegui todas as provas do doping do Sr. Schuester, Sr. Harris, então, a nossa vitória está garantida.
...
Elizabeth Stamper se sentia três vezes mais gorda toda vez que vestia a sua beca de juíza. Aquele parecia um caso importante e estava se preparando para ele já há muito tempo. Muitos jornais haviam divulgado a notícia do processo entre Alex Schuester e a empresa D H Sports e, por mais neutra que tentasse ser, não conseguia evitar a raiva que sentia da mídia mentirosa e calculista. Sim, ela tinha uma grande simpatia pela causa do nadador, e, esperava que as provas que receberia naquela audiência a ajudasse a constatar mais uma vez que a mídia era a verdadeira culpada da história.
A pequena sala de cor branca abrigava apenas uma grande mesa de madeira e cerca de oito cadeiras ao redor. Ao tomar posição em seu lugar, fitou os presentes naquele evento.
Reconheceu de cara o nadador Alex Schuester que trajava uma roupa despojada até demais para um evento judicial, mas ignorou sua incoveniencia para entregar aos advogados ali presentes a ficha com os dados do processo e o campo para assinatura de presença. A mulher de longos cabelos negros assinou, e, logo depois, o enorme homem de pele assustadoramente branca e cabelos super loiros marcou sua assinatura no papel.
Após declarar o início da audiência, Elizabeth deu o direito de depoimento a Alex Schuester. Ao seu lado, um funcionário do Fórum Municipal de New York copiava cada palavra de seu discurso, exibindo a total insatisfação da vítima.
– A Dra. Monroe gostaria de acrescentar algo ao depoimento? — Perguntou Elizabeth, concentrando-se na advogada à sua direita.
– Sim, meritíssima. — Afirmou Mary, abrindo a pasta sobre o seu colo. — Nós temos provas de que as acusações feitas pela empresa D H Sports são completamente falsas, e, portanto, fruto de uma calúnia. A imagem de meu cliente foi completamente difamada e não há nada que o faça recuperar ou obrigar todas as demais empresas da mídia que espalharam essas acusações por conta da atitude inicial da empresa aqui presente.
– E quais provas são essas?
Mary entregou as folhas à juíza, cruzando posteriormente os dedos.
– Esses exames médicos e documentos provam a veracidade do depoimento de meu cliente. Por ter um histórico familiar de ataques cardíacos e hipertensão, O Sr. Schuester tem qualquer possibilidade de sofrer tais problemas mesmo sem o uso de doping, o que é uma completa calúnia. Os documentos estão assinados por um profissional que afirma que nenhuma substância anormal ou biologicamente manipulada esteve presente na corrente sanguínea do meu cliente.
Torsten Faust arregalou os olhos, examinando de longe os documentos que ali apareceram de surpresa. Realmente, ele tinha toda a certeza que qualquer exame médico feito pelo nadador apresentaria uma desfunção hormonal que o incriminaria na hora.
– Nós exigimos uma indenização de quinhentos mil dólares e a negação por parte da D H Sports de toda e qualquer falsa acusação que venha a denegrir a imagem de Alex Schuester.
– O quê? Quinhentos mil dólares? Você está louca? Não é possível. — Comentou Torsten, inconformado. — Não tem condições. Meritíssima, o Sr. Schuester foi flagrado visitando clínicas de manipulação!
– Eu nunca fui a nenhuma clínica. — Negou Alex Schuester, sustentando um olhar furioso para o representante ali na sua frente.
– Eu tenho provas. — Afirmou, retirando de sua maleta uma pilha de fotos coloridas do nadador entrando em cerca de três clínicas diferentes.
– Você andou me espionando agora, também? É óbvio que essas fotos são falsas. Além de péssima qualidade, eu tenho certeza que você e sua empresa ridícula forjaram isso também, é óbvio!
– Senhores, se acalmem! — Exclamou Elizabeth, analisando as fotos.
– Eu exijo um novo exame. — Solicitou Torsten Faust, fixando o olhar do nadador. — Exijo um novo exame supervisionado por um oficial de justiça.
– O quê? Você não pode exigir um novo exame! — Falou Alex.
– Eu posso. Eu sou o advogado aqui, eu sei os meus direitos.
– Ele pode, Alex. — Comentou Mary.
– Apesar dos exames do Sr. Schuester apresentarem uma assinatura legal e válida, eu solicito outro exame, para que haja um consenso das duas partes em relação ao verdadeiro culpado nessa história. — Afirmou Elizabeth.
– Não, meritíssima! — Exclamou Schuester. — Não posso fazer outro exame!
– Sr. Schuester, da mesma forma que as imagens trazidas pelo Sr. Faust podem ser forjadas, o seu exame médico também pode. Para que eu possa ter uma maior avaliação do caso, um oficial de justiça acompanhará o próximo exame que o senhor fará.
– Podemos fazer outro exame e provar que o meu cliente é inocente. — Afirmou Mary, sorrindo simpaticamente.
– Eu declaro a audiência adiada para os próximos quinze dias.
Alex Schuester se levantou, irado e deixou a sala de audiências. Mary cumprimentou os que estavam ali presentes e o acompanhou.
– Alex, esta tudo bem! — Comentou, tentando o acalmar. — Vamos fazer outro exame e eles vão pagar por tudo isso, certo?
Ele respirou fundo, logo depois encontrando um sorriso e o sustentando na face.
– Certo.
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